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Crente Gabriela

CRENTE GABRIELA

A nova criatura não pode permanecer a mesma! Não pode ser crente Gabriela!


Já ouviram falar do crente “Gabriela”? Aquele que canta: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim: Gabriela, sempre Gabriela!” Este tipo é muito comum e perigoso, pois engana a si mesmo e dá mau testemunho da fé, por estar conformado com este mundo (Rm 12.1-2). A autêntica experiência de salvação é transformadora. Ou impacta a orientação total da vida ou não é autêntica.

Deus não apenas justifica, mas Ele nos cria novamente, nos transforma, buscando restaurar o nosso papel como imagem Sua. A Salvação não é apenas a reconciliação com Deus, mas a restauração segundo a imagem de Deus. O objetivo de Deus não é meramente nos revestir de uma justiça que permanece exterior a nós mesmos, mas conceder e implantar a justiça de Cristo em nós de tal modo que ela cresça e se expanda. Nossa Grande Salvação envolve o processo transformador que visa tanto a superação do pecado como uma vida cheia de amor. A justificação e a regeneração são aspectos dessa nossa grande salvação em Cristo. A justificação diz respeito a obra de Jesus por nós, cancelando a nossa dívida e nos concedendo o perdão e a reconciliação, enquanto a regeneração diz respeito a obra de Cristo em nós. Na primeira, a Sua justiça nos é imputada e no novo nascimento, a justiça de Deus nos é comunicada, ou seja, nos tornamos participantes da natureza divina (2 Pe 1.4).

O amor de Deus foi derramado nos nossos corações (Rm 5). O apóstolo João ensina o mesmo na sua primeira epístola afirmando que aquele que conhece a Deus passa a amar em decorrência deste amor recebido, passando este amor a ser o sinal do verdadeiro cristão. O mesmo se pode desprender da Oração que Jesus nos ensinou, onde se diz que devemos perdoar como fomos perdoados. Note que não podemos meramente receber este perdão, mas devemos participar dele: o perdão de Deus deve frutificar em nós e através de nós. Ou seja, após a experiência com o perdão e o amor de Deus, nós não podemos continuar os mesmos. O que o Apóstolo João nos ensina é que aquele que está em Cristo torna-se participante da natureza divina a ponto de expressar o amor de Deus. É claro que precisamos entender isto em termos dos limites estabelecidos pela finitude humana. O homem não se torna um deus. O Cristão continua humano, mas, como nova criatura, deve passar a revelar as virtudes da nova criação: os frutos do Espírito, como são conhecidas. Ele é templo do Espírito Santo e, sem que haja perda da personalidade individual, o fato é que Cristo passa a viver e a se expressar através de sua vida.

A salvação não é uma bênção que se encontre apenas do outro lado da morte. As Escrituras colocam no presente: “Sois salvos” (Ef 2.8) Não é uma coisa remota, é algo presente, que tem início neste mundo. Trata-se de toda obra de Deus, desde o primeiro toque da graça até a consumação na glória. Trata-se também do poder criativo e transformador de Deus na vida neste mundo. Uma transformação no aqui-e-agora (Hb 6.1)

A justiça do cristão não é de sua própria feitura, não é inerente, mas produto do Espírito de Cristo. Por isto é que falamos da graça transformadora. Mas isto não quer dizer que o papel do homem seja de passividade. Não, pois o que aconteceu é que o cristão possui agora uma nova natureza, ou seja, ele tem capacidade e armas espirituais que devem ser desenvolvidas para o exercício de sua missão. A nova criatura é desafiada a crescer nesta graça e a desenvolver a sua própria salvação, despojando-se do velho homem, revestindo-se do novo, enchendo-se do Espírito, não dando lugar ao diabo, buscando as coisas do alto, acumulando tesouros no céu, deixando a mentira, falando a verdade, se desembaraçando do pecado, preparando-se como um atleta para a olimpíada da vida que é vivida pela fé. Todos estes são exemplos de desafios bíblicos para o cristão, que dizem respeito a sua participação neste processo de santificação, do qual o novo nascimento é ponto de partida. O cristão deve, portanto, agir, alimentar-se e desenvolver-se na fé, no amor e na prática das boas obras com o auxílio do Espírito Santo visando chegar à maturidade. O alvo é que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.13). Tudo isto visando a glória de Deus e o nosso testemunho do Evangelho para o cumprimento da nossa missão e vocação.

Tal perfeição, que podemos denominar como cristã para diferi-la da perfeição divina, é possível pela graça de Deus dentro dos limites da finitude humana. Esta perfeição tem sua base na perfeição daquilo que recebemos. O amor de Deus é perfeito. Não há amor mais supremo, mais completo, mais santo e mais doador do que aquele que recebemos do divino Doador. Este amor é pura graça, e Deus o partilha com aqueles que são chamados a serem a sua imagem. Nós recebemos e participamos deste amor perfeito. Wesley entendia a perfeição em termos do amor, e o amor não pode ser encontrado sem transformar a pessoa que o recebe.

A perfeição cristã não é nada mais nada menos que “amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos”. Amar a Deus envolve “entregar a ele todo o nosso coração... devotar não uma parte, mas toda a nossa alma, corpo e substância a Deus”. Amar ao próximo envolve ter aquela “mente que houve em Cristo, capacitando-nos a andar como Cristo andou”, partilhando seu espírito na autodoação e no serviço aos outros.

A humanidade feita à imagem de Deus, como criatura chamada a recebê-lo, a interagir com ele e a refleti-lo no mundo, agora pode viver esse chamado por meio da nova relação com Deus, possibilitada por Jesus Cristo e capacitada e levada adiante pelo Espírito transformador. Portanto, a nova criatura em Cristo é chamada a manifestar ao mundo aquele amor perfeito e assim proclamar e mediar o amor divino e seu poder criador.

“A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua habilidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que supere o presente... Ela não está cega as às forças negativas, no entanto não as considera consequências inevitáveis do pecado original, mas exatamente aquilo que pode ser vencido.”

Por Bispo José Ildo Swartele de Mello - baseada no livro de Theodore Runyon – “A Nova criação – A teologia de João Wesley hoje” – Editeo.

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