Como saber se sou salvo?

 Como saber se sou salvo?

As marcas do novo nascimento segundo a Primeira Carta de João

1. Perguntas norteadoras

Como saber se sou salvo? Como saber se já nasci de novo? Minha fé é genuína ou apenas herdada? Posso ter certeza da salvação sem cair na presunção? E quando tropeço no pecado, isso significa que nunca fui de Cristo? Estas perguntas atravessam os séculos e continuam inquietando corações sinceros dentro das nossas igrejas. A boa notícia é que a Escritura não nos deixa sem resposta. João escreveu uma carta inteira exatamente com este propósito: "Escrevi estas coisas a vocês, que creem no nome do Filho de Deus, para que saibam que têm a vida eterna" (1 Jo 5.13). Deus quer que os seus filhos saibam que são seus filhos.

2. Um verdadeiro encontro com Deus deixa marcas

Muitos professam ter tido um encontro com Deus, mas seguem vivendo como antes. Um verdadeiro encontro com Deus, porém, deixa marcas. Abrão torna-se Abraão (Gn 17.5), Jacó transforma-se em Israel (Gn 32.28), Simão em Pedro (Jo 1.42), Levi em Mateus (Mc 2.14; Mt 9.9) e Saulo em Paulo (At 13.9). Diante da santidade de Deus, Isaías exclamou: "Ai de mim!" (Is 6.5). Zaqueu deixou de ser um corrupto ganancioso e passou a ser justo e generoso (Lc 19.8). Onde Deus toca, a vida muda de direção.

Alguém pode dizer: "Eu creio, então estou salvo". O problema desta afirmação é que "a fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tg 2.17), pois a verdadeira fé em Cristo é também fé que opera pelo amor (Gl 5.6). Quem reconhece que Jesus é o Senhor deve também sujeitar-se ao seu senhorio. Crer, no sentido bíblico, não é assinar mentalmente uma doutrina; é confiar, entregar-se e seguir. "Até os demônios creem e tremem" (Tg 2.19), mas nem por isso são salvos.

É fácil perceber que a grande maioria das pessoas ao nosso redor professa alguma fé cristã, mas Jesus advertiu: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus" (Mt 7.21). Muitos apresentarão naquele dia um currículo religioso impressionante, com profecias, exorcismos e maravilhas, e ouvirão do Senhor: "Nunca os conheci. Apartem-se de mim vocês, que praticam a iniquidade" (Mt 7.22-23). O critério que Jesus mesmo estabeleceu não foi o brilho dos dons, mas o fruto da vida: "Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão" (Mt 7.20). Por isso Paulo exorta: "Examinem-se a si mesmos para ver se vocês estão na fé; provem a si mesmos" (2 Co 13.5).

3. O que significa nascer de novo?

Jesus disse a Nicodemos: "Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus" (Jo 3.3). Antes de perguntar pelas marcas do novo nascimento, precisamos entender o que ele é. A tradição wesleyana ajuda aqui com uma distinção preciosa. João Wesley ensinava que, no momento da conversão, Deus realiza em nós duas obras inseparáveis, porém distintas: a justificação e o novo nascimento. A justificação é o que Deus faz por nós: perdoa os nossos pecados e nos declara justos por causa de Cristo, mediante a fé (Rm 3.24-26; 5.1). O novo nascimento é o que Deus faz em nós: pelo Espírito, transforma a nossa natureza interior, implantando vida nova onde havia morte espiritual (Jo 3.5-8; Tt 3.5). Wesley chamava a primeira de mudança relativa, porque altera a nossa relação com Deus, e a segunda de mudança real, porque altera o que somos (Sermão 45, "O Novo Nascimento").

Isto significa que a regeneração não é apenas um novo status; é uma nova vida. Deus prometeu pelos profetas: "Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo dentro de vocês" (Ez 36.26), "e farei com que vocês andem nos meus estatutos" (Ez 36.27). Quem está em Cristo é nova criatura (2 Co 5.17) e foi sepultado com ele pelo batismo na morte "para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida" (Rm 6.4). A nova criatura não pode permanecer a mesma. Se nada mudou, é legítimo perguntar se algo de fato aconteceu.

4. O duplo testemunho: como Deus nos dá certeza

Como, então, Deus dá aos seus filhos a certeza da salvação? A resposta wesleyana, extraída de Rm 8.16, fala de um duplo testemunho. Paulo escreve: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (Rm 8.16). Observe que há dois testemunhos convergindo no mesmo veredicto: o testemunho do Espírito de Deus e o testemunho do nosso próprio espírito.

O primeiro é o testemunho direto do Espírito Santo. Wesley o descreveu como uma impressão interior na alma pela qual o Espírito de Deus testifica imediatamente ao nosso espírito que somos filhos de Deus, que Jesus nos amou e se entregou por nós, e que os nossos pecados foram apagados (Sermões 10 e 11, "O Testemunho do Espírito"). Não se trata de uma voz audível nem de mera emoção religiosa, mas daquela convicção serena e filial que nos faz clamar "Aba, Pai" (Rm 8.15; Gl 4.6). Foi esta a experiência do próprio Wesley em 24 de maio de 1738, quando, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à Carta aos Romanos, sentiu o coração estranhamente aquecido e recebeu a certeza de que Cristo havia removido os seus pecados. Ele já era pastor, missionário e homem de disciplina exemplar, mas ainda não tinha a certeza filial da salvação. A doutrina do testemunho do Espírito tornou-se, por isso, uma das maiores contribuições do metodismo à igreja de Cristo.

O segundo é o testemunho indireto, o testemunho do nosso próprio espírito, que examina a vida e reconhece nela os frutos que só o Espírito produz: amor, obediência, santidade (Gl 5.22-23). Wesley insistia que os dois testemunhos não se separam. Quem alega ter o testemunho direto do Espírito, mas não apresenta os frutos do Espírito, engana a si mesmo; e quem busca os frutos sem jamais descansar na graça vive em servidão e medo. A certeza cristã nasce quando a voz interior do Espírito e a evidência exterior dos frutos dizem a mesma coisa. É exatamente esta a lógica da Primeira Carta de João, que apresenta as marcas objetivas pelas quais o testemunho interior pode ser confirmado.

5. As marcas do novo nascimento em 1 João

João usa, ao longo de toda a carta, expressões como "nisto sabemos", "nisto conhecemos", "todo aquele que", "quem não", "se alguém". São critérios de discernimento. De acordo com João, aquele que é nascido de Deus apresenta as seguintes características: tem comunhão com Deus, tem comunhão com a Igreja, tem comunhão com a Verdade, tem o testemunho do Espírito Santo, tem respostas para as suas orações e tem vitória sobre o pecado, o diabo e o mundo. Vejamos cada uma delas.

5.1 Tem comunhão com Deus

A vida eterna é, em sua essência, comunhão com Deus: "a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo" (1 Jo 1.3). O nascido de Deus conhece a Deus, e este conhecimento se comprova na obediência: "Sabemos que o conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos" (1 Jo 2.3; ver também 1 Jo 2.5; 3.24). Ele ama a Deus (1 Jo 4.16; 5.2-3), está em Cristo e nele permanece (1 Jo 2.24, 28; 5.20) e anda na luz, porque Deus é luz: "Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (1 Jo 1.7). Note que a obediência, aqui, não é a causa da salvação, mas a sua evidência: obedecemos porque o conhecemos, e não para vir a conhecê-lo.

5.2 Tem comunhão com a Igreja

Os salvos mantêm comunhão não somente com Deus, mas também uns com os outros (1 Jo 1.3, 7). Para João, o amor aos irmãos é um dos testes mais claros da autenticidade da fé: "Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte" (1 Jo 3.14). Quem afirma estar na luz e odeia o seu irmão ainda está nas trevas (1 Jo 2.9-11), e é pelo amor prático, e não apenas declarado, que se distinguem os filhos de Deus dos filhos do diabo (1 Jo 3.10, 16-18).

O nascido de Deus também não abandona a comunidade da fé. Sobre os que desertaram, João escreve: "Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos; pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco" (1 Jo 2.19). O autor de Hebreus aponta na mesma direção ao exortar que não deixemos de nos congregar, como é costume de alguns (Hb 10.25). Quem ama a Cristo ama aquilo que Cristo amou: ele deu a sua vida pela Igreja para apresentá-la a si mesmo gloriosa, santa e sem defeito (Ef 5.25-27). "Nisto conhecemos o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar a nossa vida pelos irmãos" (1 Jo 3.16).

5.3 Tem comunhão com a Verdade

O nascido de Deus crê e confessa que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus encarnado: "todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus" (1 Jo 4.2; ver 1 Jo 2.22-23; 5.10, 20; 2 Jo 7). Ele dá ouvidos à sã doutrina apostólica (1 Jo 4.6; cf. At 2.42; Ef 2.20), guarda a Palavra de Cristo (1 Jo 2.5) e permanece naquilo que ouviu desde o princípio: "Permaneça em vocês o que vocês ouviram desde o princípio. Se permanecer em vocês o que ouviram desde o princípio, vocês também permanecerão no Filho e no Pai" (1 Jo 2.24). Por isso mesmo não se deixa levar pelos falsos profetas (1 Jo 2.18-27; 4.1-6), pois "maior é aquele que está em vocês do que aquele que está no mundo" (1 Jo 4.4). Quem tem comunhão com Deus tem comunhão com a Verdade, porque o Espírito é a verdade (1 Jo 5.6), Jesus é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6) e a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.17).

5.4 Tem o testemunho interior do Espírito

Aqui a carta de João encontra-se com Rm 8.16 e com o coração da experiência wesleyana descrita na seção 4. O Espírito que recebemos é, ele mesmo, a prova de que pertencemos a Deus: "Sabemos que ele permanece em nós pelo Espírito que nos deu" (1 Jo 3.24), "porque ele nos deu do seu Espírito" (1 Jo 4.13). "O Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade" (1 Jo 5.6), e "quem crê no Filho de Deus tem em si o testemunho" (1 Jo 5.10; cf. Ef 1.13-14). É o Espírito que nos convence de que Jesus é o Senhor (1 Co 12.3), que derrama o amor de Deus em nossos corações (Rm 5.5), que nos ensina todas as coisas (1 Jo 2.27; 1 Co 2.13) e que nos guia, "pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Rm 8.14). O crente genuíno carrega dentro de si esta convicção filial que nenhum argumento externo produz e nenhuma acusação externa destrói.

5.5 Tem respostas para as suas orações

João acrescenta uma marca frequentemente esquecida: a experiência da oração respondida. "E aquilo que pedimos, dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável" (1 Jo 3.22; cf. Jo 15.7; Tg 5.16). "E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito" (1 Jo 5.15). A vida de oração do nascido de Deus não é um monólogo: há intimidade, há resposta, há a experiência concreta de um Pai que ouve. Isto não significa que Deus atenda todo pedido nosso da forma como imaginamos, mas que a comunhão viva com ele se manifesta numa história real de orações feitas segundo a sua vontade e respondidas por sua graça (1 Jo 5.14).

5.6 Tem vitória sobre o pecado, o diabo e o mundo

João ensina que o cristão pode saber que é salvo porque vive uma vida de vitória sobre o pecado: "Todo aquele que permanece nele não vive no pecado; todo aquele que vive no pecado não o viu, nem o conheceu" (1 Jo 3.6). "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus" (1 Jo 3.9; ver 1 Jo 5.18). Vitória também sobre o Maligno: "vocês são fortes, a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês venceram o Maligno" (1 Jo 2.14). E vitória sobre o mundo: "todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé" (1 Jo 5.4; ver 1 Jo 2.15-17; 5.19).

Um esclarecimento exegético é importante para não desesperarmos os sinceros nem consolarmos os rebeldes. Nos textos acima, João emprega o presente contínuo grego, que a NAA traduz com precisão: "não vive pecando", "não vive na prática de pecado". João não afirma que o cristão jamais peca, pois ele mesmo escreve: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos" (1 Jo 1.8). O que João nega é que o nascido de Deus permaneça vivendo no pecado como padrão, direção e escravidão, pois "todo o que vive no pecado é escravo do pecado" (Jo 8.34), e o cristão já foi liberto deste domínio (Rm 6.2, 14).

6. E quando o cristão peca?

O novo nascimento não blinda automaticamente o crente contra o pecado. Ainda há uma batalha real entre o Espírito e a carne (Gl 5.16-25), e por isso as Escrituras multiplicam as exortações à vigilância (Lc 22.46; Rm 8.13; Ef 4.22; Cl 3.8). Wesley tratou deste tema com equilíbrio no sermão "Do pecado nos crentes" (Sermão 13): permanece no cristão a possibilidade de pecar e permanecem nele inclinações que precisam ser mortificadas, mas o pecado já não reina sobre ele. Há uma enorme diferença entre o pecado que domina e o pecado que é combatido, confessado e abandonado.

João declara o propósito da sua carta nestes termos: "Filhinhos meus, escrevo estas coisas a vocês para que não pequem" (1 Jo 2.1). Mas acrescenta imediatamente o remédio para quando tropeçamos: "Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo 2.1-2). E ainda: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1 Jo 1.9). Os filhos da luz não devem andar nas trevas; mas, se tropeçarem na caminhada, não devem permanecer prostrados. O tropeço do peregrino não é a mesma coisa que a desistência do caminho. A pergunta decisiva não é "você nunca caiu?", mas "em que direção a sua vida está andando?".

Fomos chamados para a santidade, conforme a imagem de Jesus (Rm 8.29; 12.1-2; Ef 1.4), e o próprio Deus nos deu tudo o que é necessário para a vida e para a piedade (2 Pe 1.3-4). De acordo com João, o filho de Deus deve andar na luz, porque Deus é luz (1 Jo 1.5-7), deve amar, porque Deus é amor (1 Jo 4.8), deve praticar a justiça, porque Deus é justo (1 Jo 2.29; 3.7, 10), e deve purificar-se, porque Deus é puro (1 Jo 3.3). Em suma, deve andar como Jesus andou (1 Jo 2.6). Esta é a santidade de coração e vida que o metodismo sempre pregou: não perfeição absoluta, mas amor a Deus e ao próximo enchendo e dirigindo a vida inteira.

7. Certeza sem presunção: a perspectiva armínio-wesleyana

Neste ponto, a tradição armínio-wesleyana faz duas afirmações que precisam ser mantidas juntas. A primeira: o cristão pode e deve ter certeza da sua salvação presente. Esta certeza não é orgulho, é privilégio de filho, fundamentada na promessa de Deus, no sangue de Cristo e no testemunho do Espírito (Rm 8.15-16; 1 Jo 5.13). Deus não deseja filhos inseguros, que o sirvam com espírito de escravidão, sempre atormentados pelo medo (Rm 8.15; 1 Jo 4.18).

A segunda: esta certeza diz respeito à salvação presente e não dispensa a perseverança. As Escrituras condicionam a salvação final ao permanecer em Cristo: "Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto... Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo, e secará" (Jo 15.5-6). "Porque nos tornamos participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme até o fim a confiança que tivemos desde o princípio" (Hb 3.14; ver Cl 1.22-23; Ap 2.10). Por isso, o vocabulário predileto de João é justamente "permanecer": permanecer nele, permanecer na luz, permanecer no amor, permanecer na doutrina. A advertência de 1 Jo 2.19 mostra que é possível professar, conviver e depois abandonar; e a exortação "permaneçam nele" (1 Jo 2.28) mostra que a perseverança não é automática.

Isto nos guarda de dois erros opostos. De um lado, a presunção de quem transforma uma decisão do passado em salvo-conduto para viver sem Deus no presente, como se a frase "uma vez salvo, sempre salvo" pudesse substituir a vida de comunhão. As marcas apresentadas por João desmontam esta falsa segurança: não há certeza bíblica de salvação desacompanhada de fruto. De outro lado, o desespero de quem vive em pânico espiritual, achando que cada falha o exclui da família de Deus. A certeza wesleyana caminha entre os dois abismos: descansa inteiramente na graça e, exatamente por isso, leva a sério a santidade.

8. Uma palavra pastoral aos que duvidam

Talvez você tenha lido as marcas acima e o seu coração tenha se apertado: "Amo os irmãos, mas não como deveria. Oro, mas nem sempre percebo resposta. Luto contra o pecado, mas ainda caio". Se esta é a sua inquietação, observe uma distinção que muda tudo: as marcas de João descrevem a direção de uma vida, não a perfeição de cada dia. O fariseu satisfeito consigo mesmo não se examina; quem se examina com temor e deseja agradar a Deus já exibe, nesse próprio desejo, um sinal da obra do Espírito, pois o coração natural não tem fome de santidade.

O próprio João previu esta angústia e escreveu: "E nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, diante dele, tranquilizaremos o nosso coração; pois, se o nosso coração nos acusar, Deus é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas" (1 Jo 3.19-20). A ordem do olhar importa: olhe primeiro para Cristo crucificado e ressuscitado, fundamento único da salvação, e só depois para os frutos, que confirmam a fé, mas não a substituem como fundamento. Quem inverte esta ordem transforma o exame de si mesmo em tormento. E se, ao examinar-se com honestidade, você concluir que de fato nunca nasceu de novo, a resposta não é o desespero, mas a porta que continua aberta: "Ao que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (Jo 6.37). O mesmo Deus que exige o novo nascimento é o Deus que o concede a todo aquele que se arrepende e crê no Senhor Jesus (At 16.31; Jo 1.12-13).

9. Conclusão

Como saber, então, se sou salvo? Como teólogo de tradição armínio-wesleyana, respondo com Paulo, com João e com Wesley: pelo duplo testemunho. Por dentro, o Espírito de Deus testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus, gerando em nós a confiança filial que clama "Aba, Pai". Por fora, os frutos confirmam o testemunho: comunhão com Deus, comunhão com a Igreja, comunhão com a Verdade, oração viva e vitória crescente sobre o pecado, o diabo e o mundo. Nenhum dos dois testemunhos pode ser dispensado. Sentimento religioso sem fruto é ilusão; moralidade sem o Espírito é servidão.

Sabemos que somos salvos porque estamos em Cristo, porque estamos seguindo os seus passos, porque estamos no Caminho. Tropeços acontecem, mas encontramos perdão neste caminhar e força para prosseguir. Nossa caminhada não é solitária: o Senhor nos guia, desfrutamos da presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e caminhamos ao lado de irmãos e irmãs que seguem o mesmo Senhor. Nosso Senhor é a nossa luz e a nossa salvação. Nosso Senhor é o nosso alvo e a nossa motivação. Nosso Senhor é a nossa força para vencer o pecado, o diabo e o mundo. E, permanecendo nele até o fim, teremos plena confiança na sua vinda (1 Jo 2.28).

Bispo Ildo Mello



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