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Conceitos Tribulacionistas


Questões Tribulacionistas e Segunda-Vinda de Cristo 

Apresentação
Uma crítica às escatologias extremistas do dispensacionalismo e da teologia da prosperidade
Questões Tribulacionistas - Introdução
Quantos Povos de Deus existem? (Dispensacionalismo)
As Sete Cartas do Apocalipse
A Igreja Passará Pela Grande Tribulação?
Laodicéia, a Sétima Carta do Apocalipse
Apocalipse 4 - Uma Porta Aberta
Apocalipse 5
Apocalipse 7
Sinais dos Tempos (áudio)
Sinais do Fim
O templo judaico deverá ser reconstruído de novo?
A Segunda Vinda de Cristo é iminente?
Falsos Profetas Marcam Data para o Retorno de Cristo
O Arrebatamento Será Secreto?
Setenta Semanas de Daniel
Conclusão a Respeito das Questões Tribulacionistas


Questões sobre o Milênio 

Controvérsias a Respeito do Reino de Deus
Questões para os pré-milenistas
Objeções ao Premilenismo
Milênio: Interpretação de Apocalipse 20
Milênio: A Natureza do Reino de Deus
O reino de Deus já foi inaugurado!
O Domingo de Ramos e a Natureza do Reino de Deus
Trindade, Reino de Deus e Missão Integral
O Mistério do Reino de Deus - “já e ainda não”
O Rei Jesus, seu Reino e a Missão da Igreja
O Exercício do senhorio de Cristo na era presente
A Escatologia, O Espírito Santo e A Missão da Igreja
O Espírito Santo, a Criação e a Nova Criação
O Espírito Santo, o Reino de Deus e a Missão de Cristo
O Espírito Santo, o Reino de Deus e a Missão da Igreja
Reino de Deus e a Missão da Igreja
A vida e a missão de Jesus como modelo para a Igreja
Realismo não deve sufocar o bom ânimo
O Reino, A Cruz e a Missão da Igreja
A Encarnação de Cristo e a Missão da Igreja
Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja
A Ressurreição de Cristo e a Missão da Igreja
Desafios sociais que a Igreja encara hoje
O desafio do cristianismo frente à esta sociedade de Consumo
Estilo de vida simples por amor a justiça do Reino
Resgatando a Cruz na espiritualidade evangélica
Os poderosos recursos da Palavra e Oração
As Duas Testemunhas de Apocalipse
Os três gemidos de Romanos 8
A Missão da Igreja e a conversão
Boas Obras para edificação do Reino
A Missão da Igreja e Envolvimento Político
Wesley, exemplo histórico do valor de uma boa escatologia
Wesley, exemplo de vida simples em prol da caridade
Wesley, o impacto social de sua escatologia
Wesley, sua luta contra a Escravidão
Wesley, grupos pequenos como modelo da cultura do Reino
Wesley e a participação dos leigos na expansão do Reino
Conclusões sobre o Milênio


Questões Tribulacionistas

Por Bispo José Ildo Swartele de Mello

Por mais de 19 séculos de história da Igreja, todos os cristãos, de todas as confissões cristãs, sem nenhuma exceção, eram pós-tribulacionistas, crendo que a Igreja passaria pela Grande Tribulação, e crendo também que a Segunda Vinda de Cristo seria um evento único, visível, que incluía o arrebatamento da Igreja.

Já o pré-tribulacionismo surgiu pela primeira vez na história em meados do século XIX com o surgimento do movimento conhecido como dispensacionalismo, que surgiu na Grã Bretanha, através do grupo denominado Irmãos de Plymouth, liderado por John Nelson Darby (1800-1882), que, entre outras coisas, cria e pregava que a Igreja não passaria pela Grande Tribulação e que a Segunda Vinda de Cristo se daria em duas fases: sendo a primeira secreta e invisível para o mundo, restrita ao arrebatamento da Igreja com a remoção do Espírito Santo da face da Terra, depois se seguiria a Grande Tribulação de 7 anos de duração, período em que se daria a conversão de Israel, vindo, depois disto, a segunda fase da Segunda Vinda de Cristo, de modo visível, de maneira gloriosa.

Existe também uma versão intermediária denominada mid-tribulacionismo, que combina elementos do pós-tribulacionismo ao afirmar que a Igreja passará pela Grande Tribulação, juntamente com elementos do pré-tribulacionismo, quando ensina que a Segunda Vinda do Senhor se dará em duas fases, sendo que a primeira seria no meio do período da Grande Tribulação. Pois para eles a Igreja sofre a Grande Tribulação promovida pela perseguição do anticristo, mas escapa, através de um arrebatamento da Ira de Deus que, segundo eles entendem, se abaterá sobre a terra na segunda metade da Grande Tribulação.

Neste capítulo, estarei me concentrando em refutar as bases dos argumentos pré-tribulacionistas, por se tratar do ponto de vista predominante no seio da Igreja evangélica latino-americana e por entender também que, à medida que eu for demonstrando a debilidade bíblica do pré-tribulacionismo, estarei também dando uma resposta aos mid-tribulacionistas. Veja abaixo um quadro comparativo entre os três pontos de vista que preparei com intuito de facilitar o entendimento deste debate por parte daqueles que talvez não estejam assim tão familiarizados com o tema:

Tabela” 1 – Comparativa – Questões Tribulacionistas

PÓS-TRIBULACIONISMO
  1. “Segunda vinda” após “a Grande Tribulação”
  2. A Igreja passa pela “a Grande Tribulação”
  3. O arrebatamento não é secreto
  4. Segunda vinda de Cristo em uma única fase, que inclui arrebatamento (ambos após a Grande Tribulação)
  5. Sinais antecedem a Segunda Vinda
  6. História: remonta aos tempos da Igreja primitiva
PRÉ-TRIBULACIONISMO
  1. “Segunda vinda” antes da “grande tribulação”
  2. A Igreja não passa pela “grande tribulação”
  3. Arrebatamento é secreto
  4. Segunda vinda de Cristo em duas fases: 1) Arrebatamento (antes da Gde. Trib.) 2) Vinda Manifesta a todos (após)
  5. Vinda iminente, nenhum sinal necessariamente antecede a Segunda Vinda.
  6. História: origem recente, meados do século XIX, com Darby (dispensacionalismo)
MID-TRIBULACIONISMO
  1. “Segunda vinda” no meio da “grande tribulação”
  2. A Igreja passa pela “a grande tribulação” - mas é removida antes do derramamento da ira de Deus
  3. Arrebatamento é secreto
  4. Segunda vinda de Cristo em duas fases: 1) arrebatamento (no meio da Gde. Trib. Ap 11.15-18) 2) Vinda Manifesta (após)
  5. Sinais antecedem a Segunda Vinda
  6. História: o mais recente de todos (início do século XX)

A seguir passarei a refutar as bases do pré-tribulacionismo, que se baseia numa interpretação literalista das Escrituras que faz uma dicotomia rígida e absoluta entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento, chegando a ponto de concluir que a Igreja é um parêntese no plano de Deus e imprevisto nas Escrituras do Antigo Testamento. O que tem implicações para o conceito do Reino de Deus e da Missão da Igreja, pois os dispensacionalistas entendem que, se Israel tivesse aceitado o Reino oferecido pelo Messias, Jesus teria restaurado e ampliado o Reino político de Israel à semelhança do reinado de Davi, mas com a rejeição, o relógio dos registros das realizações proféticas é paralisado, os cumprimentos proféticos ficam suspensos, o Reino fica adiado até a Segunda Vinda de Cristo, e a Igreja surge como um parêntese neste intervalo da “partida” de Deus com Israel. Partida esta que teria seu reinício com o arrebatamento da Igreja e a remoção do Espírito Santo, que abriria portas para o aparecimento do anticristo e a inauguração de uma nova dispensação, que eles denominam de dispensação da Grande Tribulação. Tudo isto baseado principalmente na crença de que Deus tem dois povos: Israel e a Igreja. Tendo dois planos e destinos distintos, um para cada um de seus dois povos.

Quantos povos de Deus existem?


O ensino da Igreja, em todos os tempos até John Darby, 1830, conhecido como pai do dispensacionalismo, foi de que Deus tem apenas um povo e de que a Igreja fazia parte do plano eterno de Deus, cujo intento era reunir judeus e gentios em um único povo. A nação de Israel no A.T. era um tipo para a Igreja do N.T. e de que a Igreja substituiu Israel como povo de Deus, não no sentido de excluir os judeus, mas no sentido de incluir também os gentios debaixo do senhorio redentor do Messias (Ef 2.12-22; Os 1.9; 2.25; Jo 1.10-12; 9.17; 12.14; Rm 9.24, 25). A Igreja é agora “o Israel de Deus” (Gl 6.16), composta por judeus (o remanescente de Israel, os judeus que aceitam o Cristo) e por gentios crentes.

O Evangelho do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo é a única esperança de salvação para os judeus, assim como o é para os gentios. Pois sabemos que Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11), os judeus só podem ser salvos se aceitarem a Cristo como único e suficiente Salvador durante a era presente. Pois só há um caminho e um único nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos. Após o soar da última trombeta não haverá segunda oportunidade para ninguém, tanto incrédulos judeus como gentios se lamentarão naquele dia (Ap 1.7), clamarão para que as pedras caiam sobre eles e buscarão a morte sem que a possam encontrar. Sendo enganosa a idéia de uma segunda oportunidade de salvação após o arrebatamento da Igreja (Mt 25.1-13) e também é falsa a idéia de um plano de salvação distinto para Israel.

Os dispensacionalistas afirmam: “O dispensacionalismo crê que através dos tempos Deus tem dois distintos propósitos: um relativo à terra, com pessoas terrestres e envolvendo objetivos terrestres, que é o judaísmo; enquanto o outro está relacionado ao céu, com um povo celestial, envolvendo objetivos celestiais, que é o cristianismo”3 Afirmam, ainda, que a Igreja é um parêntesis no plano de Deus, pois dizem que o relógio profético parou devido à rejeição de Israel o que possibilitou, segundo eles, o surgimento da Igreja, fazendo do período da Igreja, um período de intervalo no “jogo” da história de Deus com Israel, no mundo. Mas as Escrituras não apóiam tal invenção. Pois a Igreja não é um instrumento temporário de Deus, não é um arranjo temporário e de caráter secundário devido à rejeição de Israel e nem é um parêntesis no plano de Deus. Pois Paulo deixa claro que a Igreja faz parte do plano eterno de Deus (Ef 1.22,23). Cox diz que alguns Dispensacionalistas chegam a afirmar que se os judeus tivessem aceitado a Cristo, a cruz não teria sido necessária.4

Nada existe no A.T. e no N.T. que indique um intervalo de tempo (em que o relógio profético fica parado) entre a penúltima e a última semana da profecia de Daniel, antes o contrário (Cl 1.13). Veremos, mais adiante, quando tratarmos da interpretação das 70 Semanas de Daniel, algo mais sobre este ponto em questão.

Paulo usa 14 capítulos em Romanos para provar que nunca existiu um plano de salvação para judeus e outro para os gentios, mas, ao contrário, sempre houve um único plano eterno incluindo judeus e gentios (Gn 17.5; Rm 4.11, 12, 16, 17, 23, 24). Paulo não diz que Deus mudou o seu plano original, antes, ele afirma que a Igreja sempre foi o plano de Deus (Ef 3.4-6, 21, 26, 31; Gl 3.8, 16; ver também Gn 3.15). O N.T. fala da lei, da circuncisão e do próprio povo de Israel em termos simbólicos, como sendo sombras da realidade que se encontra na Igreja (Cl 2.17; Hb 10.1; Ef 1.22,23). Israel era um tipo da Igreja como povo de Deus; a terra prometida um tipo do céu (a Nova Terra); a circuncisão, ritual de iniciação do judaísmo, um tipo do novo nascimento e do batismo, ritual de iniciação do cristianismo; a lei um tipo e um aio para o evangelho, pois a lei não tinha um fim em sim mesma, mas encaminhava-se para Cristo e encontrou seu fim, cumprimento e plenitude no Evangelho do Reino; e o templo um tipo do “Corpo de Cristo” (Hb 8.5; 9.9, 24; 10.9,16,19-21; 11.9-16,39,40; 12.18-24; 13.10-14; Cl 2.11,12). Os cristãos são chamados de “eleitos de Deus” (Rm 9.33). A Igreja foi profetizada no A.T.: (Jo 8.56; At 3.22-24; 1 Pe 2.9 comparar com Ex 19.5,6; Hb 2.12 comparar com Sl 22.22). A Igreja é denominada e tratada pelos apóstolos como sendo o “Israel de Deus” (Gl 6.16; 3.6-16; 1 Pe 2.6s comparar com Ex 19.5,6; Rm 2.11, 28, 29; Jo 15.1; Rm 11.17-24; Ef 2.12-22; 3.6; 4.4; Jo 10.16; Rm 9.24, 25 comparar com Os 2.23.

Concordo com Juan Stam, quando ele observa que, segundo Mateus, a vida e o ministério de Jesus estão repletos de analogias a Moisés e ao Êxodo, dizendo que ao nascer o novo Moisés, um novo faraó promove um feroz infanticídio; Ele nota também que Jesus, após descer ao Egito, qual novo José e novo Israel, ele sai do Egito e retorna para Canaã: “Do Egito chamei o meu Filho” (Mt 2.15, cf. Os 11.1). O paralelo não para por aí, pois, no Sermão do Monte (novo Sinai), Jesus se apresenta como o novo Legislador do povo de Deus (Mt 5.17-48; cf. 19.7) e, no Monte da Transfiguração, Moisés e Elias, o continuador e o resgatador do legado de Moisés, se fazem presentes, como que representando a Lei e os Profetas, que testificam que Jesus é o Cristo, cumprimento da Lei e dos Profetas, e, conforme Lucas, eles, ali no Monte da Transfiguração, estavam falando com Jesus de seu “êxodo” (Lc 9.31). Sabemos que Jesus celebrou a Páscoa judaica, transformando-a em celebração do novo pacto (Mt 26.28; 1 Co 11.25, cumprindo Jr. 31.31-34)5.

Juan Stam também chama a atenção para o fato dos temas do Êxodo, tais como, as pragas, as trombetas e as taças, estarem permeando todo o livro de Apocalipse, sendo, inclusive, uma chave para sua interpretação. E é interessante notar, por exemplo, que o texto de Apocalipse 15.3 mostra a visão dos vencedores da Besta cantando “o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro”, onde vemos mais que um paralelo tipológico substitutivo e complementar, mas uma verdadeira fusão como faces da mesma moeda. O “ano do Jubileu” (Lv 25.8-17), nunca teve seu cumprimento nos tempos do Antigo Testamento, devido à ganância dos ricos (cf. Jr 34.8-17), Mas Isaías profetizava que chegaria o tempo em que Deus poria seu Espírito sobre seu Servo para cumprir este jubileu. Stam observa que o dom do Espírito aparece aqui como pré-condição do jubileu escatológico. E, Jesus, em seu primeiro sermão, faz a leitura de Is 61, dizendo em seguida “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21, ver também Lc 7.22-23). A profecia se cumpriu em Cristo e podemos ver a extensão deste cumprimento na ação da Igreja após o derramamento do Espírito Santo.

Uma leitura de At 2 a luz de Is 61 revela como Lucas via a Igreja em seu Pentecostes como um sinal do cumprimento de Is 61, pois a Igreja é o Corpo de Cristo. Deus derrama seu Espírito sobre a Igreja, segue-se a proclamação da boa nova do Evangelho (At 2.14-42) e é praticada a justiça a favor dos pobres (2.43-47). Em At 4.32-5.11, vemos a mesma relação entre a a ação do Espírito Santo e a Missão integral da Igreja, pois a comunidade recebe o Espírito (4.31) e em seguida cria boas novas para os pobres (4.32-37). Vemos, então, que Israel como nação, não cumpriu as exigências do ano do Jubileu, mas aquilo que foi prescrito a Israel se cumpre na Igreja, quando lemos que os crentes mais abastados venderam suas propriedades para distribuição do dinheiro entre os pobres e viúvas. Jesus, através de Seu Espírito, está atuando na Igreja para cumprimento das Escrituras com sua promessa do Espírito e do Jubileu (Is 61.1s), “se cumpriu” (Lc 4.21).6

Existe, sim, distinção entre Israel nacional e Israel espiritual. 1) Nacional: Mt 3.9,10; Mt 21.19 (Figueira como Nação); Mt 23.38; Lc 14.24; Rm 2.28,29; Rm 9.6; 2) Espiritual: Rm 2.28,29; 11.26 (remanescentes); Mt 19.28; Ef 2.11-16; 3.6; Gl 3.7-9; 6.16; Fl. 3.3; Cl 2.11-14; 3.11). João, no livro de Apocalipse, também considera haver um Israel espiritual (remanescente) em distinção a um meramente nacional (2.9; 3.9).

A Igreja é a manifestação do remanescente de Israel. Notar que o primeiro gentio a se converter foi Cornélio. O que vale dizer que a Igreja era composta originariamente de crentes judeus, pelos remanescentes de Israel (Rm 2.28,29; 3.3,4; 9.6-8,27,29; 11.15), os gentios foram acrescentados nesta mesma Oliveira. Neste sentido, há muito mais continuidade do que descontinuidade (Ef 2.18-20; 3.6; Gl 3.6-29). Não houve mudança no plano de Deus (Ef 1.3-4), mas revelação progressiva (Gl 6.16; 3.13,14). O Verdadeiro Israel é aquele que possui o Messias. Cristo é a Videira verdadeira (Jo 15.1), a videira é símbolo notório de Israel. O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido (Gl 3.1s). E não é sem propósito que o número de apóstolos da Igreja é idêntico ao número de tribos de Israel.

Os autores do Novo Testamento não são literalistas como os dispensacionalistas quanto à interpretação do Antigo Testamento. A restauração de Israel profetizada por Amós (9.11,12) é interpretada em termos espirituais no Novo Testamento como tendo cumprimento na realidade da Igreja (At 15.13-19). O mesmo se dá com a promessa de uma nova aliança que seria feita com o Israel rebelde, registrada em Jeremias 31.33,34, e que se aplica à Igreja cristã (ver Hb 8.6-12, onde o autor cita Jr 31.31-34). Um dos principais dogmas do dispensacionalismo, como observa George Ladd7, é que no milênio o templo judaico será reedificado e todo o sistema sacrificial reinstituído, de acordo com sua hermenêutica literalista das profecias do Antigo Testamento, em particular, a de Ezequiel 40-48. Ensinam que tais sacrifícios serão um memorial da morte de Cristo. Mas qualquer idéia de restauração dos sistemas sacrificiais quer memoriais ou não, opõe-se diretamente ao ensino de Hebreus 8.13, que afirma claramente que o sistema de culto do Antigo Testamento estava obsoleto e prestes a terminar. O Antigo Testamento não previu claramente como se cumpririam suas próprias profecias. Elas se cumpriram de forma bem imprevistas para o próprio Antigo Testamento e inesperadas para os judeus.

Veja mais um exemplo de como o Antigo Testamento é interpretado pelo Novo, ou seja, como ele é reinterpretado à luz do evento Cristo. Pois Mateus 2.15 cita Oséias 11.1 para provar que Jesus deve vir do Egito. Isto, no entanto, não é o que a profecia quer dizer no Antigo Testamento. Oséias diz: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho”. Em Oséias isto não é nem uma profecia, mas uma afirmação histórica, que Deus chamou Israel do Egito no Êxodo. Mas Mateus transforma esta declaração histórica sobre a nação de Israel em profecia que se cumpre em Cristo. Outro exemplo encontramos como Mateus aplica o texto de Is 53 a Jesus (Mt 8.17). E como Felipe interpreta os sofrimentos do Servo para o eunuco etíope como referindo-se a Jesus (At 8.30-35). No contexto do Antigo Testamento, Isaías 53 não é uma profecia do Messias. Messias significa ungido e designa o rei davídico ungido e vitorioso. Isto se vê claramente em Isaías 11.3-4, que descreve uma cena totalmente diferente, onde o Messias deve governar, esmagar o mal e matar o perverso. Como pode um governante vitorioso ser ao mesmo tempo a pessoa mansa e humilde que derrama a sua alma na morte (Is 53.12). É por isto que os discípulos de Jesus não compreenderam o fato de que ele devia sofrer e morrer. O Messias deve vencer e reinar, não ser vencido e esmagado.

No Antigo Testamento não está claro que antes do Messias vir como vencedor para reinar deve primeiramente vir como o servo humilde sofredor. No Antigo Testamento, O servo sofredor nunca é chamado Messias ou filho de Davi e, às vezes, é identificado com Israel (Is 52.13; 49.5; 45.3). A hermenêutica literalista não funciona, porque literalmente, Isaías 53 não é uma profecia do Messias, mas de um servo anônimo do Senhor. As profecias do Antigo Testamento precisam ser interpretadas à luz do Novo Testamento para obter-se seu significado mais profundo.

Em Romanos 9.24-26, Paulo usa duas profecias que literalmente se referem à salvação futura de Israel e as aplica à Igreja, que formada de judeus e gentios, tornou-se o povo de Deus. A lei é substituída pelo Evangelho (Rm 6.14; 10.4); a circuncisão pelo Novo Nascimento, o batismo cristão (Cl 2.11; Rm 2.28,29 “verdadeiro judeu é aquele que é circuncidado no coração” e Fl. 3.3 que diz: “Porque nós é que somos a circuncisão...”); o sacerdócio levítico é substituído pelo sumo-sacerdócio de Cristo (Livro de Hebreus) e pelo sacerdócio universal de todos os crentes (1 Pe 2); a Jerusalém terrestre é substituída pela Nova Jerusalém celestial; a terra prometida pelo céu; o templo pelo Corpo de Cristo (Igreja) e Israel dá lugar a Igreja como povo de Deus (Ef 2.14,16; Gl 6.16). A Igreja tem a mesma afinidade com a nação de Israel que o Novo Testamento tem com o Antigo Testamento ou que a graça tem com a lei. A cruz de Cristo provocou mudanças: 1. O Antigo Testamento foi superado pelo Novo Testamento. 2. A lei foi superada pela graça; 3. O sacrifício de animais foi superado pelo sangue do Cordeiro; 4. O Sábado foi superado pelo Dia do Senhor; 4. A Antiga Aliança foi superada pela Nova Aliança; 5. Israel (como nação) foi superada pela Igreja (Israel Espiritual). Dizer que o antigo que foi superado vai ser ainda reavivado é o mesmo que dizer que o sacrifício de Cristo não foi eficaz e suficiente. A Bíblia nada diz sobre o fim da era da Igreja e a restauração da era judaica.

Israel (Jr 3.1,20; Os 1.2; 2.16-20) e Igreja (Ef 5.23-32; Ap 19.7-9) são denominados: “esposa de Deus”. Teria Deus duas esposas?

Tabela 2 - Israel Prefigura a Igreja no Antigo Testamento
Antigo Testamento
Novo Testamento
Israel
Igreja como o Israel de Deus (Gl 6.16; Ef 2.12; Hb 8.8-10)
Circuncisão
A Verdadeira Circuncisão (Fp 3.3; Rm 2.29)
Batismo - Novo Nascimento (Cl 2.11; 1 Pe 3.21)
Terra
Céu
Jerusalém terrestre
Jerusalém Celestial
Lei
Evangelho (Rm 6.14; 10.4) – Graça
Templo
Corpo De Cristo
Moisés Legislador
Jesus O Novo Legislador (Mt 5.17-48; cf. 19.7).
Sacerdócio Levítico
Sumo Sacerdócio De Cristo
Sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2.9)
Páscoa Judaica Prefigura A Ceia Do Senhor (Ex 12.21-28)
“Cristo Nossa Páscoa” (1 Co 5.7)
Páscoa Cristã - Ceia Do Senhor (1 Co 5.7,8; Lc 22.15; Mt 26.2-19; Mc 14.1, 12-16; Lc 22.7-15; Jo 2.13; 13.1)
Sacrifícios De Cordeiro
O Cordeiro De Deus
Cãntico De Moiséis
Cãntico De Moisés E Do Cordeiro
Virgem (2 Rs 19.21; Jr 14.17; 18.13; 31.4,21; Lm 1.15; 2.13; Am 5.2)
Virgem (2 Co 11.2)
Esposa (Is 62.5)
Esposa (2 Co 11.2; Ap 19.7; 21.2; 22.17)
Descendentes De Abraão
Descendentes De Abraão (Gl 3.29; 4.7) Os genuínos descendentes de Abraão são os que fazem as obras de Abraão. (Jo 8.37; comparar Gn 15.6 com Jo 8.39, 40, 42,47) Filhos naturais de Abraão são chamados de filhos de Satã. “Nem todos os filhos de Abraão são verdadeiros israelitas” (Rm 9.6)
Herdeiros Da Promessa
Herdeiros Da Promessa (Gl 3.29; Rm 8.17; Hb 11.7; 1 Pe 3.7) O verdadeiro herdeiro de Abraão é o que tem fé no Messias prometido. O verdadeiro israelita é aquele que possui o Messias. A herança de Abraão é uma pátria celestial (Hb 11.8,13-16, 39,40; 1 Pe 1.4).
Família De Deus
Membros Da Mesma E Única Família De Deus (Ef 2.19)
Povo De Deus (Ex 19.5-6)
Povo De Deus (1 Pe 2.9)
Judeus E Gentios Batizados Em Um Só Corpo (1 Co 12.13)
Filhos De Deus (Is 63.16; Os 11.1)
Filhos De Deus (Jo 1.10-13; Rm 8.15; 2 Co 6.18)
12 Tribos
12 apóstolos
Videira (Sl 80.8-15) e Oliveira (Jr 11.16) são símbolos de Israel (outros textos: Dt 8.8; 24.20; Dt 28.40; Jz 9.8; I Rs 18.32; Ne 8.15; Jó 15.33; Sl 52.8; 128.3; Is 17.6; Os 14.6; Zc 4.3-15; Jz 9.12,13; 1 Rs 4.25; Ez 15.2; 17.6-19)
A Videira Verdadeira (Jo 15.1) Os gentios crentes foram enxertados na mesma oliveira, na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18).
A restauração de Israel profetizada (Am 9.11,12)
Cumpre-se na realidade da Igreja (At 15.13-19)
Sábado
Domingo - O Dia do Senhor - desprovido daquela mentalidade legalista.
Antiga Aliança
Nova Aliança. Em Cristo, gentios unidos a judeus formando um só corpo (Jo 11.52)


Concluindo, o Novo Testamento vê as profecias do Antigo Testamento encontrando seu cumprimento em Cristo e sua Igreja. A Igreja Cristã foi edificada sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos judeus (Ef 2.14-16). Ela não constitui um segundo povo de Deus. Deus tem apenas um povo (Jo 10.16; Ef 2.14-16). Os gentios crentes foram enxertados na mesma oliveira, tomando parte na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18). Não existe um plano de salvação distinto para Israel. A esperança futura para Israel é aceitar o Cristo, sendo novamente reconduzido a mesma e única Árvore, a Oliveira, da qual fazem parte judeus e gentios crentes, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, onde não há mais lugar para distinções entre judeus e gentios, pois, em Cristo foi derrubada a parede de separação.

A Grande Tribulação


Os pré-tribulacionistas afirmam que Deus não permitirá que a Igreja sofra no período da Grande Tribulação. Mas, na Bíblia, não existe nenhum versículo que ensine que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, nada existe também sobre uma Segunda Vinda de Cristo em duas fases ou etapas, separadas por sete anos de Grande Tribulação, e também não há nada sobre um arrebatamento “secreto”, pois não há nada de secreto e silencioso nos relatos que descrevem o arrebatamento da Igreja (1 Ts 4.16-17; Mt 24.31). Outra incongruência deste ponto de vista se pode ver na idéia de um arrebatamento para tirar a Igreja e o Espírito Santo da Terra antes da manifestação do anticristo. Se este fosse o caso, o anticristo seria anti o quê? Isto de remover a Igreja e o Espírito Santo e aí sim termos a conversão de Israel num período curto de 7 anos, é uma ofensa ao ministério da Igreja e do Espírito Santo. Um reducionismo da Missão da Igreja e do Espírito injustificável que promove escapismo e alienação, além de ferir o bom senso. Agora, vamos nos concentrar aqui mais em demonstrar que a Bíblia ensina claramente que a Igreja passará pela Grande Tribulação.

Jesus deixou claro que o primeiro requerimento para se ser cristão é “tomar a cruz” (Mc 8.34). Jesus disse também que “não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.20, cf 13.16, Jo 16.33), devendo o discípulo sempre ter a consciência de que, seguir o Servo Sofredor, que na cruz morreu, é se identificar com ele em todos os sentidos, não somente na glória da sua ressurreição, mas também na dor de seu sofrimento na cruz. E Paulo deixa bem claro que o cristão possui uma sina de sofrimento quando diz: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nEle” (Fl. 1.29) Paulo exortava os cristãos a permanecerem firmes na fé “mostrando que, através de muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). São numerosos os textos que falam a respeito do sofrimento da Igreja e do cristão.8

A Igreja em todos os tempos sofreu perseguições fortíssimas. Como é que os cristãos primitivos poderiam entender que Deus não permitiria que a Igreja passasse pela Grande Tribulação sendo eles próprios vítimas de toda sorte de crueldades e sofrimentos, quando cristãos eram mortos por amor a Cristo aos milhares? Os primeiros séculos da era cristã são conhecidos como a Era dos Mártires. O Apóstolo Paulo não nos dá esperança de escape ao sofrimento, pelo contrário, ele diz aos cristãos de Roma: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou.” (Rm 8.35-37). Paulo ainda diz: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 2.12). O livro de Apocalipse tem como propósito confortar e animar cristãos que estão em grande tribulação (Ap 1.9; 2.3,9,10,13; 6.9s; 7.9-17; 11.1-10; 12.11, 17; 13.7,8; 14.1-5,13).

O apóstolo Paulo ensina que a Segunda Vinda de Cristo e a nossa reunião com ele, reunião esta que se dá através do arrebatamento, conforme 1 Tessalonicense 4.16,17,9 “não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus.” (2 Ts 3b,4). Os próprios dispensacionalistas concordam que o Anticristo se revela dando início ao período da Grande Tribulação. Portanto, o apóstolo nos garante que a Segunda Vinda de Cristo e a nossa reunião com ele (o arrebatamento) só se dará após a revelação do “homem da iniqüidade”. O contexto é claro: os cristãos tessalonicenses estavam sendo perturbados por aqueles que ensinavam que Cristo poderia vir a qualquer instante e que até já havia se dado a vinda de Cristo (2 Ts 2.2). Sabemos que o que os tessalonicenses esperavam era a Segunda Vinda de Cristo que desencadearia o arrebatamento da Igreja (2Ts 1.10). Em outras palavras, aqueles cristãos tinham a expectativa do arrebatamento conforme foram instruídos pelo apóstolo (1 Ts 4.13-18). Paulo, então, procura acalmá-los dizendo que são falsos os ensinos que dizem que o arrebatamento chegou (v.2), pois isto não acontecerá sem que primeiro ocorram a apostasia e a revelação do iníquo, o que é o mesmo que dizer que o arrebatamento da Igreja não se dará antes do período da Grande Tribulação. Ao contrário, Paulo lembra que a Segunda Vinda de Cristo e a nossa reunião com ele (v.1) se dará posteriormente a manifestação do Anticristo: “então de fato será revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca, e o destruirá, pela manifestação de sua vinda” (v.8). Paulo não nos informa o que ou quem é que está detendo a manifestação do iníquo (v.6,7) mas, certamente, como vimos não se trata do arrebatamento da Igreja, pois Paulo deixa claro que o arrebatamento só se dará após a revelação do Anticristo.10

O ensinamento de Paulo se encaixa perfeitamente com o ensino de Cristo, que afirmou: “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (Mt 24.29-31). Cristo ensina claramente que sua Segunda Vinda, o que inclui a nossa conseqüente reunião com ele, só se dará “logo em seguida à tribulação daqueles dias”. O ensino de Jesus e de Paulo era pós-tribulacionista. Os tessalonicenses não poderiam estar esperando um arrebatamento para os livrar da Grande Tribulação, pois eles estavam instruídos a respeito de que o desígnio de Deus para os cristãos é de tribulação: “a fim de que ninguém se inquiete com estas tribulações. Porque vós mesmos sabeis que estamos designados para isto” (1 Ts 3.3, ver também v.7; 2 Ts 1.4-7); como ensinou Jesus: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim... Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros... Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele que me enviou... Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis. Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus... Esta coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. (Jo 15.18, 20, 21; 16.1,2,33).

Ainda sobre 2 Tessalonicenses 2, recomendo a leitura dos seguintes textos para se compreender melhor o significado que o Novo Testamento dá à expressão “dia do Senhor” (v.2): 1 Co 1.8; 5.5; 2 Co 1.14; 1 Ts 5.2; Fl. 1.10; 2.16; 2 Pe 3.10, 12; Ap 16.14 e Lc 17.24. Qualquer tentativa de distinguir entre o Dia do Senhor e o Dia de Cristo e encontrá-los em dois diferentes programas escatológicos, uma para Israel e outro para a Igreja está fadada ao fracasso, pois, para os cristãos do Novo Testamento, Jesus é o Senhor! (Fl. 2.11; Rm 10.9). Ladd diz que a vinda de Cristo, para reunir seu povo, tanto os vivos como os mortos, para si (1 Ts 4.13-17), é chamada de o Dia do Senhor (1 Ts 5.2), como o é sua vinda para julgar os infiéis (2 Ts 2.2).11

Contra a posição pré-tribulacionista temos ainda que nenhum texto tem sido encontrado em apoio a esse ponto de vista, nem nos escritos dos primeiros séculos, nem em escritos posteriores, até 1830, com Darby. Entretanto, inúmeros textos antigos atestam que o ensino cristão primitivo era de que a Igreja iria passar pela Grande Tribulação. George E. Ladd concluiu seus estudos sobre o período patrístico afirmando: “Cada pai da Igreja que trata do assunto prevê que a Igreja sofrerá às mãos do Anticristo”. 12
O próprio Walvoord, um dos maiores expoentes do dispensacionalismo, chega a admitir que “pré-tribulacionismo”, i.é., uma vinda de Cristo antes da grande tribulação da Igreja, não é explicitamente ensinada na Escritura.13 Ladd comenta dizendo que o fato é que a esperança da Igreja não é um evento secreto, não visto pelo Mundo. A esperança cristã é o aparecimento visível da glória de Deus, no retorno de Cristo (Tt 2.13), a revelação ao mundo de Jesus como Senhor, quando ele vier com os anjos do seu poder (2 Ts 1.7).

Um texto usado pelos pré-tribulacionistas em defesa de que a Igreja não passará pela grande tribulação é o de Apocalipse 3.10: “Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei (tereo) da (ek) hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.” Erickson faz uma excelente exegese do texto dizendo que o sentido primário da preposição ek, “sair de dentro”, refuta a interpretação pré-tribulacionista do versículo. Para a Igreja emergir de dentro da hora do teste, deve ter estado presente durante aquele teste. O mesmo se dá em Apocalipse 7.14, onde os mártires saem “fora da (ek) grande tribulação”. A pergunta importante é por que João não empregou apo em Apocalipse 3.10, que pelo menos permitiria uma interpretação pré-tribulacionista. “Outra questão importante em Apocalipse 3.10”, conforme ressalta Erickson, “é o significado do verbo tereo. Quando está em vista uma situação de perigo, tereo significa ‘guardar’. O perigo está implícito na idéia de guardar. Sendo assim, se a Igreja está no céu nesta ocasião, conforme o ensino pré-tribulacionista, então, qual poderia ser o perigo que necessita a mão protetora de Deus sobre ela? Em João 17.15, tereo também ocorre juntamente com a preposição ek: ‘Não peço que os tires (airo) do (ek) mundo; e, sim, que os guardes (tereo) do (ek) mal’”.14 Portanto, em João 17.15, as palavras de Jesus nos ensinam que podemos ser guardados do mal sem necessariamente sermos tirados do mundo. O povo hebreu foi guardado das pragas que caíram sobre o Egito, mesmo estando dentro do Egito. Eles não precisaram ser arrebatados para serem guardados das pragas. É preciso também que se faça distinção entre “ira de Deus” e “perseguição do Anticristo”. Concordamos que a Bíblia ensina que seremos protegidos da ira de Deus (1 Ts 1.9-10; 5.9; Rm 5.9), mas, como já vimos, não é necessário ser arrebatado para ser guardado do mal.

Portanto, não existe nenhuma base bíblica para ensinar que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. Mas, ao contrário, como vimos, existem dezenas de textos que ensinam que a Igreja passará pela Grande Tribulação. Todos os registros históricos até o advento do dispensacionalismo (1830) revelam um ponto de vista pós-tribulacionista e não existe sequer um único texto neste longo período de quase dois mil anos de história da Igreja que registre a idéia pré-tribulacionista de um arrebatamento secreto para livrar a Igreja da Grande Tribulação.

Sendo assim, concluímos que a Igreja não só passará pela Grande Tribulação como já passou e, em muitos lugares e sentidos, tem passado por ela. E, baseados em Ap 20, podemos também concluir que haverá uma feroz investida satânica contra os discípulos de Cristo no final dos tempos, o que concorda também com o texto de Ap 12:12, que diz “ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta”.

A Bíblia ensina algo sobre a reconstrução de um terceiro templo judaico?

Os dispensacionalistas, ignorando a história, advogam que o templo judaico será reconstruído para ser profanado novamente pelo anticristo no período da Grande Tribulação e para que também possam ser celebrados sacrifícios no templo no período do milênio. Mas, nenhuma passagem do Antigo Testamento faz referência a uma reconstrução de um terceiro templo em Jerusalém. Todas as referências à reconstrução do templo registradas no Antigo Testamento referem-se ao templo reconstruído na época de Esdras.

Não existe um único versículo no novo Testamento que prometa a reconstrução do templo judaico. Jesus falou da destruição do templo (Mt 24:2; Mc 13:2; Lc 19:44; 21:6). Jesus falou da destruição do templo como um juízo contra o povo de Israel, a semelhança do que foi a destruição do primeiro templo e da cidade de Jerusalém em 586 a.C., que se deu como conseqüência do pecado, idolatria e perseguição aos profetas de Deus. Jesus, dirigindo-se aos líderes religiosos dos judeus, diz que aquela geração era hipócrita por se julgar melhor do que seus antepassados que mataram os profetas. Afirmou que eles fariam o mesmo e até pior que os seus pais. Observe as palavras de Jesus a este respeito em Mateus 23.32-24.2, “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor! Tendo Jesus saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções do templo. Ele, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” Portanto, Jesus disse que aquela geração de judeus cometeria pecados ainda mais graves por não perseguir apenas os enviados de Deus, mas também o próprio Filho (Mt 21.37-44). Jesus deixa claro que a destruição do templo se daria naquela mesma geração (Mt 23.36). O que se cumpriu na íntegra no ano de 70 d.C. quando, o príncipe de um povo que havia de vir ou o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel (Mt 24.15), General Tito, profanou o templo e destruiu a cidade e o templo. O que concorda bastante com a profecia de Daniel que aponta para uma nova destruição do templo e da cidade de Jerusalém como resultado da rejeição e morte do Ungido: “Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas” (Daniel 9:26).

Embora, Jesus tenha profetizado a destruição do templo como juízo sobre a geração de judeus que rejeitou o Cristo, ele nunca profetizou a reconstrução do templo, a não ser em termos da sua própria ressurreição, quando comparou o templo a si mesmo (Jo 2.19).

Os cristãos dispensacionalistas e sionistas fazem questão de ignorar o fato de que o Templo se revestiu de um novo significado no Novo Testamento, tornando-se um tipo de Cristo e de sua Igreja (Ef 2:19-21).
O termo templo aparece 12 vezes no livro de Apocalipse e, em cada uma das ocorrências, está se referindo ao templo celestial ou ao Senhor Deus mesmo. “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21:22).

Deus não habita em templos construídos por mãos humanas (At 7.48; 17.24). O tabernáculo ou o templo do Antigo Testamento eram sombra da realidade que se manifestou em Cristo e na sua Igreja (Hb 9.9-10.14). Pois, templo, no Novo Testamento, passa a significar Jesus e a Igreja, como Corpo de Cristo (1 Co 3.16; Ef 2.22). Notar que até mesmo o corpo físico dos crentes é chamado de templo no Novo Testamento (2 Co 6.16-19). O templo, portanto, encontra seu último e definitivo significado e cumprimento não em um outro templo construído por mãos humanas, mas em Jesus Cristo que está nos céus e na sua Igreja na terra.

O autor de Hebreus descreve os sacrifícios do templo como ilustração ou cópia das realidades celestiais (Hb 9:9, 23, 24; 10:1-3, 11). Pedro usa a mesma terminologia para descrever o modo como os cristãos foram feitos nova casa de Deus, edifício este que tem Jesus por pedra de esquina (1 Pe 2:5-7). Com a chegada do verdadeiro templo, não há lugar mais para templos construídos por mãos humanas.

Em João 4, falando à mulher samaritana, Jesus anunciou a chegada do tempo em que a verdadeira adoração não estaria mais confinada ao templo de Jerusalém, mas que se tornaria universal, realizada em espírito e em verdade.

Os dispensacionalistas advogam o retorno da celebração de sacrifícios no templo no período do milênio, um verdadeiro absurdo que contradiz o ensino claro do Novo Testamento que ensina que Jesus fez um sacrifício eficaz, pleno, uma vez por todas, não havendo, portanto, mais lugar para os cerimoniais e sacrifícios judaicos que haviam sido instituídos como sombras da realidade que se cumpriu em Cristo. Portanto, não há mais cabimento para o retorno a práticas dos sacrifícios do templo. Este é o ensino claro do Novo Testamento. Veja o que diz o autor de Hebreus sobre este assunto em Hb 9.9 - 10:14: “É isto uma parábola para a época presente; e, segundo esta, se oferecem tanto dons como sacrifícios, embora estes, no tocante à consciência, sejam ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto, os quais não passam de ordenanças da carne, baseadas somente em comidas, e bebidas, e diversas abluções, impostas até ao tempo oportuno de reforma. Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto à purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! Por isso mesmo, ele é o Mediador da nova aliança, a fim de que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança, recebam a promessa da eterna herança aqueles que têm sido chamados... Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos céus se purificassem com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios a eles superiores. Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus; nem ainda para se oferecer a si mesmo muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santo dos Santos com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado... Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados? ... Depois de dizer, como acima: Sacrifícios e ofertas não quiseste, nem holocaustos e oblações pelo pecado, nem com isto te deleitaste (coisas que se oferecem segundo a lei), então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer o segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados”.
Os dispensacionalistas em sua insistência em enxergar dois povos de Deus, Israel e Igreja, e com sua crença na existência de dois propósitos e planos distintos para cada um destes povos, acabam promovendo a revitalização no seio evangélico das sombras do Antigo Testamento que já foram plenamente superadas pela substância no Novo Testamento. Entretanto, Deus não tem dois povos, mas somente um. O Novo Testamento vê as profecias do Antigo Testamento encontrando seu cumprimento em Cristo e em sua Igreja. A Igreja Cristã foi edificada sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos judeus (Ef 2.14-16). Ela não constitui um segundo povo de Deus. Deus tem apenas um povo (Jo 10.16; Ef 2.14-16). Os gentios crentes foram enxertados na mesma “oliveira”, tomando parte na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18). Não existe um plano de salvação distinto para Israel. Pois Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11). A esperança futura para Israel é aceitar o Cristo, sendo novamente reconduzido a mesma e única Árvore, a oliveira, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, da qual fazem parte judeus e gentios crentes, não havendo mais lugar para distinções e divisões, pois, em Cristo foi derrubada a parede de separação que existia entre judeus e gentios.

Portanto, os cristãos que defendem a necessidade da reconstrução do templo estão regredindo ao sistema sacrificial do período pré-cristão. Sistema este que foi anulado, tornando-se obsoleto, por ter sido substituído e superado pelo sacrifício definitivo de Cristo na Cruz. Pois, o sacrifício do verdadeiro Cordeiro de Deus não permite mais lugar para outros sacrifícios. O retorno à prática destes sacrifícios em um templo construído por mãos humanas, ainda que em caráter de celebração simbólica, é algo descabido que revela um descaso para com o sacrifício supremo realizado por Cristo na cruz.

Os Cristãos que advogam a reconstrução do templo judaico estão não só patrocinando as reivindicações políticas da nação de Israel de soberania sobre o Monte do Templo e Jerusalém, mas também sobre todo o território que compreendia a extensão do antigo Reino de Israel na época do Rei Davi. O que, ainda que inconscientemente, favorece a perpetuação de um apartheid social que pretende expulsar os palestinos dos territórios ocupados. Tal teologia conduz ao racismo por promover acepção de pessoas, o que não faz jus à missão da Igreja que é de reconciliação (2 Co 5.18-19).

A Segunda Vinda de Cristo é iminente?


A Segunda Vinda de Cristo é iminente? Pode acontecer a qualquer momento sem prévios sinais? A resposta é não. Pois não seria lógico concluir que determinados textos estão ensinando a idéia da iminência hoje, quando se evidencia que estes mesmos textos não poderiam ter sido interpretados neste sentido por seus primitivos destinatários. Por exemplo, os textos, como Mc 9.1; Mc 13.29-30; Mt 10.23; Rm 13.11-12; Tg 5.8; 1 Pe 4.7; Ap 22.20; Hb 10.25, 37; 1 Jo 2.18, usados pelos dispensacionalistas para defender uma Segunda Vinda de Cristo iminente, nunca poderiam ter sido compreendidos pelos discípulos com esta intenção, pois quando foram escritos, certos eventos tinham, necessariamente, que ocorrer antes da Segunda Vinda de Cristo, por exemplo: A promessa do consolador (Jo 16.7, 13, 26); Evangelho deveria ser pregado a todo mundo (Mt 26.13; At 1.8; 9.15; 22.15; 26.2); Pedro seria morto conforme profetizado por Cristo (Jo 21.18); guerras viriam antes do fim (Lc 21.9); primeiro ocorreria a apostasia e o aparecimento do Anticristo (2 Ts 2.2,3). Paulo recebeu de Deus diversas orientações sobre o que lhe ocorreria no decurso de sua vida e ministério, inclusive sobre sua morte (At 9.15; 22.15; 26.2; 23.11; 27.24; 28.30; 2 Tm 4.5ss. Fica evidente, então, que a Igreja neo-testamentária não poderia ter esperado uma vinda de Cristo a qualquer momento. Se os textos usados pelos dispensacionalistas nunca poderiam ter significado de iminência para os leitores originais, também não têm este significado para nós, hoje.

Cristo no Sermão das últimas coisas nos ensinou que sinais deveriam preceder sua Segunda Vinda. Sinais depõem contra a idéia de “iminência”. Os sinais não têm a intenção de nos conceder condições para precisar o dia da Segunda Vinda, Jesus denuncia a fascinação por cálculos (Mt 24.33-36); os sinais mencionados por Cristo são inespecíficos para este fim, antes, o propósito é preparar o povo de Deus com a compreensão das pressões que terá de suportar. O propósito de Jesus é encorajar, não a especulação, mas a vigilância - fortalecer a fé e advertir os discípulos do que será a sua sorte como seguidores dela. Se os cristãos atentarem para as palavras de Cristo, como disse Travis, “conhecerão que a situação não está fora do controle de Deus, e que eles podem ‘perseverar até o fim e serem salvos’ (Mc 13.13) e que além dessas tribulações está o retorno triunfante do Filho do Homem (Mc 13.24-27)”.15 Por não sabermos quando se dará Sua Segunda Vinda, é necessária a vigilância (Mt 24.42-25.13). Alguns textos sugerem um tempo relativamente longo entre a ascensão e a Segunda Vinda de Cristo (Rm 9; 11; Mt 24.45-51; 2 Pe 3). O livro de Atos é um livro de história da Igreja e ninguém escreve história convencido de que o mundo está para acabar.

Os textos que falam sobre uma “vinda súbita” e o dos “sinais”, e mesmo aqueles que apontam para uma “demora”, não são contraditórios, mas complementares. Em 1 Tessalonicenses 5, temos uma referência à “vinda súbita”, já em 2 Tessalonicenses 2, temos a menção de “sinais” que devem preceder a Segunda Vinda de Cristo. Jesus não disse que poderia vir a qualquer momento, antes profetizou uma série de eventos que se dariam antes daquele glorioso dia. Tais sinais não são suficientemente precisos para calcularmos o tempo da Sua vinda, que para nós permanece como incerta, requerendo que estejamos sempre alertas. Este “em breve” pode até nos parecer demorado, como bem explicou Pedro, dizendo que há um propósito para o que encaramos como “demora”, a longanimidade de Deus e seu desejo que nenhum pereça (2 Pe 3.9); Pedro ensina que podemos fazer algo para “apressar” a Segunda Vinda de Cristo (2 Pe 3.12), que depende, em algum sentido, das conversões (At 3.19-21). Jesus disse: “Mas é necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações” (Mc 13.10; cf. Mt 24.14). Conforme o ensino do apóstolo Pedro, a Segunda Vinda de Cristo não é iminente, pelo contrário ela depende da realização dos propósitos de Deus, que, por sua vez, estão vinculados à missão da Igreja. É desta forma que podemos entender o que o apóstolo quer dizer com esta incumbência dada aos cristãos de “apressar” a vinda do Senhor (2 Pe 3.12). Seria contraditório crer que a Segunda Vinda de Cristo pode se dar a qualquer momento, independente de qualquer fator ou cumprimento profético, e, ao mesmo tempo, ensinar que pode ser feito algo para apressar a vinda do Senhor. Ou Pedro era um pré-tribulacionista que acreditava que a Segunda Vinda de Cristo era iminente ou era, como deixou claro em sua segunda epístola, daqueles que acreditam que a Segunda Vinda do Senhor depende, entre outras coisas, da obra missionária da Igreja. Por isso, exorta os cristãos que cumpram o seu papel, apressando a volta de Jesus.

Há algo de secreto em relação à Segunda Vinda de Cristo?


Não há base bíblica para qualquer idéia de que quando Jesus vier haja dúvidas sobre quem ele é ou sobre se ele realmente veio. A Segunda Vinda de Cristo e o conseqüente arrebatamento da Igreja nunca são descritos como sendo secretos ou silenciosos, mas sempre se apresentam como um evento: retumbante, com “grande clangor de trombeta” (Mt 24.31; 1 Ts 4.16,17); “assim como o relâmpago” (Mt 24.27); visível: “assim virá do modo como o vistes subir” (At 1.11); “aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24.30); “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.” (Ap 1.7; ver também 19.11-21; Mt 26.64; Mc 14.62 e Dn 7.13) ; “pela manifestação de sua vinda” (2Ts 2.8); “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas... bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror... pois os poderes dos céus serão abalados. Então se verá o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima.” (Lc 22.25-28; ver também Mc 8.38); “aparecerá segunda vez” (Hb 9.28); “Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados” (2 Pe 3.10; ver também v.12); Paulo diz que nós os cristãos estamos aguardando “a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.12; ver também Cl 3.4 e 1 Pe 5.4; 1 Jo 3.2).16

Como interpretar as 70 Semanas de Daniel?


Qual o significado das “70 Semanas de Daniel (Dn 9.24-27)? Primeiramente gostaria de ressaltar que em nenhum lugar no livro de Daniel ou em qualquer outra passagem da Bíblia encontramos qualquer menção de que exista um lapso, um intervalo ou um parêntesis entre a sexagésima-nona e septuagésima semanas da profecia de Daniel. Pelo contrário, Daniel profetiza: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo, esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre. Como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o outro. O Grande Deus faz saber ao rei o que há de ser futuramente...” (Dn 2.44,45).

Demonstrarei que a profecia das 70 Semanas de Daniel é hoje muito mais profecia realizada do que escatologia futura. Daniel estava com seu povo no exílio babilônico. Ele estava estudando as profecias de Jeremias que previam que o exílio duraria 70 anos (Dn 9.2). Visto que o prazo dos 70 anos de exílio estava se cumprindo, Daniel, consciente de que o exílio havia sido uma punição de Deus por causa dos pecados de Israel, começa a interceder pedindo perdão a Deus em nome do seu povo, na esperança de que o castigo de Israel estava para acabar com o final dos 70 anos de cativeiro. A oração de Daniel é ouvida (Dn 9.20-23). Mas, para sua surpresa, ele recebe uma visão de 490 anos (70 Semanas), no final dos quais as bênçãos viriam sobre Israel na pessoa do Ungido (Messias).

Em Daniel 9.24, temos os seis propósitos da visão das 70 Semanas: 1. Para fazer cessar a transgressão; 2. Para dar fim aos pecados; 3. Para expiar a iniqüidade; 4. Para trazer a justiça eterna; 5. Para selar a visão e a profecia; e 6. Para ungir o Santo dos Santos. Todos estes propósitos tiveram seu cumprimento na pessoa de Cristo. Da cruz, Jesus bradou: “Está consumado!” (Jo 19.30).

As 70 Semanas estão dividas em três períodos (v.25): 1. Sete Semanas (7x7=49 anos) de reedificação; Seguidas por: 2. Sessenta e duas semanas (62x7=434 anos); seguida do terceiro e último período: 3. Uma semana (1x7=7 anos) - O v. 26 diz que após as sessenta e duas semanas, ou seja, já dentro da última semana, será morto o ungido, após a morte do ungido ocorreria a destruição de Jerusalém e do templo por um povo de um príncipe que haveria de vir (v.26b); período em que surge o assolador (v.27); a visão de Daniel termina com o assolador recebendo o merecido juízo de Deus.

Deve-se observar que a visão tem um caráter todo judaico: “70 semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade...” (v.24a). A visão vem em resposta a oração de Daniel por perdão e libertação do povo. Embora a profecia de Jeremias 25.12 tenha seu cumprimento no retorno do povo à Palestina e reconstrução da cidade e do templo, 70 semanas ainda estão determinadas para libertação espiritual, que só se dará mais tarde com o advento do Messias, que cumprirá todos os seis propósitos da visão. Depois dos dois primeiros períodos (v.26), ou seja, já na última semana, o Messias será morto, o que traz consigo dois resultados distintos: 1) justificação e salvação para os fiéis e 2) e traz para os infiéis o assolador que sitiará a cidade e destruirá o templo, trazendo muita desolação, tais atrocidades são o resultado da rejeição e da morte do Messias. Joyce Baldwin em seu comentário de Daniel disse com muita propriedade que: “Os números são simbólicos e não aritméticos; pelo tempo em que as sessenta e nove semanas tivessem passado, as 70 de Deus estarão quase completas e o elemento designado como um ungido é evidentemente significativo na realização dos propósitos descritos no versículo 24”17

É assim que Jesus interpreta a visão das 70 Semanas de Daniel. Vejamos o registro de Mt 23: “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais (comparar com Dn 9.24 e 1 Ts 2.16). Serpentes, raça de víboras como escapareis da condenação do inferno? Por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração. Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta... Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra, que não seja derrubada... Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê, entenda)... porque nesse tempo haverá grande tribulação...” (Mt 23.32-24.2, 15, 21). Jesus deixa claro que aquela geração (v.36) de judeus que o rejeitaram seria punida conforme profetizou Daniel, com a casa ficando deserta (v.38) e o templo destruído (24.2). No ano 70 d.C. se deu o cumprimento da profecia de Daniel e de Cristo sobre o abominável da desolação e a destruição do templo. O historiador Josefo que foi testemunha ocular daqueles eventos disse que os judeus nunca haviam sofrido tamanha tribulação em toda a sua história como nação. Josefo conta que mais de 1.3000.000 judeus foram mortos durante os sete anos em que Jerusalém ficou sitiada pelos exércitos romanos, chefiados pelo General Tito, que culminou, em 70 d.C., com a destruição do templo e da cidade. Josefo conta que durante os últimos anos de cerco, a fome era tanta em Jerusalém, que as mães judias estavam matando os seus filhos para comer. Ele ainda conta que os judeus eram crucificados e que por ocasião da invasão não havia lugar na cidade onde não houvessem corpos esparramados uns por cima dos outros.18 De tal forma que as profecias de Daniel e de Cristo tiveram cumprimento literal (Lc 19.41-44; Lc 13.34).

Os Evangelhos sinópticos, escritos provavelmente antes de 70 a.C., relatam as profecias de Cristo quanto ao “abominável da desolação” de que falou o profeta Daniel e a conseqüente destruição de Jerusalém e do templo. Já o Evangelho de João, escrito depois de 90 d.C., nada menciona a este respeito. Podemos concluir que não o faz por entender que tais profecias (Mt 23, 24, Mc 13, Lc 21) tiveram seu cumprimento literal e já, naquele tempo em que o Evangelho de João foi escrito, não eram mais profecias, mas sim história. Seria bom também comparar o relato dos mártires da glória procedentes da grande tribulação conforme encontramos em Ap 6.9s e 7.9s, para notar um caráter completamente distintivo de Grande Tribulação. A Grande Tribulação mencionada no livro de Apocalipse nada tem de judaica, nenhuma palavra é dita sobre destruição de templo. Os mortos nesta grande tribulação são chamados de mártires. Não foram mortos por rejeitarem a Cristo, pelo contrário foram mortos por causa do testemunho que davam de Cristo. Os mártires são cristãos procedentes de todas as partes do mundo e de todas as nacionalidades (Ap 7.9-14). Trata-se, portanto, de uma Grande Tribulação cristã. Entendemos daí que este seja um caso de duplo significado e cumprimento, que mesmo após o cumprimento literal da profecia bíblica, podemos encontrar um outro significado ainda por se cumprir. É como se na visão das 70 Semanas a obra histórica de Cristo e a Sua Segunda Vinda estivessem sendo focalizadas, ao mesmo tempo, através de um telescópio. Sendo este o caso, podemos dizer que mesmo após 70 d.C., podemos entender que está reservado à Igreja uma Grande Tribulação, produto do ódio do Anticristo. Baldwin argumenta que para Jesus o significado do “abominável da destruição” não foi esgotado pela sua aplicabilidade às afrontas de Antíoco Epifânio, mas tem uma espécie de duplo cumprimento que se daria com General Titu e a destruição do templo e de Jerusalém em 70 d.C. Ele conclui este raciocínio dizendo:

O livro de apocalipse retoma o simbolismo da ‘metade da semana’, expresso em 11.2 como quarenta e dois meses, durante os quais a cidade santa é pisada aos pés; e em 13.5 a bem tem autoridade por um período idêntico. Se este livro foi escrito, como a maioria dos estudiosos o afirma, após a queda de Jerusalém, então temos aqui uma posterior aplicação da nossa passagem a um fim dos tempos que ainda não teve lugar. Assim, o Novo Testamento positivamente encoraja o ponto-de-vista de que, embora hajam eventos neste ínterim que demonstram a verdade das imagens usadas, ela tem a sua perspectiva voltada para adiante, para uma culminação ao fim da história... Como, então, devemos encarar a última das 70 Semanas com relação ao tempo presente? Do ponto-de-vista da perspectiva do autor, a primeira vinda de Cristo é o ponto focal da mirada para a frente, embora a Segunda Vinda em juízo também esteja em vista. Para ele as 70 Semanas cobriam todo o tempo futuro, e a vinda do reino parecia da posição em que ele se encontrava, como um único evento. É a luz do Novo Testamento que temos aprendido a separar a primeira e a Segunda Vindas de Cristo, e, com a ajuda do Seu ensino, a perceber que há um padrão reconhecível na história, que os Seus seguidores devem observar e esperar vê-lo se desenrolando nos acontecimentos do seu próprio tempo. A reinterpretação das visões de Daniel dada por Jesus em Mt 24 e 25 não subestima os sofrimentos que podem ser esperados pelos Seus seguidores; “desolações são determinadas” (Dn 9.26), embora “ainda não seja o fim” (Mt 24.6-8). Mesmo antes da intensa oposição final (Mt 24.15) o crente pode esperar oposição tal como o Mestre experimentou (Jo 15.20), e assim a Igreja como um todo. A visão de Daniel terminou com o perseguidor encontrando o merecido julgamento. Jesus levou a mensagem um passo mais adiante, focalizando a esperança na Sua vinda em glória (Mt 24.30), descrita em termos cunhados por Daniel 7.13. E o quadro ainda mais completo estava para ser dado no livro de Apocalipse.19

Portanto, não existe nada no texto de Daniel que indique algo como um intervalo ou paralisação do relógio profético. Vemos que tais profecias são hoje mais história, do que profecias apocalípticas a respeito de dias ainda futuros, pois Jesus veio como Rei de Israel e estabeleceu a nova aliança que fôra profetizada por Jeremias. Jesus foi e é a única esperança de Israel. Na sua primeira vinda, Cristo cumpriu todos os seis objetivos da visão das 70 Semanas de Daniel. A Segunda Vinda de Cristo não será o início da septuagésima semana de Daniel, mas, sim, a consumação final. O Reino de Deus não foi postergado, mas já foi inaugurado por Jesus Cristo em Sua primeira Vinda, como veremos com mais detalhes no capítulo que tratará da Natureza do Reino de Deus, com as conseqüentes implicações para a Missão da Igreja.



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Notas:
1 Congresso de Missões promovido pela Igreja Metodista Livre do Brasil, Concílio Brasileiro, onde o autor atua como Bispo: www.metodistalivre.org.br
2 As citações bíblicas estarão baseadas no texto da Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil, SBB, 1997.
3 Chafer, L.S. Dispensationalism. Dallas Seminary Press, 1951, p. 107
4 Cox, William E. Biblical Studies in Final Things. Presbyterian and Reformed Publishing Co., New Jersey, 1980, p. 49.
5 Steuernagel, Valdir Raul, org. “A Missão da Igreja”. Belo Horizonte, 1994, parte A1. o primeiro capítulo: "A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO E A MISSÃO DA IGREJA"
6 Ibid
7 Ladd, George. “Milênio - Significado e Interpretações”, Ed. Luz para o Caminho, Campinas, 1985, p. 25
8 Exemplo de textos que falam do sofrimento cristão: Ap 1.9; 2.3,9,10,13; 6.9s; 7.9-17; 12.11,17; 13.7,8; 14.1-5,13; 16.15; 22.14; 2 Tm 1.8,12; 2.3,12; 3.12; Mt 5.11,12; 10.16,22,24,25,28-33,38-39; 22.2-6; Ef 3.13; 6.12; Fp 1.21,28,29; 3.10; 2 Ts 1.4,5; 1 Pe 1.6,7; 3.14,17;4.1,12-19; Jo 15.18-20; 16.33; At 14.22; Rm 8.17s; 12.12,15; 2 Tm 2.12; 3.12; Rm 5.3; Hb 11; 12.2-3; Sl 34.19; Tg 1.2-4,12; 5.7-11 1 Ts. 1.6; 3.4; 2 Co 1.3-10; 2.4; 4.7,8,11,17; 5.4; 7.4; 8.2; 11.23-27)
9 Comparar com 2 Ts 2.1.
10 Sobre esta questão, recomendo a leitura do livro “Teologia do Novo Testamento”, Ladd, JUERP, 1993, pp. 516-518.
11 Ladd, George, “A teologia do Novo Testamento”, JUERP, 1993, p. 513).

12 Ladd, The Blessed Hope, p. 31 Apud Erickson, Millard. Um Estudo do Milênio São Paulo: Vida Nova. 1991, p.122.
13 (J. Walvoord, The Rapture Question (1957) ,p. 148, Apud Ladd, George “Teologia do Novo Testamento. JUERP, 1993, p. 514.
14 Erickson, J. Millard - Opções Contemporâneas Na Escatologia - Ed. Vida Nova - 1a ed. SP, 1982, p. 126.
15 Travis, Stephen. Creio na Segunda Vinda de Jesus. Trad.: Cláudio Wagner. Campinas: Luz Para o Caminho Publicações, 1990, p. 74.
16 Outros textos que colaboram com esta idéia: Mt 16.27; 25.31; 1 Co 4.5; 1 Tm 4.1; Jd 14,15; 1 Co 1.7; 2Ts 1.7,8.
17 Baldwin, Joyce, “Comentário de Daniel” S. Paulo: Edições Vida Nova e Mundo Cristão, 1991, p. 181.
18 Josephus, Flavius, The Wars Of The Jews Or The History Of The Destruction Of Jerusalém, Translated By William Whiston. Book 6.

19 Baldwin, Joyce, “Comentário de Daniel” S. Paulo: Edições Vida Nova e Mundo Cristão, 1991, p. 185 e 188.