quinta-feira, 26 de julho de 2018

Sobre o seguinte pronunciamento do Daniel Mastral a respeito da homossexualidade

Um membro da igreja perguntou a minha opinião sobre o seguinte pronunciamento do Daniel Mastral a respeito da homossexualidade: https://youtu.be/brGEqrNEgmI



Segue abaixo a minha resposta que espero possa ser de alguma utilidade para outros cristãos:



Concordo com o Mastral sobre nosso dever de tratarmos com amor, compaixão e respeito a todos os homossexuais. No entanto, também devemos entender que a vontade de Deus é a nossa santificação (Hb 12.14). E a Bíblia claramente afirma que a prática homossexual é pecaminosa (Gn 19.4-8; Lv 18.22; Rm 1.21-27; 1Co 6.9-10; 1Tm 1.8-11 e Jd 7). Não apenas através destes textos que falam dela de forma negativa, mas também através dos textos bíblicos que falam da criação do homem e da mulher e da instituição divina do casamento (Gn 1 e 2). Deus criou uma parceira sexual adequada para o homem, a mulher, e não outro homem ou um animal. E como é bela a descrição da criação da mulher: “Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.21–24). Enquanto o homem foi feito do pó da terra, a mulher foi feita da costela de Adão. De modo que Adão exclamou: “esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne”! Por isso é que se diz que marido e mulher formam “uma só carne”! Isto é mais que uma união, é uma espécie de reunião! Marido e mulher se unem sexualmente, consumando, assim, o seu amor, podendo também gerarem filhos, tudo isto segundo o maravilhoso plano de Deus! O Senhor Jesus Cristo reafirmou que Deus criou macho e fêmea e sacramentou o casamento heterossexual quando disse: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt 19.4–6). Sendo assim, nenhum papa, bispo, padre, rabino, pastor ou profeta tem autoridade para relativizar isto, para ensinar o contrário, nem mesmo sob o pretexto do amor e da tolerância.

É correto dizer que Deus é amor, mas o Mastral acabou indo longe de mais ao afirmar que: “Deus não é um deus que pune”. Creio que tal frase foi uma infelicidade da parte dele, pois, neste mesmo vídeo, ele chega a reconhecer que Deus não é só amor, mas também justiça, e que haverá Juízo Final onde muitos serão condenados.

Quanto ao comentário dele sobre Raabe, é bom deixar claro que ela está entre os heróis da fé porque agiu com fé e deixou de ser prostituta e não na condição de prostituta como ele pareceu sugerir. Sobre a necessidade de arrependimento e mudança de atitude, lembremos que Jesus, embora tenha sido misericordioso com a mulher pega em adultério, disse a ela: “vá e não peques mais” (Jo 8.11). A respeito de sua missão, Jesus declarou: “Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento.” (Lc 5.32).

Concordo quando ele ataca a hipocrisia daqueles que condenam a homossexualidade enquanto praticam toda sorte de pecados. Mas, o conselho de Jesus não é para que cada um fique na sua, mas para que cada um remova a trave do seu próprio olho para poder enxergar bem a fim de ajudar o próximo a remover o argueiro que estiver em seu olho. “Como poderás dizer a teu irmão: Deixa, irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.” (Lc 6.42). Devemos abandonar o pecado e não nos conformarmos com ele (Mc 9.43).

Repare que ele utiliza versos bíblicos sobre o perigo de julgarmos uns aos outros, para dizer que não se deve julgar os gays, mas, contraditoriamente, ele passa a julgar e a condenar ao inferno uma série de pecadores, tais como os hipócritas, os ladrões, os mentirosos, os hereges e adúlteros.

Ele conclui dizendo que não vê pecado na união de casais gays, desde que ambos tenham nascido na condição de gays, sejam monogâmicos e fiéis um ao outro. Ele termina condenando ao inferno outras espécies de pecadores e isentando os homossexuais que nasceram assim baseado na suposição de que houve mutações genéticas a partir da década de 50 por conta da alimentação, etc. e argumentando também a lista dos pecadores que irão para o inferno que encontramos em Apocalipse 22.15, não inclui os homossexuais, sendo, portanto, diferente da de Paulo em 1 Coríntios 6.9-11, que diz: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” Ele diz que devemos desconsiderar a lista de Paulo, aceitando apenas a de Apocalipse, porque Deus, na sua onisciência, excluiu os sodomitas da lista sabedor que na década de 1950 haveria o surgimento de uma substância química que promoveria o nascimento de pessoas naturalmente homossexuais. Então, segundo ele, a lista de Paulo esteve em vigor até 1950, sendo que, a partir daí, entrou em vigor apenas aquele que encontramos no Apocalipse. Por razões evidentes, tal argumento não é plausível. A diferença entre as duas listas não diz respeito somente aos homossexuais. A segunda lista deixa de fora também os injustos, os adúlteros, os ladrões, os avarentos e os maldizentes. Nem uma das duas listas pretende ser exaustiva e completa.

Tais pesquisas científicas sobre a existência ou não de um gene gay ainda são motivo de muita controvérsia. Não sendo, portanto, possível fazermos afirmações categóricas a este respeito, nem muito menos, teologia a partir daí. Além do mais, suponhamos que uma pesquisa científica venha, um dia, a concluir que mutações genéticas começaram a fazer com que pessoas nasçam com um gene pedófilo, neste caso, teríamos também que aceitar que elas se comportem de acordo com a sua natureza? 



Compartilho da compaixão dele por aquele garoto de 10 anos de idade que desde os cinco se sente uma menina presa em um corpo de menino. Embora, acredite que isto tem a ver com algo relacionado a sua educação familiar. Os primeiros cinco anos de vida são fundamentais para a definição da identidade sexual de todo e qualquer indivíduo. Sejamos sensíveis ao drama e as dificuldades de crianças, jovens e adultos que vivem estes conflitos tão tremendos. Que o nosso olhar e atitude sejam de muita compaixão, amor e respeito para com eles. E que nossas atitudes contribuam para que eles se aproximem de Deus e da Igreja e não o contrário como, infelizmente, vem acontecendo com frequência. Que eles possam sentir o amor de Deus a partir de nossas palavras e ações. Deus os ama e os convida a experimentarem uma nova vida em Cristo. Todos nós, heteros e homossexuais, pertencemos a uma humanidade caída em pecado (Rm 3.23). Mas a graça de Deus se manifestou salvadora a todas as pessoas do mundo (Tt 2.11; Jo 3.16), promovendo perdão (Jo 1.29; 1Jo 1.9) e restauração da imagem de Deus que ficou tão maculada pelo pecado (Cl 3.10 veja também Gn 1.27).

Todos nós, seres humanos, estamos rodeados de fraquezas e carecemos muito da misericórdia de Deus. Que bom saber que podemos contar com a compaixão e ajuda de Cristo em toda e qualquer situação: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” (Hb 4.14–16).



Em amor,
Bispo José Ildo Swartele de Mello

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Era uma vez uma luzinha...

Era uma vez uma luzinha que recebeu a incumbência divina de ir por todo o mundo em busca da escuridão. No final de sua missão, ela retornou a Deus dizendo: "Andei por toda a parte e não encontrei a escuridão".
Filipenses 2.15
"para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo"

terça-feira, 17 de julho de 2018

Atos 13.48 está ensinando a doutrina da predestinação incondicional?

Os calvinistas, interpretam Atos 13.48, como se estisse ali uma declaração de que só creram os que estavam predestinados a salvação.  Mas isto não é correto pelas seguintes razões:

Primeiramente, é de fundamental importância observar que os versículos anteriores  falam dos  judeus  rejeitando voluntariamente a pregação do Evangelho. Sendo assim, agora, neste versículo, Lucas  está afirmando que, apesar da oposição e rejeição dos judeus, os propósitos pretendidos por Deus estão sendo cumpridos. Ele está dizendo que, de acordo com o plano de Deus, o evangelho alcançou os gentios nesta região.   

Além disso, é bom também frisar que o termo grego tasso é de origem militar, sendo comumente utilizado no sentido de dispor soldados em ordem de acordo com a vontade de um oficial. E, quando combinado com δια, é assim traduzido em 1Coríntios 11.34 da seguinte maneira: “Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for.” Portanto, em Atos 13.48, Deus colocou em ordem os gentios a frente dos judeus que até então tinham a prioridade. "Ele veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam, mas a tantos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, os que creem no seu nome." (Jo 1.11-12). Os gentios, que não eram povo, agora foram colocados na ordem do dia da salvação, passando a fazer parte do povo de Deus. Os ramos originais foram cortados e os da oliveira brava foram enxertados na Oliveira Verdadeira! (Rm 11).


Difícil também seria concluir que Lucas estivesse aqui afirmando que  todas as pessoas daquela comunidade que estavam predestinadas a salvação creram naquele mesmo dia e que os que não creram estavam predestinados a perdição, de modo que nenhuma pregação mais seria necessária a eles. Com que autoridade Lucas poderia afirmar tal coisa? Teria ele recebido uma revelação super-especial a este respeito?

Como respondi às seguintes objeções calvinistas:

1) Se a extensão da expiação é universal, logo o sangue de Cristo é derramado em vão por aqueles que não são salvos.


O sangue de Jesus foi derramado em favor da humanidade oferecendo salvação a todos por meio da fé. Seu sacrifício não foi em vão, não apenas por conta dos que se convertem, mas também dos demais, visto que através de tal sacrifício, Deus demonstrou seu amor por eles também. Isto contribui para o incremento da honra e da glória do seu bendito nome. Tributamos louvores ao seu amor e a sua graça que se manifestou salvadora a todos os seres humanos (Tt 2.11). Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11 e At 10.34). Deus amou o mundo! (Jo 3.16).



2) Se Cristo morreu por alguém e essa pessoa não for salva, logo, seu pecado será pago duas vezes, uma na cruz e outra no inferno.


Tal objeção faria sentido se nossa dívida fosse do tipo pecuniária, mas, não é este o caso. Trata-se de uma dívida judicial, cujo pagamento não resolve a questão automaticamente, pois depende da aceitação dos termos e condições. A não aceitação dos termos, faz com que o devedor permaneça na obrigação de pagar a sua dívida. A Parábola do Credor Incompassível demonstra o risco do perdão concedido por Deus poder vir a ser retirado em caso de subsequente falta de misericórdia por parte do que que recebeu o perdão (Mt 18.22–35).



3) No Arminianismo, a graça simplesmente possibilita o homem a se salvar. Aliás, Cristo veio para salvar ou para tornar a salvação possível?


Tal objeção seria válida se o propósito de Cristo fosse salvar a humanidade de modo incondicional, mas a Bíblia ensina que Deus deu seu Filho ao mundo para a salvação mediante a fé (Jo 1.12 e 3.16). “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, o e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” (Jo 3.17–19). Que Jesus se manifestou como salvador não de modo incondicional, mas condicional também se vê na questão de Israel. Jesus veio como Salvador para os que eram seus, mas os seus não o receberam (Jo 1.11). Ele quis salvá-los como a galinha ampara seus pintinhos debaixo de suas asas, mas, infelizmente, eles não quiseram (Mt 23.37). O sacrifício do cordeiro pascal propicia salvação a todos desde que seu sangue seja devidamente aplicado aos umbrais das portas. Cristo é o Cordeiro de Deus cujo sacrifício é suficiente para tirar o pecado de toda a raça humana, mas eficiente apenas para aqueles que dele se apropriam pela fé.

Ildo Mello

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Um contraste entre as distintas espécies de fé que não salvam e a fé salvadora

É comum ouvirmos frases do tipo: “O importante é ter fé”, como se a fé tivesse valor por si só, não importando a qualidade e o objeto da fé, algo que vai na toada daquela famosa canção de Gilberto Gil que diz: “andar com fé eu vou, pois a fé não costuma falhar”. Paralelo a isto, temos também as seguintes ideias: “O importante é ter uma religião” e “todo caminho leva a Deus, o importante é ser sincero”. Mas, como diz certa canção, “se pegar a estrada do Rio pra Salvador, Porto Alegre não verás, mesmo que sincero for.” Que tal examinarmos melhor esta questão à luz do ensino do Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos?

Quando Jesus exalta a virtude da fé, Ele o faz no contexto bíblico, cujo objeto desta fé é o único e soberano Deus e em seu Filho Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (Mt 21.21; Lc 17.6; Jo 14.1-6). E sempre que Jesus disse a alguém; “a tua fé te salvou”, estava implícito que se tratava de uma fé na pessoa de Cristo (Mt 9.22; Mc 5.34; 10.52; Lc 7.50; 8.48; 17.19; 18.42).

Exemplos de fé que não salvam:


  1. fé em falsos deuses ou naquilo que não pode salvar. “Sabeis que, outrora, quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, b segundo éreis guiados.” (1Co 12.2). “… deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro” (1Ts1.9); “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.” (1Jo 5.21).
  2. fé em falsos ensinos “… darem crédito à mentira”(2Ts 2.11); “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. (Ef 4.14); “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.” (2Pe 2.1).
  3. fé superficial e temporária, que não resiste as provações - semente que caiu em solo rochoso (Mt 13.20–21). No momento mais difícil de sua provação, Jó exclamou: “eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. (Jó 19.25); e, semelhantemente, Habacuque, declarou: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação.” (Hc 3.17–18).
  4. fé sentimental ou circunstancial, naquilo que se pode ver ou sentir. “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1); “Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.” (Rm 8.24–25); “não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.”(2Co 4.18); “todavia, o meu justo viverá pela fé”(Hb 10.38).
  5. fé hipócrita - “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, q hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mt 7.16–23).
  6. fé intelectual, sem coração, sem amor, sem obediência, sem obras. Este tipo de fé até os demônios possuem (Tg 2:19). “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?… a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” (Tg 2.14 e 17). A salvação não se dá através das obras, mas, unicamente pela fé no Salvador Jesus Cristo. Mas a fé em Cristo não pode ser inoperante, pois precisa ser uma fé viva que “atua pelo amor” (Gl 5.6) e que nos conduz as boas obras que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef 2.8-10). A fé salvadora produz os devidos frutos do Espírito. Tiago disse que a fé sem obras é morta. João falou que aquele que diz ter fé em Deus, mas não ama, não conhece a Deus, pois Deus é amor. E Paulo falou que fé sem amor é sem valor e disse que o que importa é a fé que opera pelo amor (Gl 5.6), pois fomos salvos pela fé para as boas obras (Ef 2.10). E Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; s e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14.21).


Como crer, receber e aceitar a Cristo?

É comum ouvirmos apelos para as pessoas receberem e aceitarem a Cristo, baseados em João 1.12 que diz: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome”. Mas acontece que existem muitas pessoas que não recebem a Cristo e nem creem nele de maneira apropriada. Encontramos alguns exemplos disto no Novo Testamento:

Formas erradas de crer e receber a Cristo


  1. Por ocasião do seu primeiro milagre, muitos creram em seu nome, mas Jesus parece não ter ficado satisfeito com a espécie de fé deles, pois é dito: “mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos. (Jo 2.24).
  2. Nicodemos e muitas autoridades que creram, mas tinham vergonha de confessar sua fé em Cristo publicamente para não perderem seu status social e religioso (Jo 3.1-2 e Jo 12.42; Mt 10.33).
  3. Quando da primeira multiplicação de pães e peixes, a multidão quis receber a Jesus como rei, mas Jesus se retirou entristecido por perceber que eles só o procuravam por causa do pão que perece (Jo 6.15).
  4. Os próprios irmãos de Jesus, a princípio, apenas o reconheceram e o receberam como um operador de milagres, mas não o reconheciam como Messias e Salvador (Jo 7.5).
  5. Simão, o mágico, mostrou-se ávido a receber o dom do Espírito Santo, oferecendo até dinheiro para também receber poder de transmiti-lo, mas, Pedro, percebendo suas reais motivações, lhe respondeu: “teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus.” (At 8.20).
  6. O fariseu recebeu a Jesus em sua casa, mas o fez de maneira qualquer, sem a devida honra. (Lc 7.36-46).
  7. Nove leprosos que foram curados por Jesus e nem sequer se deram ao trabalho de regressar para agradecê-lo (Lc 17.11-19).
  8. Não devemos receber a Cristo como um bilhete para escaparmos do inferno e irmos para o céu. Jesus é melhor do que o céu. Na verdade, é Ele quem faz o céu ser céu! Não haverá sol e nem candeia na Nova Jerusalém, pois Jesus será a luz desta cidade celestial! (Ap 21.23). O fato mais admirável da vida porvir é que seremos capazes de vê-lo como ele realmente é! (1Jo 3.2). Precisaremos realmente de toda a eternidade para poder apreciar e conhecer a grandeza e a glória de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo!
  9. Não devemos receber a Cristo como um certificado de salvação, mas como o caminho da salvação. A salvação não é algo estático, mas dinâmico. Devemos seguir seus passos. Ele é o caminho e a vida! Salvação é relacionamento de profunda e verdadeira amizade, é caminhar com Cristo e aprender a viver com ele. Não há salvação fora de Cristo. Ele é a vida eterna!


Formas apropriadas de crer e receber a Cristo


  1. Como a pessoa que, “tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra. (Mt 13.46).
  2. Com a alegria e o desprendimento da pessoa que encontrou o tesouro mais precioso do mundo: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13.44).
  3. Com a fé que nos leva a buscar o Reino de Deus em primeiro lugar (Mt 6.33) e a priorizar o chamado em detrimento dos nossos projetos pessoais: “Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mc 8.34).
  4. Como os discípulos que abandonaram as redes (Mc 1.16-20), a coletoria de impostos (Mc12.14) e que tudo foram capazes de deixar para trás a fim de seguir a Cristo (Mc 10.28-30).
  5. Paulo que considerou tudo como refugo para ganhar a Cristo (Fp 3.8).
  6. Como a pessoa mais amada e querida do mundo: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37).
  7. Como Zaqueu que recebeu a Jesus com alegria, obedeceu o seu comando e espontaneamente decidiu doar metade de seus bens aos pobres e ressarcir quadruplamente a todos a quem havia causado prejuízos (Lc 19.1-8).
  8. Como a Mulher Samaritana que, maravilhada, confessou sua fé em Cristo, e trouxe uma multidão de vizinhos para conhecê-lo (Jo 4). Pois, “se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 10.9–10).
  9. Como a mulher pecadora que, ao contrário do fariseu que fez pouco caso de Cristo, honrou a Jesus, chorando aos seus pés, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento. (Lc 7.38).
  10. Como aquela mulher que veio “trazendo um vaso de alabastro e com preciosíssimo perfume de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus.” (Mc 14.3).
  11. Com gratidão e devoção daquele único leproso dos dez que foram curados e que regressou para agradecer e adorar a Jesus: “Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano.” (Lc 17.15–16). Este ouvirá de Cristo: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.” (Lc 17.19).
  12. Devemos receber e confiar no Salvador, assim como aqueles meninos que estavam presos e sem saída naquela profunda caverna da Tailândia confiaram nos mergulhadores que foram salvá-los. Eles precisaram reconhecer que estavam perdidos e que não havia qualquer outro meio de salvação. Precisaram confiar na competência dos mergulhadores. Mas, não bastava apenas acreditarem, precisavam dar um passo de fé, precisavam se entregar totalmente nas mãos de seus salvadores para serem salvos. Assim também devemos confiar totalmente nossa vida nas mãos do Salvador.


Conclusão

A fé, pura e simplesmente, não salva. Para obtermos salvação precisamos depositar fé e confiança no único meio de salvação, pois “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). Esta fé não pode ser superficial, nem circunstancial, nem inoperante e infrutífera. Precisa ser uma fé viva que nos reconcilia com Deus, que nos faz beber do seu amor, da sua graça e da sua misericórdia. Isto é suficiente para impactar todo o curso de nossa vida. Tal fé produzirá muitos frutos, muitas boas obras para a glória de Deus. (Mt 5.16).

Cristãos que não produzem os frutos do Espírito e que não praticam boas obras não tem base bíblica para estarem seguros de sua salvação. Algo deve estar errado com sua fé e com seu relacionamento com Cristo, pois Ele mesmo disse: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5). Quem recebeu também perdão, precisa tornar-se perdoador sob o risco de ter o perdão cancelado (Mt 18.23-35; Mt 6.14-15). Quem foi tão amado, deve também amar (1Jo 4.11). “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.” (1Jo 4.8). “O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.” (Rm 13.10).

Quando recebemos a Cristo como a pérola de inestimável valor, tudo mais passa a ter valor secundário. Os atos sacrificiais se tornam naturais e espontâneos. Jesus se torna nosso maior amor, nossa maior alegria e satisfação. Seu mandamentos se tornam fáceis (1Jo 5.3) e seu jugo passa a ser suave e o seu farde, leve (Mt 11.30). Quando estamos apaixonados, não medimos esforços para agradar a pessoa amada e para estar ao seu lado. Caso contrário, tudo se torna difícil e tedioso.

Bispo José Ildo Swartele de Mello

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