Ministério Feminino

Não se pode interpretar a Bíblia sem levar em conta o contexto social e cultural da época em que o texto foi escrito. O Mundo Antigo era extremamente machista, as mulheres eram desprezadas, tratadas como seres inferiores, que não tinham direito à voz, à educação e nem sequer eram contadas quando se queria saber quanta “gente” havia. Atentando para o contexto, podemos apreciar melhor a revolução que Jesus Cristo estava iniciando em relação a condição da mulher.

Assim também podemos compreender melhor porque os apóstolos, em alguns momentos, parecem referendar a discriminação das mulheres, pois, não seria prudente para a obra de evangelização da igreja erguer tão prontamente uma bandeira em favor dos direitos das mulheres, pois isto provocaria uma resistência intransponível por parte de uma geração que não estava minimamente preparada para aceitar tamanha revolução. Além do mais, tal atitude não produziria o efeito desejado, pelo contrário, suscitaria ainda mais perseguição a uma igreja que ainda estava aprendendo a dar os primeiros passos e que tinha que lutar contra tanta oposição.
O mesmo se aplica a questão da escravidão que não foi abertamente confrontada pelos apóstolos. No entanto, os princípios que servem de semente para a libertação das mulheres e dos escravos foram firmemente estabelecidos nos escritos do Novo Testamento, como por exemplo, o texto que diz: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28).

Os que se valem de 1 Timóteo 2 para impedir que as mulheres exerçam o ministério pastoral, deveriam também, de acordo com o mesmo texto, impedí-las de usar aliança e outros objetos de ouro, vestidos caros, tranças no cabelo, e até mesmo deveriam proíbí-las de fazer perguntas durante um estudo bíblico, pois o texto também diz que as mulheres devem aprender em silêncio. Para serem coerentes com seu método interpretativo, deveriam também ensinar que a salvação da mulher se processa através da sua missão de mãe, o que complicaria a vida das estéreis e de todas aquelas que, por uma razão ou outra, jamais terão filhos. Consequentemente, deveriam exigir que os homens orassem em todos os lugares com as mãos erguidas (v.8). Porventura, os homens que condenam o ministério pastoral feminino oram sempre de mãos erguidas em todos os lugares? Se não, que hermenêutica seletiva e convencional é esta que encara parte do texto que está no mesmo contexto como Palavra de Deus aplicável a todos os contextos e gerações e outra como sendo algo cultural que tem a ver apenas com aquele contexto?

Os que advogam que a mulher deve ser submissa e que, por esta razão também não estaria apta a liderar uma igreja, que é comumente composta tanto por mulheres como por homens, estão esquecidos de que a mesma Bíblia ensina que deve haver mútua sujeição (Ef 5.21) e que o maior é aquele que serve! O próprio Cristo atuou como servo, lavou os pés dos discípulos e chamou-os de amigos, dando-nos, assim, o exemplo que deveria nortear nossos relacionamentos. No Reino de Deus não há lugar para autoritarismo.

O Espírito Santo também atuou e continua a atuar no sentido da promoção das mulheres à uma condição de igualdade de direitos com os homens. Observe que elas também receberam o dom de profetizar. E, como não era possível profetizar de boca fechada, elas receberam autoridade espiritual para proclamar a Palavra de Deus na Igreja. “E acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias.” (Jl 2:28 e 29). Mulheres profetizas na Bíblia: Miriã (Ex 15:20), Débora (Jz 4:4), Hulda (II Rs 22:14), Ana (Lc 2:36-38), As 4 filhas de Felipe (At 21:9), Evódia e Síntique (Fl 4:2-3).

Além do ministério profético, as mulheres exerceram outras funções de liderança e de destaque na Bíblia: Débora atuou como juíza instituída por Deus em Israel (Jz 4.4), Priscila ensinava com destaque, tanto que teve o nome citado à frente do de seu próprio marido, algo muito incomum naquela época: “Ele começou a falar com coragem na sinagoga. Priscila e o seu marido Áquila o ouviram falar; então o levaram para a casa deles e lhe explicaram melhor o Caminho de Deus.” (At 18.26), “Mando saudações a Priscila e ao seu marido Áquila, meus companheiros no serviço de Cristo Jesus” (Rm 16.3); Febe, a diaconisa: “Eu recomendo a vocês a nossa irmã Febe, que é diaconisa da igreja de Cencréia” (Rm 16.1,2). A Mulher Samaritana como Evangelista: “Naquele momento chegaram os seus discípulos e ficaram admirados, pois ele estava conversando com uma mulher... Em seguida, a mulher deixou ali o seu pote, voltou até a cidade e disse a todas as pessoas: —Venham ver o homem que disse tudo o que eu tenho feito. Será que ele é o Messias?” (Jo 4. 27-29) e duas outras irmãs que também eram evangelistas: “E a você, meu fiel companheiro de trabalho, peço que ajude essas duas irmãs. Pois elas, junto com Clemente e todos os outros meus companheiros, trabalharam muito para espalhar o evangelho” (Fp 4.3).

Não podemos nos esquecer que não foi por acaso que a primeira pessoa a testemunhar e a proclamar a ressurreição de Jesus foi uma mulher: Maria Madalena! Já, em Atos 12.12-17, nota-se que o nome da mulher da casa onde a igreja se reunia é mencionado, uma vez que poderia simplesmente ser chamada de mãe de João Marcos, que era uma figura notória por ser o autor do Evangelho que leva o seu nome. Isto mostra a importância da liderança desta mulher naquela casa. Nas cartas paulinas, as mulheres são consideradas “colaboradoras” de Paulo. Paulo exorta a comunidade a reconhecer a liderança de diversas mulheres (Em 1 Co 16.16s). Em Romanos 16.6,12, ele recomenda Maria, Trifena, Trifosa e Pérside por terem “labutado” muito! Termo este empregado por Paulo para caracterizar o seu próprio trabalho de evangelizar e ensinar. Paulo menciona que Evódia e Síntique trabalhavam como ele, lado a lado (Fp 4.2-3); a liderança delas era tão fundamental que Paulo temeu que o conflito surgido entre elas pudesse prejudicar a missão cristã na comunidade de Filipos. Andrônico e Júnia, que, assim como Priscila e Áquila, são chamados de apóstolos (Rm 16.7), parceiros missionários, convertidos antes do apóstolo Paulo, muito provavelmente pertencentes ao círculo dos apóstolos em Jerusalém (Cf. 1 Co 15.7). Interessante observar que nem Priscila nem Júnia são definidas como esposas, pois o que se quis ressaltar foi a parceria delas na obra missionária!

Sabe-se que um fator decisivo para a expansão da igreja primitiva eram os cultos caseiros. Os cultos domésticos eram o lugar onde o cristianismo primitivo celebrava a ceia do Senhor, onde se estudava o Evangelho e a fé era nutrida. Estas igrejas contaram com a importante contribuição das mulheres. Que bom que não havia altar e nem púlpito elitista. Que bom que o ambiente era informal, o que favorecia a participação de todos. Na Carta aos Colossenses, Paulo menciona a “igreja na casa” de Ninfa (Cl 4.15). Nas origens da fundação da comunidade em Filipos está Lídia, que se converteu e ofereceu sua casa para a missão cristã (At 16.15). Das vinte e cinco pessoas citadas por Paulo em Romanos 16, aproximadamente um terço são mulheres. A liderança de Febe chega a ser caracterizada como diaconisa e prostátis, termos usados para designar pessoas na qualidade de mestres, missionárias, profetas, pessoas cheias do Espírito de Sabedoria.

Paulo afirma em sua carta aos Efésios que Deus chamou uns para apóstolos, outros para profetas e outros para mestres. Em momento algum, ele fala que Deus chamou homens ou mulheres para este ou aquele ministério exclusivo. Assim como Pedro argumentou que não poderia negar o batismo para aqueles que haviam recebido o Dom do Espírito, também podemos argumentar que não devemos negar a ordenação para as mulheres que evidenciam o dom do Espírito para o ministério pastoral. Como dito anteriormente, o critério de “sujeitar-se” é válido para todos, independentemente da posição que cada qual ocupa (Ef 5.21-31). No quarto século, a Igreja Católica, adotou o modelo do Antigo Testamento, fechando assim as portas para a ordenação de sacerdotes do sexo feminino. Outro argumento com base na tradição levítica foi o uso da pureza como critério para seleção para o ofício sacerdotal. Neste quesito, nova desvantagem feminina, pois, sob o ponto de vista da lei mosaica, as mulheres eram consideradas impuras nos períodos menstruais, o que as tornava inaptas para o sacerdócio. Impedida de alcançar o sacerdócio, restou à mulher resignar-se com as atividades subsidiárias ao serviço eclesiástico, algo que o protestantismo, pelo menos em seu nascedouro, não fez questão de modificar.

Constatamos com tristeza o registro de que a Igreja conviveu, tolerou e sancionou por séculos diversas injustiças sociais como a escravidão e a discriminação da mulher. No entanto, os princípios bíblicos de igualdade e liberdade germinaram, contribuindo para a libertação dos escravos e, agora, cooperam para a libertação da mulher.

O movimento wesleyano foi pioneiro na luta contra a escravidão e foi também 0 primeiro a reconhecer o ministério feminino. Não é de hoje que a Igreja Metodista Livre reconhece o valor das mulheres! Veja o que diz o seu Manual: "Os Metodistas Livres reconhecem que Deus concede dons espirituais de serviço e liderança tanto a homens como a mulheres. Visto que homem e mulher são ambos criados à imagem de Deus, tal imagem é mais plenamente refletida quando ambos, mulheres e homens, trabalham em união em todos os níveis da Igreja. Portanto, todas as posições na Igreja são acessíveis a todos que Deus chamar".

As mulheres representam hoje a maioria da membresia ativa da Igreja e não devem ser caladas e nem serem restringidas à um papel secundário. Devem ser reconhecidas e valorizadas como iguais, para serem enconrajadas a assumirem seu posto e vocação lado a lado com os homens em condições de igualdade. Isto não é liberalismo, mas, sim, libertação. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres!“

Bispo Ildo Mello

Comentários

  1. A Paz amado Bispo Ildo!

    Parabéns pela sua visão, e creio que o mundo evangélico precisa de homens que tenham a visão de Deus, e que não se deixe capitular diante das mediocridades e idiossincrasias de determinados líderes evangélicos que, sob o pretexto da defesa da sã doutrina, atropelam os processos de Deus e impõe um fardo pesado sobre os ombros das mulheres.

    Aproveito e o convido a ler meu artigo intitulado: "As mulheres e o ensino na igreja" que postei no meu blog, pois é um complemento perfeito do que o amado irmão discorreu aqui.

    Deus o abençoe ricamente, e tens aqui um fã que acompanha seu blog de longas datas, pois percebo que o irmão é uma pessoa sábia, centrada, e que não tem receio de expor seu pensamento e suas idéias, a despeito do que pensem ou deixe de pensar.

    Soli Deo Glori!

    ResponderExcluir
  2. Verdade seja dita, irmão que belíssimo post, parabéns...
    http://arrebatament.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos

A Igreja passa pela Grande Tribulação?

Lições extraídas da história de Mefibosete