O Paradoxo do Jovem Rico: onde o determinismo entra em colapso
O Paradoxo do Jovem Rico: onde o determinismo entra em colapso
O Jovem Rico ouviu o chamado de Cristo e foi embora triste, apegado aos seus bens (Mt 19.16-22). Jesus então declarou: “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Mt 19.24). Ou seja, o próprio Cristo ensina que a riqueza torna a entrada no Reino mais difícil. Mas é justamente aqui que o determinismo calvinista entra em colapso.
Se todos já nascem totalmente incapazes de responder a Deus, como ensina a doutrina da incapacidade total, não existe “mais difícil” nem “menos difícil”: existe apenas impossibilidade absoluta e idêntica para todos. Um mendigo teria exatamente a mesma cegueira inata do jovem rico. A advertência de Jesus sobre o grau de dificuldade do rico só faz sentido se a resposta humana é real e varia conforme o coração de cada um. No determinismo, ela vira uma frase vazia.
Pior: se Deus decreta exaustivamente tudo o que acontece, então Deus decretou o próprio orgulho e o apego que afastaram o jovem da salvação. O sistema que quis exaltar a soberania divina acaba fazendo de Deus o autor da barreira que condena o pecador.
E a ação de Satanás cegando o entendimento dos incrédulos (2 Co 4.4)? Cegar quem já nasceu cego é tão inútil quanto vendar um cadáver. A Escritura diz outra coisa: as pessoas têm olhos para ver, mas escolhem fechá-los (Mt 13.15). A culpa é de quem recusa a luz, não de um decreto eterno.
A prova definitiva está em Lucas. Dois homens riquíssimos, poucos capítulos de distância: o jovem rico recusa e parte triste (Lc 18.18-23); Zaqueu recebe Cristo, arrepende-se e devolve o que roubou (Lc 19.1-10). O que era humanamente impossível, Deus tornou possível pela graça (Mt 19.26), mas Zaqueu precisou abrir a porta que o jovem rico fechou. Se o determinismo fosse verdade, a única diferença entre eles seria um sorteio secreto na eternidade, e a riqueza, mero cenário.
Por isso Paulo passava dias persuadindo judeus e gregos (At 17.2-4; 28.23). Persuasão só faz sentido onde há agentes livres capazes de mudar de ideia. No determinismo, todo argumento é teatro para uma decisão já tomada nos bastidores.
Sim, sem a graça ninguém se salva, e toda a glória pertence a Deus. Mas um presente não precisa ser imposto de forma irresistível para que o doador receba a honra por tê-lo dado. A graça possibilita a escolha sem forçá-la. O Jovem Rico se perdeu por decisão própria, trágica e real. E é exatamente aí que a justiça de Deus e a responsabilidade humana brilham em perfeita harmonia.
Bispo Ildo Mello
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