quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Romanos 7:14-25 descreve o drama pessoal do Apóstolo Paulo?


Muitos estudiosos entendem que Paulo descreve ali o seu conflito pessoal como também o de todos os crentes. Em defesa desta tese, apontam a utilização do pronome pessoal “eu” com verbos no tempo presente; que uma pessoa ainda não regenerada não tem prazer na lei de Deus (v. 22); que a libertação do corpo pecaminoso é futura (v. 24; 8:10, 11, 23); e que a tensão registrada no versículo 25 é própria de um cristão.

No entanto, vários outros afirmam que tal conclusão é equivocada, pois ignora o estilo retórico de Paulo muito presente no decorrer de toda esta epístola (2:1–6,17–24; 3:1-9, 27-4:25; 9:19–21; 10:14–21; 11:17–24; 14:4,10–11.1). É de fundamental importância, notar que Paulo está aqui respondendo a uma questão apresentada de modo retórico por interlocutores fictícios que representam os judeus e suas inquietações quanto ao valor da lei diante do que Paulo tem afirmado a respeito dela até então: "Que diremos, pois? É a lei pecado?" (Rm 7.7). Paulo responde de forma também retórica, com um sonoro: "De modo nenhum!" E passa a usar um "eu" retórico para não ser tão ofensivo aos seus conterrâneos judeus, optando para falar de si na qualidade de judeu ainda não redimido, com uma natureza caída, fracassando diante da obrigação de cumprir as exigências boas e santas da lei. Paulo, na condição de um judeu diante da lei, afirma que ela não lhe trouxe vida, mas sim a morte: "Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou." (Rm 7.11). O versículo 13 explica como a lei trouxe morte a Paulo quando ainda era o incrédulo Saulo: “Acaso o bom se me tornou em morte? De modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.” Portanto, o “eu” e os verbos no tempo presente servem para acentuar a vivacidade retórica que aponta para a condição presente de muitos judeus, ainda não nascidos de novo, que tentam, sem sucesso, obedecer a lei, pois seguem ainda debaixo da escravidão do pecado e não conhecem o poder libertador do Espírito Santo. Tanto que, neste trecho (7:13-25), Paulo não menciona sequer uma vez o Espírito Santo, enquanto que em Romanos 8, temos 19 citações a pessoa e obra do Espírito Santo! Lembremos que, em Romanos 6, Paulo já havia deixado claro que os cristãos foram libertos da escravidão do pecado e que foram feitos servos da justiça para a santificação, e que, portanto, não devem mais viver no pecado e nem obedecer às paixões da carne. Sendo assim, Paulo não poderia aqui contrariar tudo o que acabara de afirmar com tanta clareza e veemência. Ainda que a libertação do corpo mortal e corruptível seja futura e que, por conta disto, os cristãos ainda tenham de lidar com uma luta entre o espírito e a carne, eles o fazem tendo já sido libertos do domínio do pecado e, revestidos pelo poder do Espírito Santo, encontram forças para não satisfazer as paixões da carne (8:8-15), cumprindo assim o preceito da lei (8:4).

Se atentarmos devidamente para a própria estrutura da passagem, perceberemos que, depois de afirmar que os cristãos não devem mais viver em pecado, pois Cristo os libertou da escravidão tanto do pecado quanto da lei, Paulo, de forma resumida, nos versículos 5 e 6, contrasta a condição pregressa do cristão com a sua condição atual, e, na sequencia, nos versículos de 7 a 25, passa a descrever com mais detalhes a condição pregressa apontada no versículo 5, para, a seguir (8:1-17), detalhar a condição atual do cristão como apontado no versículo 6. Repare a que tanto 7.6 como 8.1 começam com o advérbio “agora”, o que fortalece ainda mais o argumento de que estão relacionados entre si, além de denotar claro contraste com o que é dito anteriormente. Portanto, a descrição da condição da pessoa antes da conversão, que é esboçada introdutoriamente em 7.5, é detalhada em 7.7-25, enquanto que, a condição atual do cristão que foi esboçada em 7.6, passa a ser descrita com mais detalhes em 8.1-17, ambas sendo introduzidas pelo advérbio “agora” para ressaltar a atual condição em Cristo em contraste com sua vida pregressa.

O maior perigo de uma interpretação equivocada deste texto é concluir que, se até o Apóstolo Paulo era carnal e seguia escravo do pecado, agindo sem domínio próprio, incapaz de fazer o bem desejado e de conter o mal indesejado, que dirá dos recém convertidos e dos demais cristãos que não chegaram a maturidade espiritual dele? Tal ideia gera conformismo e complacência diante das tentações e do pecado.

Romanos 7.7-25 descreve uma pessoa carnal que não tem o Espírito Santo nela habitando. Saulo até poderia afirmar tais coisas, mas Paulo jamais diria coisas como: “porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.” Paulo vivia em santidade e não em pecado. Tanto que, por vezes, pôde exortar aos cristãos a seguirem o seu exemplo de vida: “Sede meus imitadores, a como também eu sou de Cristo.” (1Co 11:1; cf. 1Co 14:16 e Fp 2:7). “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais; (1Ts 4:1).

Dizer que os cristãos são “carnais, vendidos a escravidão do pecado" (7:14) e que cada um deles ainda segue como “prisioneiro à lei do pecado" (v. 23) contraria o ensino dos cap. 6 e 8, que proclamam a libertação dos crentes da escravidão ao pecado. “Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6:3). O mais sensato é reconhecer que Paulo não está aqui introduzindo um novo argumento, mas dando continuação a respeito dos efeitos drásticos da Queda de Adão. Romanos 7 tem como pano de fundo Romanos 3.23 e Romanos 5.12-21.

Embora os cristãos ainda tenham de batalhar contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5:17 e 1Jo 1:8–9), travam esta luta com confiança na força do Espírito Santo que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus. (Rm 8:2, 4, 9, 13-14). O ensino de Paulo é que a Lei exige, mas não capacita o homem à obediência. Mas, o que fora impossível através da operação externa da Lei por conta da pecaminosidade da natureza humana, agora, torna-se possível pela operação interna do Espírito Santo que liberta e regenera o crente. Cumpre-s em Cristo a promessa que diz: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.” (Ez 36:26–27). Os cristãos receberam o poder do Espírito “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Rm 8:4). Isto não significa que os cristãos estejam blindados ou imunes ao pecado (1Jo 1.8). Eles seguem sujeitos a tropeços (Tg3.2), mas contam com o poderoso auxílio “daquele que é poderoso para os guardar de tropeços e para os apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24).

Concluímos que o “eu” de Romanos 7:7–25 é retórico e não pode se referir nem a Paulo e nem aos cristãos, pois ainda está sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7:7–13), enquanto que os cristãos já foram libertados da lei (7:4, 6; 8:2), do domínio do pecado (6:18, 20, 22) e da morte (5:21; 6:23; 8:2); o “eu” é carnal (7:14); enquanto que os cristãos não devem mais viver na carne (8:9), pois viver segundo as paixões carnais é coisa do passado (7:5) e conduz a morte (8.13); o “eu” segue ainda vendido como um escravo para o pecado (7:14; 23), enquanto que os crentes em Cristo foram libertos da escravidão do pecado (6:18, 20, 22), pois já foram "redimidos" (3:24); o “eu” diz respeito ao judeu Saulo, antes da conversão, e também aos judeus que ainda estão debaixo da Lei, que conhecem e querem obedecê-la, mas não conseguem devido a escravidão do pecado (7:15-23); Já, os cristãos receberam o poder do Espírito que os habilita a cumprirem o preceito da Lei (8:4); Nada de bom habita no “eu” em questão a não ser o pecado que o domina (7:17-20), já os cristãos não podem afirmar isto, pois sabem que o Espírito Santo é quem habita neles (8:9, 11); o eu de Romanos 7 ainda está sob o domínio da lei do pecado (7:23), enquanto que os crentes já foram libertados da lei do pecado (8:2; cf. 6:18, 20, 22); o “eu” está aprisionado e perde a batalha contra o pecado (7:23); enquanto que os crentes devem vencer as batalhas espirituais (8:2, 13, 15, 31, 37; 2Co 10:3-5); o “eu” anseia por libertação deste “corpo da morte”; enquanto que os crentes foram libertos em Cristo e não vivem para seus próprios desejos carnais (8:10–13), foram libertos do caminho que conduz a morte (8:2), em contraste com aqueles que seguem a carne (8:6, 13). Paulo declarou: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gl 2:20).

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