Controvérsias a respeito do Reino de Deus
(autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello)
Enquanto as discussões das questões tribulacionistas são bem recentes, em termos da história da Igreja, o debate em torno das questões milenistas remonta aos primórdios da Igreja. É antigo o debate entre premilenistas históricos, amilenistas e pós-milenistas. Mas, recentemente, em meados do século XIX, surge um tipo diferenciado de premilenismo, conhecido como premilenismo dispensacionalista, que é pré-tribulacionista e que faz uma rígida distinção entre Igreja e Israel, o que dará ao seu conceito de milênio um cunho bem judaico, de acordo com seu sistema literalista de interpretação. É bom que se diferencie entre premilenista histórico e dispensacionalista para não incorrer em injustiça. A crítica maior deste trabalho se dirige ao premilenismo dispensacionalista, pois reconhecemos as seguintes virtudes no premilenismo histórico: (1) Deus tem apenas um povo, e não dois povos separados, Israel e Igreja, com dois destinos distintos; (2) o Reino de Deus é tanto presente quanto futuro; (3) a Igreja passa pela Grande Tribulação; (4) a Segunda Vinda de Cristo é um evento único e visível a todos, ocasião em que se dá o arrebatamento da Igreja; (5) os sinais dos tempos têm se manifestado desde a primeira vinda de Cristo, mas irão se intensificar à medida que nos aproximamos do dia da sua Segunda Vinda.i Entretanto, existem pontos em comuns entre os premilenistas históricos e dispensacionalistas que estaremos questionando a seguir. Mas, antes, veja a tabela comparativa entre os distintos pontos de vista mais conhecidos sobre o Reino de Deus:
Tabela 3 Comparativa – Questões Milenistas
| Amilenismo | Pós-Milenismo | Premilenismo Histórico | Premilenismo Dispensacionalista | |
| Povo de Deus | Um | Um | Um | Dois. Distinção rígida entre Igreja e Israel, com dois planos e destinos distintos... |
Gde. Trib. | Pós-tribulacionismo | Pós-tribulacionismo | Pós-tribulacionismo | Pré-tribulacionismo |
Gde. Trib. | Período tempo indeterminado antes 2a vinda | Período indeterminado antes 2a vinda | Período tempo indeterminado antes 2a vinda | 7 anos de duração – após arrebatamento |
| 2a Vinda | única fase | única fase | única fase | duas fases |
| 2a Vinda | visível em glória | visível em glória | visível em glória | Arrebatamento secreto (1a. fase) |
| 2a Vinda | Fim da oportunidade de Salvação | Fim da oportunidade de salvação | Fim da oportunidade de salvação | Pessoas são salvas após o arrebatamento durante o período da Gde. Tribul. |
| 2a Vinda | p/juízo final novos céus e terra | p/juízo final novos céus e terra | p/milênio; juízo final e novos céus e terra | p/ livrar a Igreja da gde tribulação (1ª. Fase) p/milênio; juízo final e novos céus e terra (2ª. Fase) |
| Reino de Deus |
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| Ressurreição | Única E Geral P/Juízo Final | Única E Geral P/Juízo Final | Duas: (1) dos salvos antes do Milênio e (2) dos demais após Milênio P/Juízo Final | Três: (1) dos salvos no Arrebatamento, (2) dos crentes mortos na Gde. Trib. na 2ª. Vinda antes Do Milênio e (3) dos infiéis após O Milênio P/Juízo Final |
Juízo | Um único Julgamento Geral e final após a 2ª. Vinda. | Um único Julgamento Geral e final após a 2ª. Vinda. | Dois Julgamentos: Dos crentes na Segunda Vinda e Juízo final após o milênio. | Três Julgamentos: Dos crentes no arrebatamento, dos demais crentes na 2ª. Etapa da 2ª. Vinda, e Juízo final após o milênio. |
Começaremos levantando algumas objeções ao conceito premilenista, apresentando também uma interpretação de Apocalipse 20, único texto que menciona um Reino Milenar, à luz dos claros ensinos bíblicos a respeito do Reino de Deus. Veremos como a Natureza do Reino de Deus está intimamente associada à natureza e a Missão de Cristo e do Espírito Santo. Este capítulo servirá de base para o capítulo seguinte que tratará da missão da Igreja, que, como Corpo de Cristo que é, se apresentará como uma derivação natural da Missão de Cristo e do Espírito.
i Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 217.
ii Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 218 e 219.
iii Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 219.
4 comentários:
José Ildo, no estudo da imutabilidade de Deus, não menciona o trabalhar do E#spirito Santo sendo ele o proprio Deus. De4us é imultável, eo Espirito Santo mútavel, a terceira pessoa da trindade, que tem emoçoes, trabalha por nós, amém.Rosangela Cunha.
Caro Bispo josé, há cerca de um ano, desde que saí da Igreja Adventista estou estudando sobre o Milênio.Achei a explicação maravilhosa, super exclarecedora , principalmente o quadro sobre cada pensamento.
Pr. Bezerril,
Tenho estudado Escatologia desejoso de definir uma posição. Essa tem se demonstrado uma árdua tarefa. Li Ryrie e Pentecost enfatizando o pré-tribulacionismo, Grudem, shadd e Ladd defendendo o pré-milenismo histórico, o que vinha parecendo o mais aceitável para mim. Também li Berkhof, Palmer Robertson e Hoekema, todos excelentes.
Ao me deparar com uma acusação de incoerência do sistema ao qual havia me filiado (pré-milenismo histórico), quanto ao juízo descrito por Cristo (separação de ovelhas e bodes), vislumbrei a possibilidade de não conseguir adequar esse juízo (final) no pré-milenismo.
Daí meu interesse pelo amilenismo cresceu. Percebi que o Novo Testamento parece ser claramente amilenista, a não ser pelo livro de Apocalipse. Neste livro, vejo dificuldades aparentemente insuperáveis. Levo então minha questão ao senhor no anseio de conseguir me esclarecer quanto a melhor interpretação de dois versículos.
1) Apocalipse 19:15 - O termo "cetro de ferro" me faz pensar que esse governo ocorrerá antes da eternidade.
2) Apocalipse 20:10 - O diabo será jogado no lago de fogo após a besta e o falso profeta, indicando que os eventos de Apocalipse 19 ocorrem antes do cap. 20. Como o senhor soluciona esse problema? Mesmo que a batalha que antecede a ida ao lago de fogo pareça ser a mesma do cap.19, como fica a narração de que o diabo é lançado no lago num segundo momento? O paralelismo progressivo me faz compreender a batalha de Ap 20 como correspondente a do cap 19, mas a indicação no versículo 10 de que o diabo foi lançado num lugar onde a besta e o falso profeta já haviam sido jogados me deixa em dificuldades.
Fico grato com sua atenção e com a ajuda em me fazer aprender mais das escrituras.
Caro Edson Jr.
Fico feliz em ver seu sincero e profundo interesse pelas Escrituras.
Espero poder ajudá-lo em sua caminhada.
Então, vamos lá!
Respondendo as suas duas perguntas: "1) Apocalipse 19:15 - O termo "cetro de ferro" me faz pensar que esse governo ocorrerá antes da eternidade." Bem, embora, a primeira vista, tal expressão pareça concordar com o ponto de vista premilenista, um estudo mais cuidadoso mostrará exatamente o contrário, pois o capítulo 19 está descrevendo a grande batalha final do Armagedom, o dia da Ira do Todo Poderoso (v. 15), quando Jesus, com “cetro de ferro” triunfará sobre todos os seus inimigos, incluindo a Besta, o falso profeta, os reis e as pessoas das nações que receberam a marca da besta e adoraram a sua imagem (vs.18-21). Os inimigos de Cristo são cabalmente destruídos, mortos e lançados no inferno (vs. 20-21). Sendo assim, não resta nenhum opositor vivo e nenhum foco de resistência há para ser domado com “cetro de ferro”. O cetro de ferro, símbolo do poder de Jesus, é usado para subjugar os inimigos nesta batalha final contra todos os inimigos de Deus a fim de que o Reino se estabeleça em sua plenitude. A partir daí, o uso dele nem se fará mais necessário, visto que os adversários foram totalmente destruídos, não sobrando nenhum para opor-se ao Reino de Cristo.
Veja que já estou começando a responder a sua segunda pergunta. Aproveito aqui para apontar a falácia da interpretação premilenista que diz que o capítulo 19 descreve a Sengunda Vinda e o capítulo 20 descreve o Reino milenar de Cristo na Terra. Pois isto seria impossível, visto que o capítulo 19 descreve a destruição de todos os inimigos de Deus, incluindo reis e nações, de modo que não restariam nações para serem governadas por Cristo. Todos os ímpios já teriam sido mortos. Portanto, não faz nenhum sentido interpretar que os eventos dos capítulos 19 e 20 estão em ordem cronológica. O correto é vê-los como descrevendo a mesma visão do futuro só que de ângulos diferentes para que possamos ter uma melhor idéia do quadro todo. Uma interpretação cronológica literal de Apocalipse levaria a uma conclusão absurda de que Jesus reinaria no capítulo 20 sobre nações já totalmente destruídas no capítulo 19, que no final do milênio, teriam ainda a coragem de se juntar para fazer guerra com armas materiais contra o Cristo ressurreto e seus discípulos já revestidos de corpos imortais que não podem sofrer dano algum (Ap 20.8). O melhor mesmo é entender que as batalhas descritas nos capítulos 19 e 20 são referências a mesma batalha final que relata o triunfo definitivo de Cristo sobre todos os seus inimigos, que se dará no dia da Sua Segunda Vinda, quando todo joelho se dobrará e toda lingua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, sucederá então o juízo final e o novo céu e a nova terra, Jerusalém Celestial!
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