Romanos 9 — Será que a palavra de Deus falhou?

Romanos 9 — Será que a palavra de Deus falhou?

Introdução:

Quero começar esta palestra fazendo com vocês as perguntas que, imagino, já passaram pela cabeça de todo leitor atento do Novo Testamento. Se Jesus é o Messias prometido a Israel, por que a maior parte de Israel não creu nele? Por que a Igreja, em pouquíssimo tempo, passou a ser formada majoritariamente por gentios? Teria Deus voltado atrás nas promessas que fez ao seu povo? E a pergunta que costuma dominar o debate: Romanos 9 ensina que Deus predestinou cada indivíduo, desde a eternidade, para a salvação ou para a perdição?

Essas perguntas são antigas, e não sou eu quem vai fingir que são fáceis. O próprio apóstolo Pedro, falando das cartas de Paulo, reconheceu que nelas “há alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam” (2Pe 3.16). Se Pedro admite a dificuldade, nós faremos bem em nos aproximar de Romanos 9 com humildade, com método e com muita atenção ao contexto.

Antes de abrir o texto, um dado histórico que poucos conhecem e que nos ajuda a relativizar certezas. Durante os primeiros quatro séculos da igreja, nenhum pai da igreja leu Romanos 9 como ensino de eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição. O próprio Agostinho, em seus primeiros escritos sobre Romanos, por volta do ano 394, entendia a eleição com base na fé prevista por Deus. A virada aconteceu em 396, na obra Ad Simplicianum — e mesmo ali tratava-se de uma leitura nova, não da herança recebida da igreja. A dupla predestinação explícita, com decreto para a perdição, só aparece com Gottschalk, no século nove, e seria sistematizada por Calvino no século dezesseis. Isso não decide a questão, é claro; quem decide é o texto. Mas nos lembra de que a leitura determinista é a novidade na história da interpretação, não a regra.

Como vamos ler, então? Proponho seis chaves de leitura que vão nos acompanhar do início ao fim. Primeira: identificar a pergunta real que Paulo está respondendo. Segunda: tratar Romanos 9, 10 e 11 como um bloco único — os capítulos 10 e 11 completam o argumento do capítulo 9. Terceira: ler dentro da mensagem central da carta, que os capítulos 1 a 4 estabelecem: a justiça de Deus mediante a fé. Quarta: examinar o contexto original de cada citação que Paulo faz do Antigo Testamento, porque ele assume que seus leitores conheciam essas passagens. Quinta: deixar que os textos claros iluminem os obscuros, e nunca o contrário. Sexta: lembrar que nenhuma leitura pode transformar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo num condenador arbitrário.

1. A questão real de Romanos 9

1.1 A tristeza de Paulo já é um argumento

Observem como o capítulo começa. Paulo não abre com uma tese fria; abre com lágrimas:

“Sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração. Porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne.”  (Rm 9.2-3)

Parem um instante nessa dor. Se a rejeição de Israel fosse fruto de um decreto eterno e imutável, essa “incessante dor” não faria sentido nenhum: Paulo estaria lamentando a perfeita vontade de Deus. Mais que isso: ele ora pela salvação deles — “o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus em favor deles é para que sejam salvos” (Rm 10.1). Ninguém suplica contra um decreto irrevogável. E ele ainda trabalha para provocar ciúmes em Israel, “para que alguns deles se salvem” (Rm 11.14) — um esforço inútil se tudo já estivesse decidido desde a eternidade. A dor, a oração e o esforço missionário de Paulo pressupõem portas abertas, não destinos selados.

1.2 O versículo que costuma ser pulado

Agora, o versículo que enuncia o problema do capítulo inteiro — e que, curiosamente, a leitura calvinista costuma atravessar correndo:

“E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas.”  (Rm 9.6)

Está aí a tese. O problema de Romanos 9 não é “por que alguns indivíduos creem e outros não”. O problema é outro: se Israel, o povo das promessas, está rejeitando o seu Messias, será que a palavra de Deus falhou? Será que Deus prometeu e não cumpriu? A resposta de Paulo é um sonoro não — e a razão é que a promessa nunca foi para a descendência da carne, mas para a descendência da fé.

Percebam como o ponto de partida decide tudo. Quem pergunta ao texto “por que uns creem e outros não?” acaba inevitavelmente na resposta do decreto secreto que separou eleitos e réprobos — e desemboca no determinismo, em que fé e incredulidade viram meros efeitos de uma escolha já feita. Mas quem ouve a pergunta que Paulo de fato responde — “a palavra de Deus falhou com Israel?” — recebe outra resposta: não falhou, porque a salvação nunca foi por etnia nem por obras, mas pela fé (Rm 9.30-32). A mesma Pedra em que Israel tropeça é a que salva quem nela crê (Rm 9.33) — inclusive o judeu que vier a crer (Rm 11.23).

1.3 Eleição corporativa e vocacional

Qual é, então, a tese de Romanos 9? O capítulo trata da eleição da nação de Israel para um papel histórico e missionário: dela vieram a adoção, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e o próprio Cristo segundo a carne (Rm 9.4-5). Deus foi justo no tratamento dado a Israel e tem cumprido suas promessas através do remanescente (Rm 9.27; 11.5). E os indivíduos judeus não têm um caminho de salvação distinto dos gentios: todos são salvos pela fé no mesmo Senhor (Rm 10.12-13).

Paulo demonstra que a exclusão de parte da descendência física de Abraão nunca foi novidade: sempre fez parte da história da promessa. Dos filhos de Abraão, só Isaque herdou a promessa — não Ismael (Rm 9.7). Dos filhos de Isaque, só Jacó — não Esaú (Rm 9.10-13). E dentro do próprio Israel, “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6); “o remanescente é que será salvo” (Rm 9.27). A promessa sempre passou por um afunilamento, e o critério desse afunilamento é declarado pelo próprio Paulo: “não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência” (Rm 9.8). Abraão é pai de todos os que creem, quer judeus, quer gentios (Rm 4.11-12, 16). Raabe e Rute, gentias, tornaram-se filhas da promessa pela fé.

Notem que isso não é um assunto novo na carta. Romanos 1 a 4 já havia desmontado tudo aquilo de que o judeu se orgulhava: ser filho natural de Abraão não salva (Mt 3.9), a circuncisão não salva (Rm 2.25-29), as obras da lei não salvam (Rm 3.20). O que salva é a graça de Deus, mediante a fé (Rm 3.24-28), num só caminho para judeus e gentios (Rm 3.29-30). Romanos 9-11 não muda de assunto; aplica essa mesma tese ao caso doloroso de Israel.

2. Os quatro textos difíceis

Vamos agora ao coração da controvérsia. A leitura calvinista de Romanos 9 se apoia essencialmente em quatro versículos: “Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (9.13); “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (9.15); “endurece a quem ele quer” (9.18); e “vasos de ira, preparados para a destruição” (9.22). Quero examinar cada um deles com vocês, dentro do contexto — o de Romanos e o do Antigo Testamento de onde Paulo os tirou.

2.1 “Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (Rm 9.13)

Primeiro detalhe, e é decisivo: Paulo está citando Malaquias 1.2-3, um texto escrito séculos depois da morte dos dois irmãos. No contexto de Malaquias, “Jacó” e “Esaú” são as nações de Israel e Edom — não dois bebês no ventre de Rebeca. E o oráculo original dado a Rebeca já dizia exatamente isso: “Duas nações há no seu ventre, dois povos… e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23). A leitura nacional não é uma manobra arminiana para escapar do texto; está na própria fonte que Paulo cita. Tanto é assim que o indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó — quem serviu a Israel foi a nação de Edom (2Sm 8.14).

Segundo detalhe: o verbo. A Nova Almeida traduz “desprezei”; outras versões trazem “aborreci”. Trata-se do mesmo idiomatismo semítico que Jesus usou: “Se alguém vem a mim e não aborrece pai e mãe… não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Ninguém entende que Jesus mandou odiar os pais; o sentido é amar menos, preterir. Foi Esaú, aliás, quem desprezou primeiro o seu direito de primogenitura (Gn 25.34; Hb 12.16), perdendo o privilégio de ser o pai da linhagem do Salvador. E o texto bíblico não afirma a perdição eterna de Esaú — mais tarde ele se mostrou generoso com o irmão (Gn 33), um sinal da graça de Deus em sua vida.

E a ira contra Edom? Obadias declara o motivo, e não é um decreto pré-natal: “por causa da violência feita a teu irmão Jacó” (Ob 1.10-14). A reprovação tem causa moral declarada. Isso se encaixa no que a Escritura ensina sobre o fundamento da eleição: “aos que de antemão conheceu, também os predestinou” (Rm 8.29); “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). A presciência vem antes da predestinação. Deus conhece de antemão quem responderá com fé — e o destino gravita em torno dessa resposta, não de um sorteio eterno.

2.2 “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9.15-16)

O segundo texto costuma ser lido como se dissesse: Deus tem misericórdia apenas dos eleitos. Mas o ponto de Paulo é outro. Ele está afirmando a liberdade de Deus para definir o modo de conceder misericórdia: pela fé, e não pela etnia ou pelas obras. Deus não deve nada ao pedigree de ninguém. E o próprio bloco termina dizendo que Deus quer “mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32), que o Senhor é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12), e o salmista já cantava: “O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” (Sl 145.9). Uma misericórdia restrita aos eleitos contradiria os textos claros: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10.34; Rm 2.11) e “Deus amou o mundo” (Jo 3.16).

E o versículo 16? “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Aqui é preciso ler com cuidado. “Querer e correr” designam o esforço e o privilégio humanos — as obras, a etnia, o zelo religioso que Paulo descreverá em Rm 10.2-3. O versículo exclui o mérito; não exclui a fé. A fé é justamente o modo não meritório que a misericórdia de Deus estabeleceu: “por isso, é pela fé, para que seja segundo a graça” (Rm 4.16). Quem duvidar, espere pela conclusão do próprio Paulo no fim do capítulo — nós chegaremos lá.

Vale lembrar ainda o alcance da cruz, porque a leitura restritiva da misericórdia carrega junto uma expiação limitada. A Escritura fala em outra direção: Cristo “a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2.6), e Deus “deseja que todos sejam salvos” (1Tm 2.4); ele é a propiciação “pelos pecados de todo o mundo” (1Jo 2.2); “provou a morte por todos” (Hb 2.9); é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), “o Salvador do mundo” (Jo 4.42). Paulo chega a advertir: “não faças perecer aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14.15) — logo, Cristo morreu também por quem pode perecer. E Deus “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3.9), pois não tem prazer na morte do ímpio (Ez 18.23).

2.3 “Endurece a quem ele quer” (Rm 9.18)

O terceiro texto nos leva ao Egito. Notem, primeiro, o que o texto não diz: não diz que Deus endureceu Faraó desde a eternidade. Quando lemos Êxodo com atenção, vemos que nas primeiras pragas é Faraó quem endurece o próprio coração (Êx 8.15; 8.32), ou se diz que o seu coração “se endureceu” (Êx 7.13, 22; 9.7) — e só depois o texto passa a dizer que Deus o endureceu (Êx 9.12). O endurecimento divino opera como entrega judicial, aquele mesmo movimento que Paulo descreveu em Romanos 1: “Deus os entregou” aos desejos dos seus corações (Rm 1.24, 26, 28). Faraó converteu cada manifestação da paciência de Deus em mais resistência — e Deus confirmou essa escolha. Deus endurece a quem quer, sim; e Ele quer endurecer os que persistentemente endurecem a si mesmos.

Sei que alguém vai levantar a objeção, e ela é boa: “mas antes de qualquer praga Deus já tinha dito: eu lhe endurecerei o coração” (Êx 4.21; 7.3). Respondo com duas observações. Primeira: anúncio presciente não é causação. Deus, que conhece o coração, declara de antemão como Faraó reagirá — exatamente como Jesus anunciou de antemão a negação de Pedro (Mc 14.30) sem por isso tê-la causado. Segunda: o instrumento do endurecimento são as próprias manifestações de graça e poder. O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. E há uma prova interna de que o endurecimento não é decreto imutável: a exortação “se, hoje, ouvirem a sua voz, não endureçam o coração” (Hb 3.15) não faria o menor sentido se endurecer ou não endurecer não estivesse ao alcance do ouvinte.

Agora, a ironia fina de Paulo: os judeus aceitavam tranquilamente o endurecimento de Faraó — mas não percebiam que estavam fazendo exatamente o mesmo. Estêvão lhes disse na cara: “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51). E assim como a dureza de Faraó serviu ao Êxodo e à proclamação do nome de Deus em toda a terra (Rm 9.17), a dureza de Israel favoreceu a redenção dos gentios (Rm 11.11). Em ambos os casos, trata-se de papel histórico no plano de Deus — não de destino eterno individual decretado. E fica o aviso: “a quem muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12.48). O privilégio de Israel aumentou sua responsabilidade, não sua segurança.

2.4 O oleiro e os vasos (Rm 9.19-23)

Chegamos à imagem do oleiro. “Será que o oleiro não tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.21). Pergunto a vocês: na Escritura, quem é o barro nas mãos do oleiro? Não é a humanidade em geral, nem cada alma individual — é Israel (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6). E aqui está um dos achados mais bonitos deste estudo: os textos que Paulo evoca ensinam exatamente o contrário do determinismo.

Abram comigo Jeremias 18. Deus manda o profeta à casa do oleiro e diz: “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó casa de Israel” (Jr 18.6). E na sequência explica as regras: se eu decretar arrancar uma nação, e ela se converter da sua maldade, eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe; e se eu decretar edificar uma nação, e ela fizer o que é mau, me arrependerei do bem que dissera fazer-lhe (Jr 18.7-10). Esse vaso tem vontade própria — o vaso que “se estragou na mão do oleiro” (Jr 18.4) não estava sob controle absoluto. Nínive comprova a regra: o decreto anunciado foi revertido pelo arrependimento (Jn 3.10), para frustração de Jonas e alegria de Deus (Jn 4.11). Até Jerusalém sitiada ainda tinha escolha: render-se e viver, ou resistir e arder (Jr 38.17-18). Paulo assumia que seus leitores judeus conheciam esse contexto e captariam a implicação.

E os “vasos de ira, preparados para a destruição” (Rm 9.22)? Aqui um detalhe do grego muda tudo. Para os vasos de ira, Paulo usa katērtisména — particípio perfeito, “prontos, ajustados” —, e não declara o agente; a voz pode inclusive ser lida como média: “que se prepararam”. Para os vasos de misericórdia, muda completamente a construção: “que de antemão preparou para glória” (Rm 9.23) — proētoímasen, verbo ativo, Deus como sujeito explícito, e só aqui aparece o “de antemão”. O silêncio de Paulo sobre quem prepara os vasos de ira é eloquente: Deus prepara para a glória; para a destruição, o homem se prepara na incredulidade. E notem: Deus “suportou com muita paciência” esses vasos — e a paciência de Deus, ensina o próprio Paulo, visa o arrependimento (Rm 2.4; 2Pe 3.9).

As categorias, além disso, não são gavetas fechadas. Os cristãos de Éfeso eram “por natureza, filhos da ira” — e foram vivificados com Cristo (Ef 2.3-5); passaram de um grupo ao outro. “Se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra” (2Tm 2.21) — o próprio Paulo trata a categoria como móvel. “Deus não nos destinou para a ira” (1Ts 5.9). E a citação de Oseias, ali mesmo em Romanos 9, prova que as portas se abrem: “Chamarei de meu povo ao que não era meu povo; e de amada à que não era amada” (Rm 9.25, citando Os 2.23). Se “não povo” pode se tornar “meu povo”, as categorias de Romanos 9 são portas que a fé atravessa — foi o que aconteceu com os gentios (Rm 9.24, 30).

E como o próprio Paulo fecha o capítulo? Essa é a pergunta que eu gostaria que vocês nunca mais esquecessem. Ao explicar por que os gentios alcançaram a justiça e Israel não, ele não diz uma só palavra sobre decreto ou reprovação eterna:

“Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras. Tropeçaram na pedra de tropeço.”  (Rm 9.32)

A causa é uma só: fé versus obras. E a promessa segue aberta: “aquele que nela crê não será envergonhado” (Rm 9.33).

3. Romanos 10 confirma: a fé vem pela pregação

Se Romanos 9 ensinasse eleição incondicional, o capítulo 10 seria incompreensível. Vejam como ele abre: Paulo suplica a Deus pela salvação de Israel (Rm 10.1) — e só se ora pela salvação de quem pode ser salvo. O diagnóstico que ele dá é preciso: Israel tem “zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2); “procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça que vem de Deus” (Rm 10.3). O verbo é de recusa ativa, não de incapacidade decretada. “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).

E então a porta se escancara: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). “Não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). Reparem na linguagem: “todo aquele” é a expressão menos determinista que existe.

Segue-se a lógica missionária: como crerão naquele de quem nada ouviram? Como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14). “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). A corrente da salvação passa pela pregação, não por um decreto secreto. Se a eleição fosse incondicional, a pregação seria desnecessária para os eleitos e inútil para os demais — e a urgência de Judas, “salvem-nos, arrebatando-os do fogo” (Jd 23), seria descabida. Quando Paulo constata que “nem todos obedeceram ao evangelho” (Rm 10.16), a linguagem é de desobediência responsável, não de exclusão prévia.

E a imagem com que o capítulo termina vale por um tratado: “Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde” (Rm 10.21, citando Is 65.2). Não é um Deus de decretos fechados; é um Deus de braços abertos o dia inteiro — rejeitado por quem não quis. É o mesmo lamento de Jesus sobre a cidade santa: “quantas vezes quis eu reunir os seus filhos… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37).

4. Romanos 11 confirma: a rejeição não é total nem definitiva

O capítulo 11 abre com a pergunta decisiva e a resposta enfática: “Será que Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum!” (Rm 11.1). A primeira prova é o próprio Paulo, israelita e crente. Como nos dias de Elias, Deus reservou para si os fiéis — “sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal” (Rm 11.4) —, e “assim também nos dias de hoje sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11.5). Notem que os sete mil não são descritos como poupados à revelia, mas pela sua fidelidade: eleição da graça e resposta de fé andam juntas. A rejeição, portanto, não é total.

Também não é definitiva. “Será que tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” (Rm 11.11). Pela transgressão deles a salvação chegou aos gentios, para provocar ciúmes nos judeus — até a queda é posta a serviço da misericórdia. Paulo glorifica o seu ministério “para ver se… alguns deles se salvem” (Rm 11.14), estratégia absurda sob dupla predestinação, e antevê o “restabelecimento” deles como “vida dentre os mortos” (Rm 11.15).

Na alegoria da oliveira, Paulo nomeia a causa do corte dos ramos naturais, e não é um decreto: “Eles foram quebrados por causa da incredulidade, mas você continua firme mediante a fé” (Rm 11.20). Segue a advertência ao gentio crente: “Não fique orgulhoso, mas tema. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você” (Rm 11.20-21). E a esperança para os cortados: “se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo” (Rm 11.23). Corte reversível e enxerto condicional: o contrário exato de destinos selados desde a eternidade.

O versículo 22 merece ser decorado, porque é a condicionalidade explícita dirigida justamente aos “vasos de misericórdia”:

“Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para com você, a bondade de Deus, desde que você permaneça nessa bondade. Do contrário, também você será cortado.”  (Rm 11.22)

O “desde que” está no texto. A perseverança na fé é condição real (1Co 9.27; 10.12; Hb 3.14) — mais uma prova de que Romanos 9 não ensinou segurança incondicional de eleitos.

E o desfecho do bloco recolhe tudo. O endurecimento de Israel é “em parte” e dura “até que” entre a plenitude dos gentios (Rm 11.25) — parcial e temporário. “E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.26): o destino do povo de Deus está garantido; o de cada indivíduo passa pela fé no Messias, que o insere neste Israel de Deus (Rm 11.23; Gl 6.16). “Quanto à eleição, amados por causa dos patriarcas” (Rm 11.28) — eleição do povo, vocacional, irrevogável (Rm 11.29). E a frase final do argumento: “Deus encerrou todos na desobediência, a fim de mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32). O bloco que começou com vasos de ira termina com misericórdia oferecida a todos — recebida, como toda a carta ensina, mediante a fé.

Se eu tivesse que resumir o bloco numa frase para cada capítulo, diria assim. Romanos 9, o passado: a palavra de Deus não falhou, porque a promessa sempre correu pela linha da fé, não da carne. Romanos 10, o presente: Israel tropeçou por incredulidade, e a fé vem pela pregação — todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Romanos 11, o futuro: rejeição parcial, temporária e reversível; advertência aos enxertados, esperança aos cortados, misericórdia para todos.

5. Romanos 9 e a Parábola das Bodas

Quero encerrar a exposição mostrando a vocês que Jesus contou em parábola o mesmo drama que Paulo explicou em doutrina. Na Parábola das Bodas (Mt 22.1-14), um rei preparou as bodas do seu filho e convidou Israel — e “eles não quiseram vir” (Mt 22.3). A recusa é desprezo, não decreto. O convite foi insistente: “enviou ainda outros servos” (Mt 22.4), como o Deus que “todo o dia” estende as mãos (Rm 10.21). Diante da recusa, o convite foi às encruzilhadas, a “maus e bons” (Mt 22.9-10) — e a sala ficou repleta, imagem da plenitude dos gentios (Rm 11.25; At 13.46) e daquela multidão que ninguém podia contar (Ap 7.9).

Os paralelos são ponto a ponto. Israel rejeita o convite (Mt 22.3-6; Rm 9.31-32; 11.20). A causa é o não querer, a incredulidade: “não quiseram vir” (Mt 22.3) corresponde a “não a buscou pela fé” (Rm 9.32). O convite é insistente e universal (Mt 22.4, 9-10; Rm 10.18, 21; 11.32). A fé é a condição para entrar e permanecer — na parábola, a veste nupcial (Mt 22.11-13); na carta, a fé que justifica e sustenta (Rm 10.11-13; 11.20, 22). Há juízo severo sobre o desprezo (Mt 22.7, 13; Rm 11.10, 20-22). E a sala se enche mesmo assim (Mt 22.10; Rm 11.25).

“Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt 22.14). Lido no contexto da parábola, o dito é transparente: os escolhidos são os que responderam ao chamado nos termos do Rei — com a veste nupcial da fé. E aqui é preciso precisão teológica: a fé não é mérito que compra a eleição; é a resposta, capacitada pela graça preveniente, ao convite que a graça já fez. “A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11); “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12).

Conclusão: 

Depois de percorrer os três capítulos, deixo minha posição explícita, como gosto de fazer. Romanos 9 não ensina eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição; não ensina endurecimento decretado desde a eternidade; não ensina que Deus criou vasos para a destruição; e não oferece segurança incondicional a eleito nenhum — Romanos 11.20-22 adverte exatamente o contrário.

O que o bloco ensina é isto: Deus foi fiel — a promessa sempre correu pela fé, e o remanescente a comprova. A eleição do povo é vocacional e irrevogável (Rm 11.29); a participação de cada indivíduo é condicionada à fé perseverante (Rm 11.22-23; Jo 15.1-6; Mt 24.13). Deus tem misericórdia de todos os que o invocam (Rm 10.12-13) e quer misericórdia para todos (Rm 11.32). Quem crê entra; quem persiste na incredulidade é cortado; quem abandona a incredulidade é reenxertado. É o que chamo de eleição condicional — condicionada não ao mérito, mas à fé que a graça preveniente torna possível.

John Wesley, diante da leitura determinista deste capítulo, disse no sermão Free Grace, de 1739: “Seja lá o que essa Escritura prove, ela jamais poderá provar isso.” Pois tal doutrina faria de Deus um condenador arbitrário — em nada parecido com o Jesus que chorou sobre Jerusalém e disse: “quantas vezes quis eu… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37). A salvação é oferecida a todos — e recebida pelos que creem (Jo 1.12).

Aplicações pastorais

Termino com quatro consequências práticas, porque doutrina que não desce ao chão da vida ainda não foi entendida.

Pregue a todos, com esperança real. A fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Nenhum ouvinte é um caso perdido por decreto — cada pregação é porta aberta.

Ore pelos endurecidos. Paulo orou pelos que tropeçaram (Rm 10.1). O endurecimento de hoje não é a sentença de amanhã (Rm 11.23).

Persevere na fé. “Desde que você permaneça” (Rm 11.22). A graça que nos enxertou nos sustenta — mas não dispensa a fé fiel até o fim (Mt 24.13).

Cultive humildade, não orgulho. “Não se glorie contra os ramos” (Rm 11.18). Diante de Israel e de todo incrédulo, nossa postura é gratidão e temor, nunca soberba.

Para aprofundar

Jacó Armínio — Análise do capítulo 9 de Romanos.

John Wesley — Free Grace (1739) e Predestination Calmly Considered (1752).

Brian J. Abasciano — Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9 (3 vols.): a defesa exegética mais completa da eleição corporativa.

William W. Klein — The New Chosen People: A Corporate View of Election.

Ben Witherington III — Paul’s Letter to the Romans: A Socio-Rhetorical Commentary.

Bispo Ildo Mello

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação.



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