Escatologia de Wesley e transformação social


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Wesley, boa escatologia que conduz a missão integral.
(Autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello)

Wesley era otimista em relação à suficiência do poder da graça de Jesus não apenas para perdoar os pecados, mas para purificar-nos de toda injustiça e transformar as pessoas em novas criaturas (2 Co 5.17), que se tornam capazes de imitar a Deus como filhos amados (Ef 5.1), que não se conformam com este mundo, mas que experimentam a transformação através da renovação da mente, para o desfrute daquela que é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2); tornam-se também capazes de andarem no Espírito com vistas a não satisfazerem as concupiscências da carne (Gl 5.16), e de andarem na luz (1 Jo 1.7) e de serem sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16). Este otimismo não deve se restringir à transformação do indivíduo, mas deve também se estender a transformação da sociedade como um todo. Para Wesley a santificação do crente tem também o objetivo de promover a santificação do mundo.
Concordo com Runyon quando ele diz que a maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua habilidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que supere o presente. Pois, mesmo estando consciente das forças do mal, Wesley não as considera conseqüências inevitáveis do pecado original, mas exatamente aquilo que pode ser vencido. Sendo assim, sua teologia busca o poder criativo e transformador na vida neste mundo. Busca transformação no aqui-e-agora (Hb 6.1).i
Wesley disse, certa vez, o seguinte: “dê-me cem homens que não amem nada exceto Deus, que não odeiam nada exceto o pecado, e eu sacudirei o mundo para Deus; não importa se clérigos ou leigos, homens assim abaterão o reino de Satanás e construirão o Reino de Deus na Terra”. Howard Snyder declarou que Wesley via a graça de Deus atuando de maneira tão plena e abundante que ninguém deveria estabelecer limites para a ação do poder de Deus através da Igreja na era presente, vendo a Igreja como um poderoso instrumento de transformação e redenção pessoal e social, como um sério agente da graça divina no Mundo. Mas ressalvou que tal ênfase otimista era combinada e contrabalançada por Wesley com textos que apontam para a realidade do mal e que advertem para o juízo final. Pois, realismo bíblico requer que se mantenham juntos tanto a esperança quanto a expectativa de juízo e da ira vindoura que fazem parte do pacote escatológico. Snyder mostrou que Wesley procurava também combinar e sintetizar de maneira balanceada os aspectos presentes e futuros da salvação e as dimensões evangelísticas e proféticas do Evangelho do Reino.ii
Para Wesley salvação inclui santificação, que, por sua vez, inclui boas obras. Salvos pela graça para as boas obras (Ef 2.8-10). A fé sem obras é morta (Tg 2.26). A fé que importa é fé que atua pelo amor (Gl 5.6). E o amor se expressa e se prova com as obras. A Bíblia também diz que devemos desenvolver a nossa salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Pela graça e capacitação de Deus, homens e mulheres cristãs se tornam colaboradores de Deus. Snyder afirma que Wesley via a presente era como uma guerra entre o reino das trevas e o Reino de Deus, onde os cristão não seriam salvos da guerra, mas salvos para a batalha, salvos para lutarem o bom combate da guerra espiritual contra os principados e as potestades da maldade e da injustiça que operam neste mundo. Portanto, para Wesley, a vida cristã deve ser vivida á luz da eternidade, mas de maneira ativa e não passiva. Wesley vivia o presente à luz da eternidade no sentido de procurava fazer a obra do Reino de Deus aqui e agora impulsionado pela visão do futuro de Deus, enquanto se preparava também para a eternidade.iii
Wesley era um pós-milenista realista, pois sua confiança no trabalho da graça de Deus lhe conferia uma dinâmica e um otimismo em relação ao que Deus poderia realizar através do seu povo no tempo presente. Embora fosse realista devido a sua consciência da realidade e da natureza do pecado humano, Wesley mantinha viva uma esperança otimista baseado em sua confiança no poder regenerador da graça de Deus. Wesley aprendeu com Jesus a não usar nem a mais razoável das desculpas para justificar acomodação diante da “realidade” da natureza das coisas. O realismo não deve sufocar nossa confiança que está baseada no poder e na providência divina. Nós devemos crer em milagres! No poder de Deus para transformar a realidade e para restaurar o propósito original da natureza das coisas. Veja que é esta a lição que Jesus está tentando ensinar aos seus discípulos em João 4.35: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa”. De fato, faltavam quatro meses ainda para o período da colheita. A desculpa é bem razoável. Mas Jesus convida os discípulos a erguerem os olhos para enxergarem uma outra realidade, a de que os campos já estão prontos para a ceifa. Quando os discípulos levantam os olhos, o que é que eles enxergam? Uma multidão de samaritanos vindo para o encontro com Jesus, para serem evangelizados por ele. Não havia tarefa mais impossível para um cristão judeu do que tentar evangelizar um samaritano. Imagine hoje o que seria para um judeu tentar converter um palestino, por exemplo. Com Jesus o imponderável se torna realidade. A Igreja não deve se render e nem se conformar numa atitude de acomodação ao mundo e seu sistema, mas deve ser reativa e positiva no sentido de transformar-se a si mesma para tornar-se um instrumento de transformação nas mãos de Deus. A escatologia de Wesley também não lhe permita ficar parado numa atitude de mera contemplação. “Por que vocês estão olhando para as alturas?” Perguntaram os anjos aos discípulos em Atos 1.10. Sua escatologia também não lhe permitia ver a Igreja precipitadamente arrebatada para fora do cenário mundial.

iRunyon, Theodore. A Nova Criação: a teologia de João Wesley hoje. Tradução de Cristina Paixão Lopes. São Bernardo do Campo-SP: Editeo, 2002, 316 p.
iiSnyder, Howard A. The Radical Wesley and Patterns fo Church Renewal. Eugene, OR: Wipf and Stock Publishers, 1998, p. 146 e 152.
iiiIbid. p. 83 e 84.

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