“E, Assim, Todo o Israel Será Salvo”

O que Paulo quis dizer em Romanos 11.26?

O que Paulo quis dizer ao declarar que “todo o Israel será salvo” (Rm 11.26)? Estaria ele prometendo a salvação de cada judeu que já existiu? Estaria chamando a igreja de “Israel”? Ou estaria anunciando, para dentro da história, uma conversão em larga escala do povo judeu ao seu Messias? A resposta importa, porque dela dependem tanto a nossa compreensão da fidelidade de Deus quanto a postura da igreja diante do povo judeu.

Neste artigo, procuro defender a leitura que me parece mais consistente com o texto: “todo o Israel” designa o Israel étnico como totalidade corporativa, que será salvo pela fé em Cristo, reenxertado na mesma e única oliveira do povo de Deus. Antes de chegar lá, apresento o problema que Paulo enfrenta e as principais alternativas de interpretação.

1. O problema de Paulo: a palavra de Deus falhou?
Romanos 9 a 11 não é um apêndice da carta; é o ponto em que Paulo enfrenta a objeção mais grave ao seu evangelho. Se Jesus é o Messias de Israel, por que a maior parte de Israel o rejeitou? Teria a palavra de Deus falhado? Paulo responde de imediato que não (Rm 9.6), e todo o bloco existe para sustentar essa negativa. Ele mesmo carrega o problema como dor pessoal: tem grande tristeza e incessante dor no coração por seus irmãos segundo a carne (Rm 9.2-3), e ora a Deus pela salvação deles (Rm 10.1).
O capítulo 11 é o desfecho do argumento. Paulo pergunta: “Teria Deus rejeitado o seu povo?” E responde: “De modo nenhum!” (Rm 11.1). A prova inicial é o remanescente, do qual o próprio Paulo faz parte. Mas o apóstolo não para no remanescente; ele avança para algo maior, que chama de mistério (Rm 11.25). É esse mistério que precisamos entender.

2. As principais leituras de “todo o Israel”
Quatro interpretações disputam o versículo, e cada uma tem defensores sérios.
A primeira, dispensacionalista, entende que “todo o Israel” é o Israel étnico e vincula sua salvação a um programa escatológico próprio, com restauração nacional e, em geral, um reino milenar terreno. A segunda, associada a Calvino, identifica “todo o Israel” com a igreja inteira, judeus e gentios juntos, o Israel de Deus (Gl 6.16). A terceira entende a expressão como a soma do remanescente judaico crente ao longo de toda a história (Rm 11.1-5). A quarta, que chamo de étnico-corporativa e que foi sustentada por exegetas como John Murray e C. E. B. Cranfield, entende que Paulo antevê uma conversão em larga escala do povo judeu a Cristo, dentro da história e dentro da única oliveira, sem qualquer programa paralelo de salvação.
As duas leituras do meio têm um mérito real: preservam a unidade do povo de Deus contra qualquer teologia de dois povos. A questão é se elas fazem justiça ao texto de Romanos 11. Entendo que não, pelas razões que seguem.

3. “Israel” continua sendo o Israel étnico
O primeiro argumento é o mais simples: o uso da palavra. Ao longo de Romanos 9 a 11, “Israel” designa o povo étnico em todas as ocorrências. E o caso decisivo está no versículo imediatamente anterior: “veio endurecimento em parte a Israel, até que a plenitude dos gentios tenha entrado” (Rm 11.25). Ninguém entende que a igreja foi endurecida. Se “Israel” no v. 25 é o povo étnico endurecido, uma mudança de referente no v. 26, dentro da mesma frase e sem qualquer aviso, seria abrupta demais.
O contexto seguinte confirma. A citação que fundamenta a promessa fala do Libertador que virá de Sião e “desviará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26-27; Is 59.20-21): linguagem de Israel étnico, não da igreja. E o v. 28 descreve o mesmo grupo como “inimigos quanto ao evangelho, mas amados quanto à eleição, por causa dos patriarcas” (Rm 11.28). Só o Israel incrédulo pode ser, ao mesmo tempo, inimigo quanto ao evangelho e amado por causa dos pais. A igreja não se encaixa nessa descrição; o remanescente crente também não, pois este não é inimigo do evangelho.
Vale acrescentar que “todo o Israel” não exige a salvação de cada indivíduo. No uso bíblico, a expressão tem sentido corporativo e representativo: “todo o Israel” se reuniu, subiu, pecou, celebrou (1Rs 12.1; 2Cr 12.1; Dn 9.11). Designa o povo como totalidade, não uma contagem exaustiva de cabeças. Paulo fala da nação voltando ao seu Messias como corpo, não de um decreto de salvação universal e incondicional dos judeus.

4. A lógica da plenitude: queda, riqueza dos gentios, readmissão
O segundo argumento é a lógica interna do capítulo. Paulo constrói uma expectativa crescente, em três degraus. Primeiro: se a transgressão de Israel se tornou riqueza para o mundo, “quanto mais a sua plenitude!” (Rm 11.12). Segundo: se a rejeição deles trouxe reconciliação ao mundo, a readmissão deles será “vida dentre os mortos” (Rm 11.15). Terceiro: se não permanecerem na incredulidade, “serão enxertados, pois Deus é poderoso para os enxertar de novo” (Rm 11.23).
Note que há um “plenitude” de Israel (Rm 11.12) em paralelo com a “plenitude dos gentios” (Rm 11.25). O capítulo caminha para um clímax duplo: o número completo dos gentios entra, e Israel, provocado a ciúmes pela salvação dos gentios (Rm 11.11, 14), retorna ao seu Messias. É exatamente isso que a partícula grega traduzida por “e, assim” (houtōs) indica: modo, não mera sequência. Todo o Israel será salvo deste modo, por essa dinâmica de endurecimento parcial, missão aos gentios, ciúme santo e reenxerto pela fé.
Aqui aparece a fragilidade das leituras que identificam “todo o Israel” com a igreja ou com o remanescente: elas esvaziam a expectativa que Paulo passou o capítulo inteiro construindo. Se “todo o Israel” é apenas a igreja, o mistério do v. 25 não revela nada de novo; dizer que a igreja será salva beira a tautologia. E se é apenas o remanescente, o “quanto mais” do v. 12 perde o sentido, pois o remanescente já existia desde sempre e não representa nenhuma “readmissão” futura capaz de ser comparada a “vida dentre os mortos”.

5. Uma só oliveira: por que isso não é dispensacionalismo
É preciso dizer com igual clareza o que essa leitura não é. Ela não é dispensacionalista. Paulo não anuncia um segundo programa de salvação, uma segunda aliança, um projeto político ou territorial para o Israel étnico. A imagem que governa o capítulo é a da oliveira única (Rm 11.17-24): uma só raiz, os patriarcas e as promessas; ramos naturais quebrados pela incredulidade; ramos silvestres, os gentios, enxertados pela fé; e ramos naturais reenxertados quando não permanecem na incredulidade (Rm 11.23). Não há duas árvores. Há uma árvore e uma única condição de permanência nela: a fé.
A própria metáfora, aliás, pressupõe a distinção étnica que Paulo mantém do começo ao fim: os gentios são zambujeiro, oliveira brava, enxertados “contra a natureza” (Rm 11.24), enquanto os judeus são os ramos naturais. É por isso que o reenxerto deles é, para Paulo, ainda mais esperável que o nosso enxerto: “quanto mais esses, que são ramos naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!” (Rm 11.24).
Essa leitura é plenamente compatível com a escatologia amilenista. Ela não exige templo reconstruído, reino terreno de mil anos nem cumprimento territorial; exige apenas o que o próprio texto diz: que, antes do fim, Deus reverta o endurecimento parcial e traga o povo judeu, como corpo, à fé no seu Messias, pelo mesmo evangelho pregado a todos (Rm 1.16; 10.12-13). O Deus que enxertou o zambujeiro é poderoso para reenxertar os ramos naturais.

6. Conclusão: minha posição
Deixo minha posição explícita. “Todo o Israel será salvo” refere-se ao Israel étnico como totalidade corporativa. Paulo antevê, como desfecho do mistério, uma conversão em larga escala do povo judeu a Jesus Cristo, ligada à entrada da plenitude dos gentios, realizada dentro da história e dentro da única oliveira do povo de Deus. Não se trata de salvação automática de cada judeu, nem de um plano paralelo de salvação, nem de um programa político-territorial. Trata-se do mesmo evangelho, da mesma fé e da mesma árvore, à qual os ramos naturais serão reintegrados.
Reconheço o mérito das leituras eclesiológicas: elas guardam, com razão, a verdade de que há um só povo de Deus. Mas essa verdade não precisa ser defendida contra o sentido étnico de Rm 11.26; ela é defendida pelo próprio Paulo por meio da oliveira. O que as leituras eclesiológicas não conseguem explicar é a expectativa crescente do capítulo, o Israel endurecido do v. 25 e os inimigos amados do v. 28. Por isso, a leitura étnico-corporativa me parece a mais consistente com o conjunto do texto.

Reflexão pastoral
Paulo encerra o argumento não com um organograma escatológico, mas com doxologia: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” (Rm 11.33). O mistério de Israel deve nos levar ao mesmo lugar: adoração diante de um Deus que não desiste do povo que escolheu, ainda que esse povo o tenha rejeitado.
Há também duas advertências práticas no capítulo. A primeira é contra a arrogância gentílica: “não se glorie contra os ramos” (Rm 11.18); “não te ensoberbeças, mas teme” (Rm 11.20). Toda forma de desprezo cristão pelo povo judeu, e a história da igreja carrega cicatrizes graves nesse ponto, contradiz frontalmente o texto que estamos estudando. Fomos enxertados por graça, e nos sustentamos pela fé, não por mérito. A segunda é um chamado à missão e à oração: se a salvação dos gentios existe também para provocar Israel a ciúmes (Rm 11.11), então a igreja evangeliza e ora pelo povo judeu não por sentimentalismo profético, mas porque essa é a própria engrenagem do plano de Deus. Que a nossa oração seja a de Paulo: que eles sejam salvos (Rm 10.1), pelo único caminho dado a judeus e gentios, a fé em Jesus Cristo, “porque não há distinção entre judeu e grego, visto que todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12).

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