quarta-feira, 8 de julho de 2026

UMA VIDA INTEIRAMENTE CONSAGRADA

UMA VIDA INTEIRAMENTE CONSAGRADA

A vida e o ministério do Rev. José Emílio Emerenciano como inspiração para esta e as futuras gerações de metodistas livres no Brasil

O que faz uma vida ministerial deixar marcas que atravessam gerações? Por que, décadas depois de sua partida, o nome do Rev. José Emílio Emerenciano ainda desperta gratidão e saudade na Igreja Metodista Livre do Brasil? E, sobretudo: o que a sua história tem a dizer aos pastores, líderes e membros de hoje — e aos que ainda virão? Este artigo procura responder a essas perguntas percorrendo a trajetória de um homem cuja única ambição foi servir a Cristo e à Sua Igreja com amor e dedicação integral.

1. De Macau ao mundo: a soberania de Deus na formação de um servo

A história começa longe dos grandes centros: em Macau, pequena cidade salineira do Rio Grande do Norte, onde José Emílio Emerenciano nasceu em 1902. Nada ali sugeria que aquele menino potiguar se tornaria pioneiro de uma denominação nascida do outro lado do mundo. Mas Deus tem um plano para cada criatura (Sl 139.16), e o Senhor foi abrindo portas, uma a uma: os estudos de inglês e francês na infância, a conversão aos vinte anos, o colégio em Alto Jequitibá (MG), o Seminário Presbiteriano de Recife e, por fim, o Mackenzie, em São Paulo.

Foi ali que aconteceu o encontro decisivo. Ouvindo as conferências do bispo japonês Juji Nakada, da Igreja Holiness, o jovem José recebeu um convite surpreendente: concluir seus estudos teológicos no Japão para, de lá, voltar e pastorear os imigrantes japoneses no Brasil, já que o governo brasileiro não permitia a vinda de líderes religiosos do Japão. Antes de responder, José recolheu-se por três dias em Santos, em fervorosa oração, buscando a certeza de estar no centro da vontade de Deus. Essa é a primeira lição da sua vida: grandes decisões se tomam de joelhos. Como Abraão, ele saiu sem saber plenamente para onde ia, obedecendo pela fé (Hb 11.8), e embarcou para o Japão em 1929.

2. Um missionário às avessas: do Japão para o Brasil

A estratégia era inusitada e genial: em vez de missionários estrangeiros vindo evangelizar o Brasil, um brasileiro formado no Oriente para alcançar os orientais radicados em sua própria pátria. Em 1931, o Rev. José voltou ao Brasil credenciado como ministro do Evangelho pela Igreja Holiness do Japão e passou a pregar em português e em japonês — nas casas, nas praças públicas e nas igrejas — em plena época de crise mundial. Em 1935, foi ordenado pastor no 1º Concílio da Igreja Evangélica Holiness do Brasil, com imposição de mãos do bispo Shimekiti Tanaami.

Por cerca de doze anos ele serviu sem salário fixo, vivendo pela fé. Era sustentado por ofertas e doações de roupas — e, sendo mais alto que a maioria dos irmãos japoneses, era comum vê-lo com calças de pernas curtas e camisas de punhos curtos. Ele vestia, literalmente, a provisão de Deus, e aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação (Fp 4.11-13, 19).

3. Fé provada no cadinho das dificuldades

Em 1942, casou-se com a jovem Irene Rompenso, formada na Escola Dominical da Igreja Metodista da Mooca. O pai da noiva, o sério italiano Luiz Rompenso, resistiu ao casamento com uma pergunta que ecoa até hoje: “Como é que pode alguém viver pela fé?”. A resposta veio da própria Providência. Quando a empresa em que José trabalhava atrasou o salário justamente no vencimento da dívida dos primeiros móveis do casal, ele orou e dormiu “um sono tranquilo”; no dia seguinte, o carteiro trouxe uma carta com um cheque — oferta de gratidão de um conferencista norte-americano a quem José servira como intérprete — no valor exato da necessidade. Assim era a sua vida: uma vida de fé (Hb 11.6).

Os anos da Segunda Guerra trouxeram provações ainda mais duras. Por amar e pastorear os japoneses, o Rev. José foi chamado de “quinta-coluna”; a polícia especial invadiu a pensão onde morava e confiscou todos os seus preciosos livros de teologia, que nunca foram devolvidos; e ele, por várias vezes, foi à delegacia socorrer japoneses presos apenas por conversarem em seu idioma nas ruas. Quando a perseguição o afastou temporariamente da colônia japonesa, Deus abriu outra porta: o pastorado da congregação presbiteriana do Bairro do Frigorífico, em Barretos (SP), onde o casal serviu com fruto entre 1942 e 1946. Aprendemos aqui que a adversidade não interrompe o plano de Deus; muitas vezes, é o caminho dele (Rm 8.28).

4. 1946: a cruz da continuidade

O ano de 1946 foi o mais doloroso e o mais decisivo da sua vida. Em abril, faleceu sua mãe, em Fortaleza. Em junho, morreu tragicamente o Rev. Daniel Nishizumi, primeiro missionário metodista livre no Brasil, seu amigo de longa data, que já vinha convidando o casal para a obra. Diante do rebanho sem pastor, os Emerencianos se mudaram às pressas para São Paulo e assumiram a continuidade do trabalho em Mirandópolis — inclusive o internato de filhos de imigrantes. O pioneirismo raramente é planejado em gabinetes; quase sempre nasce de uma cruz assumida por obediência (Lc 9.23).

Sob essa liderança fiel, somada ao trabalho de missionários e de outros pioneiros, a obra cresceu entre japoneses e brasileiros, e em 13 de outubro de 1949 a Igreja Metodista Livre do Brasil adquiriu personalidade jurídica, com sede à Rua das Rosas, em Mirandópolis. A denominação que hoje conhecemos passou, humanamente falando, por aquelas mãos nordestinas que aprenderam a orar em japonês.

5. Plantando igrejas, formando pessoas

Nas décadas seguintes, o Rev. José e D. Irene serviram em várias frentes: Mirandópolis, Lins, Vila Galvão (Guarulhos) e São José do Rio Preto, entre outras. O casal investia em tudo o que edificasse pessoas: Escola Dominical vibrante, classes de alfabetização nos anos 40, acampamentos — inclusive no período de Carnaval, para guardar a juventude —, retiros espirituais, campanhas evangelísticas com folhetos distribuídos até de avião, programas de rádio e as inesquecíveis serenatas em que D. Irene tocava seu órgão portátil, carregado na garupa de uma bicicleta, para levar consolo aos idosos e doentes.

Ele evangelizava declamando poesias, ensinava, acolhia, aconselhava e formava obreiros. Sua casa era extensão do templo, e seu ministério, um ministério de multiplicação: confiava às novas gerações o que recebera, como Paulo orientou a Timóteo (2Tm 2.2). Muitos pastores e líderes da IMeL, e até missionários de sua própria família, que anos depois partiram do Brasil para evangelizar no Japão, invertendo a rota de 1929, são frutos diretos ou indiretos dessa sementeira.

6. O quarto de oração: a fonte secreta

Qual era o segredo de tanta fecundidade? Quem o visitava encontrava a resposta num pequeno escritório: a Bíblia aberta, hinários em português, inglês e japonês, a revista de meditação diária e uma lista, escrita em letras bem grandes, com os nomes das pessoas pelas quais ele orava todos os dias. Já idoso, o Rev. Emerenciano intercedia diariamente por cada um dos pastores da Igreja Metodista Livre e suas famílias, citando os seus nomes, um a um, diante de Deus (cf. Fp 1.3-4; Cl 4.12). Ao lado da estante, um quadro com fotos de missionários, parentes e amigos recebia as mãos estendidas do casal em oração.

Essa foi a sua última trincheira de serviço. Quando as forças físicas se foram, restou-lhe o ministério maior, o da intercessão, até que, em 15 de junho de 1998, aos 96 anos, ele foi promovido à presença do Senhor, tendo combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé (2Tm 4.7).

7. Lições para esta e para as futuras gerações

Que legado, então, essa vida entrega à Igreja Metodista Livre do Brasil? Destaco sete lições. Primeira: a vocação se obedece sem reservas — quando Deus chama, a resposta se dá de joelhos e com as malas prontas (Is 6.8). Segunda: vive-se pela fé — a provisão de Deus pode vir em cheques inesperados ou em camisas de punhos curtos, mas nunca falta ao servo obediente (Fp 4.19). Terceira: a santidade de coração e vida, ênfase que nos define como metodistas livres, não é teoria de seminário; é um quarto de oração frequentado diariamente (Hb 12.14). Quarta: o amor de Cristo não conhece fronteiras de cultura, raça ou idioma — e paga o preço social de amar os rejeitados (Gl 3.28). Quinta: a adversidade é ocasião de fidelidade, não desculpa para deserção (Tg 1.2-4). Sexta: ministério fecundo é ministério que forma sucessores (2Tm 2.2). Sétima: a intercessão nominal, perseverante e diária é, talvez, o serviço mais duradouro que um pastor pode prestar à sua igreja (1Sm 12.23).

Conclusão: honrar o legado é imitar a fé

Voltemos às perguntas do início. O que faz uma vida atravessar gerações? Não são os títulos, nem os púlpitos ocupados, mas a consagração integral a Cristo. A Escritura nos manda lembrar dos nossos guias, que nos falaram da palavra de Deus, considerar o resultado do seu procedimento e imitar a sua fé (Hb 13.7). Minha posição, portanto, é explícita: a melhor homenagem que esta geração pode prestar ao Rev. José Emílio Emerenciano não é um busto, nem apenas um livro, mas uma igreja que ore como ele orou, creia como ele creu e vá aonde o Senhor mandar, como ele foi.

Como a árvore plantada junto a correntes de águas (Sl 1.3), ele deu fruto no tempo certo, e sua sombra ainda nos abriga. Que os jovens metodistas livres do Brasil, ao lerem essa história, ouçam nela o mesmo chamado que um dia alcançou um menino em Macau, e respondam com a mesma inteireza: “Não importa onde for, seguirei meu Senhor”.



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