“Este é o meu Filho”: a identidade e a missão de Jesus reveladas em seu batismo

 “Este é o meu Filho”: a identidade e a missão de Jesus reveladas em seu batismo


O que aconteceu, de fato, no batismo de Jesus? Por que um acontecimento aparentemente tão simples ocupa lugar tão importante nos Evangelhos? E por que, logo depois dele, Jesus é conduzido ao deserto para enfrentar Satanás?


O batismo de Jesus não foi apenas o início público de seu ministério. Foi uma revelação de sua identidade e de sua missão. Quando o Espírito Santo desce sobre Jesus e a voz do Pai declara: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado” (Mt 3.17), Deus não está apenas manifestando seu amor pelo Filho. Ele está interpretando quem Jesus é à luz de toda a história bíblica.


Naquelas poucas palavras estão condensadas algumas das grandes expectativas do Antigo Testamento: o Rei messiânico, o Servo sofredor e o Filho amado que seria entregue.


1. O batismo revela quem Jesus é


João Batista hesitou em batizar Jesus:


“Eu é que preciso ser batizado por você, e você vem a mim?” (Mt 3.14).


Mas Jesus respondeu:


“Deixe por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15).


Jesus não tinha pecados dos quais precisasse se arrepender. Seu batismo, portanto, não possuía para ele exatamente o mesmo significado que possuía para aqueles que vinham confessando seus pecados.


Ao entrar nas águas do Jordão, Jesus estava se identificando com o povo que viera salvar e assumindo publicamente a missão que o Pai lhe havia confiado.


Então acontece algo extraordinário:


“E eis que os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: ‘Este é o meu Filho amado, em quem me agrado’” (Mt 3.16-17).


As três pessoas da Trindade aparecem de maneira impressionante.


O Filho está nas águas.


O Espírito Santo desce sobre ele.


O Pai fala dos céus.


Não estamos apenas diante de uma cena emocionante. Estamos diante de uma declaração divina acerca da identidade de Cristo.


2. “Este é o meu Filho”: Jesus é o Rei prometido


A primeira parte da declaração do Pai remete ao Salmo 2.


“Proclamarei o decreto do Senhor. Ele me disse: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você’” (Sl 2.7).


O Salmo 2 originalmente está relacionado à realeza davídica. O rei pertencente à linhagem de Davi era apresentado como alguém especialmente escolhido e estabelecido por Deus.


Mas, depois do desaparecimento da monarquia davídica, o salmo passou a alimentar a esperança messiânica de Israel.


Deus havia prometido a Davi:


“O seu trono será estabelecido para sempre” (2Sm 7.16).


Por isso, os profetas começaram a anunciar que viria um descendente de Davi cujo governo seria definitivo.


Isaías profetizou:


“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros” (Is 9.6).


E novamente:


“Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo” (Is 11.1).


Quando a voz celestial declara sobre Jesus:


“Este é o meu Filho”,


Deus está identificando Jesus como o Rei messiânico prometido.


Ele é o verdadeiro Filho de Davi.


Ele é o Messias.


Ele é o Rei.


Mas imediatamente surge uma pergunta: Que tipo de Rei ele será?


É aí que aparece o segundo grande eco do Antigo Testamento.


3. “Em quem me agrado”: Jesus é o Servo do Senhor


A frase “em quem me agrado” remete diretamente a Isaías 42:


“Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se agrada. Pus sobre ele o meu Espírito” (Is 42.1).


A correspondência é notável.


Em Isaías temos:


o Servo,

o escolhido,

aquele em quem Deus se agrada,

e o Espírito colocado sobre ele.


No Jordão encontramos exatamente esses elementos.


Jesus é aquele sobre quem o Espírito desce e em quem o Pai se agrada.


Isso significa que o Messias não seria apenas Rei. Ele também seria Servo.


E esse ponto muda profundamente nossa compreensão da missão de Cristo.


Isaías descreve progressivamente a missão desse Servo:


“Eu, o Senhor, chamei você em justiça… e farei de você mediador da aliança com o povo e luz para os gentios” (Is 42.6).


“Também farei com que você seja uma luz para os gentios, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49.6).


Porém, a missão do Servo culminaria não em triunfo militar, mas em sofrimento:


“Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades” (Is 53.5).


E:


“Como cordeiro foi levado ao matadouro” (Is 53.7).


Portanto, quando Jesus ouve no Jordão as palavras do Pai, ele recebe simultaneamente duas identificações:


Você é o Rei.


Mas também:


Você é o Servo.


Jesus conquistará o reino não pela espada, mas pela cruz.


Seu caminho para a coroação passará pelo sofrimento.


4. “Meu Filho amado”: o eco de Isaque


Há ainda uma possível terceira referência nas palavras pronunciadas pelo Pai.


Em Gênesis 22 Deus diz a Abraão:


“Pegue o seu filho, o seu único filho, Isaque, a quem você ama…” (Gn 22.2).


A linguagem é impressionantemente semelhante:


seu filho,

seu único filho,

a quem você ama.


Abraão leva Isaque ao monte para oferecê-lo em sacrifício. No último momento, entretanto, Deus intervém.


Um carneiro é oferecido em lugar de Isaque (Gn 22.13).


Mas aquilo que aconteceu simbolicamente com Abraão e Isaque apontava para algo infinitamente maior.


Séculos depois, outro Pai levaria seu Filho amado ao sacrifício.


Só que, dessa vez, não haveria substituto.


Porque o Filho seria o próprio substituto.


Paulo parece ter essa narrativa em mente quando escreve:


“Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou, será que não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32).


Há uma extraordinária correspondência entre Gênesis 22 e o evangelho.


Abraão não poupou seu filho.


Deus não poupou seu Filho.


Mas Isaque foi poupado.


Jesus não foi.


O carneiro morreu no lugar de Isaque.


Jesus morreu em nosso lugar.


Por isso João Batista, ao ver Jesus, declara:


“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).


5. Rei, Servo e Filho amado


Assim, em uma única declaração divina no Jordão, três grandes linhas da história bíblica parecem convergir.


Jesus é o Filho-Rei do Salmo 2.


Jesus é o Servo do Senhor de Isaías 42–53.


Jesus é o Filho amado de Gênesis 22, entregue pelo Pai.


Essas três imagens explicam boa parte do ministério de Jesus.


Ele é Rei, mas serve.


Ele possui toda autoridade, mas se humilha.


Ele poderia exigir submissão, mas lava os pés dos discípulos.


Ele poderia convocar legiões de anjos, mas entrega-se aos seus inimigos.


Jesus ensinaria mais tarde:


“Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).


Essa frase resume perfeitamente a identidade revelada em seu batismo.


O Filho veio como Servo para entregar a própria vida.


6. Isso explica por que a tentação veio imediatamente depois


Mateus faz uma ligação direta entre o batismo e a tentação.


Depois de ouvir:


“Este é o meu Filho amado” (Mt 3.17),


Jesus vai ao deserto.


E Satanás começa:


“Se você é o Filho de Deus…” (Mt 4.3).


Não é coincidência.


A tentação estava diretamente relacionada à identidade de Jesus.


Em essência, Satanás estava sugerindo:


Já que você é o Filho de Deus, use seus privilégios em benefício próprio.


Transforme pedras em pão.


Faça um grande espetáculo no templo.


Tome os reinos do mundo sem passar pela cruz.


Era uma tentativa de separar a identidade de Filho da missão de Servo.


Satanás não precisava necessariamente convencer Jesus a deixar de ser o Messias. Bastava convencê-lo a ser um Messias diferente daquele que o Pai havia determinado.


Um Messias sem sofrimento.


Uma coroa sem cruz.


Um reino sem obediência.


Glória sem sacrifício.


Essa talvez seja a profundidade maior das tentações no deserto.


Jesus havia ouvido no Jordão quem ele era. Agora precisava decidir como viveria aquilo que era.


E sua resposta foi obediência absoluta ao Pai.


7. A verdadeira identidade de Jesus não dependia da opinião das pessoas


Há um contraste interessante no Evangelho de Lucas.


Depois que Deus declara:


“Você é o meu Filho amado” (Lc 3.22),


Lucas apresenta a genealogia de Jesus dizendo:


“Jesus tinha cerca de trinta anos quando começou o seu ministério. Era, como se cuidava, filho de José…” (Lc 3.23).


“Como se cuidava.”


Aos olhos das pessoas, Jesus era simplesmente o filho de José.


Um homem de Nazaré.


Alguém vindo de uma família comum de uma pequena cidade da Galileia.


Por isso Natanael pergunta:


“De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46).


Os homens viam o carpinteiro.


Deus via o Filho.


Os homens viam Nazaré.


Deus via o Messias.


Os homens viam alguém comum.


Deus declarava:


“Este é o meu Filho amado.”


A identidade de Jesus não era determinada pela opinião das pessoas a seu respeito, mas pela declaração do Pai.


8. Jesus compreendia sua missão através das Escrituras


Há ainda uma lição belíssima nessa passagem.


As palavras do Pai não parecem ser uma declaração desconectada do restante da Bíblia. Elas são compostas por linguagem retirada das próprias Escrituras.


Salmo 2.


Isaías 42.


Gênesis 22.


Isso significa que Jesus compreendia sua própria identidade e missão dentro da história revelada nas Escrituras.


Ele sabia quem era porque conhecia aquilo que o Pai havia revelado.


Isso ajuda a explicar por que, durante a tentação, Jesus responde repetidamente:


“Está escrito…” (Mt 4.4,7,10).


A Palavra de Deus não era apenas uma arma ocasional contra Satanás.


Ela estruturava a própria compreensão que Jesus tinha de sua missão.


Ele sabia que era Rei.


Sabia que era Servo.


Sabia que era Filho.


E sabia que o caminho determinado pelo Pai passaria pela cruz.


9. A cruz já estava presente no Jordão


À primeira vista, o batismo parece marcar apenas o começo do ministério de Jesus.


Mas, olhando mais atentamente, descobrimos que a cruz já projeta sua sombra sobre o Jordão.


O Rei de Salmo 2 está ali.


O Servo sofredor de Isaías está ali.


O Filho amado destinado ao sacrifício de Gênesis 22 está ali.


O Cordeiro de Deus está ali.


Por isso o ministério terreno de Cristo não deve ser compreendido como uma sequência de acontecimentos independentes. Desde o princípio, Jesus caminha conscientemente em direção ao propósito para o qual veio.


Mais tarde ele dirá:


“Agora a minha alma está angustiada, e que direi eu? ‘Pai, salva-me desta hora’? Não, pois foi precisamente com este propósito que eu vim para esta hora” (Jo 12.27).


E ainda:


“Eu dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.15).


A cruz não foi um acidente na missão de Jesus.


Era parte da missão desde o começo.


Conclusão: o que significa ser o Filho?


No batismo de Jesus, Deus responde à pergunta fundamental sobre sua identidade:


Quem é Jesus?


Ele é o Filho amado.


Ele é o Rei prometido.


Ele é o Servo do Senhor.


Ele é aquele que seria entregue pela salvação do mundo.


E, logo depois, a tentação apresenta outra pergunta:


Que tipo de Filho ele será?


Jesus poderia utilizar seu poder para si mesmo ou permanecer obediente ao Pai.


Poderia escolher o caminho da autopreservação ou o caminho da cruz.


Poderia buscar glória sem sofrimento ou cumprir integralmente a vontade daquele que o enviou.


Jesus escolheu obedecer.


“Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8).


Por isso, no Jordão não vemos apenas uma revelação da identidade de Cristo. Vemos também o início público do caminho que conduzirá ao Calvário.


O Pai anuncia:


“Este é o meu Filho.”


Isaías nos ajuda a compreender:


Ele é também o Servo.


Gênesis aponta para o custo:


Ele é o Filho amado que será entregue.


E o evangelho nos revela o resultado:


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).


No batismo, portanto, começamos a compreender não apenas quem Jesus é, mas também por que ele veio.


Ele é o Filho amado do Pai que veio como Servo, tomou sobre si nossos pecados e, por meio da cruz e da ressurreição, tornou-se o Salvador do mundo.


Artigo desenvolvido a partir das reflexões de Christopher J. H. Wright em Knowing Jesus through the Old Testament, 2ª ed. (IVP Academic, 2014), especialmente p. 110–113.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Igreja passa pela Grande Tribulação?

As Setenta Semanas de Daniel

O templo judaico deverá ser reconstruído de novo?