quinta-feira, 1 de março de 2018

A Besta do Apocalipse

A Besta do Apocalipse


Por Bispo Ildo Mello

É comum ver os cristãos dos nossos dias lendo o Apocalipse como uma revelação de coisas que ainda estariam para acontecer, esquecendo-se de que o livro foi escrito há quase dois mil anos e que foi originalmente endereçado aos cristãos das sete igrejas da Ásia Menor que estavam realmente sofrendo terrível perseguição por parte do Império Romano. Parte das revelações diziam respeito a fatos contemporâneos a eles, outras a eventos que aconteceriam ainda naquela geração e, por fim, também encontramos revelações de coisas que só se cumprirão por ocasião da Segunda Vinda de Cristo. Portanto, antes de ser uma mensagem de Deus para nós aqui e agora, foi mensagem de Deus para eles, lá. Compreender o contexto daquelas igrejas do primeiro século e procurar interpretar a mensagem do Apocalipse a partir da ótica dele facilitará em muito a nossa compreensão do significado de figuras de linguagem como, por exemplo, a da Besta.

Vamos começar examinando a primeira descrição da Besta que encontramos no Apocalipse: “Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças” (Ap 13:1). Para os cristãos daquela época, não foi difícil concluir que tal descrição apontava para o imperador romano, pelas seguintes razões: 1) a península da Itália emerge do mar mediterrâneo. 2) Roma era conhecida como a cidade das sete colinas e 3) o Império Romano possuía 10 províncias: Acaia, Gália, África, Germânia, Ásia, Itália, Bretanha, Espanha, Egito e Síria.

Apocalipse 13.2 oferece mais detalhes : “A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão.” Isto nos leva a visão de Daniel capítulo 7 sobre “Quatro animais, grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar”(Dn 7.3). A visão de Daniel não deixa dúvidas a respeito do significado de cada um daqueles animais. “O primeiro era como leão” representando o Império Babilônico, o segundo animal era “semelhante ao urso”, figura do Império Medo Persa, o terceiro “semelhante a um leopardo e tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças” (Dn 7.6), uma clara representação do Império Macedônico que foi dividido pelos 4 generais de Alexandre o Grande, e “o quarto animal, terrível, espantoso e sobremodo forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava, e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele e tinha dez chifres” (Dn 7.7), que certamente se refere ao Império Romano, por ser aquele que sucede ao Império Macedônico e seus 10 chifres representam as suas dez províncias e também por ter se tornado maior e mais poderoso que todos os anteriores. Tudo isto condiz com a descrição da Besta de Apocalipse 13 que é uma composição de forças de todos os impérios anteriores, “semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão”, sendo mais forte e terrível que todos e ainda possui igualmente “dez chifres”!

Se juntarmos a isto a descrição de Apocalipse 17.9-10, não restará dúvida a respeito da identidade da Besta, pois é dito que “as sete cabeças... são sete reis; dos quais caíram cinco, um existe e o outro ainda não chegou; e quando chegar, tem de durar pouco” (Ap 17:9-10). Os sete primeiros imperadores romanos, pela ordem, foram: 1) Julio Cesar, 2) Augusto, 3) Tibério, 4) Calígula, 5) Cláudio, 6) Nero e 7) Galba. Portanto, os cinco primeiros imperadores já haviam caído ou morrido, e este um que existia naquele momento era Nero, o sexto imperador Romano. O sétimo, que viria depois de Nero e que duraria pouco foi o imperador Galba, que reinou por apenas sete meses.

Nunca devemos nos esquecer que o livro de Apocalipse foi escrito para os cristãos das sete igrejas da Ásia Menor que estavam realmente sofrendo terrível perseguição por parte do Império Romano. Coloque-se no lugar deles e comece a interpretar as descrições apocalípticas do Dragão e da Besta. Essa perseguição estava sendo executada sob o poderio do Imperador, cujo nome, Nero César, equivalia a 666. João pede aos cristãos daquela mesma época que calculem para chegarem ao significado do 666, o que é mais uma prova de que se tratava de um monarca contemporâneo a eles.

É dito também que as pessoas “Adoraram a besta” (Ap 13.4); “Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias” (Ap 13.5). Sabemos que Nero ordenou que fosse construída em Roma uma imagem sua de quarenta metros de altura e que inscrições antigas foram encontradas em Éfeso exaltando Nero como “Salvador” e “Deus Todo-Poderoso”. Arrogante pretenção de ser idolatrado como se fora o próprio Deus. O culto ao imperador é blasfêmia e afronta ao único Deus verdadeiro.

Difícil encontrarmos na história um governador tão mau e pervertido como Nero, que mandou matar muitos membros de sua família. Ele chegou ao ponto de matar à ponta pés a sua própria esposa que estava grávida. Ele teve relações sexuais com sua própria mãe. Além disso, ele era homossexual e pedófilo. Casou-se oficialmente com um menino, que, posteriormente, mandou castrar. Ele era um maníaco sexual e um sádico estuprador, que gostava de se vestir como um animal selvagem para estuprar, ferir com os dentes os seus órgãos genitais e, por fim, matar muitos de seus prisioneiros, tanto do sexo feminino como do masculino.

A Besta recebeu “autoridade para agir quarenta e dois meses, e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu. Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse”. (Ap 13.6–7). Nero botou fogo em Roma e pôs a culpa nos cristãos. A cruel perseguição de Nero aos cristãos durou realmente 42 meses, de meados de novembro do ano 64 ao início de junho do ano 68, quando ele, depois de matar tanta gente cristã, finalmente se matou quando tinha 31 anos de idade. Nero se deleitava em ver os cristãos sendo torturados e mortos nas arenas. Fala-se aqui da difamação de um tabernáculo celeste e não do templo terreno construído em Jerusalém. É esclarecido que o tabernáculo difamado são “os que habitam no céu”, são eles os membros do Corpo de Cristo, que foram assim descritos nos capítulos 6 e 7 de Apocalipse: “Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.” (Ap 6.9–11). “São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo.” (Ap 7.14–15).

Temos também a seguinte descrição da Besta: “Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta” (Ap 13.3). O Império Romano chegou à beira da morte quando Nero a incendiou em 64 D.C., Em um curto espaço de tempo, quatro imperadores foram mortos, houve três guerras civis, e inúmeras guerras estrangeiras irromperam ao redor do império. Josefo escreveu que Roma estava próxima da ruína e Tácito disse que aquele foi quase o fim do império. Somente com a subida de Vespasiano ao trono que Roma voltou a experimentar uma certa paz.

Veremos agora o significado do número da Besta. “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.” (Ap 13.18). João pede aos cristãos daquela mesma época que calculem e decifrem o número da Besta, o que é mais uma prova de que se tratava de um tirano contemporâneo a eles. O cálculo do número era possível para aqueles que estavam familiarizados com o alfabeto hebraico e seus equivalentes numéricos. Assim como as letras do alfabeto romano possuem valores numéricos, assim também acontece com as letras do alfabeto hebraico. Nero César em hebraico correspondia a Nrwn Qsr, cujo cálculo do número dava 666. João usou este código para não falar abertamente contra o imperador, tentando assim evitar ainda mais perseguição caso o livro caísse em mãos dos oficiais romanos.

Diante de tudo isto, fica fácil entender porque a Igreja Primitiva cria que Nero havia sido a Besta do Apocalipse. Nunca devemos nos esquecer que o livro de Apocalipse foi escrito para os cristãos das sete igrejas da Ásia Menor que estavam realmente sofrendo terrível perseguição por parte do Império Romano. Coloque-se no lugar deles e comece a interpretar as descrições apocalípticas da Besta e tire suas próprias conclusões!

*Quanto ao "homem da iniquidade" de 2 Tessalonicenses 2.3*, podemos afirmar com certeza que não se trata do anticristo porque os únicos quatro versículos bíblicos que falam do anticristo ou dos anticristos, os descrevem como falsos profetas cristãos daquela época, que eram gnósticos, adeptos do docetismo e que negavam que Jesus havia vindo em carne. (1Jo 2.18; 1Jo 2.22; 1Jo 4.3 e 2Jo 7). Portanto não devemos confundir a Besta ou o Homem da Iniquidade com o Anticristo.

O mais provável é que o "homem da iniquidade" seja realmente a "Besta" mencionada no livro de Apocalipse, que, como vimos, simbolizava o Imperador Nero. As razões para isto são as seguintes:

1. Em primeiro lugar, observa-se a existência de 3 referencias no capítulo 2 de 2 Tessalonicenses que indicam que tal indivíduo estava por perto na época em que Paulo escreveu a carta: 1) "o que o detém", 2) "já opera" e 3) "aquele que agora o detém".

2. Paulo ao escrever aos tessalonicenses, dizendo: "sabeis o que o detém", demonstra que eles tinham conhecimento de quem se tratava este tal “homem da iniquidade”. Isto é um forte indício de que este iníquo estava relacionado aos acontecimentos contemporâneos a eles, pois eles sabem o que é que está detendo o seu surgimento. Sabemos que Paulo foi condenado a morte por volta do ano 68 dC, portanto, os seus últimos anos de vida foram vividos na época em que Nero era o imperador.

3. Além do mais, não se tem notícia de nenhum governante tão iníquo quanto Nero, que matou muitos membros de sua familia, até mesmo sua esposa grávida com vários chutes, incendiou Roma e culpou os cristãos. Perseguiu, torturou e matou milhares de cristãos e obrigava que as pessoas o adorassem como se fora Deus.

4. Por fim, temos notórios cristãos do passado, como João Crisóstomo e Agostinho, que afirmaram categoricamente que o homem da iniquidade havia sido Nero.

Agora, identificar a Besta e o Homem da Iniquidade com Nero que infringiu terrível perseguição aos cristãos por 42 meses não esgota o seu significado para a Igreja que, no decorrer da história, tem sido perseguida por outras Bestas. Os 42 meses de perseguição nos fazem lembrar dos 42 acampamentos de Israel no período em que peregrinou no deserto antes de entrar na Terra Prometida (Números 33). Isto é também símbolo de nossa própria peregrinação nesta terra até chegarmos a Nova Jerusalém. “Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.“ (Rm 8.36–39).

Para saber mais a respeito, recomendo a leitura do livro Escatologia Vitoriosa de Harold Eberle e Martin Trench, Editora JOCUM.






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