🙏 DA REZA AO PRINCÍPIO
A oração de Jabes à luz do Pai Nosso
Nos últimos anos, poucas orações curtas da Bíblia foram tão repetidas quanto a de Jabes. Ela estava escondida numa lista de nomes em 1 Crônicas e, de repente, virou cartão, quadro e bilhete na geladeira. Por isso vale uma pergunta sincera, sem nenhum alarme: o que estamos pedindo quando oramos assim?
1. O que o texto diz
Jabes pediu quatro coisas a Deus: que o abençoasse, que alargasse as suas fronteiras, que a mão de Deus estivesse com ele e que o livrasse do mal (1Cr 4.10). E Deus atendeu.
Aqui já aprendemos algo importante: esse texto conta uma história, não dá uma fórmula. O autor narra o que aconteceu com um homem; ele não promete que toda pessoa que repetir essas palavras vai receber a mesma coisa. Tratar uma história da Bíblia como se fosse uma promessa para todos é um engano comum, e a boa leitura das Escrituras nos ajuda a corrigir isso.
2. O que há de bonito na oração
Há muito o que admirar. Jabes não negocia com Deus: ele clama. E o melhor pedido dele é este: “que a tua mão seja comigo”. Aqui Jabes pede o próprio Deus, e não só os presentes de Deus. Isso é oração de verdade: querer a presença d’Ele acima de tudo.
3. Onde está o perigo
O perigo não é orar todo dia. Orar com constância é lindo e faz bem. O perigo é achar que as palavras certas, ditas o número certo de vezes, obrigam Deus a agir, como se a oração fosse uma fórmula mágica.
Foi contra isso que Jesus avisou: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios” (Mt 6.7). Quando a oração vira amuleto, mesmo um amuleto tirado da Bíblia, ela perde o sentido.
Dois pedidos de Jabes ainda precisam de cuidado. “Alargar fronteiras”, se a gente entende mal, vira só pedido de mais coisas, mais sucesso, mais bens, e aí escorrega para o “evangelho da prosperidade”. E pedir para nunca passar por aflição esbarra numa verdade do Novo Testamento: Deus não promete uma vida sem dor, mas a Sua presença dentro da dor (Rm 8.18).
4. A oração que Jesus ensinou
Quando os discípulos pediram “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11.1), Jesus não ensinou a oração de Jabes. Ensinou o Pai Nosso. E a diferença é grande.
A oração de Jabes começa e quase só fala do eu: abençoa-me, alarga as minhas fronteiras, livra-me. Já o Pai Nosso começa em Deus: “Santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade” (Mt 6.9-10). Primeiro o Pai, primeiro o Reino, primeiro a vontade d’Ele. Só depois vem o nosso pão, e mesmo assim o “pão de cada dia”, na medida da necessidade.
Onde Jabes pede para não ser tocado pela dor, o Pai Nosso ensina a pedir “livra-nos do mal” (Mt 6.13), que é livramento do pecado e dos intentos de Satanás, não imunidade ao sofrimento. E onde Jabes pede fronteiras maiores, o Pai Nosso ensina a pedir pelo pão nosso de cada dia e a perdoar como fomos perdoados.
A grandeza do Pai Nosso não é pedir menos. É pedir na ordem certa: Deus em primeiro lugar, e o nosso “eu” achando o seu devido lugar.
5. Princípio, não reza
Aqui está o coração de tudo: nenhuma oração da Bíblia foi dada para ser repetida como reza automática. Ela foi dada para formar quem ora.
A pergunta certa não é “posso orar Jabes?”. É: “com que coração eu oro?”. Orada como clamor de dependência e dentro da prioridade do Reino, até Jabes faz bem. Orada como fórmula de prosperidade e de fuga da dor, ela nos desvia, por mais sincero que seja o coração.
Uma palavra final
A oração madura não tenta arrancar de Deus o que queremos. Ela alinha o nosso querer ao querer d’Ele. Foi assim que Jesus orou: “não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42). Quando esse é o fundo de toda oração, então sim a mão de Deus está conosco de verdade. E as fronteiras que Ele alargar serão as do Seu Reino, não as do nosso “eu”. 🙌
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