quinta-feira, 21 de junho de 2012

A expressão "servos do nosso Deus" indica que os 144.000 sejam parte do povo de Israel?

Dispensacionalistas afirmam que os 144.000 mencionados em Apocalipse 7 são uma referência a Israel por estarem também sendo chamados de "servos do nosso Deus", no entanto, observamos que Paulo e Tiago, como Apóstolos da Igreja, se autodenominam "servos(s) de Deus":
"Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo para levar os eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade que conduz à piedade (Tt 1.1 cf. Rm 1.1 e Gl 1.10)

"Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (Tg 1.1)


E vemos também que a expressão sinônima "servo do Senhor" é utilizada no Novo Testamento para designar os líderes cristãos: 
"Tíquico, o irmão amado e fiel servo do Senhor, lhes informará tudo, para que vocês também saibam qual é a minha situação e o que estou fazendo" (Ef 6,21)

"Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente" (2Tm 2.24).

Jesus é chamado de Senhor o que implica que seus seguidores são seus servos. São abundantes os textos a este respeito:
"Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está em pé ou cai. E ficará em pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar" (Rm 14.4).

“Então perguntei: Quem és tu, Senhor? “Respondeu o Senhor: ‘Sou Jesus, a quem você está perseguindo. Agora, levante- se, fique em pé. Eu lhe apareci para constituí-lo servo e testemunha do que você viu a meu respeito e do que lhe mostrarei" (At 26.15-16).

"Quem me serve precisa seguir-me; e, onde estou, o meu servo também estará. Aquele que me serve, meu Pai o honrará" (Jo 12.26).

“ ‘Muito bem, meu bom servo! ’, respondeu o seu senhor. ‘Por ter sido confiável no pouco, governe sobre dez cidades.’" ( Lc 19.17).

"Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado? Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’” (Lc 17.9-10).

“Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará outro, ou se dedicará a um e desprezará outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16.13).

“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites" (Lc 12.45).

"Feliz o servo a quem o seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar" (Lc 12.43)

"Assentando- se, Jesus chamou os Doze e disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos” (Mc 9.35).

“O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor..." (Mt 10.23).

Judas se autodenomina "servo de Jesus Cristo" no mesmo versículo em que chama a Deus de Pai:
"Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos que foram chamados, amados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo (Jd 1.1)

Pedro igualmente:
"Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo" (2Pe 1.1)

Paulo chama Epafras de servo de Cristo:
"Epafras, que é um de vocês e servo de Cristo Jesus, envia saudações" (Co 4.12)

Mesmo no Livro do Apocalipse os membros da Igreja ou os salvos em Cristo que desfrutaram a eternidade na Nova Jerusalém são chamados de servos: 
"Já não haverá maldição nenhuma. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade, e os seus servos o servirão. Eles verão a sua face, e o seu nome estará em suas testas. Não haverá mais noite. Eles não precisarão de luz de candeia, nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os iluminará; e eles reinarão para todo o sempre (Ap 22.3-5) 
"Então caí aos seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: “Não faça isso! Sou servo como você e como os seus irmãos que se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus...” (Ap 19.10).
"Mas ele me disse: “Não faça isso! Sou servo como você e seus irmãos, os profetas, e como os que guardam as palavras deste livro. Adore a Deus!” (Ap 22.9)

Repare que é claramente dito que o Senhor enviou o seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de acontecer, e sabemos que a revelação do Apocalipse foi dada as Sete Igrejas:
"O anjo me disse: “Estas palavras são dignas de confiança e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou o seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de acontecer" (Ap 22.3).

Os mártires cristãos, vencedores da Besta, cantaram o cântico de Moisés e o do Cordeiro. Pois a igreja congrega em si mesma ambos os povos, judeus e gentios (Ef 2), de modo que os cânticos de vitória das duas Páscoas estão  em sintonia sendo entoados pelo povo de Deus que é a Igreja em louvor ao único e verdadeiro Messias que é Rei das Nações: 
"e cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro" (Ap 15.3).

Portanto, não há motivo para concluirmos que o uso da expressão "servos de Deus" seja um indicativo do povo de Israel, pois os da Igreja são assim também nomeados. A Igreja é a manifestação do remanescente de Israel. Notar que o primeiro gentio a se converter foi Cornélio. O que vale dizer que a Igreja era composta originariamente de crentes judeus, pelos remanescentes de Israel (Rm 2.28,29; 3.3,4; 9.6-8,27,29; 11.15), os gentios foram acrescentados nesta mesma Oliveira. Neste sentido, há muito mais continuidade do que descontinuidade (Ef 2.18-20; 3.6; Gl 3.6-29). Não houve mudança no plano de Deus (Ef 1.3-4), mas revelação progressiva (Gl 6.16; 3.13,14). O Verdadeiro Israel é aquele que possui o Messias. Cristo é a Videira verdadeira (Jo 15.1), a videira é símbolo notório de Israel. O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido (Gl 3.1s). E não é sem propósito que o número de apóstolos da Igreja é idêntico ao número de tribos de Israel. A Igreja é agora “o Israel de Deus” (Gl 6.16), composta por judeus (o remanescente de Israel, os judeus que aceitam o Cristo) e por gentios crentes (Ef 2).


O texto de Apocalipse foi escrito para as Sete Igrejas da Ásia e não para Israel. Além disto, trata-se de uma literatura apocalíptica, repleta de figuras de linguagem, que não podem e nem devem ser interpretadas de forma literal para não incorrermos em erros grosseiros como os dos Testemunhas de Jeová, entre tantos outros. 

Se formos interpretar literalmente, teríamos de concluir que apenas 144.000 homens, virgens e de Israel estariam ali presentes. 

A Igreja é denominada de o Israel de Deus, o que determina isto não é a circuncisão, mas o novo nascimento!
"De nada vale ser circuncidado ou não. O que importa é ser uma nova criação. 16 Paz e misericórdia estejam sobre todos os que andam conforme essa regra, e também sobre o Israel de Deus" (Gl 6.16).

E Tiago, como Apóstolo de Cristo, inicia sua Epístola endereçada para a Igreja, referindo-se as 12 tribos de Israel como uma figura de linguagem para toda a Igreja de Cristo: 
"Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos dispersas entre as nações: Saudações".

"Significando que, mediante o evangelho, os gentios são co- herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co- participantes da promessa em Cristo Jesus" (Ef 3.6).

O verdadeiro Israel é a Igreja que é herdeira da promessa feita a Abraão: 
"Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Noutras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão." (Rm 9.6-8).

Os da fé é que são verdadeiros filhos de Abraão:
"Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão" (Gl 4.7)

Além disto, à luz do Novo Testamento, a parede de separação entre judeus e gentios foi derrubada (Ef 2) e não poderia estar aqui em Apocalipse de novo reconstruída com uma visão celestial que separasse Israel da Igreja. Deus não possui dois povos, mas um só, e dele fazem parte judeus e gentios unidos e lavados pelo sangue de Jesus. O que está em vista em Apocalipse é a Igreja da qual Jesus é o Cabeça.

Em Apocalipse 7, temos a igreja sendo descrita de duas formas distintas, uma como um grupo definido, sem tirar nem por, e outro como uma multidão inumerável. Certamente os selados não são apenas os 144.000, mas também a Grande Multidão. Ambos são a mesma e santa Igreja do Senhor Jesus.


Leia também o estudo que escrevi sobre quem são os 144.000 de Apocalipse: Os 144.000



Há tempos atrás, escrevi um estudo a respeito do relacionamento da Igreja com Israel, espero que ajude a elucidar ainda mais esta importante questão:



Quantos povos de Deus existem?


Teria Deus dois planos de salvação, um para Israel e outro para a Igreja? Haverá esperança de salvação após a Segunda Vinda de Cristo ou o Arrebatamento? A Igreja é um parêntese no plano de Deus? O Relógio profético parou? O Reino de Deus foi adiado? 
(Autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello) 

O ensino da Igreja, em todos os tempos até John Darby, 1830, conhecido como pai do dispensacionalismo, foi de que Deus tem apenas um povo e de que a Igreja fazia parte do plano eterno de Deus, cujo intento era reunir judeus e gentios em um único povo. A nação de Israel no A.T. era um tipo para a Igreja do N.T. e de que a Igreja substituiu Israel como povo de Deus, não no sentido de excluir os judeus, mas no sentido de incluir também os gentios debaixo do senhorio redentor do Messias (Ef 2.12-22; Os 1.9; 2.25; Jo 1.10-12; 9.17; 12.14; Rm 9.24, 25). A Igreja é agora “o Israel de Deus” (Gl 6.16), composta por judeus (o remanescente de Israel, os judeus que aceitam o Cristo) e por gentios crentes.

O Evangelho do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo é a única esperança de salvação para os judeus, assim como o é para os gentios. Pois sabemos que Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11), os judeus só podem ser salvos se aceitarem a Cristo como único e suficiente Salvador durante a era presente. Pois só há um caminho e um único nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos. Após o soar da última trombeta não haverá segunda oportunidade para ninguém, tanto incrédulos judeus como gentios se lamentarão naquele dia (Ap 1.7), clamarão para que as pedras caiam sobre eles e buscarão a morte sem que a possam encontrar. Sendo enganosa a idéia de uma segunda oportunidade de salvação após o arrebatamento da Igreja (Mt 25.1-13) e também é falsa a idéia de um plano de salvação distinto para Israel.

Os dispensacionalistas afirmam: “O dispensacionalismo crê que através dos tempos Deus tem dois distintos propósitos: um relativo à terra, com pessoas terrestres e envolvendo objetivos terrestres, que é o judaísmo; enquanto o outro está relacionado ao céu, com um povo celestial, envolvendo objetivos celestiais, que é o cristianismo”1 Afirmam, ainda, que a Igreja é um parêntesis no plano de Deus, pois dizem que o relógio profético parou devido à rejeição de Israel o que possibilitou, segundo eles, o surgimento da Igreja, fazendo do período da Igreja, um período de intervalo no “jogo” da história de Deus com Israel, no mundo. Mas as Escrituras nãoapóiam tal invenção. Pois a Igreja não é um instrumento temporário de Deus, não é um arranjo temporário e decaráter secundário devido à rejeição de Israel e nem é um parêntesis no plano de Deus. Pois Paulo deixa claro que a Igreja faz parte do plano eterno de Deus (Ef 1.22,23). Cox diz que alguns Dispensacionalistas chegam a afirmar que se os judeus tivessem aceitado a Cristo, a cruz não teria sido necessária.2

Nada existe no A.T. e no N.T. que indique um intervalo de tempo (em que o relógio profético fica parado) entre a penúltima e a última semana da profecia de Daniel, antes o contrário (Cl 1.13). Veremos, mais adiante, quando tratarmos da interpretação das 70 Semanas de Daniel, algo mais sobre este ponto em questão.

Paulo usa 14 capítulos em Romanos para provar que nunca existiu um plano de salvação para judeus e outro para os gentios, mas, ao contrário, sempre houve um único plano eterno incluindo judeus e gentios (Gn 17.5; Rm 4.11, 12, 16, 17, 23, 24). Paulo não diz que Deus mudou o seu plano original, antes, ele afirma que a Igreja sempre foi o plano de Deus (Ef 3.4-6, 21, 26, 31; Gl 3.8, 16; ver também Gn 3.15). O N.T. fala da lei, da circuncisão e do próprio povo de Israel em termos simbólicos, como sendo sombras da realidade que se encontra na Igreja (Cl 2.17; Hb 10.1; Ef 1.22,23). Israel era um tipo da Igreja como povo de Deus; a terra prometida um tipo do céu (a Nova Terra); a circuncisão, ritual de iniciação do judaísmo, um tipo do novo nascimento e do batismo, ritual de iniciação do cristianismo; a lei um tipo e um aio para o evangelho, pois a lei não tinha um fim em sim mesma, mas encaminhava-se para Cristo e encontrou seu fim, cumprimento e plenitude no Evangelho do Reino; e o templo um tipo do “Corpo de Cristo” (Hb 8.5; 9.9, 24; 10.9,16,19-21; 11.9-16,39,40; 12.18-24; 13.10-14; Cl 2.11,12). Os cristãos são chamados de “eleitos de Deus” (Rm 9.33). A Igreja foi profetizada no A.T.: (Jo 8.56; At 3.22-24; 1 Pe 2.9 comparar com Ex 19.5,6; Hb 2.12 comparar com Sl 22.22). A Igreja é denominada e tratada pelos apóstolos como sendo o “Israel de Deus” (Gl 6.16; 3.6-16; 1 Pe 2.6s comparar com Ex 19.5,6; Rm 2.11, 28, 29; Jo 15.1; Rm 11.17-24; Ef 2.12-22; 3.6; 4.4; Jo 10.16; Rm 9.24, 25 comparar com Oséias 2.23).

Concordo com Juan Stam, quando ele observa que, segundo Mateus, a vida e o ministério de Jesus estão repletos de analogias a Moisés e ao Êxodo, dizendo que ao nascer o novo Moisés, um novo faraó promove um feroz infanticídio; Ele nota também que Jesus, após descer ao Egito, qual novo José e novo Israel, ele sai doEgito e retorna para Canaã: “Do Egito chamei o meu Filho” (Mt 2.15, cf. Os 11.1). O paralelo não para por aí, pois, no Sermão do Monte (novo Sinai), Jesus se apresenta como o novo Legislador do povo de Deus (Mt 5.17-48; cf. 19.7) e, no Monte da Transfiguração, Moisés e Elias, o continuador e o resgatador do legado de Moisés, se fazem presentes, como que representando a Lei e os Profetas, que testificam que Jesus é o Cristo, cumprimento da Lei e dos Profetas, e, conforme Lucas, eles, ali no Monte da Transfiguração, estavam falando com Jesus de seu “êxodo” (Lc 9.31). Sabemos que Jesus celebrou a Páscoa judaica, transformando-a em celebração do novo pacto (Mt 26.28; 1 Co 11.25, cumprindo Jr. 31.31-34)3. Juan Stam também chama a atenção para o fato dos temas do Êxodo, tais como, as pragas, as trombetas e as taças, estarem permeando todo o livro de Apocalipse, sendo, inclusive, uma chave para sua interpretação. E é interessante notar, por exemplo, que o texto de Apocalipse 15.3 mostra a visão dos vencedores da Besta cantando “o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro”, onde vemos mais que um paralelo tipológico substitutivo e complementar, mas uma verdadeira fusão como faces da mesma moeda. O “ano do Jubileu” (Lv 25.8-17), nunca teve seu cumprimento nos tempos do Antigo Testamento, devido à ganância dos ricos (cf. Jr 34.8-17), Mas Isaías profetizava que chegaria o tempo em que Deus poria seu Espírito sobre seu Servo para cumprir este jubileu.Stam observa que o dom do Espírito aparece aqui como pré-condição do jubileu escatológico. E, Jesus, em seu primeiro sermão, faz a leitura de Is 61, dizendo em seguida “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21, ver também Lc 7.22-23). A profecia se cumpriu em Cristo e podemos ver a extensão deste cumprimento na ação da Igreja após o derramamento do Espírito Santo.

Uma leitura de At 2 a luz de Is 61 revela como Lucas via a Igreja em seu Pentecostes como um sinal do cumprimento de Is 61, pois a Igreja é o Corpo de Cristo. Deus derrama seu Espírito sobre a Igreja, segue-se a proclamação da boa nova do Evangelho (At 2.14-42) e é praticada a justiça a favor dos pobres (2.43-47). Em At4.32-5.11, vemos a mesma relação entre a a ação do Espírito Santo e a Missão integral da Igreja, pois a comunidade recebe o Espírito (4.31) e em seguida cria boas novas para os pobres (4.32-37). Vemos, então, que Israel como nação, não cumpriu as exigências do ano do Jubileu, mas aquilo que foi prescrito a Israel se cumpre na Igreja, quando lemos que os crentes mais abastados venderam suas propriedades para distribuição do dinheiro entre os pobres e viúvas. Jesus, através de Seu Espírito, está atuando na Igreja para cumprimento das Escrituras com sua promessa do Espírito e do Jubileu (Is 61.1s), “se cumpriu” (Lc 4.21).4

Existe, sim, distinção entre Israel nacional e Israel espiritual. 1) Nacional: Mt 3.9,10; Mt 21.19 (Figueira como Nação); Mt 23.38; Lc 14.24; Rm 2.28,29; Rm 9.6; 2) Espiritual: Rm 2.28,29; 11.26 (remanescentes); Mt 19.28; Ef2.11-16; 3.6; Gl 3.7-9; 6.16; Fl. 3.3; Cl 2.11-14; 3.11). João, no livro de Apocalipse, também considera haver um Israel espiritual (remanescente) em distinção a um meramente nacional (2.9; 3.9).

A Igreja é a manifestação do remanescente de Israel. Notar que o primeiro gentio a se converter foi Cornélio. O que vale dizer que a Igreja era composta originariamente de crentes judeus, pelos remanescentes de Israel (Rm2.28,29; 3.3,4; 9.6-8,27,29; 11.15), os gentios foram acrescentados nesta mesma Oliveira. Neste sentido, há muito mais continuidade do que descontinuidade (Ef 2.18-20; 3.6; Gl 3.6-29). Não houve mudança no plano de Deus (Ef 1.3-4), mas revelação progressiva (Gl 6.16; 3.13,14). O Verdadeiro Israel é aquele que possui o Messias. Cristo é a Videira verdadeira (Jo 15.1), a videira é símbolo notório de Israel. O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido (Gl 3.1s). E não é sem propósito que o número de apóstolos da Igreja é idêntico ao número de tribos de Israel.

Os autores do Novo Testamento não são literalistas como os dispensacionalistas quanto à interpretação do Antigo Testamento. A restauração de Israel profetizada por Amós (9.11,12) é interpretada em termos espirituais no Novo Testamento como tendo cumprimento na realidade da Igreja (At 15.13-19). O mesmo se dá com a promessa de uma nova aliança que seria feita com o Israel rebelde, registrada em Jeremias 31.33,34, e que se aplica à Igreja cristã (ver Hb 8.6-12, onde o autor cita Jr 31.31-34). Um dos principais dogmas dodispensacionalismo, como observa George Ladd5, é que no milênio o templo judaico será reedificado e todo o sistema sacrificial reinstituído, de acordo com sua hermenêutica literalista das profecias do Antigo Testamento, em particular, a de Ezequiel 40-48. Ensinam que tais sacrifícios serão um memorial da morte de Cristo. Mas qualquer idéia de restauração dos sistemas sacrificiais quer memoriais ou não, opõe-se diretamente ao ensino de Hebreus 8.13, que afirma claramente que o sistema de culto do Antigo Testamento estava obsoleto e prestes a terminar. O Antigo Testamento não previu claramente como se cumpririam suas próprias profecias. Elas se cumpriram de forma bem imprevistas para o próprio Antigo Testamento e inesperadas para os judeus.

Veja mais um exemplo de como o Antigo Testamento é interpretado pelo Novo, ou seja, como ele é reinterpretado à luz do evento Cristo. Pois Mateus 2.15 cita Oséias 11.1 para provar que Jesus deve vir doEgito. Isto, no entanto, não é o que a profecia quer dizer no Antigo Testamento. Oséias diz: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho”. Em Oséias isto não é nem uma profecia, mas uma afirmação histórica, que Deus chamou Israel do Egito no Êxodo. Mas Mateus transforma esta declaração histórica sobre a nação de Israel em profecia que se cumpre em Cristo. Outro exemplo encontramos como Mateus aplica o texto de Is 53 a Jesus (Mt 8.17). E como Felipe interpreta os sofrimentos do Servo para o eunuco etíope como referindo-se a Jesus (At 8.30-35). No contexto do Antigo Testamento, Isaías 53 não é uma profecia do Messias. Messias significa ungido e designa o rei davídico ungido e vitorioso. Isto se vê claramente em Isaías 11.3-4, que descreve uma cena totalmente diferente, onde o Messias deve governar, esmagar o mal e matar o perverso. Como pode um governante vitorioso ser ao mesmo tempo a pessoa mansa e humilde que derrama a sua alma na morte (Is 53.12) É por isto que os discípulos de Jesus não compreenderam o fato de que ele devia sofrer e morrer. O Messias deve vencer e reinar, não ser vencido e esmagado. No Antigo Testamento não está claro que antes do Messias vir como vencedor para reinar deve primeiramente vir como o servo humilde sofredor. No Antigo Testamento, O servo sofredor nunca é chamado Messias ou filho de Davi e, às vezes, é identificado com Israel (Is 52.13; 49.5; 45.3). A hermenêutica literalista não funciona, porque literalmente, Isaías 53 não é uma profecia do Messias, mas de um servo anônimo do Senhor. As profecias do Antigo Testamento precisam ser interpretadas à luz do Novo Testamento para obter-se seu significado mais profundo.

Em Romanos 9.24-26, Paulo usa duas profecias que literalmente se referem à salvação futura de Israel e as aplica à Igreja, que formada de judeus e gentios, tornou-se o povo de Deus. A lei é substituída pelo Evangelho (Rm 6.14; 10.4); a circuncisão pelo Novo Nascimento, o batismo cristão (Cl 2.11; Rm 2.28,29 “verdadeiro judeu é aquele que é circuncidado no coração” e Fl. 3.3 que diz: “Porque nós é que somos a circuncisão...”); o sacerdócio levítico é substituído pelo sumo-sacerdócio de Cristo (Livro de Hebreus) e pelo sacerdócio universal de todos os crentes (1 Pe 2); a Jerusalém terrestre é substituída pela Nova Jerusalém celestial; a terra prometida pelo céu; o templo pelo Corpo de Cristo (Igreja) e Israel dá lugar a Igreja como povo de Deus (Ef2.14,16; Gl 6.16). A Igreja tem a mesma afinidade com a nação de Israel que o Novo Testamento tem com o Antigo Testamento ou que a graça tem com a lei. A cruz de Cristo provocou mudanças: 1. O Antigo Testamento foi superado pelo Novo Testamento. 2. A lei foi superada pela graça; 3. O sacrifício de animais foi superado pelo sangue do Cordeiro; 4. O Sábado foi superado pelo Dia do Senhor; 4. A Antiga Aliança foi superada pela Nova Aliança; 5. Israel (como nação) foi superada pela Igreja (Israel Espiritual). Dizer que o antigo que foi superado vai ser ainda reavivado é o mesmo que dizer que o sacrifício de Cristo não foi eficaz e suficiente. A Bíblia nada diz sobre o fim da era da Igreja e a restauração da era judaica.

Israel (Jr 3.1,20; Os 1.2; 2.16-20) e Igreja (Ef 5.23-32; Ap 19.7-9) são denominados: “esposa de Deus”. Teria Deus duas esposas?
Tabela 2 - Israel Prefigura a Igreja no Antigo Testamento
Antigo Testamento
Novo Testamento
Israel
Igreja como o Israel de Deus (Gl 6.16; Ef 2.12; Hb 8.8-10)
Circuncisão
A Verdadeira Circuncisão (Fp 3.3; Rm 2.29)
Batismo - Novo Nascimento (Cl 2.11; 1 Pe 3.21)
Terra
Céu
Jerusalém terrestre
Jerusalém Celestial
Lei
Evangelho (Rm 6.14; 10.4) – Graça
Templo
Corpo De Cristo
Moisés Legislador
Jesus O Novo Legislador (Mt 5.17-48; cf. 19.7).
Sacerdócio Levítico
Sumo Sacerdócio De Cristo
Sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2.9)
Páscoa Judaica Prefigura A Ceia Do Senhor (Ex 12.21-28)
Cristo Nossa Páscoa” (1 Co 5.7)
Páscoa Cristã - Ceia Do Senhor (1 Co 5.7,8; Lc 22.15; Mt 26.2-19; Mc 14.1, 12-16; Lc 22.7-15; Jo 2.13; 13.1)
Sacrifícios De Cordeiro
O Cordeiro De Deus
Cãntico De Moiséis
Cãntico De Moisés E Do Cordeiro
Virgem (2 Rs 19.21; Jr 14.17; 18.13; 31.4,21; Lm 1.15; 2.13; Am 5.2)
Virgem (2 Co 11.2)
Esposa (Is 62.5)
Esposa (2 Co 11.2; Ap 19.7; 21.2; 22.17)
Descendentes De Abraão
Descendentes De Abraão (Gl 3.29; 4.7) Os genuínos descendentes de Abraão são os que fazem as obras de Abraão. (Jo 8.37; comparar Gn 15.6 com Jo 8.39, 40, 42,47) Filhos naturais de Abraão são chamados de filhos de Satã. “Nem todos os filhos de Abraão são verdadeiros israelitas” (Rm 9.6)
Herdeiros Da Promessa
Herdeiros Da Promessa (Gl 3.29; Rm 8.17; Hb 11.7; 1 Pe 3.7) O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido. O verdadeiro israelita é aquele que possui o Messias. A herança de Abraão é uma pátria celestial (Hb 11.8,13-16, 39,40; 1 Pe 1.4).
Família De Deus
Membros Da Mesma E Única Família De Deus (Ef 2.19)
Povo De Deus (Ex 19.5-6)
Povo De Deus (1 Pe 2.9)
Judeus E Gentios Batizados Em Um Só Corpo (1 Co 12.13)
Filhos De Deus (Is 63.16; Os 11.1)
Filhos De Deus (Jo 1.10-13; Rm 8.15; 2 Co 6.18)
12 Tribos
12 apóstolos
Videira (Sl 80.8-15) e Oliveira (Jr 11.16) são símbolos de Israel (outros textos: Dt 8.8; 24.20; Dt 28.40; Jz 9.8; I Rs 18.32; Ne 8.15; Jó 15.33; Sl 52.8; 128.3; Is 17.6; Os 14.6; Zc 4.3-15; Jz 9.12,13; 1 Rs 4.25; Ez 15.2; 17.6-19)
A Videira Verdadeira (Jo 15.1) Os gentios crentes foram enxertados na mesma oliveira, na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18).
A restauração de Israel profetizada (Am 9.11,12)
Cumpre-se na realidade da Igreja (At 15.13-19)
Sábado
Domingo - O Dia do Senhor - desprovido daquela mentalidade legalista.
Antiga Aliança
Nova Aliança. Em Cristo, gentios unidos a judeus formando um só corpo (Jo 11.52)


Concluindo, o Novo Testamento vê as profecias do Antigo Testamento encontrando seu cumprimento em Cristo e sua Igreja. A Igreja Cristã foi edificada sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos judeus (Ef 2.14-16). Ela não constitui um segundo povo de Deus. Deus tem apenas um povo (Jo 10.16; Ef 2.14-16). Os gentios crentes foram enxertados na mesma oliveira, tomando parte na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18). Não existe um plano de salvação distinto para Israel. A esperança futura para Israel é aceitar o Cristo, sendo novamente reconduzido a mesma e única Árvore, a Oliveira, da qual fazem parte judeus e gentios crentes, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, onde não há mais lugar para distinções entre judeus e gentios, pois, em Cristo foi derrubada a parede de separação.

1 Chafer, L.S. Dispensationalism. Dallas Seminary Press, 1951, p. 107
2 Cox, William E. Biblical Studies in Final Things. Presbyterian and Reformed Publishing Co., New Jersey, 1980, p. 49.
3 Steuernagel, Valdir Raul, org. “A Missão da Igreja”. Belo Horizonte, 1994, parte A1. o primeiro capítulo: "A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO E A MISSÃO DA IGREJA"
4 Ibid
5 Ladd, George. “Milênio - Significado e Interpretações”, Ed. Luz para o Caminho, Campinas, 1985, p. 25


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