Do Fracasso da Carne à Vitória do Espírito
Um Estudo Detalhado de Romanos 7:7 – 8:17
na Perspectiva Wesleyana
Bispo Ildo Mello
Introdução: O Diagnóstico e a Cura
Romanos 7:7–8:17 constitui um dos textos mais debatidos de toda a literatura paulina. A questão central que divide intérpretes há séculos pode ser formulada assim: Quem é o "eu" que grita "Desventurado homem que sou!" em Romanos 7:24? Trata-se do apóstolo Paulo descrevendo sua experiência pessoal como cristão maduro, ou de um recurso retórico para retratar a condição do ser humano não regenerado, que tenta cumprir a Lei de Deus pela força da própria carne?
A resposta que damos a essa pergunta tem consequências pastorais profundas. Se o "eu" de Romanos 7:14-25 é o cristão normal, então a vida cristã é marcada por derrota contínua, escravidão moral e impotência diante do pecado. Se, porém, o "eu" retrata a condição pré-cristã ou o ser humano sob a Lei sem o poder do Espírito, então Romanos 8 se torna a descrição normativa da vida cristã: vitória, liberdade e filiação divina.
Na aula anterior, vimos que morremos para a Lei para nos casarmos com Cristo (Rm 7:1-6). Paulo estabeleceu um contraste vital nos versículos 5 e 6: a vida antiga "na carne", onde as paixões operavam para a morte (v. 5), versus a nova vida "no Espírito" (v. 6). Nesta aula, mergulharemos na explicação detalhada desse contraste. Romanos 7:7-25 é a anatomia do fracasso do versículo 5 (o homem tentando ser santo pela Lei). Romanos 8:1-17 é a exposição da vitória do versículo 6 (o homem capacitado pelo Espírito). Entender essa distinção é vital para não normalizarmos a derrota na vida cristã.
O presente estudo defende a perspectiva armínio-wesleyana de interpretação desta passagem, apoiada pela análise retórica de estudiosos como Ben Witherington III, Craig Keener, o Comentário Beacon e a tradição exegética wesleyana mais ampla. Nosso objetivo é demonstrar, com rigor exegético e hermenêutico, que o "eu" de Romanos 7:14-25 não descreve o cristão regenerado, mas sim a humanidade caída representada em Adão, tentando cumprir a vontade de Deus sem o poder do Espírito Santo.
1. Contexto Literário: A Estrutura de Romanos 5–8
Antes de mergulhar nos detalhes exegéticos, é indispensável compreender a estrutura do argumento de Paulo em Romanos 5–8. Essa grande seção da carta trata da santificação e da vida nova em Cristo, e seu argumento se desenvolve de forma progressiva e coerente.
1.1 O pano de fundo: Adão e Cristo (Rm 5:12-21)
Paulo estabelece em Romanos 5:12-21 o grande contraste entre dois representantes da humanidade: o primeiro Adão, cuja transgressão trouxe condenação, pecado e morte sobre todos os seres humanos, e o Segundo Adão — Cristo — cuja obediência trouxe justificação, graça e vida. Este contraste entre "em Adão" e "em Cristo" funciona como a espinha dorsal teológica de toda a argumentação que se segue nos capítulos 6 a 8.
A transgressão de Adão trouxe condenação (Rm 5:16, 18), o reinado da morte (Rm 5:17) e fez de muitos pecadores (Rm 5:19). Em contraste, o ato de justiça de Cristo trouxe justificação e vida (Rm 5:18), graça abundante (Rm 5:20) e o reinado pela justiça para a vida eterna (Rm 5:21). Este é o pano de fundo essencial para compreender Romanos 7.
1.2 Libertação do pecado e da Lei (Rm 6:1–7:6)
Em Romanos 6, Paulo declara enfaticamente que os cristãos foram libertados da escravidão do pecado. As afirmações são claras e categóricas:
"E, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça… para a santificação. Porque, quando éreis escravos do pecado… que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna" (Rm 6:18-22).
Observe a ênfase: éreis escravos (passado), agora libertados (presente). A escravidão ao pecado é descrita como condição passada, superada pela união com Cristo na sua morte e ressurreição.
1.3 O resumo-chave: Romanos 7:5-6
Os versículos 5 e 6 do capítulo 7 funcionam como um resumo programático que antecipa todo o desenvolvimento posterior. Paulo contrasta duas condições:
"Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra" (Rm 7:5-6).
A estrutura é cristalina: o versículo 5 descreve a condição pregressa ("quando vivíamos segundo a carne"), e o versículo 6 descreve a condição atual ("agora, porém, libertados"). A partir dos versículos 7 a 25, Paulo detalha a condição descrita no versículo 5. E no capítulo 8:1-17, Paulo detalha a condição descrita no versículo 6. Note que tanto 7:6 quanto 8:1 são introduzidos pelo advérbio "agora", reforçando o contraste com a vida pregressa e estabelecendo a continuidade entre ambos.
2. A Lei é Pecado? A Defesa da Lei (Rm 7:7-13)
Se fomos "libertados da Lei" (7:6) e se as "paixões pecaminosas" eram excitadas pela Lei (7:5), alguém poderia perguntar: "A Lei é pecado?". Paulo responde com um veemente "De modo nenhum!" (Rm 7:7). É fundamental notar que Paulo está aqui respondendo a uma questão apresentada de modo retórico por interlocutores fictícios que representam os judeus e suas inquietações quanto ao valor da Lei.
2.1 A função reveladora da Lei (v. 7)
A Lei funciona como um raio-X: ela revela a fratura, mas não cura o osso. Paulo diz que não conheceria a cobiça se a Lei não dissesse "Não cobiçarás". A Lei define o pecado e arranca a máscara da nossa pretensa inocência. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem o poder de transformar o coração humano.
2.2 O pecado como oportunista (vv. 8-11)
A culpa não é da Lei, mas do pecado que habita no ser humano caído. O pecado usa a Lei como uma "base de operações" (aphormē — ocasião, ponto de partida) para nos enganar. Assim como a serpente usou o mandamento no Éden para seduzir Eva, o pecado usa a proibição para despertar o desejo rebelde. O problema não é o mandamento "santo, justo e bom" (v. 12), mas a natureza carnal que reage a ele com rebeldia.
Observe que o versículo 11 emprega linguagem que ecoa claramente a narrativa da queda em Gênesis 3: "Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou." O verbo "enganou" (exēpatēsen) é o mesmo usado pela LXX em Gênesis 3:13 para descrever a ação da serpente sobre Eva. Isto fortalece a tese de que Paulo está descrevendo retoricamente a experiência de Adão como representante da humanidade caída.
2.3 Adão é o único que viveu "sem lei" (v. 9)
Paulo afirma: "Eu, outrora, sem lei, vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri" (v. 9). Quem viveu "sem lei" e depois recebeu um "preceito"? Na história bíblica, Adão é o único que viveu um período sem mandamento proibitivo e depois recebeu uma ordem específica. Aliás, o contraste entre Adão e Cristo que Paulo estabeleceu em Romanos 5:12-21 funciona como pano de fundo para todo o capítulo 7. Paulo está dando continuidade à descrição dos efeitos drásticos da Queda.
3. O "Eu" de Romanos 7:14-25: A Grande Controvérsia
Chegamos ao centro da controvérsia. Quem é o homem que diz: "O bem que prefiro não faço, mas o mal que não quero, esse faço" (v. 19)? E quem grita: "Desventurado homem que sou!" (v. 24)?
Há duas posições principais na história da interpretação:
Posição 1 (Agostiniano-Reformada): A tradição agostiniana e reformada (Agostinho tardio, Lutero, Calvino) geralmente afirma que este é o cristão maduro lutando contra a carne. Segundo essa posição, Paulo descreve tanto sua própria experiência quanto a de todos os cristãos genuínos.
Posição 2 (Armínio-Wesleyana): A tradição armínio-wesleyana, apoiada por muitos Pais da Igreja anteriores a Agostinho (Irineu, Orígenes, Crisóstomo, Metódio), bem como por exegetas modernos como Keener e Witherington, afirma que o "eu" é retórico e descreve a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito.
É importante notar que o próprio Agostinho, em seus escritos anteriores, interpretava Romanos 7:14-25 como referente ao ser humano não regenerado. Foi somente em sua controvérsia com os pelagianos que ele mudou de posição, passando a aplicar o texto ao cristão. Esta mudança foi motivada por razões polêmicas, não estritamente exegéticas.
4. Argumentos da Posição Agostiniano-Reformada
Em nome da honestidade intelectual e do rigor acadêmico, apresentamos os principais argumentos daqueles que entendem que Romanos 7:14-25 se refere ao cristão, para depois oferecer a resposta wesleyana.
A mudança para o tempo presente (v. 14ss). Os verbos passam do passado (vv. 7-13) para o presente (vv. 14-25), sugerindo que Paulo fala de sua condição atual.
O deleite na lei de Deus (v. 22). Uma pessoa não regenerada não teria "prazer na lei de Deus, no tocante ao homem interior".
A distinção entre o "eu" e a "carne" (v. 18). A capacidade de distinguir entre o verdadeiro "eu" e a carne pressupõe regeneração.
A libertação do corpo pecaminoso é futura (v. 24; cf. 8:10, 11, 23). O gemido por libertação reflete a tensão escatológica do "já e ainda não".
A tensão de 7:25. A declaração final — "com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado" — reflete a experiência real do cristão.
Cristãos são justos, mas não perfeitos. Os cristãos já são justos em Cristo, mas não são aperfeiçoados até o dia da redenção.
5. A Resposta Wesleyana: Sete Razões Exegéticas Decisivas
A exegese armínio-wesleyana responde a cada um desses argumentos e oferece razões exegéticas robustas para rejeitar a aplicação de Romanos 7:14-25 ao cristão regenerado. Apresentamos agora as sete razões decisivas.
5.1 A estrutura da passagem: o resumo de 7:5-6 determina a leitura
Como demonstramos na seção 1.3, os versículos 5 e 6 funcionam como um sumário programático. O versículo 5 descreve a vida pregressa na carne; o versículo 6 descreve a vida atual no Espírito. A sequência de 7:7-25 é o detalhamento do versículo 5, e 8:1-17 é o detalhamento do versículo 6. A própria arquitetura do texto aponta para esta leitura.
5.2 O presente dramático como recurso retórico
A mudança para o tempo presente nos verbos (v. 14ss) não indica necessariamente experiência pessoal atual. Paulo utiliza o presente dramático e a primeira pessoa ("eu") como um recurso retórico amplamente reconhecido na antiguidade: a prosopopeia (personificação ou discurso em persona). Este recurso serve para acentuar a vivacidade retórica, funcionando como o "presente histórico" na narrativa.
Paulo faz extenso uso da diatribe ao longo de toda a carta aos Romanos, estabelecendo diálogos com interlocutores fictícios. Exemplos claros aparecem em: 2:1-6; 2:17-24; 3:1-9; 3:27–4:25; 9:19-21; 10:14-21; 11:17-24; 14:4, 10-11. Elementos típicos da diatribe em Romanos incluem exclamações dramáticas como "De modo nenhum!" (3:4, 6, 31; 6:2, 15; 7:7, 13; 9:14; 11:1, 11) e fórmulas de inferência como "Que diremos, pois?" (3:1, 9; 4:1; 6:1, 15; 7:7; 8:31; 9:14, 30; 11:7). Assim, Paulo usa um "eu" retórico para falar de si na qualidade de judeu ainda não redimido, sem confrontar diretamente seus conterrâneos.
5.3 A contradição insustentável com Romanos 6
Se Paulo estivesse falando de si mesmo como cristão em Romanos 7:14-25, ele estaria se contradizendo frontalmente com o que acabara de afirmar com tanta clareza. Em Romanos 6:18, 22, ele declara que os cristãos foram "libertados do pecado" e feitos "servos da justiça para a santificação". Porém, em Romanos 7:14, o "eu" é descrito como "carnal, vendido à escravidão do pecado". Um cristão não pode ser simultaneamente livre e escravo do pecado.
"Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?" (Rm 6:2).
O próprio Paulo vivia em santidade e não em pecado. Tanto que pôde exortar os cristãos a seguirem o seu exemplo de vida: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1Co 11:1). Como poderia Paulo afirmar ao mesmo tempo que era imitador de Cristo e que era "carnal, vendido à escravidão do pecado"? Veja também o que Paulo afirma a respeito de si mesmo em Filipenses 3:4-6: "segundo a justiça que há na lei, irrepreensível".
5.4 A contradição insustentável com Romanos 8
A mesma contradição se repete quando comparamos com o capítulo 8. Paulo declara categoricamente:
"Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte… Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito… do seu Espírito, que em vós habita" (Rm 8:1-2, 9, 11).
Se o cristão é descrito em 8:9 como alguém que "não está na carne, mas no Espírito", como poderia o mesmo Paulo descrever o cristão em 7:14 como "carnal"? Dizer que os cristãos são "carnais, vendidos à escravidão do pecado" (7:14) e que cada um deles segue como "prisioneiro à lei do pecado" (v. 23) contraria frontalmente o ensino dos capítulos 6 e 8.
5.5 O desejo pela Lei não exige regeneração
O argumento de que o "deleite na lei de Deus" (v. 22) pressupõe regeneração desconhece a realidade do judeu piedoso. O desejo de guardar a lei de Deus reflete perfeitamente a mentalidade do judeu devoto que quer viver uma vida moral. Como os próprios versículos enfatizam, essas pessoas desejam cumprir a Lei, mas não conseguem e não podem fazê-lo por estarem sob a escravidão do pecado. A religiosidade sincera não é exclusiva dos regenerados. Saulo de Tarso, antes da conversão, era extremamente zeloso pela Lei.
Craig Keener observa que o tipo de luta descrita em 7:14-25 ressoaria com muitas pessoas na antiguidade. O judaísmo falava de um impulso maligno (yetzer), e mestres posteriores argumentavam que o aprendizado da Torá fortaleceria o bom impulso contra o impulso maligno. Alguns judeus da diáspora também argumentavam que a Lei permitia governar as paixões. A descrição de Paulo, porém, é hiperbólica: a completa incapacidade de fazer o certo e a compulsão involuntária para cometer o mal (7:15-20) soa mais como possessão do que mera frustração moral.
5.6 O versículo 13 explica a morte de Paulo como incrédulo
O verso de abertura da seção (v. 13) explica como a Lei trouxe morte a Paulo quando ainda era o incrédulo Saulo: "Acaso o bom se me tornou em morte? De modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno." O contexto é claramente o da condição pré-cristã.
5.7 Paulo vivia em santidade, não em escravidão
Romanos 7:7-25 descreve uma pessoa carnal que não tem o Espírito Santo habitando nela. Saulo poderia afirmar tais coisas, mas Paulo jamais diria: "em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum" (v. 18); "não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço" (v. 19); "o pecado que habita em mim" (v. 20).
Paulo vivia em santidade e se apresentava como exemplo a ser imitado: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1Co 11:1). "Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais" (1Ts 4:1).
Paulo também declarou: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2:20). Como conciliar essa declaração com "sou carnal, vendido à escravidão do pecado"?
6. O Silêncio Eloquente do Espírito Santo
A evidência talvez mais gritante a favor da interpretação wesleyana é a completa ausência do Espírito Santo em Romanos 7:7-25. Nos versículos 7 a 25, a Lei é mencionada diversas vezes, e o "eu" (egō) é o centro da luta. O Espírito Santo não é mencionado nenhuma vez sequer.
Em contraste dramático, Romanos 8 contém 19 referências à pessoa e à obra do Espírito Santo! Esta assimetria não é acidental; ela revela a própria essência do argumento de Paulo: Romanos 7 descreve o ser humano tentando cumprir a vontade de Deus pela força da própria carne, sem o Espírito; Romanos 8 descreve o ser humano capacitado e dirigido pelo Espírito de Deus.
O trecho de Romanos 7:14-25 descreve, portanto, a falência do esforço humano. É o homem moral ou religioso tentando cumprir a vontade de Deus com a força da sua própria carne. O resultado é inevitável: derrota, cativeiro e desespero. Deus permite essa frustração para nos levar ao fim de nós mesmos, para que gritemos por socorro: "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (v. 24).
7. A Tabela de Contrastes: Romanos 7 versus o Contexto
A tabela a seguir, baseada na análise de Craig Keener, demonstra visualmente como as descrições do "eu" em Romanos 7:7-25 são incompatíveis com o que Paulo afirma sobre os crentes no contexto mais amplo da carta. Os contrastes são tão marcantes que tornam insustentável a identificação do "eu" com o cristão regenerado.
O "eu" de Romanos 7:7-25 Os crentes no contexto
Sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7:7-13) Libertados da Lei (7:4, 6; 8:2), do pecado (6:18, 20, 22) e da morte (5:21; 6:23; 8:2)
Sou carnal (7:14) Não estais na carne, mas no Espírito (8:9); viver na carne é coisa do passado (7:5)
Vendido à escravidão do pecado (7:14, 23) Libertados da escravidão do pecado (6:18, 20, 22); "redimidos" (3:24)
Conhece o certo, mas não consegue praticá-lo (7:15-23) Poder para viver em retidão (8:4), não conferido pela Lei externa (8:3)
O pecado habita em mim e me domina (7:17, 20) O Espírito habita nos crentes (8:9, 11)
Nada de bom habita em mim/na minha carne (7:18) O Espírito de Deus habita nos crentes (8:9, 11)
A lei do pecado domina seus membros corporais (7:23) Os crentes foram libertados da lei do pecado (8:2)
O pecado vence a guerra e me captura como prisioneiro (7:23) Os crentes vencem as batalhas espirituais (8:2, 13, 37; 2Co 10:3-5)
Anseia por libertação do "corpo da morte" (7:24) Os crentes foram libertos do caminho da morte (8:2, 10-13)
Escravo da lei do pecado na carne (7:25) Libertados da lei do pecado (8:2; 6:18, 20, 22); guiados pelo Espírito (8:5-9, 14)
Como observa Keener: "Idealmente, a representação de Paulo não pode se referir a um crente, muito menos a alguém que abraça a teologia de Paulo de uma nova vida em Cristo. Isso não é afirmar que nenhum crente jamais compartilharia quaisquer elementos da descrição, mas qualquer crente que fizesse isso estaria pensando de uma maneira incompatível com o ensinamento de Paulo sobre a Lei."
8. A Virada Gloriosa: A Vida no Espírito (Rm 8:1-17)
A resposta ao grito de "Quem me livrará?" (7:24) é "Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!" (7:25). O capítulo 8 começa com a palavra "Portanto" (ou "Agora, pois"), inaugurando a descrição da vida normativa do cristão.
8.1 Nenhuma condenação e a nova Lei (8:1-4)
"Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte" (Rm 8:1-2).
Observe a troca de "leis": o crente foi liberto da "lei do pecado e da morte" (a força gravitacional que puxa para baixo em Romanos 7) pela "lei do Espírito da vida" (a dinâmica da graça que nos capacita a viver para Deus). O que fora impossível à Lei, por causa da fraqueza da carne, Deus realizou enviando seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa (v. 3).
O versículo 4 é crucial para a teologia wesleyana: "a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8:4). Note: a justiça da Lei se cumpre em nós (en hēmin). Através do Espírito, à medida que não andamos segundo a carne, a santidade torna-se uma realidade prática, não apenas uma imputação forense. Cumpre-se em Cristo a promessa profética: "Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis" (Ez 36:27).
8.2 A mentalidade do Espírito versus a mentalidade da carne (8:5-11)
Paulo estabelece uma antítese absoluta, sem meio-termo. A mente voltada para a carne é inimizade contra Deus, não pode agradar a Deus e conduz à morte (vv. 6-8). A mente voltada para o Espírito é vida e paz (v. 6). O teste de um cristão genuíno não é a perfeição absoluta, mas a habitação e a direção do Espírito: "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (v. 9).
Note como Paulo descreve a incapacidade descrita em Romanos 7 como característica daqueles que estão na esfera da carne: "O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus" (vv. 7-8). Mas imediatamente acrescenta: "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito" (v. 9). A incapacidade de Romanos 7 pertence àqueles que estão "na carne" — e Paulo afirma categoricamente que os cristãos não estão mais nessa condição.
8.3 Adoção, herança e certeza (8:12-17)
A vida no Espírito não é apenas ética; é relacional. O Espírito nos confere o espírito de adoção, pelo qual clamamos "Aba, Pai" (v. 15). O Espírito expulsa o medo escravizador (típico da condição descrita em Romanos 7) e nos dá a certeza da salvação que é tão cara à teologia wesleyana: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (v. 16).
Ao mesmo tempo, Paulo enfatiza que a vitória não é automática; ela requer cooperação ativa com a graça de Deus: "Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis" (v. 13). O cristão é chamado a "mortificar" (fazer morrer) continuamente os feitos do corpo pelo Espírito. Há uma sinergia entre a graça divina e a responsabilidade humana — Deus capacita, mas o crente coopera ativamente.
Como escreveu Paulo aos filipenses: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2:12-13). O Espírito intercede, o Pai age, o crente desenvolve sua salvação — e tudo isso conduz à santidade e à vida eterna.
9. Implicações Pastorais e Teológicas
9.1 A santificação como realidade possível
A interpretação wesleyana de Romanos 7–8 tem implicações diretas para a doutrina da santificação. Se Romanos 7 descreve a condição pré-cristã, então Romanos 8 se torna o padrão normativo da vida cristã. O ensino de Paulo é que a Lei exige, mas não capacita o ser humano à obediência. Porém, o que fora impossível através da operação externa da Lei, por conta da pecaminosidade da natureza humana, agora torna-se possível pela operação interna do Espírito Santo que liberta e regenera o crente.
9.2 A luta cristã é diferente da escravidão
É preciso esclarecer: afirmar que Romanos 7 não descreve o cristão não significa dizer que o cristão não enfrenta lutas contra o pecado. Os defensores de ambas as posições concordam que: (1) os cristãos ainda lutam contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5:17; 1Jo 1:8-9); e (2) os cristãos podem e devem crescer em santificação pelo poder do Espírito (Rm 8:2, 4, 9, 13-14).
A diferença crucial é a seguinte: embora os cristãos tenham de batalhar contra o pecado, eles travam esta luta com confiança na força do Espírito Santo que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus (Ef 6:10-17). Eles seguem sujeitos a tropeços (Tg 3:2), mas contam com o poderoso auxílio "daquele que é poderoso para os guardar de tropeços e para os apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória" (Jd 24). Há uma diferença abismal entre ser escravo derrotado e ser soldado que eventualmente tropeça, mas tem poder para vencer.
9.3 A certeza da salvação e a responsabilidade humana
A teologia wesleyana sustenta tanto a segurança da salvação quanto a responsabilidade do crente. Ao listar o que não pode nos separar do amor de Deus (Rm 8:38-39), Paulo não menciona o próprio crente. Os wesleyanos argumentam que a liberdade que temos em Cristo inclui a liberdade que Adão e Eva tinham no Éden: de viver a vida justa ou de se afastar da comunhão com Deus pela incredulidade. Somos livres para amar e servir a Deus, e nada externo pode separar-nos desse amor, pois nossa fé e Seu amor estão ambos enraizados em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39).
Paulo adverte claramente: "Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis" (Rm 8:13). O contexto de Romanos 8 não suporta o conceito de "uma vez salvo, salvo para sempre". O foco de Paulo é sobre os efeitos libertadores da graça e o poder do Espírito, mas sempre pressupondo a resposta de fé e obediência do crente.
10. O Perigo da Interpretação Equivocada
O maior perigo de uma interpretação equivocada deste texto é concluir que, se até o apóstolo Paulo era carnal e seguia escravo do pecado, agindo sem domínio próprio, incapaz de fazer o bem desejado e de conter o mal indesejado, que dirá dos recém-convertidos e dos demais cristãos que não chegaram à maturidade espiritual dele? Tal ideia gera conformismo e complacência diante das tentações e do pecado.
Se o apóstolo que escreveu dois terços do Novo Testamento era escravo do pecado, então não há esperança de santificação real para ninguém nesta vida. A mensagem prática seria: "Aceite sua derrota, pois até Paulo era derrotado." Essa conclusão contradiz não apenas Romanos 6 e 8, mas toda a ética paulina, toda a tradição profética do Antigo Testamento sobre a nova aliança e a própria promessa de Jesus sobre a vinda do Espírito Santo.
A interpretação wesleyana, ao contrário, preserva a esperança bíblica: o cristão não está condenado à derrota perpétua. A cruz e o Pentecostes mudaram nosso endereço espiritual. A "lei do Espírito da vida" quebra o ciclo de derrota descrito em Romanos 7.
Conclusão: De Romanos 7 a Romanos 8
Concluímos que o "eu" de Romanos 7:7-25 é retórico e não pode se referir nem a Paulo como cristão, nem aos cristãos em geral, pelos seguintes motivos sintetizados nesta conclusão:
1. O "eu" ainda está sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7:7-13), enquanto os cristãos já foram libertados da Lei (7:4, 6; 8:2), do domínio do pecado (6:18, 20, 22) e da morte (5:21; 6:23; 8:2).
2. O "eu" é carnal (7:14), enquanto os cristãos não devem mais viver na carne (8:9), pois viver segundo as paixões carnais é coisa do passado (7:5) e conduz à morte (8:13).
3. O "eu" segue ainda vendido como escravo do pecado (7:14, 23), enquanto os crentes em Cristo foram libertados dessa escravidão (6:18, 20, 22), pois já foram "redimidos" (3:24).
4. O "eu" diz respeito ao judeu Saulo, antes da conversão, e também aos judeus que ainda estão debaixo da Lei, que conhecem e querem obedecê-la, mas não conseguem devido à escravidão do pecado (7:15-23). Já os cristãos receberam o poder do Espírito que os habilita a cumprir o preceito da Lei (8:4).
5. Nada de bom habita no "eu" em questão, a não ser o pecado que o domina (7:17-20). Já os cristãos sabem que o Espírito Santo é quem habita neles (8:9, 11).
6. O "eu" de Romanos 7 está sob o domínio da lei do pecado (7:23), enquanto os crentes já foram libertados dessa lei (8:2; cf. 6:18, 20, 22).
7. O "eu" está aprisionado e perde a batalha contra o pecado (7:23), enquanto os crentes devem vencer as batalhas espirituais (8:2, 13, 15, 31, 37; 2Co 10:3-5).
8. O "eu" anseia por libertação do "corpo da morte", enquanto os crentes foram libertos em Cristo e não vivem para seus próprios desejos carnais (8:10-13), tendo sido libertos do caminho que conduz à morte (8:2).
Romanos 7 é o retrato do ser humano que tenta alcançar a santidade sozinho; Romanos 8 é o retrato do ser humano possuído pelo Espírito de Deus. Não devemos ficar acampados em Romanos 7. A cruz e o Pentecostes nos mudaram de endereço. O cristão não está mais identificado com o primeiro Adão, mas está em Cristo, o Segundo e mais poderoso Adão!
"Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!" (1Co 15:57).
Que cada um de nós viva não a angústia de Romanos 7 ("o bem que quero não faço"), mas a liberdade de Romanos 8 ("o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus"). Pois "daquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém" (Jd 24-25).
Referências Bibliográficas
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