Isaías 65.20 ensina que haverá morte depois da volta de Cristo?

 Isaías 65.20 ensina que haverá morte depois da volta de Cristo?


Isaías declarou:


“Não haverá mais nela criança que viva somente alguns dias, nem velho que não complete os seus dias. Porque morrer aos cem anos será morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado” (Is 65.20).


Como devemos entender essas palavras? Isaías estaria ensinando que, depois da Segunda Vinda de Cristo, ainda haverá nascimento, envelhecimento, pecado, maldição e morte durante mil anos? Ou estaria usando uma linguagem profética para anunciar a plenitude da salvação que Deus trará ao seu povo?


A resposta precisa considerar o contexto de Isaías 65 e, principalmente, a revelação mais clara do Novo Testamento sobre a volta de Cristo, a ressurreição dos mortos e a destruição definitiva da morte.


1. O contexto é a nova criação


Poucos versículos antes, Deus declara:


“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas” (Is 65.17).


Portanto, Isaías 65.20 faz parte de uma profecia sobre os novos céus e a nova terra. O capítulo descreve uma realidade marcada por alegria, paz, segurança e restauração:


  • Não haverá mais choro de tristeza (v. 19).
  • O povo desfrutará do fruto do seu trabalho (v. 21-23).
  • Deus responderá antes mesmo de ser chamado (v. 24).
  • Não haverá destruição nem dano no monte santo do Senhor (v. 25).


Isaías está anunciando a reversão da maldição e a restauração da criação. Entretanto, ele descreve essa realidade futura utilizando imagens, experiências e categorias conhecidas por seus primeiros ouvintes.


2. Isaías utiliza uma linguagem profética de bênção e longevidade


No mundo antigo, a morte precoce de crianças e jovens era uma realidade frequente. Chegar à velhice era considerado um sinal especial da bênção de Deus.


Quando Isaías afirma que morrer aos cem anos seria morrer jovem, seu objetivo não é estabelecer uma tabela literal da duração da vida na nova criação. Ele está dizendo que a vida seria tão plena, segura e abençoada que cem anos pareceriam pouco.


Trata-se de uma linguagem de comparação e intensidade. É como dizer: “A vida será tão abundante que aquilo que hoje consideramos uma idade avançada será visto como juventude.”


O profeta descreve a vitória sobre a morte usando a imagem da maior longevidade que seus ouvintes poderiam imaginar. Ele fala da realidade futura com o vocabulário e as referências disponíveis em seu próprio tempo.


O mesmo acontece quando os profetas descrevem o Reino de Deus por meio de imagens como vinhas, plantações, animais vivendo em harmonia e Jerusalém como centro das nações. Essas imagens comunicam verdades reais, mas não precisam ser interpretadas como uma descrição fotográfica e rigidamente literal do estado eterno.


3. A frase sobre pecado e maldição também pertence à linguagem profética


Isaías também declara:


“E quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado.”


Essa frase não significa que haverá pecadores vivendo normalmente na nova criação depois da volta de Cristo. Ela reforça, por contraste, a dimensão extraordinária da bênção prometida.


Em outras palavras, Isaías utiliza as categorias conhecidas de vida, morte, pecado e maldição para mostrar que a ordem presente será completamente transformada. Até mesmo aquilo que seria considerado uma vida longa, cem anos, pareceria uma vida interrompida precocemente.


A intenção do texto não é ensinar a permanência do pecado e da maldição no Reino consumado, mas destacar a superioridade da bênção divina sobre toda a realidade presente.


Uma leitura rigidamente literal produziria uma contradição dentro do próprio capítulo. Isaías 65.19 afirma que não haverá mais choro nem clamor, e o versículo 25 declara que não haverá dano nem destruição. Como poderia não haver choro, sofrimento ou dano se ainda existissem pecado, maldição e morte?


A linguagem precisa ser compreendida como profética e figurada.


4. O Novo Testamento esclarece a profecia de Isaías


A revelação bíblica é progressiva. O Antigo Testamento anuncia a obra futura de Deus por meio de promessas, figuras e imagens. O Novo Testamento mostra com maior clareza como essas promessas serão cumpridas em Cristo.


O apóstolo Paulo ensina que, na volta de Jesus, acontecerá a ressurreição dos que pertencem a Cristo:


“Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim” (1Co 15.23-24).


Observe a sequência apresentada por Paulo:


  1. Cristo ressuscitou como as primícias.
  1. Os que pertencem a Cristo ressuscitarão em sua vinda.
  1. Então virá o fim.


Paulo não coloca um período adicional de mil anos entre a volta de Cristo e o fim. Ele prossegue afirmando:


“Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.25-26).


Quando Cristo vier, a morte será destruída. Portanto, não faz sentido afirmar que, depois dessa vitória, a morte continuará agindo durante mais mil anos.


Precisamos fazer uma pergunta simples: se Jesus já voltou em glória, ressuscitou os mortos e destruiu o último inimigo, como ainda poderia haver pessoas morrendo durante um reino milenar posterior?


5. A Segunda Vinda traz a ressurreição e o juízo


Jesus também ensinou que haverá uma hora em que todos os mortos ouvirão a sua voz:


“Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz dele e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo” (Jo 5.28-29).


Jesus fala de uma mesma hora em que justos e injustos ressuscitarão. Os destinos são diferentes, mas o acontecimento é conjunto.


Da mesma forma, em Mateus 25.31-46, quando o Filho do Homem vier em sua glória, todas as nações serão reunidas diante dele para o juízo. A sua vinda não inaugura uma nova era de pecado e mortalidade. Ela traz a manifestação final do Reino, o juízo e a separação definitiva entre justos e injustos.


Pedro também relaciona o Dia do Senhor à destruição da presente ordem e à chegada dos novos céus e da nova terra:


“Nós, porém, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13).


É significativo que Pedro esteja provavelmente retomando justamente a promessa de Isaías 65. Ele não interpreta os novos céus e a nova terra como um reino temporário no qual ainda haverá pecado, maldição e morte. Ele os descreve como a realidade “na qual habita a justiça”.


6. Apocalipse confirma a ausência definitiva da morte


Apocalipse 21 retoma diretamente a linguagem de Isaías:


“Vi novo céu e nova terra” (Ap 21.1).


Em seguida, João explica como será essa nova criação:


“E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E a morte já não existirá; já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4).


Isaías havia anunciado os novos céus e a nova terra usando a linguagem profética de longevidade e vida abundante. João, recebendo uma revelação posterior e mais clara, afirma diretamente: “A morte já não existirá.”


Não existe contradição entre Isaías e Apocalipse. Existe desenvolvimento da revelação.


Isaías fala da vitória sobre a morte em termos de uma longevidade extraordinária. Apocalipse mostra a plenitude dessa promessa: a morte será definitivamente eliminada.


7. O problema da interpretação pré-milenista literal


A leitura pré-milenista frequentemente entende Isaías 65.20 como uma descrição literal de um reino de mil anos depois da volta de Cristo. Nesse período, haveria pessoas mortais, nascimentos, pecado, maldição e morte.


Entretanto, essa interpretação cria graves dificuldades.


Primeiro, coloca a morte depois de sua destruição. Paulo ensina que a morte é o último inimigo e será destruída na consumação, quando Cristo vier e os mortos ressuscitarem.


Segundo, coloca o pecado e a maldição depois da manifestação gloriosa de Cristo. Mas o Novo Testamento associa a sua vinda ao juízo final e à renovação da criação.


Terceiro, transforma os novos céus e a nova terra de Isaías em uma ordem ainda imperfeita, embora Apocalipse 21 utilize a mesma linguagem para descrever uma realidade em que não haverá morte, dor ou maldição.


Quarto, interpreta literalmente uma imagem profética do Antigo Testamento, mesmo quando o Novo Testamento esclarece que a promessa aponta para algo ainda maior.


A interpretação mais coerente não é usar Isaías 65.20 para enfraquecer as declarações claras do Novo Testamento. Devemos fazer o contrário: interpretar a linguagem profética de Isaías à luz da revelação plena trazida por Cristo e seus apóstolos.


Conclusão


Isaías 65.20 não ensina que haverá morte, pecado e maldição durante mil anos depois da Segunda Vinda de Cristo.


O profeta utiliza a linguagem de longevidade e prosperidade para anunciar uma realidade inteiramente restaurada por Deus. Dizer que morrer aos cem anos seria morrer jovem é uma forma profética de afirmar que a vida será plena, segura e abundante.


O Novo Testamento revela claramente a consumação dessa promessa. Quando Cristo vier, os mortos ressuscitarão, o juízo acontecerá, o fim chegará e o último inimigo, a morte, será destruído.


Portanto, a esperança cristã não é um reino provisório depois da volta de Jesus, no qual cemitérios ainda serão necessários e a morte continuará vencendo pessoas durante mil anos.


A esperança cristã é a vitória definitiva de Cristo.


Ele não voltará para administrar um mundo ainda dominado pela morte. Ele voltará para ressuscitar os mortos, julgar o mundo, renovar a criação e destruir para sempre o último inimigo.


Então se cumprirá plenamente aquilo que Isaías anunciou em linguagem profética e que Apocalipse declarou de maneira direta:


“E a morte já não existirá” (Ap 21.4).

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