Expulso da igreja por citar o Diário de Wesley

 Expulso da igreja por citar o Diário de Wesley

O que aprendi, aos 19 anos, sobre os dois extremos que Wesley pediu que evitássemos

Bispo Ildo Mello

Eu tinha 19 anos e uma pergunta na ponta da língua.

Era manhã de domingo, classe de escola dominical, e o meu pastor de então ensinava que os dons e as manifestações do Espírito Santo haviam cessado com a morte do último apóstolo. Cessacionismo, portanto: uma posição respeitável, sustentada por gente séria ao longo da história da igreja, e que merece resposta cuidadosa em vez de deboche. Levantei a mão e pedi licença para perguntar, tomando o cuidado de ser educado, porque a pergunta já era, em si mesma, incômoda:

"Mas, pastor, John Wesley não ensinava que deveríamos evitar dois extremos, o de atribuir todas as manifestações espirituais a Deus e o de menosprezá-las como se tudo fosse desprezível?"

A resposta veio rápida: "Wesley nunca falou isso."

Eu tinha lido. Então dei a referência: Diário de Wesley, edição tal, página tal.

O que aconteceu em seguida eu levei anos processando. O pastor se enfureceu, chamou-me de moleque insolente, perguntou como eu ousava contestá-lo e mandou que eu me retirasse. Estava expulso da igreja. Se não saísse, disse ele, impetraria um mandado de segurança contra mim.

Saí calmamente. Por fora, obediência; por dentro, atordoamento. Eu havia sido expulso de uma igreja metodista livre por citar uma frase do fundador do metodismo.

Meses depois, aquele pastor foi afastado do quadro pastoral da Igreja Metodista Livre, e faço questão de registrar que não foi por iniciativa minha, que nada denunciei e nada requeri. Pude então voltar para a minha igreja. A história terminou bem. Mas ela me ensinou coisas que nenhum curso de teologia me ensinaria depois, e é por isso que a conto agora, quase uma vida inteira de ministério mais tarde.

1. As perguntas que ainda dividem igrejas

Vale começar pelas perguntas que estavam por trás daquela manhã, porque elas continuam vivas nas nossas comunidades.

Deus ainda opera hoje como operava no livro de Atos? Quando alguém chora, treme ou cai numa reunião, isso é obra do Espírito Santo, emoção humana ou encenação? E se for uma mistura das três coisas, como distinguir o que é de Deus do que é da carne? Quem tem autoridade para julgar? E o que fazemos quando o julgamento erra, seja para mais, seja para menos?

Observe que há duas maneiras opostas de errar aqui. A primeira é tratar toda manifestação emocional como prova automática da presença de Deus, o que transforma o culto numa competição de intensidade e deixa a igreja refém de quem grita mais alto. A segunda é tratar toda manifestação emocional como suspeita, fraude ou desequilíbrio psíquico, o que blinda a igreja contra o charlatão e, no mesmo movimento, a blinda contra o Espírito Santo.

Wesley conheceu as duas tentações de perto. E, o que é mais notável, conheceu as duas dentro do seu próprio movimento, com poucos anos de distância uma da outra.

2. O que Wesley escreveu de fato

O texto está no Diário, no registro de domingo, 25 de novembro de 1759, quando Wesley voltou a Everton. Meses antes, aquele lugar havia sido palco de cenas extraordinárias, com pessoas caindo, gritando, tendo transes e visões. Ao retornar, encontrou um ambiente bem diferente: "ninguém agora caiu em transe, ninguém gritou, ninguém tombou ou teve convulsões; apenas alguns tremiam muito, ouvia-se um murmúrio baixo, e muitos eram revigorados com abundância de paz".

E então ele escreve a frase que me custou a expulsão:

"O perigo era considerar demais as circunstâncias extraordinárias — gritos, convulsões, visões, transes —, como se fossem essenciais à obra interior, que não pudesse prosseguir sem elas. Talvez o perigo agora seja considerá-las de menos: condená-las por completo, imaginar que nada tinham de Deus e que eram um estorvo à sua obra."

Repare na elegância pastoral do que ele faz aqui. Wesley não está apontando o dedo para o erro dos outros. Ele diz "o perigo era" e "talvez o perigo agora seja", de modo que os dois extremos aparecem como riscos da mesma comunidade, em estações diferentes. Ontem o povo superestimava; hoje corre o risco de subestimar. É a mesma igreja, o mesmo pastor, o mesmo pêndulo.

Wesley não parou no diagnóstico. Ofereceu uma avaliação em quatro pontos que é uma pequena obra-prima de discernimento pastoral:

"1) Deus convenceu súbita e fortemente a muitos de que eram pecadores perdidos, e disso eram consequência natural os gritos súbitos e as fortes convulsões do corpo; 2) para fortalecer e animar os que criam, e para tornar a sua obra mais patente, ele favoreceu a vários deles com sonhos divinos, a outros com transes e visões; 3) em alguns desses casos, depois de algum tempo, a natureza misturou-se com a graça; 4) Satanás igualmente imitou essa obra de Deus, a fim de desacreditar o todo da obra."

Ou seja: num mesmo fenômeno podem estar operando três agentes, Deus, a natureza humana e o adversário, sem que seja preciso escolher um deles e explicar tudo por ele. Wesley recusa tanto a ingenuidade que atribui tudo a Deus quanto o ceticismo que atribui tudo à emoção ou ao engano.

E o fecho é a chave de tudo:

"E, contudo, não é sábio abrir mão dessa parte, como não o seria abrir mão do todo. No princípio, foi sem dúvida inteiramente de Deus. Em parte, ainda o é hoje; e ele nos capacitará a discernir até onde, em cada caso, a obra é pura, e onde se mistura ou degenera."

Aí está o método wesleyano: caso a caso, com discernimento concedido por Deus, sem jogar fora o trigo junto com o joio nem chamar o joio de trigo.

Vale acrescentar que Wesley chegou a essas conclusões trabalhando como observador criterioso, não como entusiasta crédulo. No mesmo período, examinou pessoalmente os que caíam em transe, verificando pulso, semblante e palavras. Um homem que toma o pulso de quem desmaia no culto não é um homem disposto a engolir qualquer coisa. Tampouco é um homem disposto a desprezar aquilo que não entende.

3. O fundamento bíblico: não apagar e não engolir

Wesley não inventou esse equilíbrio; leu-o em Paulo.

"Não apaguem o Espírito. Não desprezem as profecias. Julguem todas as coisas, ficando com o que é bom" (1Ts 5.19–21).

O apóstolo dá quatro ordens numa sequência que a igreja costuma quebrar ao meio. Uns ficam com "não apaguem o Espírito" e esquecem "julguem todas as coisas". Outros ficam com "julguem todas as coisas" e transformam o julgamento em apagador. Paulo manda fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e a segunda existe justamente para proteger a primeira: julga-se para poder reter o que é bom, não para descartar tudo por precaução.

João diz o mesmo pelo outro lado:

"Amados, não creiam em qualquer espírito, mas provem os espíritos para ver se eles procedem de Deus" (1Jo 4.1).

Note que ele não escreve "não creiam em espírito nenhum". Escreve "provem". Provar pressupõe que há algo verdadeiro a ser encontrado no meio do que é falso, pois, do contrário, bastaria rejeitar tudo e economizar o trabalho.

Há ainda um dado que raramente entra nesse debate: entre os dons que o Espírito distribui está justamente o discernimento de espíritos (1Co 12.10). Deus não entregou à igreja um conjunto de manifestações sem entregar também a capacidade de examiná-las. E, no mesmo capítulo em que Paulo mais organiza e disciplina o uso dos dons, ele conclui: "Portanto, meus irmãos, procurem com dedicação o dom de profetizar e não proíbam o falar em línguas. Mas que tudo seja feito com decência e ordem" (1Co 14.39–40). Liberdade e ordem, na mesma frase, sem que uma anule a outra.

O critério decisivo, para João, nunca foi a intensidade do fenômeno, e sim a confissão de Cristo (1Jo 4.2–3). Para Jesus, é o fruto: "Portanto, vocês os reconhecerão pelos seus frutos" (Mt 7.16,20). Para Paulo, é a edificação da igreja (1Co 14.26). Nenhum desses testes mede decibéis.

4. Por que o cessacionismo não se sustenta no texto

Quero ser justo com a posição do meu antigo pastor, porque ele não a inventou e porque muitos irmãos sinceros a sustentam.

O argumento cessacionista clássico se apoia em 1Coríntios 13.8–10: as línguas cessarão, a profecia desaparecerá, "porque o nosso conhecimento é parcial, e a nossa profecia é parcial; mas, quando vier o que é perfeito, o que é parcial desaparecerá". A tese é que "o perfeito" seria o cânon completo das Escrituras, de modo que, fechada a Bíblia, estariam encerrados os dons.

O problema é que o próprio Paulo explica o que entende por "o perfeito" no versículo seguinte: "Porque agora vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, assim como também sou plenamente conhecido" (1Co 13.12). Ver "face a face" e conhecer como se é conhecido não descreve a experiência de quem tem uma Bíblia na mão, e sim a consumação, o encontro com o Senhor. Enquanto isso não vier, permanecemos no regime do conhecimento parcial. E é exatamente nesse regime que os dons servem.

Some-se a isso Pedro, em Pentecostes, ancorando o derramamento do Espírito numa promessa cujo alcance ele mesmo define: "porque a promessa diz respeito a vocês, a seus filhos e a todos os que ainda estão longe, isto é, a todos quantos o Senhor, nosso Deus, chamar" (At 2.39). Wesley usou precisamente esse texto ao defender-se dos que negavam a obra do Espírito no seu tempo, escrevendo que Deus dá hoje, como antigamente, "a remissão de pecados e o dom do Espírito Santo, ainda a nós e aos nossos filhos".

Mas há um argumento anterior a todos esses, e é de ordem histórica. Wesley registrou no Diário que recebia "inumeráveis advertências", quase todas fundadas, segundo ele, "em grosseiras deturpações dos fatos", para que não desse atenção a visões e sonhos. A resposta que deu ao mais insistente dos seus críticos é de uma honestidade desarmante:

"A questão entre nós gira principalmente, se não totalmente, em torno de matéria de fato. O senhor nega que Deus opere hoje esses efeitos, ao menos, que os opere desta maneira. Eu afirmo ambas as coisas, porque ouvi essas coisas com os meus próprios ouvidos e as vi com os meus olhos."

O cessacionismo é uma tese sobre fatos, e teses sobre fatos podem ser confrontadas com fatos. Wesley viu vidas mudarem instantaneamente do desespero para o amor, e recusou-se a negar o que tinha diante dos olhos em nome de um esquema teórico sobre o que Deus poderia ou não estar fazendo naquele século.

5. O que a expulsão me ensinou

Volto ao rapaz de 19 anos, porque a lição principal desta história não é sobre pneumatologia.

Aquele pastor não me expulsou por eu estar errado. Expulsou-me porque eu estava certo e ele não sabia o que fazer com isso diante da classe inteira. A citação era real, a referência era exata, e ele havia afirmado categoricamente que Wesley "nunca falou isso". O que se seguiu foi um exercício de autoridade para encerrar um debate que a autoridade não conseguia vencer pelo argumento.

Aprendi ali, do modo mais duro, três coisas que carrego até hoje.

A primeira é que autoridade pastoral que não suporta ser verificada não é autoridade, é intimidação. Um pastor seguro teria dito "não conheço essa passagem, traga o livro na próxima semana e estudamos juntos". Não teria perdido nada, e teria ganhado a classe inteira. O ministério não exige onisciência; exige honestidade.

A segunda é que a igreja precisa de jovens que leiam as fontes. Se eu não tivesse lido o Diário, teria engolido a afirmação e talvez a repetisse pelos quarenta anos seguintes. Boa parte do que se ensina como "wesleyano" nos nossos púlpitos jamais passou pelo teste de conferir o que Wesley de fato escreveu. É por isso que hoje eu invisto tanto em disponibilizar as fontes primárias em português.

A terceira, e a mais difícil, é que quem foi ferido pelo autoritarismo religioso corre o risco de reproduzi-lo invertido. Eu poderia ter saído dali com ódio de cessacionistas, transformando a minha dor em militância. Poderia ter passado a defender o extremo oposto, atribuindo tudo ao Espírito por pura reação a quem não lhe atribuía nada. A graça de Deus me guardou disso, e o texto de Wesley, o mesmo que me custou a expulsão, foi parte dessa guarda. Não se lê aquela página e se sai extremista de nenhum dos lados.

Foi também por isso que, quando aquele pastor foi afastado, meses depois, eu não tive nada a comemorar. Nada denunciei, nada movi. Voltei para a minha igreja, e a igreja seguiu.

6. A prudência wesleyana aplicada hoje

Como isso funciona na prática pastoral? Ofereço alguns critérios que uso e ensino.

Primeiro, não confunda emoção com carnalidade. A conversão mexe com o ser inteiro. Quando alguém entende de repente que está perdido e que Cristo morreu por ele, chorar não é fraqueza, é resposta proporcional ao que está acontecendo. Wesley registrou que os gritos súbitos eram "consequência natural" de uma convicção profunda de pecado. Uma igreja em que ninguém jamais se comove diante da cruz deveria examinar não a sua ordem, mas o seu coração.

Segundo, não confunda emoção com prova. Pelo mesmo motivo, a intensidade não certifica nada. Há choro de arrependimento e há choro induzido por música e sugestão coletiva. Wesley reconheceu que, com o tempo, "a natureza misturou-se com a graça". Nem toda mistura é fraude; muitas vezes é apenas humanidade. Mas mistura não é o mesmo que pureza, e chamar tudo de puro é enganar o povo.

Terceiro, avalie pelo depois, não pelo durante. Este é o critério mais wesleyano de todos. A pergunta decisiva não é o que aconteceu no culto, e sim o que aconteceu na segunda-feira. Houve arrependimento que durou? Casamento restaurado, dívida paga, bebida abandonada, inimigo perdoado, pobre socorrido? "Vocês os reconhecerão pelos seus frutos" (Mt 7.16). Wesley acompanhava as pessoas semanas e meses depois dos episódios, e é isso que dá autoridade ao juízo dele.

Quarto, teste o conteúdo, não apenas a forma. Profecia que contradiz a Escritura é falsa, por mais impressionante que seja a entrega. Sonho que exalta o sonhador não vem de Deus. O critério de João é cristológico (1Jo 4.2–3): o que aponta para Cristo e o que aponta para o instrumento?

Quinto, proteja os fracos do espetáculo. Paulo se preocupa com o visitante que entra e com o não instruído (1Co 14.23–25). Uma reunião que humilha quem não manifesta nada, ou que pressiona os tímidos a encenar o que não estão vivendo, já perdeu o rumo, ainda que tudo ali seja sincero.

Sexto, discirna com a igreja, e não sozinho. O dom de discernimento de espíritos (1Co 12.10) foi dado ao corpo, não a um oráculo solitário. Onde há equipe pastoral madura, presbíteros experientes e liberdade para discordar sem represália, os dois extremos vão sendo corrigidos naturalmente. Onde há um homem só decidindo tudo, e expulsando quem pergunta, o desastre é questão de tempo.

7. A minha posição, com todas as letras

Deixo explícito o que penso, para que ninguém precise adivinhar.

Creio que os dons do Espírito Santo permanecem disponíveis à igreja hoje, porque a promessa alcança "todos quantos o Senhor, nosso Deus, chamar" (At 2.39) e porque "o perfeito" de 1Coríntios 13 é o encontro face a face, e não a encadernação do cânon. Creio, com Paulo, que devemos desejar os dons e não proibir o seu uso, desde que tudo seja feito com decência e ordem (1Co 14.39–40).

Creio, ao mesmo tempo, que nem tudo que se apresenta como manifestação do Espírito procede dele. Há mistura da natureza humana, há sugestão coletiva, há espetáculo montado e há, sim, imitação do adversário. Wesley listou essas possibilidades sem medo, e nós também não deveríamos ter. Provar os espíritos (1Jo 4.1) não é falta de fé, é obediência.

E creio que o teste final de qualquer manifestação é o fruto: santidade de vida, amor ao próximo, edificação da igreja e glória de Cristo. Onde isso aparece, houve obra de Deus, com ou sem lágrimas. Onde isso não aparece, não houve, por mais barulho que tenha havido.

Wesley resumiu tudo numa frase que eu gostaria de ver emoldurada em muitas salas de escola dominical: "não é sábio abrir mão dessa parte, como não o seria abrir mão do todo".

Um último registro pessoal. Aos 19 anos, perdi a minha igreja por causa de uma frase do Diário de Wesley. Hoje, como bispo, ajudei a colocar o Diário inteiro, os 141 sermões, as cartas e as Notas de Wesley na internet, traduzidos e gratuitos, onde qualquer jovem de 19 anos pode conferir a citação antes de levantar a mão na escola dominical, e onde qualquer pastor pode conferir antes de dizer "Wesley nunca falou isso".

Se há alguma justiça poética nisso, ela pertence inteiramente à providência de Deus.


Onde ler as fontes

O trecho central citado neste artigo está no Diário de Wesley, registro de domingo, 25 de novembro de 1759, em Everton, disponível em português no capítulo 11, "É pregando que eu vivo": metodistalivre.org.br/diario-de-wesley/capitulo-11-e-pregando-que-eu-vivo/

A defesa de Wesley contra os que negavam a obra do Espírito no seu tempo está no capítulo 3, "O mundo é a minha paróquia": metodistalivre.org.br/diario-de-wesley/capitulo-3-o-mundo-e-a-minha-paroquia/

O Diário completo, os 141 sermões, as cartas, as Notas sobre o Novo Testamento e as demais obras de Wesley estão no acervo do site da Igreja Metodista Livre do Brasil: metodistalivre.org.br

Todas as páginas do acervo têm busca interna: basta clicar na lupa, no canto inferior direito da tela, para pesquisar dentro da obra inteira.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). As citações do Diário seguem a tradução publicada em "Diário de Wesley na Linguagem de Hoje", disponível no site da Igreja Metodista Livre do Brasil.




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