segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lembra Senhor - Uma Crítica a Canção


Nos velhos tempos da minha mocidade, havia um alegre "corinho" que dizia: "tropeça aqui, ôôô... cai acolá, mas de novo levanta e começa a cantar!" Quem é da velha guarda deve lembrar bem. Sabe, a gente cantava este cântico com muita naturalidade sem perceber suas implicações, até que um pastor nos chamou à atenção para a maligna sugestão embutida no verso, que nos induzia a tratar a questão do pecado de maneira leviana e inconsequente.

Sugestão semelhante aparece no refrão de uma canção atual que é muito popular entre os evangélicos do Brasil:

Lembra Senhor, juraste o teu amor
E nada pode mudar o que sentes por mim
Nem os meus pecados
Lembra Senhor e faz mais uma vez
Os teus sinais e saberão que ainda és o mesmo Deus
Banda Toque no Altar 

Segundo esta canção, Deus jurou amor incondicional de modo que nada pode mudar o que Deus sente pelos seus filhos, nem mesmo o pecado. Será que é assim mesmo? As promessas e o amor de Deus são incondicionais? Os pecados não afetam a relação entre Deus e os homens? Os pecados dos homens não afetam os sentimentos de Deus?

Se isto fosse verdade, teríamos base para concluir que toda a humanidade seria salva no final das contas, pois Jesus declarou o amor de Deus por todo mundo (Jo 3.16). Se for verdade que nem os pecados podem mudar o que Deus sente por seus amados, então a humanidade pode ficar sossegada em seus pecados, descansando no amor incondicional de Deus. Se o amor de Deus é incondicional, então não há lugar para o castigo eterno.

Procurarei demonstrar pelas Escrituras Sagradas que o pecado é coisa séria, que afasta os homens de Deus; E que existe, sim, o risco dos salvos desviarem-se do caminho da salvação, pois as Alianças do Antigo e do Novo Testamento são condicionais, bem como as promessas e o amor de Deus.


Há inúmeras exortações bíblicas sobre o perigo da apostasia, o risco de cair, sobre a necessidade de perseverança e santidade.  


Isaías profetizou:

  • “Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá” (Is 59:2).


Paulo mesmo fala sobre o risco dos fiéis desviarem-se da fé:

  • “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” (2 Tm 2:12);
  • “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas (1 Tm 1:6);
  • “Porque já algumas se desviaram, indo após Satanás  (1 Timóteo 5:15);
  • “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores (1 Tm 6:10);
  • “Que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna. Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e ás oposições da falsamente chamada ciência, a qual, professando-a alguns, se desviaram da fé...” (1 Tm 6:19-21);
  • “Se alguém pensa que é profeta ou espiritual, reconheça que o que lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor. Se ignorar isso, ele mesmo será ignorado” (1 Co 14:37-38);
  • “Os quais se desviaram da verdade...” (2 Tm 2:18).
  • Quando Paulo, em Romanos 8.35-39, diz que nada pode separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, certamente não está se referindo ao pecado, pois jamais seria capaz de contradizer as Escrituras Sagradas que claramente ensinam que o pecado faz separação entre Deus e os homens.  O que Paulo quer dizer é que nenhum ser por mais poderoso que pareça ser e nenhuma tribulação por mais dura que seja tem poder em si para nos afastar do amor de  Deus.  Isto não significa o mesmo que dizer que o crente não corre o risco de afastar-se deliberadamente do amor de Deus por apego ao pecado.  


O Apóstolo Paulo fala dos cuidados que ele mesmo tinha que tomar para não vir a ser reprovado:

  • “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado” (1 Cor 9:27).


Paulo menciona a apostasia de Demas:

  • “Porque Demas me desamparou, amando o presente século... (2 Tm 4:10), que até então havia sido um fiel cooperador (Filemon 1.24 e Co 4.14).


Paulo exorta a perseverança:

  • “E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quais, falando-lhes, os exortavam a que permanecessem na graça de Deus” (At 13:43);
  • “... e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, com propósito de coração” (At 11:23);
  • “Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22).
  • “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo... para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes” (Ef 6:11-13);
  • “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16)
  • "Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. Não percebem que Cristo Jesus está em vocês? A não ser que tenham sido reprovados" (2Co 13.5).


Paulo chama a atenção dos crentes para que eles não incorram nos erros daqueles que caíram em pecado e perderam a salvação. Tudo o que está escrito na Bíblia serve para nosso ensino e advertência.

  • “Porque não quero, irmãos, que vocês ignorem o fato de que todos os nossos antepassados estiveram sob a nuvem e todos passaram pelo mar.
  • Em Moisés, todos eles foram batizados na nuvem e no mar. Todos comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da mesma bebida espiritual; pois bebiam da rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo. Contudo, Deus não se agradou da maioria deles; por isso os seus corpos ficaram espalhados no deserto. Essas coisas ocorreram como exemplos para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles fizeram. Não sejam idólatras, como alguns deles foram, conforme está escrito: "O povo se assentou para comer e beber, e levantou-se para se entregar à farra". Não pratiquemos imoralidade, como alguns deles fizeram — e num só dia morreram vinte e três mil. Não devemos pôr o Senhor à prova, como alguns deles fizeram — e foram mortos por serpentes. E não se queixem, como alguns deles se queixaram — e foram mortos pelo anjo destruidor. Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim dos tempos. Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1 Co 10:1-12).
  • "Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos" (Gl 6.7-9).


Pedro também fala sobre o perigo da apostasia:

  • “Os quais, deixando o caminho direito, erraram seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” (2 Pe 2:15).
  • “Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, foram outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviaram-se do santo mandamento que lhes fora dado. Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao lamaçal” (2 Pe 2:20-22).
  • "Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam. Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! Amém." (2 Pe 3.17 e 18)


O autor de Hebreus também adverte para o risco de se perder a salvação e da necessidade da perseverança para se alcançar a promessa:  

  • “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas. Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação...” (Hb 2:1-3).
  • “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo. E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério. Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; Mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada. Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos. Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos; e ainda servis. Mas desejamos que cada um de vós mostre o mesmo cuidado até ao fim, para completa certeza da esperança” (Hb 6:4-11).
  • “Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus;” (Hb 12:25).
  • “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” (Hb 10:36).



João escreveu seu livro para levar certeza para os salvos, afirmando que existem frutos como evidência para a salvação:

  • "Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos aos irmãos. Quem não ama permanece na morte" (1Jo 3.14)


Tiago diz que cristãos infrutíferos não podem estar seguros de sua salvação

  • "fé sem obras é morta" (Tg 2.26; cp. Jo 15.2)


João Batista advertia para o perigo de uma vida destituída dos frutos dignos de arrependimento, afirmando que a promessa de Deus é condicional ao genuíno arrependimento:

  • “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3:8-10).


Jesus é enfático sobre a necessidade de perseverança e frutos:

  • “Mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24.13).
  • “Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo” (Mt 7:19);
  • “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:2).
  • “E ao que vencer, e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações” (Ap 2:26).
  • “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap 2:7);
  • “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe” (Ap 2:17);
  • “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3:21);
  • “O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos” (Ap 3:5);
  • “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome” (Ap 3:12).
  • “Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (Ap 2:16);
  • “Lembre-se, portanto, do que você recebeu e ouviu; obedeça e arrependa-se. Mas se você não estiver atento, virei como um ladrão e você não saberá a que hora virei contra você” (Ap 3:3);
  • “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do seu lugar” (Ap 2:5).


Esta é a mesma lição que Jesus dá nas parábolas do Talentos (Mt 25.14-30), dos Lavradores Maus (M 21.17-44), Servo Infiel (Mt 24.45-51; Lc 12.35-48), Dez Virgens (Mt 25.1-13), Julgamento das Nações (Mt 25.31-46), Parábola da Figueira infrutífera (Lc 13.6-9). O ensino é claro, quem não multiplica o talento, os lavradores maus, os servos infiéis, as virgens imprudentes, os mau feitores, a figueira infrutífera, o que não está dignamente trajado (Mt 22), o que é morno em sua conduta e devoção cristã (Ap 2.15-16), todos estão sujeitos à condenação no juízo final. O ramo, mesmo estando ligado a Videira Verdadeira, se não der fruto, está pronto para ser cortado e lançado fora (Jo 15.2), assim também o sal que se tornar insípido e imprestável é jogado fora (Mt 5.13), e aquele que é morno em sua conduta cristã está prestes a ser vomitado por Deus (Ap 2.15-16).

As Alianças do Antigo e do Novo Testamento  não foram estabelecidas de modo incondicional. Promessas são feitas de modo condicional.  Estão repletas da condicional “se”:

  • “Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações” (Ex 19:5);
  • “Mas terão maldição, se desobedecerem aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, e se afastarem do caminho que hoje lhes ordeno, para seguir deuses desconhecidos” (Dt 11.28);
  • “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra” (2 Cr 7:14);
  • “Se o homem não se arrepende, Deus afia a sua espada, arma o seu arco e o aponta” (Sl 7:12);
  • “E se ele fizer o que eu reprovo e não me obedecer, então me arrependerei do bem que eu pretendia fazer em favor dele” (Jr 18:10);
  • “Agora, corrijam a sua conduta e as suas ações e obedeçam ao Senhor, ao seu Deus. Então o Senhor se arrependerá da desgraça que pronunciou contra vocês (Jr 26:13);
  • "Ouça, meu povo, as minhas advertências; se tão-somente você me escutasse, ó Israel! Não tenha deus estrangeiro no seu meio; não se incline perante nenhum deus estranho. Eu sou o Senhor, o seu Deus, que o tirei da terra do Egito. Abra a sua boca, e eu o alimentarei. "Mas o meu povo não quis ouvir-me; Israel não quis obedecer-me. Por isso os entreguei ao seu coração obstinado, para seguirem os seus próprios planos. "Se o meu povo apenas me ouvisse, se Israel seguisse os meus caminhos, com rapidez eu subjugaria os seus inimigos e voltaria a minha mão contra os seus adversários! Os que odeiam o Senhor se renderiam diante dele, e receberiam um castigo perpétuo. Mas eu sustentaria Israel com o melhor trigo, e com o mel da rocha eu o satisfaria" (Sl 81:8-16).
  • "Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará. Pois que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mt 16.24-26).
  • “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do seu lugar” (Ap 2:5).
  • “Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14).


Fé e obediência são inseparáveis. Paulo escreveu a Tito a respeito daqueles que professam conhecer a Deus, mas que por sua desobediência provam sua falta de fé (Tt 1.16). Para ser salvo a pessoa precisa confessar o senhorio de Cristo (Mt 7.21-23; Lc 6.46-49, Rm 10.9, 13, 1 Co 12.3). É necessário renunciar ao ego, como exortou Jesus "Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará. Pois que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mt 16.24-26). Jesus não pode ser Salvador sem Ser Senhor. É necessário tê-lo como Senhor e não apenas Salvador, arrependimento e não apenas fé, ser discípulo e não apenas crente, segui-Lo e não apenas encontrá-Lo, obedecê-lo e não apenas amá-lo da boca pra fora, tornar-se uma bênção, e não apenas receber as bênçãos, dar e não apenas receber, amar e não apenas ser amado, perdoar e não apenas ser perdoado, esforçar-se e não apenas esperar em Deus, multiplicar o talento e não apenas preservá-lo, buscar o Reino e não apenas aguardar, permanecer e não apenas iniciar o caminho, vencer e não apenas apenas contemplar a vitória de Cristo e dos heróis da fé, tudo isto com a capacitação do Espírito gracioso de Cristo.

A graça e a misericórdia divinas também não são incondicionais

Pela graça e misericórdia de Deus, nós recebemos o perdão dos pecados: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1 João 1:9). Mas o que busca o perdão, deve também estar disposto a perdoar. Uma vez, um irmão na fé, me fez uma pergunta estranha. Ele queria saber se eu orava toda a oração do "Pai Nosso". Eu disse que sim.  Então, meu amigo finalmente abriu o jogo, quando perguntou: "Mas mesmo aquele trecho que diz:  'assim como nós perdoamos aos nossos devedores'"? Assim como este meu amigo, tem muito cristão com sérias dificuldades diante deste trecho da oração. Mas é óbvio que deixar de orar este trecho não muda o fato de que o Senhor espera que o perdão recebido se transforme em perdão repartido, senão... Lembremos do ensino da  parábola do credor incompassivo que tendo recebido perdão de sua imensa dívida, na sequência, não perdoou aquele lhe devia bem menos, e, no final das contas, acabou sendo questionado por este ato incongruente, vindo a ter o seu perdão cancelado, pois foi tratado do mesmo modo incompassivo com que tratou ao que lhe devia (Mt 18.23-35). Como bem ensinou Jesus no Sermão do Monte: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia" (Mt 5.7) e "...perdoai e sereis perdoados... porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão também" (Lc 6.37,38). "Porque o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo"(Tg 2.13).  


Chegará o dia em que prestaremos conta de todos os talentos e graças recebidos (Mt 25). “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito...” (2 Co 5.10). Devemos ser frutíferos, senão seremos cortados da Videira Verdadeira (Jo 15.2). Como também disse Pedro: “Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em suas vidas, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a eleição de vocês, pois se agirem dessa forma, jamais tropeçarão, e assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 2.8-11).


Precisamos tomar cuidado para confirmar o nosso chamado e eleição, precisamos cuidar para não tropeçar, pois é desta maneira que nos será amplamente suprida a entrada no reino eterno. Por esta razão é que Pedro também adverte nesta mesma carta: “Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, foram outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviaram-se do santo mandamento que lhes fora dado. Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao lamaçal” (2 Pe 2:20-22).


O autor de Hebreus também adverte para o risco de se perder a salvação e da necessidade da perseverança para se alcançar a promessa (Hb 6.4-8, 12; 10.26-38). O autor de Hebreus apresenta uma boa ilustração sobre o relacionamento da graça de Deus e as boas ações humanas, demonstrando que aqueles que recebem a graça devem produzir os respectivos e esperados frutos: "Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus, mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada" (Hb 6.7-8).



As promessas de Deus a Israel eram incondicionais?

No A.T. existem dois tipos de promessas feitas a Israel: 1) Promessas naturais (que foram ou cumpridas ou canceladas devido a desobediência); e, 2) Promessas espirituais (que têm seu cumprimento na Igreja, o Israel de Deus, composta de judeus e gentios crentes em Cristo). As promessas feitas a Israel são condicionais (Mt 3.7-12; Jo 8.31-47).

Os genuínos descendentes de Abraão são os que fazem as obras de Abraão. (Jo 8.37; comparar Gn 15.6 com Jo 8.39, 40, 42,47) Filhos naturais de Abraão são chamados de filhos de Satã.

Podemos encontrar passagens paralelas para quase todos os textos usados pelos como contendo promessas incondicionais (Ex. Comparar II Sm 7 com 1 Rs 9.4-9) e mesmo quando as condições não estão explícitas, elas estão implícitas (Js 8.34). Sabemos que a profecia de Jonas era condicional, mesmo que tenha sido apresentada de forma incondicional: “Em 40 dias Nínive será destruída”. (Ver também Dt 28.1-15).

A fé de Abraão era uma condição implícita no que diz respeito a promessa (Gn 15.6). A circuncisão também era uma condição (Gn 17.14). Obediência é condição (Gn 22.1-12; 26.5 comparar com Hb 11.8).



PROMESSAS      CONDIÇÕES

Gn 12.2                  Gn 12.1

Gn 15.5                  Gn 15.6

Gn 17.4                  Gn 17.9

Gn 14.2-8               Gn 17.9

Gn 17.10,11           Gn 17.14; Ex 13.4,5

Dt 28.1-14              Dt 28.15

Dt 30.15,16            Dt 30.17-19; Js 8.34; 24.20

2 Sm 7                   1 Rs 2.3,4; 9.4-9; 11.11; 21.8; 1 Cr 28.7

2 Cr 7.16-18          2 Cr 7.19-23


As promessas feitas a Israel no A.T. eram condicionais e Israel não observou tais condições, o que gerou a necessidade de Deus estabelecer uma Nova Aliança (Jr 31.31,32; Hb 8.6,7,13). A “Nova Aliança” com a “Casa de Israel” (Jr 31.31-34) teve seu cumprimento em Cristo na Igreja (Hb 10.15-20), que inclui o remanescente de Israel e os gentios que são filhos de Abraão pela fé (Ef 2.14 e Gl 3.6-9).



O amor de Deus não é incondicional

Deus ama os pecadores, mas este amor é condicional O pecado afasta o homem de Deus e provoca a ira de Deus, seu justo juízo que pode levar a condenação eterna. Os que primeiramente eram objetos do amor de Deus, podem vir a se tornar objetos de sua ira. Portanto, a ideia de que o amor de Deus é incondicional não encontra respaldo bíblico e desemboca em universalismo, que é a ideia de que Deus salvará a todos. pois amor incondicional não combina com Juízo Final e castigo eterno.

Basta refletir sobre o significado da palavra: "incondicional", ou seja, que não impõe condições, para concluirmos que ela é inadequada, pois sabemos muito bem que Deus impõe condições para o seu relacionamento amoroso com os homens. Deus exige ser amado sobre todas as coisas (Mc 12.30). Deus estabelece também algumas condições para a salvação, como arrependimento e fé (Mc 1.15). Deus é paciente, disciplina a todo filho a quem ama, mas se o filho persistir em seu erro, acabará acumulando ira para o dia da ira (Rm 2.15; Mt 23.31-32). Ou seja, até a paciência de Deus tem limite. Dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31). Em seu amor, Deus concede oportunidade para o arrependimento, mas as oportunidades não são infinitas. Jesus espera que as pessoas aproveitem o tempo sobremodo oportuno de arrependimento, pois, senão... “E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua prostituição; e não se arrependeu...Então, darei a cada um de vós segundo as vossas obras” (Ap 2:21-23). Atente para o que está escrito em Josué 24.20: “Se deixardes o Senhor e servirdes a deuses estranhos, então, se voltará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito bem”.

No mais belo texto das Escrituras Sagradas, Jesus declara o amor de Deus por toda a humanidade, mas estabelece a fé como uma condição para o usufruto deste amor: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.16). Deus ama e espera ser amado e espera ser obedecido. “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (I Jo 4.19). “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5:15).

Deus ama os pecadores (Rm 5.8), mas exige arrependimento e fé (Mc 1.15) e também exige ser retribuído em amor (Mc 12.33). Seu mandamento é que o amemos sobre todas as coisas e que sejamos santos como ele é santo (Dt 11.13 e Lv 20.7 e 1 Pe 1.16). Por esta mesma razão é que Paulo veementemente afirma: "Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus (1 Co 6:9-10) e, igualmente, fala aos Gálatas: "Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus" (Gl 5:19-22).

O Apóstolo João diz que "Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1 Jo 4:8) e "Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte" (1 Jo 3:14). “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.” 1Jo 2.4-6

Sei que é difícil imaginar Deus deixando de amar, ou pelo menos, deixando de demonstrar amor, mas é ainda mais complicado imaginar que ele segue amando ou demonstrando amor de maneira incondicional aqueles que serão condenados ao castigo eterno. Enquanto amor e castigo pedagógico combinam, o mesmo não pode ser dito de amor e castigo eterno. Deus precisa estar bem aborrecido para condenar alguém ao inferno, dizendo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25:41). E Jesus precisa estar muito enojado de alguém para vomitá-lo como diz que estava prestes a fazer com alguns da Igreja de Laodiceia (Ap 3.16). Podemos concluir que a paciencia, a misericordia e o amor de Deus possuem limites. Tais limites tem a ver com a sua justiça.

Além disto, vemos na Bíblia que o amor de Deus é bastante exigente. Deus deseja ser correspondido em seu amor. 
"Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim" (Mt 10:37). Deus ama os pecadores, mas este amor tem suas expectativas, de modo que o ser amado corre o risco de não desfrutar das benesses do amor de Deus caso não corresponda positivamente ao amor recebido. 

Assim como o perdão recebido é cancelado quando não se converte em perdão repartido, assim também acontece com o amor que recebemos de Deus.

Se o amor de Deus fosse realmente incondicional, então, não haveria necessidade de nenhuma advertencia, porque não haveria nenhum risco de condenação, pois não haveria como separar Deus de seus amados. Se o amor de Deus fosse realmente incondicional, então Deus continuaria infindamente amando Satanás. Creio que não é este o caso.

A Bíblia fala muito sobre a ira de Deus, que é um reflexo de seu caráter justo. Precisamos coadunar bem o amor e a justiça para não desenvolvermos uma ideia adocicada e distorcida de Deus que acabe desembocando no universalismo que assevera a salvação final de todos.

Portanto, é errado afirmar que os pecados não afetam o relacionamento do crente com Deus. Está bem equivocado aquele que pensa que o amor, a graça, as Alianças e as promessas de Deus são incondicionais. Não se deixe enganar!


Concluo lembrando as seguintes palavras de nosso Senhor Jesus Cristo:

  • “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele" (Jo 14:21)





    Em amor,

    Bispo Ildo Mello
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    Lembra Senhor - Uma Crítica a Canção

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