Repensando a “Corrente de Ouro”
Sinergia, vocação e o verdadeiro propósito de Romanos 8
Uma síntese da leitura de N. T. Wright
Amados colegas,
Se existe um capítulo da Bíblia que moldou a imaginação teológica do Ocidente, é Romanos 8. No entanto, por séculos, e de forma mais acentuada desde a Reforma, fomos ensinados a ler este texto através de lentes essencialmente platônicas. Reduzimos a grandiosa visão de Paulo a uma ordo salutis individualista, uma espécie de fluxograma celestial projetado para responder a uma única pergunta: como garantir que vou para o céu quando morrer?
Para responder a isso, lemos Romanos 8.28-30 como um decreto determinístico: Deus escolheu alguns de forma invisível, chamou-os internamente, perdoou seus pecados e, no fim, os glorificará em um estado espiritual desencarnado. Sob essa ótica, a salvação é algo que Deus faz por nós e apesar de nós, enquanto aguardamos a evacuação deste mundo.
Mas Paulo não estava tentando resolver os debates de Agostinho ou Calvino. A sua mente era a de um judeu do primeiro século, saturada pelas Escrituras Hebraicas, testemunhando o clímax da história de Israel e do cosmos no Messias ressurreto. É importante registrar, contudo, uma nuance: Wright não nega o estado intermediário nem a vida após a morte. O que ele recusa é a ideia de que um céu desencarnado seja o destino final. O fim de tudo, para Paulo, não é abandonar a terra, mas os novos céus e a nova terra (Ap 21.1-5).
Quando devolvemos Romanos 8 ao seu contexto original, descobrimos que Paulo não nos ensina como escapar do mundo, mas como Deus está resgatando o seu mundo através do seu povo.
1. O resgate da sinergia: synergei em Romanos 8.28
Para compreendermos a famosa “corrente de ouro” dos versículos 29 e 30, precisamos primeiro examinar com cuidado o versículo 28. Muitas traduções trazem: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Isso soa quase estóico, como se o universo fosse um mecanismo que se ajusta magicamente a nosso favor. Outras versões dizem que Deus age em todas as coisas para o bem dos que o amam; melhor, mas ainda nos coloca em posição de total passividade.
A palavra grega que Paulo usa, segundo Wright, é synergei. O prefixo syn- significa “com”, e ergonsignifica “trabalho”. A leitura que ele propõe é: Deus trabalha com aqueles que o amam. Esta é a doutrina da sinergia bíblica.
A teologia ocidental ficou tão temerosa da ideia de “salvação pelas obras” que recuou de qualquer sugestão de cooperação com Deus. Mas Romanos 8.28 não trata de merecer a salvação; trata do modo como Deus opera a redenção no mundo. Veja os versículos anteriores (Rm 8.26-27): a criação geme, nós gememos, não sabemos orar como convém, mas o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Quando a Igreja sofre, lamenta e ora pelas dores do mundo corrompido, Deus ouve esse clamor movido pelo Espírito e trabalha em sinergia conosco para trazer a sua nova criação. Desde Gênesis, Deus nunca quis agir sozinho; ele criou a humanidade precisamente para trabalhar em parceria com ela.
2. A imagem do Filho: a restauração da vocação de Gênesis (v. 29)
É com essa mentalidade de sinergia que entramos no versículo 29: “Porque os que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29). Nossa tradição espiritualizou a palavra “imagem”, reduzindo-a a “santidade moral” ou “ser bondoso como Jesus”. A teologia de Paulo, porém, ecoa diretamente Gênesis 1.26-28. Deus criou o ser humano para ser sua imagem na terra: refletir o amor e a justiça do Criador para a criação e elevar os louvores da criação de volta ao Criador.
Para Wright, ser conformado à imagem do Filho é um conceito dinâmico, não estático: trata-se de vocação, e vocação custosa. O pecado foi um colapso vocacional. Ao adorarmos a criação em vez do Criador, perdemos o domínio sábio e entregamos o mundo à corrupção. Jesus, o Messias, é o verdadeiro Humano, a imagem do Deus invisível (Cl 1.15). Ser predestinado a ser conforme à imagem do Filho significa, portanto, a restauração da nossa humanidade original. Deus está recriando a humanidade em torno de Jesus, para que sejamos os parceiros de trabalho de que o mundo precisa.
3. Israel, o Servo e a redefinição da predestinação (vv. 29-30)
O que fazemos, então, com a palavra “predestinou”? É aqui que o paradigma determinista costuma engolir o texto, transformando a predestinação em decreto arbitrário e excludente sobre a vida após a morte de indivíduos específicos.
A leitura de Wright vai noutra direção. O verbo proorizo(predestinar) significa “marcar os limites de antemão”. O que Deus determinou desde o princípio não foi uma lista de bilhetes para o céu, mas a formação de um povo, moldado pelo seu Espírito, para ser instrumento de resgate da sua criação. Aqui é preciso uma observação de honestidade exegética: Wright lê esses versículos sobretudo à luz de Gênesis 1, do Salmo 8 e da vocação de Israel. O tema do Servo Sofredor de Isaías 40–55, embora central em sua teologia da eleição e da cruz, ele o desenvolve com mais detalhe noutros textos paulinos (como Romanos 5) do que num comentário versículo a versículo de Romanos 8. Portanto, é mais exato dizer que a vocação de Israel-como-servo ressoa em Romanos 8 do que afirmar que Paulo tinha Isaías 40–55 diante dos olhos como chave única deste texto.
Feita essa ressalva, o ponto permanece: a vocação do servo, na tradição dos Cânticos do Servo, não era simplesmente desfrutar de um status de salvação exclusiva enquanto as nações pereciam, mas ser agente de Deus na realização da nova criação, luz para o mundo. Jesus cumpriu essa missão; e os que amam a Deus herdam, nele, essa mesma vocação. Fomos predestinados não para sermos evacuados do planeta, mas para que Deus trabalhe o seu Reino através de nós. A predestinação, nessa chave, é vocação para a missão, não evacuação passiva.
4. O veredito e a coroa: justificação e glorificação (v. 30)
Aos que ele marcou de antemão, ele “chamou” e “justificou”. A justificação é linguagem de tribunal e de aliança. O juiz bate o martelo e declara o veredito antecipado: esta pessoa, coberta pelo sangue do Messias e selada pelo Espírito, é membro verdadeiro da família de Deus. Essa era uma mensagem vital para a Igreja de Roma, prestes a enfrentar perseguições brutais: a justificação garantia que pertenciam a Deus, independentemente do que o império fizesse com eles.
E, por fim, ele os “glorificou”. O Ocidente interpretou “glória” como brilhar nas nuvens tocando harpa. Mas, na mente judaica, a glória humana aponta para o Salmo 8: o ser humano feito um pouco menor que os anjos, coroado de glória e honra, com todas as coisas sujeitas debaixo de seus pés. Para Wright, ser glorificado significa, simultaneamente, ser cheio da presença e do poder de Deus pelo Espírito e ser habilitado a exercer a vocação de genuínos portadores da imagem. A glorificação é o momento em que os filhos de Deus são finalmente revelados (Rm 8.19) para assumirem seu papel legítimo de governantes sábios, amorosos e restaurados sobre a nova criação. É por isso que a natureza geme: ela não espera nossa partida, aguarda nossa transformação.
Note ainda o tempo verbal de Paulo: ele usa o passado (“glorificou”). Do ponto de vista divino, firmado na ressurreição física de Jesus, esse futuro é tão inabalavelmente certo que já pode ser declarado como fato consumado.
O desafio pastoral
Meus irmãos, quando ensinamos que a predestinação de Romanos 8 é apenas sobre quem vai ou não para o céu, tornamos as nossas ovelhas passivas. Alimentamos uma fé consumista, que apenas aguarda o resgate.
Mas quando entendemos Paulo em sua própria linguagem, quando abraçamos a sinergia, a imagem de Gênesis, a vocação de Israel e a glória do Salmo 8, despertamos a Igreja. Vocês não estão pastoreando almas à espera de um voo de fuga; estão equipando a vanguarda da nova criação. Fomos marcados de antemão para sermos moldados como Jesus, justificados para pertencer à verdadeira família e chamados, hoje, a gemer, orar e sofrer em esperança, cooperando com o Criador até o dia em que reinaremos com ele na terra renovada. Ensinem o seu povo não apenas a descansar na salvação, mas a se levantar para a sua vocação cósmica.
Referências: N. T. Wright, Into the Heart of Romans (2023); Surpreendido pela Esperança; Paulo para Todos: Romanos; e The Day the Revolution Began (2016).
Nenhum comentário:
Postar um comentário