sexta-feira, 17 de abril de 2009

Proposta Indecente

"Proposta Indecente"

A história que veremos a seguir exibe uma curiosa semelhança temática com o famoso filme "Proposta Indecente", que descreve o conflito de um casal em dificuldades financeiras que recebe uma proposta tentadora de um milionário, que oferece um milhão de dólares para passar uma noite com a esposa. Podemos estabelecer um paralelo entre a ação daquele milionário e a do poderoso faraó egípicio da época do Êxodo, pois ambos estão se favorecendo de sua posição de poder para explorar e tirar proveito dos que estão numa condição de fragilidade, e ambos também querem, com astúcia, negociar.

Estudaremos algumas das artimanhas de Satanás, o deus deste século (2 Co 4.4), para seduzir e cativar as pessoas, com o intuito de conhecer melhor o seu modus operandi. Pois não devemos nem ignorar as suas estratégias e nem os seus intentos (2Co 2.11). Lemos que Moisés foi à presença de Faraó com a incumbência divina de libertar o povo hebreu da escravidão do Egito (Ex 5.1). Faraó não se mostra nem um pouco disposto a abrir mão dos seus escravos (Ex 7.14). Vem, então, uma sucessão de pragas sobre o Egito. Após a quarta praga, em apuros, Faraó manda chamar Moisés, mas não se engane, pois ele não está disposto a obedecer a ordem de Deus, o que ele quer é negociar. Agindo assim, com tamanha astúcia, ele parece um tipo de Satanás. Cuidado! Não negocie com o Diabo! Veja a proposta que ele faz: 

"ADORA A DEUS NESTA TERRA" (Ex 8.25)

Repare que faraó está tentando pechinchar, pois, quando não consegue conquistar tudo, vai tentar agarrar o que for possível. Ele está buscando diminuir os requerimentos de Deus. Faraó não quer perder o domínio sobre os seus escravos. Ele está como que dizendo: “continuem me servindo, continuem presos ao Egito, e tudo bem se vocês quiserem adorar a Deus também. É uma proposta para servir a dois Senhores, algo que Jesus condenou abertamente (Mt 6.24). É uma proposta indecente! 

"NÃO VADES MUITO LONGE" (Ex 8.28)


Como quem diz: “fiquem nas imediações, fiquem por aí, dando bobeira, não precisam se afastar, não há perigo algum, vocês são fortes, não precisam fugir..." Faraó propõe isto, pois sabe muito bem o poder de sedução do Reino do Egito”. O Egito não representa apenas dor e sofrimento, pois oferece também muitos atrativos. Faraó pressente que o povo hebreu ainda vai sentir saudades da exuberância, da glória e das iguarias do Egito. Tais atrativos acabarão mesmo por levar o povo a desprezar o próprio maná do céu  (Nm 11.4-6). O sapo parece usar estratégia semelhante para apanhar o mosquito, pois ele bem sabe o alcance de sua língua, coisa que o mosquito desconhece. "Não deis lugar ao diabo" (Ef 4.27). À semelhança de José, que correu do assédio da mulher de Potifar (Gn 39), devemos fugir para longe das paixões da mocidade como também adverte o Apóstolo Paulo (2Tm 2.22; ver também Pv 4.15; Sl 34.14).

"IDE SOMENTE OS HOMENS" (Ex 10.11)

Quando não consegue manter todos presos ao Egito, faraó tenta pelo menos manter alguns. Pode ser que ele esteja insinuando que isto de adorar a Deus é coisa só para homens, ou só para mulheres, ou, ainda, que isto é coisa de criança, pois os adultos têm coisas mais importantes a fazer. Pode ser também que ele esteja sugerindo que não é necessário que todos da família prestem culto e sirvam ao Senhor, bastando apenas que alguns façam isto em nome de todos. Satanás é ardiloso na promoção do jugo desigual, sabendo que se um fica preso, acaba atraindo e puxando o que está livre (2 Co 6.14). Mas Josué disse: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15)! Não apenas parte da família, mas toda a casa! Este é um dos propósitos de Deus, que o diabo tenta impedir de todas as formas.

"FIQUEM OS VOSSOS REBANHOS" (Ex 10.24)

Eis aqui o último reduto de Satanás, a sua última trincheira: "Os bens materiais". O dinheiro é a última coisa de que ele abre mão. Ele insiste, até o fim, buscando manter o dinheiro e as riquezas sob o seu domínio, para que sirvam aos seus propósitos e não aos de Deus. É por esta razão que se diz que a última coisa a se converter num homem é o "bolso". “pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.10).

 
Vimos, assim, como faraó, tipificando Satanás, tentou impedir, de diversas maneiras, que o povo fosse liberto para adorar e servir a Deus de modo pleno e integral. Tudo o que o diabo oferece é com intuito de escravisar, matar e destruir (Jo 10.10).  Mas vimos também, na grande libertação da Páscoa, como Deus, por amor (Rm 5.8),  é capaz de mover céus e terra (e até mesmo o mar!) para salvar e libertar os oprimidos e cativos (Cl 1.13). Olhando para a Cruz de Cristo, vemos o alto preço que o Pai pagou para a redenção humana, para que todos possamos experimentar a liberdade e a vida abundante que só encontramos em Deus (Jo 10.10).
 
Bispo José Ildo Swartele de Mello


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Domingo de Ramos!

Pena que uma boa parte dos evangélicos ignore o Domingo de Ramos. Alguns, em sua ignorância, chegam até a alegar que isto é coisa de católicos. Por essas e outras, as celebrações evangélicas da Páscoa estão cada dia mais pobres, limitando-se a comemoração do Domingo da Ressurreição. Assim, não apenas o Domingo de Ramos, mas até mesmo a Sexta-Feira da Crucificação está sendo ignorada. Um absurdo, pois o tema central do Evangelho é a mensagem da cruz (1 Co.2.2).

Até mesmo, por uma questão pedagógica, é interessante aproveitar as datas festivas para comunicar o seu significado. Por exemplo, um culto temático com canções, mensagem e, até mesmo, "ramos", no dia da celebração do Domingo de Ramos ajudará a fixar a mensagem bíblica.

Domingo de Ramos! Dia em que celebramos a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém, quando uma multidão, festiva, o recebeu como o tão esperado Messias. Eufórico, o povo, carinhosa e respeitosamente, espalhava seus próprios mantos, juntamente com ramos de palmeira pelo caminho em que Cristo havia de passar, e aclamava a Jesus com imenso júbilo, dizendo: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas” (Mt 21.9; Lc 19.38)!

Os fariseus, incomodados, pediram que Jesus mandasse parar aquela adoração, mas Jesus respondeu: “se eles se calarem, até as próprias pedras clamaram”, visto ser aquele um momento sem igual, quando as profecias messiânicas estavam se cumprindo: “alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo, vitorioso e humilde, montado num jumentinho” (Zc 9.9)!

Interessante que ele tenha entrado montado sobre um jumentinho, algo incomum para um rei, pois os reis faziam questão de ostentar poder e glória. Jesus, se quisesse, poderia ter se imposto aos homens pela força do seu poder, mas não quis que fosse assim. “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor” (Zacarias 4.6). Ele não quis se impor pela força, pois decidiu cativar pelo amor (Jo 12.32-33)! Sendo o próprio Deus, esvaziou-se de sua glória para identificar-se com nossa fraqueza (Fl 2.7), revelou-se como servo sofredor (Is 53), que carrega a sua cruz (Jo 13.1; 19.17) e dá a vida pelos seus amados (Rm 5.8). E, mesmo quando chegou a hora de apresentar-se como Rei, em sua entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos, Jesus não entrou montado num cavalo portentoso e cheio de pompa e nem estava acompanhado de um forte e ameaçador exército, mas escolheu entrar de maneira humilde e mansa montado num jumentinho.

Sendo Senhor, Jesus foi humilde e assumiu a condição de servo, chegando até a lavar os pés dos discípulos (Jo 13.4-5). Ele não foi dominador e nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Não constrangeu os seguidores pela força, pois seus discípulos sempre foram livres para escolher e até mesmo desistir de segui-lo. Portanto, Jesus jamais quis se impor pela força, antes escolheu atrair seguidores através de seus atos de amor, que é uma eterna fonte de inspiração vocacional (2 Co 5.14).

E é por seu grande amor que Jesus está entrando em Jerusalém, pois ele bem sabe que está a caminho da Cruz. Ele está disposto a dar sua vida para salvar os que estão condenados ao castigo eterno (Jo 1.29; Rm 8.1). Jesus, o justo, na Sexta-feira daquela mesma semana, assumiria o nosso lugar e cumpriria a nossa pena para que pudéssemos ter acesso ao perdão e a vida eterna (Is 53.5-11).

Ao avistar Jerusalém, Jesus chorou com pena dela e disse: “Ah! Jerusalém! Se você pudesse reconhecer aquele que pode te trazer a paz! Mas, infelizmente, os teus olhos estão tapados” (Lc 19.41-42). Jesus lamentou a cegueira espiritual de Jerusalém e segue chorando hoje por tantos que ainda estão em trevas, ignorando e desprezando sua única esperança que é o Salvador. “Eles têm olhos para ver, mas não vêem, e ouvidos para ouvir, mas não ouvem, pois são uma nação rebelde” (Ez 12:1-2).

Em outra ocasião, Jesus já havia feito um lamento semelhante: “Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes” (Lc 13.34)! Repare que Jesus quer acolher a todos como filhos, mas não contra a vontade deles, pois Deus respeita a vontade dos homens; Afinal, foi Ele mesmo quem lhes concedeu poder de decisão. Também observamos isto na parábola do Filho Pródigo, que tem liberdade para deixar a casa do Pai e ir para um lugar distante (Lc 15.12-13). O Pai chora de tristeza a atitude rebelde do filho e as danosas consequências que isto acarretará para o jovem. Ele não quer que o seu filho sofra, mas respeita as escolhas do filho, pois não quer um filho contrariado em casa, no entanto, esperançoso, ainda o aguarda de braços abertos (Lc15.20).

Como o Filho Pródigo temos liberdade de ir e vir, de ficar longe e de regressar para casa. Assim como aquele povo de Jerusalém, diante de Jesus, cada um de nós tem também hoje a liberdade de exclamar “Hosana” ou gritar “crucifica-o”.


“Que farei de Jesus chamado Cristo?” (Mt 27.22)


Pr. José Ildo Swartele de Mello