Aos pastores, pastoras e líderes da Igreja Metodista Livre
Graça e paz, amados irmãos e irmãs.
Escrevo-lhes com apreço, respeito e senso de responsabilidade pastoral a respeito de um tema que merece nossa atenção: o cuidado com a linguagem que usamos no ministério, especialmente quando falamos sobre cura, unção, bênção, multiplicação, autoridade espiritual e ação do Espírito Santo.
Nós cremos no Deus que cura. Cremos no poder do Espírito Santo. Cremos que o Senhor continua agindo em resposta à oração da fé. Cremos que a igreja deve orar pelos enfermos, ungir com óleo quando apropriado e interceder com confiança, conforme a orientação bíblica: “Está alguém entre vocês doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5.14).
Portanto, o problema não está em orar por cura, nem em crer na ação poderosa de Deus. O ponto que desejo destacar é outro: precisamos cuidar para que nosso modo de falar seja bíblico, cristocêntrico, pastoralmente responsável e coerente com a doutrina e a tradição metodista livre.
Expressões como “vamos liberar unção de cura” ou “vamos liberar unção de multiplicação” podem parecer, à primeira vista, apenas frases de entusiasmo espiritual. Contudo, elas podem transmitir ideias teológicas preocupantes. Podem sugerir que a unção está sob controle humano, como se o pastor ou o líder tivesse poder próprio para liberar uma força espiritual. Podem também deslocar a atenção de Cristo para o ministro, do senhorio de Deus para a performance do líder, da graça para a experiência, da fé bíblica para uma expectativa de resultados imediatos.
A Escritura nos ensina que o Espírito Santo distribui seus dons “como lhe apraz” (1Co 12.11). O ministro não controla o Espírito; submete-se a Ele. O pastor não libera a graça; anuncia a graça. Não manipula a unção; ora em nome do Senhor. Não garante resultados; intercede com fé, humildade e reverência. Não promete aquilo que Deus não prometeu de modo absoluto; conduz o povo a confiar na bondade, na sabedoria e na soberania de Deus.
Também precisamos ter cuidado com a expressão “multiplicação”. Se estamos falando da multiplicação de discípulos, do fruto do Espírito, da generosidade, da santidade, do amor, da missão e do serviço, estamos em terreno profundamente bíblico. Mas, se essa linguagem for associada a promessas de prosperidade material, aumento financeiro garantido ou sucesso automático, ela se aproxima perigosamente de uma teologia estranha à nossa tradição.
A tradição metodista livre sempre valorizou a santidade bíblica, a simplicidade, a generosidade, a missão entre os pobres, a responsabilidade moral, a integridade no uso dos recursos e o compromisso com a transformação de vidas. Nossa herança não é triunfalista. É uma espiritualidade de fé, amor, santidade, serviço e esperança. Cremos que Deus pode curar, mas não ensinamos que toda enfermidade será removida imediatamente. Cremos que Deus supre, mas não reduzimos o evangelho a prosperidade. Cremos que Deus abençoa a obra de nossas mãos, mas não tratamos a bênção como resultado automático de declarações, decretos ou fórmulas espirituais.
Paulo orou para que Deus removesse seu “espinho na carne”, mas ouviu do Senhor: “A minha graça é o que basta para você” (2Co 12.9). Timóteo enfrentava enfermidades frequentes (1Tm 5.23). Trófimo foi deixado doente em Mileto (2Tm 4.20). Esses textos não negam a cura divina; apenas nos ensinam a não transformar a cura em promessa automática nem em sinal obrigatório de espiritualidade superior.
Por isso, peço aos nossos pastores, pastoras e líderes que cultivem uma linguagem mais bíblica, mais reverente e mais alinhada com nossa identidade metodista livre. Em vez de dizer “vamos liberar unção de cura”, digamos: “vamos orar pelos enfermos, pedindo que o Senhor manifeste sua graça, cura, consolo e fortalecimento”. Em vez de dizer “vamos liberar multiplicação”, digamos: “vamos clamar para que Deus frutifique nossa missão, multiplique discípulos, desperte generosidade e supra as necessidades do seu povo”.
Essa mudança não é apenas uma questão de palavras. Linguagem forma mentalidade. Mentalidade forma espiritualidade. Espiritualidade forma a igreja. Se usamos linguagem imprecisa, podemos, ainda que sem intenção, conduzir o povo a uma compreensão equivocada da fé cristã. Mas, se usamos uma linguagem bíblica e pastoralmente cuidadosa, ajudamos a igreja a crescer em maturidade, equilíbrio e santidade.
Como metodistas livres, somos chamados a pregar o evangelho pleno, a anunciar a graça de Deus oferecida a todos, a chamar o povo ao arrependimento, à fé, à nova vida em Cristo e à santidade de coração e vida. Somos chamados a depender do Espírito Santo, mas nunca a tratá-lo como uma força manipulável. Somos chamados a orar com fé, mas também com humildade. Somos chamados a esperar grandes coisas de Deus, mas sem criar expectativas irresponsáveis ou promessas que a Escritura não autoriza.
O povo confiado aos nossos cuidados precisa de pastores que alimentem fé verdadeira, não ilusão; esperança bíblica, não triunfalismo; vida no Espírito, não dependência de experiências emocionais; confiança em Cristo, não fascinação por linguagem de poder.
Assim, exorto amorosamente cada pastor, pastora e líder: cuidemos da nossa linguagem. Cuidemos da doutrina. Cuidemos do rebanho. Que nossas palavras conduzam a igreja para Cristo, para a Palavra, para a oração, para a santidade, para a missão e para a maturidade espiritual.
Nós oramos; Deus cura.
Nós intercedemos; Deus age.
Nós pregamos; Deus salva.
Nós servimos; Deus frutifica.
Nós pastoreamos; Cristo continua sendo o Supremo Pastor da igreja.
Que o Senhor nos dê discernimento, equilíbrio, fidelidade bíblica e renovada dependência do Espírito Santo.
Com apreço pastoral,
Bispo Ildo Mello
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