segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Estilo de vida simples por amor a justiça do Reino

(Autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello)

A mensagem da cruz que mortifica a ganância e o individualismo e nos capacita a vivermos o ideal de uma vida simples, como Jesus, os apóstolos e Wesley, dentre tantos, a fim de que possamos praticar mais caridade, como ensinava o Wesley: “Faça todo o bem possível, por todos os meios possíveis, de todos os modos possíveis, em todos os lugares possíveis, em todas as ocasiões possíveis, a todas as pessoas possíveis, tanto quanto for possível".i E Dietrich Bonhoefer disse: “Bens materiais são dados para serem usados e não para serem acumulados. Avareza é idolatria”.ii Satanás é o deus do materialismo. Paulo deixou claro que “o amor do dinheiro é razão de todos os males” (1 Tm 6.10b). Randy Alcorn, em seu livro “Money Possessions and Eternity”, que é um verdadeiro clássico sobre cristianismo e finanças, é categórico ao afirmar que o que nós fazemos com o nosso dinheiro expressa de maneira clara a que Reino nós pertencemos.iii

Toda vez que usamos os nossos recursos de maneira egoísta e descuidada nós satisfazemos as metas de Satanás e frustramos as metas de Deus. “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24). O que acumula bens acha que está sendo sábio, mas Jesus disse que tal pessoa é tudo menos sábia. Pois o acumulador de bens está tentando cobrir completamente todas as suas necessidades matérias do futuro, de modo a tornar Deus desnecessário. Quer atingir o que se chama de independência financeira. Independência de quem? Será que além da independência da família e do governo, não estaria aí também um desejo consciente ou não de conquistar uma independência de Deus? O acumulo de bens não estaria minando nossa confiança em Deus? Não ensinava Deus o povo a apanhar apenas o Maná de cada dia? Certo que na sexta-feira, se podia pegar uma reserva para o sábado, mas não mais do que isto. Mas, quando o povo de Israel, desconfiado da providência divina, decidia acumular mais do que o suficiente, Deus fazia apodrecer com vermes (Ex 16.16-20). “Quem confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem” (Pv 11:28; Tg 5.1-6).

E, no Novo Testamento, Não nos ensinou Jesus a buscar também tão simplesmente o pão de cada dia (Mt 6.11)? Jesus nos advertiu contra a ansiedade em relação ao futuro, nos exortando a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.25-33). Buscando a justiça em primeiro lugar, devemos fazer o seguinte com abundâncias de bens que porventura possuirmos, como indicou Paulo: “suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade” (2 Co 8.14).

Alcorn fala ainda contra as desculpas que os cristãos dão para não contribuir como deveriam. Não podemos deixar de dar alegando estarmos preocupados com nosso futuro. Aqui, ele faz uma séria crítica a volumosa quantidade de dinheiro que tem sido aplicada em fundos de pensão, previdência privada e seguros, em especial no contexto americano. Ele afirma que se apenas um quarto dos gastos com fundo de previdência privada fossem aplicados na Igreja e em seus ministérios, a Missão da Igreja teria um impulso sem precedentes.iv E ainda sobre esta questão, em outra parte, ele questiona em que sentido a preocupação em garantir uma farta aposentadoria é diferente da atitude daquele rico que acumulava bens para desfrutar no final de sua vida e que Jesus chamou de louco por ter sido rico para consigo mesmo e pobre para com o Reino de Deus (Lc 12.16-21)? O medo que muitos cristãos tem a respeito do que lhes pode ocorrer no futuro tem roubado fundos da causa da justiça e do Evangelho do Reino de Deus, fundos estes que o próprio Deus tem providenciado para a causa do Reino.

Estaríamos nós obedecendo ao mandamento de amar o próximo como a nós mesmos quando nós acumulamos bens com vistas a uma aposentadoria gorda, quando nossos contemporâneos estão vivendo hoje em pobreza.v Se nós não podemos confiar em Deus para questões temporais e materiais, como teremos coragem de confiar nele para questões espirituais que dizem respeito ao destino eterno de nossas almas? Por que deveríamos buscar outra base para a nossa segurança futura, sendo que está que temos em Cristo já é tão plena e suficiente? Se nós cremos que Deus pôde ter nos criado, nos remido, e que irá nos ressuscitar no futuro para vivermos a eternidade ao seu lado nos céus, como é que não podemos confiar em sua palavra que diz que ele cuidará de nossas necessidades materiais?

A mensagem do Profeta Ageu é muito relevante para o tema em questão. Pois o povo estava dando desculpas para não ofertar, dizendo que o tempo para reconstruir a casa de Deus ainda não havia chegado. Deus ficou indignado com a atitude deles, pois viu que eles invertiam a ordem de prioridade. Não estavam buscando o Reino de Deus em primeiro lugar, mas estavam colocando a edificação da própria casa ou, poderíamos até dizer, do próprio reino, em primeiro lugar. Enquanto diziam que não era tempo para a casa de Deus, entendiam que era sempre tempo para suas próprias casas, que estavam sendo edificadas com muito emprenho e capricho. Deus, então, mostra que os insucessos de seus projetos estavam relacionados ao desprezo com que tratavam as coisas de Deus (Ag 1.2-11). Deixar de dar, deixar de ajudar, quando temos recursos e condições para tanto, alegando que não é tempo, é o mesmo que adiar a obediência. E, adiar a obediência é o mesmo que desobedecer. Se Deus nos chama hoje a compartilhar de nossos recursos com outro, nós não podemos responder: “Não podemos, porque não sabemos se iremos ter uma fonte de renda no futuro e não sabemos se iremos ou não precisar destes recursos no futuro”. Não podemos dizer isto, pois, como cristãos, nós bem sabemos de onde virão os recursos de nosso sustento futuro. Podemos não saber de que maneira estes recursos virão a nós, mas nós conhecemos a fonte de todas as bênçãos! Como a viúva pobre que, após ofertar, ficou sem nenhuma reserva, nós sabemos que Deus cuidará de nós, mesmo não havendo recursos visíveis.vi

Por mais paradoxal que possa parecer, a cruz gera felicidade e paz, pois a cruz traz libertação das ansiedades e temores, decorrentes da confiança advinda da resignação e entrega total de si mesmo aos propósitos do Deus soberano e amoroso que sabe como conduzir as nossas vidas. O morto descansa em Deus, sabe que sua vida e futuro estão nas boas mãos de Deus. Sabe também que nada pode separá-lo do amor de Deus que está em Cristo (Rm 8); “porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl 3:3) Quanta vida pode ser encontrada na cruz!

Examinemos as Palavras de Paulo e de Jesus sobre a alegria e a paz que encontramos em Cristo. Repare que alegria e paz de que eles falam não é deste mundo. O mundo desconhece e não compreende tais coisas, pois só concebe alegria e paz advindas das condições favoráveis e das realizações e conquistas terrenas. Paulo testemunhou ter aprendido a estar contente em toda e qualquer circunstância, tanto na fartura como na pobreza (Fp 4.11). Ele dava graças a Deus por tudo (1 Ts 5.18), pois sabia que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28). Sabemos que Paulo estava preso quando escreveu a carta aos Filipenses (Fp 1.7, 13, 14) e mesmo assim a tônica de sua mensagem era a alegria (Fp 3.1, 4.4, 10,11). Ele era odiado por muitos, havia sido açoitado muitas vezes, e passou por muita dor e sofrimento na vida, e que também foi abandonado por alguns de seus amigos mais chegados (2 Co 6.5; 11.27; 2 Tm 4.10). Além disto tudo, sabemos que ele era um homem doente e que vivia uma vida de solteiro (Gl 4.13, 14; 2 Co 12.7, 1 Co 9.5). Digo isto a propósito, pois existe muita gente vivendo infeliz por não ter encontrado a pessoa amada, portanto, esta poderia ser mais uma razão para Paulo se lamentar, mas, pelo contrário, diante de tantos dissabores, ele fala de alegria, paz e contentamento. Isto era possível, pois ele bem sabia que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28), e que mesmo tendo que passar por tantos infortúnios, nós, como cristãos, somos mais do que vencedores em todas estas adversidades (Rm 8.37). A alegria de Paulo vinha direto do Senhor e de seu amor e cuidado. Ele conseguia discernir a boa mão de Deus em todos os episódios de sua existência. Ele podia desfrutar sempre da boa companhia do Senhor. Este é o segredo que lhe permitiu cantar de alegria louvores a Deus, mesmo estando amarrado a um tronco, após ter sido açoitado (At 16.25). Um homem assim é mesmo indestrutível, pois ele não é escravo do sistema deste mundo, ele não ama ao mundo, pois para ele o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fp 1.21; 3.7-10). Ele dizia, “se vivemos para o Senhor vivemos, se morremos para o Senhor morremos, quer pois vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8). Ele aprendeu com Cristo que nos ensinou a aprender com a natureza, com os pássaros e com os vegetais. Parece que os índios, neste aspecto, tiraram lições preciosas da natureza para viverem vidas mais alegres, confiantes, despreocupadas e tranqüilas que os "civilizados". Veja que interessante registro de um diálogo entre um português e um velho e sábio índio brasileiro, registrado por Darcy Ribeiro em seu Livro “O Povo Brasileiro”:

"Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Porque vindes vós outros, maírs e pêros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e sua plumas. Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? - sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. - Ah! Retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? - Sim, disse eu, morre como os outros. Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? - Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. - Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para os vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados."vii

Se os índios, assim como as aves do céu e os lírios dos campos, podem viver despreocupadamente na confiança que tem na "terra que os nutre", nós bem podemos, como cristãos, viver vidas simples, sem ansiedade e sem ganância, a exemplo de Cristo, seus apóstolos e a exemplo de Wesley, como veremos mais adianteviii, vivendo em paz e alegria descansados nos cuidados do Pai celestial que nos ama e nos conduz (Mt 6.25s; Lc 12.22s; Fp 4.6). Podemos assim experimentar um estilo de vida que é libertador e inspirador, que emprestará credibilidade e autoridade a nossa mensagem, ao mesmo tempo, que nos concede muito mais consagração à busca do Reino de Deus e de sua justiça, dando ao Reino a devida primazia na busca solidária do bem comum.

iAlcorn, Randy C. “Money, possessions, and eternity”. Illinois: Tydale House Publishers, 2003. P. XV, Introdução. P. 326.

iiIbid.

iiiIbid.

ivIbid. P. 337.

vIbid. P. 334.

viIbid. P. 350.

viiRibeiro, Darcy. O povo brasileiro; a formação e o sentido do Brasil. 2.reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 476 páginas. P. 46.

viiiVeja o capítulo 4.9.2. que trata de Wesley como exemplo de um viver de modo simples com o intuito de praticar a caridade aos pobres na promoção da justiça do Reino de Deus.

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