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Boas Obras para edificação do Reino

Missão da Igreja e as boas obras para edificação do Reino

(Autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello)

A Igreja é um agente de transformação da vida humana em todas as suas dimensões. A evangelização deve se dar no contexto do cotidiano, de serviço e na relação social com o povo. A Igreja deve estar presente na comunidade para viver o Evangelho, realizando ações que sinalizem o Reino. O Evangelho deve estar encarnado no viver diário da Igreja e de cada crente.

No entanto, desde o período da Reforma, para enfatizar a verdade de que a salvação se dá somente pela fé, a Igreja, no geral, acabou evitando o tema das boas obras, considerando que isto é coisa de católicos ou espíritas que crêem que a salvação é pelas obras. Mas, a Bíblia ensina muito sobre a importância das boas obras. Paulo, em Ef 2.8-10, ensina o verdadeiro lugar e papel das boas obras, dizendo que a salvação não é pelas obras, mas para as obras. Salvos pela fé, fomos criados em Cristo Jesus para as boas obras. As boas obras não são optativas, pois são o propósito mesmo de nossa criação. E Paulo diz que o propósito da redenção é produzir um povo zeloso de boas obras: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14).

A Bíblia não ensina apenas de uma justiça que nos é imputada (Rm 4.11), mas fala também da necessidade da conversão dos desobedientes à prudência dos justos (Lc 1.17), e, como exortou Paulo, “oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação” (Rm 6:19). Diz também que os cristãos devem viver de modo digno do Evangelho (Fp 1.27). Uma vez que fomos feitos dignos pela graça, devemos nos tornar dignos (2 Ts 1.5, Lc 3.8). Do mesmo modo, não é ensinado apenas uma santidade posicional, mas também uma santidade vivencial (1 Pe 1.16; 1 Jo 3.10), como também ensina Paulo, quando diz: “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6:22). Paulo está também mostrando que existe uma relação entre a santificação e a vida eterna. O autor de Hebreus estabelece esta relação de modo ainda mais contundente na exortação: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição” (1 Ts 4:3). Tornar-se filho de Deus implica também em se tornar co-participante da natureza divina (2 Pe 1.4). Devemos, portanto, ser imitadores de Deus como filhos amados que somos (Ef 5.1). A questão obras é tão séria a ponto de estar em evidência no dia do Juízo “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2 Co 5:10). Jesus deixa claro que as obras estarão revelando quem é quem no dia do Juízo Final (Mt 25.31-46). Pois pelos frutos são conhecidos os verdadeiros cristãos (Mt 7.16), tanto que, no dia do juízo final, muitos dos que se dizem cristãos ouvirão para sua perdição: “Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7:23). Toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada no fogo (Mt 7.19), assim como também será cortado e lançado fora, o ramo, que estando na Videira Verdadeira, não der o respectivo fruto (Jo 15.2). “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1 Pe 1:17).

Jesus disse que as boas obras são o modo pelo qual a Igreja cumpre a sua missão de ser luz do mundo (Mt 5.16). Jesus disse ser a luz do mundo, e aqui está dizendo que os discípulos também devem ser luz do mundo através da prática de boas obras, que devem ser feitas publicamente, pois a luz não foi feita para ser colocada debaixo da cama, mas, sim, para ser posta num lugar em que possa iluminar a todos. Agora, como conciliar isto com texto que diz que o que nossa mão direita fizer, a esquerda não deve ficar sabendo? Simples, pois o ensino de Jesus, em Mateus 6.4ss diz respeito à discrição que deve acompanhar à prática de boas ações e outras práticas religiosas com o intuito de evitar a exaltação pessoal, pois as boas obras devem ser feitas para a glória de Deus e não para a nossa. Se houver tentação de obter dividendos do reconhecimento público, as boas ações devem se manter ocultas, mas, devemos vencer a tentação através da crucificação de nosso ego, com intuito de podermos realizar boas obras publicamente para que o nome do Senhor seja glorificado. João afirma que os filhos de Deus são manifestos através das boas obras de justiça (1 Jo 3.10). A fé sozinha é morta (Tg 2.26), portanto como disse Paulo, o que importa é a fé que atua pelo amor (Gl 5.6).

O tema da adoração e louvor está muito em voga hoje em dia no meio evangélico. Mas, a adoração a Deus não pode ser reduzida ao culto ou as expressões religiosas do canto, da dança e da oração. A adoração a Deus é uma questão que envolve todas as esferas da vida cristã. É uma questão de atitude cotidiana, tanto diante dos corriqueiros como também diante dos grandes desafios da vida, tanto só, quanto diante dos familiares, vizinhos, colegas de escola e de trabalho. Adoramos ainda melhor quando, através de nossas boas obras, contribuímos para que outros venham a glorificar o nome de Deus. O capítulo 58 de Isaías mostra como Deus estava insatisfeito com o jejum dos que se diziam seu povo, pois o que era para ser a expressão máxima de sua devoção religiosa, estava dissociada das boas ações e da caridade na vivência diária. Tal desarmonia entre culto e vida diária revela hipocrisia, que, em vez, de produzir bênção, traz juízo. Como Marcos Adoniram Monteiro bem adverte: “A liturgia é a celebração da vida da Igreja. Hoje em dia, porém, ela se tornou a própria vida da Igreja... quando ‘Deus’, ‘comunhão’, ‘missão’, ‘amor’ tornam-se meras palavras, símbolos ou canções, o culto deixa de existir de fato, tornando-se peça teatral de boa ou má qualidade”.i

O Jejum, a adoração e as expressões religiosas que agradam a Deus que trazem bênção são aquelas acompanhadas de boas obras como vemos em Isaías 58.6-11: “Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam”. A Igreja cumpre a sua missão pregando e vivendo e celebrando o Evangelho do Reino.ii

Veremos, ao estudarmos um pouco da vida e do ministério de João Wesley, um bom exemplo de uma boa teologia que reconhece o devido papel das boas obras para o cumprimento da Missão Integral da Igreja que tem a ver com o conceito do Reino de Deus aqui na terra na era presente.

iSTEUERNAGEL, Valdir R. (organizador). A Missão Da Igreja - Belo Horizonte, Mg - Missão Editora. P. 175.



iiBonino, Jose Miguez: “Rostos do Protestantismo Latino-americano” (São Leopoldo: Sinodal, 2002, P. 100.

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