domingo, 30 de junho de 2013

Um breve comentário de Romanos 9 - 11

Para uma boa interpretação de Romanos 9-11, se faz necessário entender o propósito deste capítulo. Lembrando que, no começo desta carta (Rm 1.16 e 17) Paulo afirmou que o Evangelho era o poder de Deus para salvação de judeus e gentios. Mas os judeus, como nação, rejeitaram a Cristo. Os ramos naturais foram cortados e em seu lugar foram enxertados os ramos da oliveira brava, uma referência aos gentios, ou seja, a todos os demais povos.

Mas muitos, indignados, estão acusando Paulo de renegar o seu próprio povo e de ensinar que as promessas de Deus feitas ao seu povo Israel não são verdadeiras, firmes e confiáveis. Paulo, portanto, está aqui neste capítulo 9, respondendo a estas falsas acusações, deixando claro que a promessa não é para os filhos carnais de Abraão, mas para os herdeiros da fé de Abraão. Veja também o que Paulo diz a este respeito em Gálatas 3.

Para reforçar a tese que a promessa nada tem a ver com a descendência carnal de Abraão, Paulo lembra que Esaú, foi rejeitado como povo herdeiro da promessa ainda que fosse o preferido de seu pai, Isaque. Deus tem os seus motivos e enxerga bem melhor do que Isaque. Deus é livre para escolher e decidir como e através de que povo ou povos se dará o cumprimento de suas promessas.

Observe que o tema da eleição individual não está na mente de Paulo, mas, sim, o da eleição dos judeus para ser o povo escolhido, sua posterior rejeição, e a escolha dos gentios em seu lugar. Esaú e Jacó são os representantes de dois povos: Israel e Edom. Paulo deixa claro aqui que o conceito de povo de Deus é algo que transcende a etnia hebraica. Não basta ser descendente físico de Abraão, é preciso ser descendente espiritual. Não importa se você é judeu ou gentio. Os verdadeiros herdeiros da promessa de Abraão são os que exercem fé no Messias que é sobre todos, Deus Bendito Eternamente!

Portanto, as promessas de Deus feitas a Abraão estão, sim, sendo cumpridas no Israel de Deus, que é composto por judeus e gentios que crêem em Cristo. Deus tem direito de rejeitar qualquer povo, mesmo os judeus, por sua incredulidade, e eleger qualquer outro que ele quiser em seu lugar. Deus tem misericordia e favorece os povos que Ele julgar por bem fazê-lo sem que isto implique qualquer injustiça de sua parte, pois Ele tem suas razões que muitas vezes desconhecemos.

Deus também pode endurecer o coração de quem Ele quiser sem que isto seja uma atitude injusta e meramente arbitrária. Lembremos que antes do relato do Êxodo dizer que Deus endureceu o coração de faraó, por 5 vezes é dito que foi o próprio faraó é quem foi endurecendo o seu próprio coração (Ex 7.13; 7.22; 8.15; 8.32; 9.7). Paulo sabe que os judeus aceitam com facilidade o fato do endurecimento do coração de faraó, mas que não reconhecem que a mesma incredulidade que levou a rejeição de faraó também está levando a rejeição dos judeus como povo de Deus. O povo uma vez favorecido e liberto das garras de faraó, deixa de ser favorecido quando se desvia da fé de Abraão e segue o erro, a obstinação e a incredulidade de faraó. Deus endurece a quem quer. E Ele quer endurecer aqueles que endurecem a si mesmos. Sem fé é impossível agradar a Deus. A verdadeira circuncisão é a do coração e os verdadeiros filhos de Abraão são os da fé.

Portanto, nestes três capítulos, Paulo não está tratando da eleição de indivíduos, mas sobre a expansão da graça de Deus para abarcar os gentios no povo de Deus juntamente como os remanescentes de Israel. O mesmo princípio gracioso que promoveu a eleição de Israel está agora operando para incluir os gentios que antes não faziam parte do povo de Deus, mas que agora podem também pertencer a ele através da fé em Jesus Cristo. Predestinação de indivíduos está completamente fora de cogitação aqui, pelo contrário: "Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar" (Rm 11.22-23).

Espero que este breve comentário ajude você a compreender melhor este importante capítulo.

Um grande abraço!

Bispo Ildo Mello

sábado, 29 de junho de 2013

A falácia do calvinismo

O calvinismo ensina que o ser humano é totalmente depravado, não sendo capaz de atos de pura bondade e nem de responder a Deus com fé e arrependimento. Mas, neste caso, Deus seria injusto ao exigir fé e arrependimento de seres que são totalmente incapazes de crer e se arrepender, assim como um pai seria injusto se pedisse a seu filho de 5 anos de idade que carregasse nas costas uma geladeira e, por fim,  o punisse severamente por não cumprir o seu mandamento. Tal pedido seria absurdo devido a total incapacidade do filho para o cumprimento daquela tarefa. Se o filho é incapaz de cumprir uma tarefa, então, não pode ser culpado por não cumpri-la. 

Deus é coerente e justo. Se Deus ordena a todos os homens que se arrependam é por que todos são capacitados para tanto. Sendo assim, são verdadeiramente responsáveis pela forma como responderão a Deus.

Se os inúmeros chamados, ordens e advertências na Bíblia devem ser realmente levados a sério, então o homem deve ter capacidade para responder positivamente para seu benefício e salvação.


"Mas Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam" (At 17.30).

"Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente"  (Tt 2:11-12).

"Ora, no seu último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba" (Jo 7.37).

Um grande abraço,
Bispo José Ildo Swartele de Mello

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os Dois Chamados e o Processo de Discipulado



Em 29 minutos, falo sobre o primeiro e o último chamado de Jesus, que se encontram respectivamente no primeiro e último capítulos do Evangelho de Marcos. Evangelho este que mostra como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens. O capítulo 8, que fica exatamente no meio do livro, de modo emblemático, apresenta um dia intenso de atividades, como um claro exemplo deste processo de discipulado. O número dois é recorrente, apontando para o processo pedagógico:

Dois Chamados (o primeiro e o último) e o processo de discipulado entre um e o outro!
Duas Multiplicações de Pães. Que lições?
Dois Milagres em Marcos 8. Qual a relação entre eles?
Dois Toques de Jesus foram necessários para a cura do cego. Por quê?
Duas Perguntas que Jesus fez aos seus discípulos
Duas falas de Pedro (uma espiritual e a outra carnal)
Duas repreensões de Jesus aos seus discípulos. A falta de fé e confiança e as ambições desta vida (Quando Pedro ainda era adepto da teologia da prosperidade).
E As Duas Cruzes (A de Cristo e a que pertence a cada discípulo).

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Os Dois Chamados

Como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens?
Processo de discipulado que vai do "Vinde a mim" até o "ide".
Mensagem que preguei na imel de Pinheiros do concílio nikkei no último domingo de Maio de 12.

Sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes. 

Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores. 

Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente. 

O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada. 

Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo. 

Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória". 

Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15:19). 

João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão. 

Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!". 

Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?