Os principais versículos usados em favor da predestinação incondicional, na leitura armínio-wesleyana
Os textos do debate, lidos com Armínio e Wesley
Os principais versículos usados em favor da predestinação incondicional, na leitura armínio-wesleyana
Bispo Ildo Mello, Igreja Metodista Livre do Brasil. Agosto de 2026.
Por que este estudo
Quem ensina a doutrina da salvação numa igreja wesleyana acaba sendo confrontado, cedo ou tarde, com uma lista de versículos. A lista é sempre parecida: "Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer"; "nos escolheu nele antes da fundação do mundo"; "amei Jacó, porém desprezei Esaú"; "creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna"; "mortos em transgressões e pecados". Para o irmão calvinista, esses textos decidem a questão. Para muitos dos nossos, eles causam um incômodo silencioso: a gente crê que Deus ama a todos e que a salvação é pela fé, mas não sabe muito bem o que fazer com aqueles versículos.
Este estudo existe para desfazer esse incômodo. Ele toma os textos mais usados em defesa da eleição incondicional, da graça irresistível e da expiação limitada, e os lê um a um, com três cuidados. Primeiro, ouvir com honestidade o que o calvinismo afirma, nas palavras dos seus melhores representantes. Segundo, aproveitar o que há de melhor na exegese não calvinista recente, em especial o trabalho de Richard Coords (Calvinism Answered), de Jerry Walls e Joseph Dongell, de Brian Abasciano, de Robert Picirilli e de Robert Shank. Terceiro, e principalmente, ler cada texto a partir da nossa própria tradição: as Notas Explicativas de John Wesley sobre o Novo Testamento, os sermões Graça Livre (1739) e a Predestinação Serenamente Considerada (1752), a Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio, os Checks de John Fletcher, e os sistemáticos wesleyanos Richard Watson, H. Orton Wiley e Thomas Oden.
Essa terceira fonte faz diferença. Boa parte da apologética não calvinista de hoje, inclusive a de Coords, responde ao calvinismo afirmando que o ser humano caído conserva a capacidade de responder ao evangelho. Essa não é a nossa resposta. Wesley levou a sério o "ninguém pode vir" de João 6.44. A nossa resposta ao calvinismo não é a capacidade natural do homem; é a graça que vem antes, oferecida a todos, que capacita sem coagir, e que pode ser recebida ou resistida. Onde Coords e os provisionistas dizem "o pecador pode", nós dizemos "a graça torna o pecador capaz". O argumento contra a irresistibilidade continua de pé, e fica mais forte, porque agora ele repousa na universalidade da graça, e não na bondade natural de ninguém.
As chaves de leitura que usamos
Antes dos versículos, convém deixar explícitas as convicções que governam a leitura. Não são pressupostos escondidos; são a doutrina que a nossa tradição tirou da Escritura e que cada verbete procura verificar no texto.
1. A graça preveniente. Ninguém busca a Deus por conta própria (Rm 3.11). Mas Deus busca a todos. A graça que precede a conversão ilumina, convence, atrai e capacita a responder (Jo 1.9; Jo 12.32; Jo 16.8; Tt 2.11). Ela é real, é necessária e é resistível (At 7.51; Lc 7.30). Wesley a descreveu, em João 6.44, como "as moções fortes e doces, embora ainda resistíveis, da graça celestial".
2. A eleição é em Cristo e condicional. Cristo é o Eleito (Is 42.1; Lc 9.35). A Igreja é eleita nele (Ef 1.4). Cada pessoa participa dessa eleição pela fé, que é a condição não meritória estabelecida pelo próprio Deus. Wesley resumiu o decreto eterno numa frase: "quem crer será salvo". Armínio pôs Cristo no centro do decreto, e não como executor de um decreto anterior a ele.
3. Presciência não é causa. Deus conhece de antemão quem crerá, e elege segundo essa presciência (Rm 8.29; 1Pe 1.2). Conhecer não é determinar. Wesley lembra, na nota a 1 Pedro 1.2, que a rigor não há "antes" nem "depois" no conhecimento de Deus; tudo lhe é presente. A presciência é o modo humano de dizer que Deus elege os que crerão, e não que faz crer os que elegeu.
4. Vontade antecedente e vontade consequente. Deus quer, antecedentemente, que todos sejam salvos (1Tm 2.4; 2Pe 3.9; Ez 33.11). Consequentemente, isto é, em resposta à recusa persistente, ele endurece, entrega e julga (Rm 1.24-28; Rm 9.18). O endurecimento judicial é sempre posterior à rebeldia, nunca anterior ao nascimento.
5. Deus não é o autor do pecado. Deus permite o mal, limita o mal, usa o mal e redime o mal; não o decreta nem o causa (Tg 1.13; 1Jo 1.5; Gn 50.20). A Confissão de Westminster também nega que Deus seja autor do pecado, mas o seu decreto de "tudo quanto acontece" torna essa negação difícil de sustentar. Preferimos um Deus soberano sobre criaturas livres a um Deus que roteiriza cada tragédia.
6. A salvação é conservada pela fé. A segurança do crente é real, mas condicional: "desde que você permaneça" (Rm 11.22). Wesley leu Romanos 8.30, João 6.39, João 10.28 e Hebreus 6.4-6 nessa chave, e nós também.
7. O claro ilumina o obscuro, e o caráter de Deus decide o empate. Quando um texto difícil admite duas leituras, prevalece a que não transforma o Pai de Jesus num condenador arbitrário. O Deus que chora sobre Jerusalém (Mt 23.37) é o mesmo que fala em Romanos 9.
Como cada verbete está organizado
Cada texto recebe o mesmo tratamento: o versículo na Nova Almeida Atualizada; a leitura calvinista, com uma citação atribuída; a leitura armínio-wesleyana, em itens; a palavra de Wesley nas Notas Explicativas (na tradução publicada em metodistalivre.org.br/notas); uma síntese de uma frase; e uma aplicação para o púlpito e a sala de aula. Os textos estão agrupados em seis blocos: Deus e o mal; a condição humana e a graça que vem antes; a eleição; Romanos 9 a 11; a vontade salvífica universal e a expiação; a perseverança. A conclusão traz ainda uma nota sobre o testemunho da Igreja antiga. Um índice ao final permite localizar cada versículo.
As citações de autores calvinistas vêm da seleção feita a partir do livro Calvinism Answered, com a obra indicada quando ele a informa. As citações de Wesley vêm das Notas Explicativas, salvo indicação de sermão ou tratado.
Parte A · Deus, o mal e o decreto
Antes de discutir quem é eleito, é preciso decidir que tipo de Deus elege. O calvinismo clássico começa pelo decreto de "tudo quanto acontece" (Confissão de Westminster III.1) e dali desce à salvação. Nós fazemos o caminho inverso: começamos pelo caráter de Deus revelado em Cristo e perguntamos que decreto é compatível com ele. Os textos abaixo são os que mais se citam para afirmar que Deus decretou até o pecado.
Gênesis 50.20 · Vocês planejaram o mal, Deus o tornou em bem
Texto (NAA): "Vocês, na verdade, planejaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como estão vendo agora, que se conserve a vida de muita gente."
A leitura calvinista. O texto provaria que Deus decreta as próprias intenções más dos homens e permanece sem culpa. Sproul: "Deus sabe tudo o que acontecerá porque ordena tudo o que acontece" (What is Reformed Theology?, p. 172). James White acrescenta que, julgando pelas intenções do coração, Deus mantém a base da moralidade (Debating Calvinism, p. 320).
A leitura armínio-wesleyana.
1. O versículo distingue duas intenções, não uma só. Os irmãos "planejaram o mal"; Deus "o tornou em bem". O verbo de Deus recai sobre o resultado, não sobre a intenção dos irmãos. Cooperar não é causar; redimir não é decretar.
2. De onde veio o ódio dos irmãos? De dentro deles (Gn 37.4, 11). Tiago fecha a questão: cada um é tentado pela própria cobiça, e Deus "não tenta ninguém" (Tg 1.13-14). Deus conheceu a intenção, limitou-a (a venda no lugar do assassinato, Gn 37.26-27) e a fez servir a um bem maior.
3. O que garante o êxito dos planos de Deus não é o determinismo, e sim a onisciência e a sabedoria. Deus planeja a partir do que conhece: "Sei que o rei do Egito não deixará vocês irem; por isso estenderei a minha mão" (Êx 3.19-20). O formato é "sei, logo farei", e não "determino para saber".
4. A melhor frase de Coords vale a pena guardar: Deus não causa aquilo que usa; Deus usa o que outros causaram de modo independente.
5. Romanos 8.28 diz o mesmo: "todas as coisas cooperam para o bem". Até comentaristas calvinistas cuidadosos reconhecem, ali, que Deus permite agentes maus agirem e sobrepõe o seu propósito ao que eles fizeram. Nesse ponto a distância entre nós é menor do que parece; a diferença está em se esse "permitir" é um decreto eterno ou uma resposta sábia a escolhas reais.
Wesley (Notas, Gn 50.20): "Vós intentastes o mal contra mim, porém Deus o tornou em bem: para fazer de José bênção maior para a sua família do que de outro modo poderia ter sido."
Em síntese. Gênesis 50.20 descreve um Deus que redime o mal alheio, não um Deus que o encomenda.
Para o púlpito. Este é o texto para o sofrimento: Deus não planejou a sua dor, mas já está trabalhando nela. É um consolo maior do que dizer à mãe enlutada que Deus decretou a morte do filho antes da fundação do mundo.
Provérbios 16.4 · Até o ímpio, para o dia da calamidade
Texto (NAA): "O Senhor fez todas as coisas para determinados fins; até o ímpio, para o dia da calamidade."
A leitura calvinista. Calvino lê aqui que "os próprios ímpios foram criados com o propósito específico de perecer" (Comentário a Romanos, sobre Rm 9). É o texto da reprovação.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O "dia da calamidade" pertence a uma família de expressões de Provérbios: "dia da vingança" (6.34), "dia da ira" (11.4), "dia da batalha" (21.31), "dia da angústia" (24.10). Todas designam um acontecimento, um ajuste de contas. O provérbio diz que nada escapa à ordem de Deus, nem mesmo o ímpio, cujo fim será o juízo; não diz que Deus fabrica ímpios.
2. A Escritura afirma que o ímpio se faz ímpio: "Deus fez o ser humano reto, mas ele procurou muitas invenções" (Ec 7.29). Deus então o "dispõe", isto é, encaminha a sua impiedade para o dia do acerto.
3. Se o texto ensinasse criação para a perdição, contradiria Ezequiel 18.23 e 33.11 e 2 Pedro 3.9, onde Deus declara não ter prazer na morte do ímpio. O claro ilumina o obscuro.
Wesley (Notas, Pv 16.4): "Fez: ele ordena, ou dispõe. Para a sua própria glória. O ímpio: os pecadores voluntários e impenitentes. Os homens fazem-se ímpios a si mesmos, e por isso Deus os faz miseráveis."
Em síntese. Deus dispõe de todos, inclusive do ímpio; não fabrica o ímpio para dispor dele.
Para o púlpito. Ninguém nasce para o dia da calamidade; caminha-se para ele. E, enquanto há dia, há volta (Ez 33.11).
Atos 2.23 e 4.27-28 · O Calvário foi predeterminado
Texto (NAA): "A este, conforme o plano determinado e a presciência de Deus, vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus" (At 2.23). "Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, se juntaram contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram" (At 4.27-28).
A leitura calvinista. Se o maior crime da história foi decretado por Deus, todo pecado pode tê-lo sido. White pergunta a quem apela à presciência: "Onde aparece 'conhecer de antemão' no texto?" (Debating Calvinism, p. 57), esquecendo que aparece literalmente em Atos 2.23.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Ninguém entre nós nega que Deus predeterminou a cruz. A pergunta é sobre a base: "conforme o plano determinado e a presciência". Lucas junta as duas palavras. Deus planejou a cruz sabendo de antemão o que Caifás, Pilatos e a multidão fariam; não precisou fabricar neles a vontade de matar.
2. Deus havia frustrado outras tentativas de matar Jesus (Lc 4.29-30; Jo 8.59; 10.39). Em Jerusalém, apenas deixou de impedir. Quem já queria matá-lo cumpriu, por isso mesmo, o que Deus havia determinado permitir. Pedro os chama "homens maus": a maldade é deles.
3. Aqui entra a distinção, cara a Armínio e aos wesleyanos, entre vontade antecedente e vontade consequente. Antecedentemente, Deus queria que Israel recebesse o seu Rei (Lc 19.42). Consequentemente, diante da recusa, fez da recusa o instrumento da redenção. Os que o mataram pecaram contra o propósito de Deus para as suas vidas (Lc 7.30) e, por esse pecado, cumpriram o propósito maior.
4. A comparação com José (Gn 50.20) é exata: dois sujeitos, duas intenções, um só acontecimento.
Wesley (Notas, At 4.28): "O sentido é: mas nada puderam fazer além do que te aprouve permitir, segundo o teu determinado desígnio de salvar a humanidade pelos sofrimentos do teu Filho. E o que era necessário para este fim, tu de antemão determinaste permitir que se fizesse." E em At 2.23: Deus "sabia tudo o que aqueles maus pretendiam, e tinha poder para desbaratar num momento todos os seus desígnios. Mas não exerceu esse poder, porque amou o mundo de tal maneira".
Em síntese. A cruz foi determinada por Deus e executada por homens livres e culpados; Deus predeterminou permitir, não produzir, a maldade deles.
Para o púlpito. Se Deus fez da pior injustiça da história a fonte da nossa salvação, ele sabe o que fazer com as injustiças que ainda nos ferem.
Tiago 1.13-18 · Deus não tenta ninguém
Texto (NAA): "Ninguém, ao ser tentado, diga: 'Sou tentado por Deus.' Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo não tenta ninguém. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. [...] Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas."
A leitura calvinista. O texto não é usado a favor do calvinismo; é um dos que o calvinismo precisa neutralizar. A resposta usual é a das duas vontades: na vontade revelada, Deus não tenta; na vontade secreta, decreta a tentação por causas segundas.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Tiago traça a linha onde nós a traçamos: o mal nasce "da sua própria cobiça". A origem do pecado está na criatura, e nenhuma teoria de "causas segundas" pode devolvê-la ao Criador sem contradizer o texto.
2. O versículo 17 fecha a porta de um Deus de dupla vontade: no Pai das luzes "não pode existir variação ou sombra de mudança". Um Deus que revela uma vontade e executa outra teria sombra.
3. O versículo 18 é o oposto do decreto de reprovação: "segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade". O querer de Deus gera vida, e o instrumento é a palavra, isto é, o evangelho ouvido e crido (1Pe 1.23). A regeneração vem pela palavra recebida, não por um decreto anterior à palavra.
Wesley (Notas, Tg 1.14; 1.18): "Devemos, portanto, buscar a causa de cada pecado dentro, não fora de nós. Nem as injeções do diabo podem ferir antes que as façamos nossas." E sobre o v. 18: "Pela sua própria vontade: amantíssima, libérrima, puríssima; exatamente oposta ao nosso mau desejo. Ele nos gerou: a nós que cremos. Pela palavra da verdade: o evangelho."
Em síntese. Deus é a fonte de todo bem e de nenhum mal; a tentação nasce em nós, e a vida nova nasce da palavra crida.
Para o púlpito. Tiago tira do pecador a desculpa mais antiga ("Deus me fez assim") e lhe dá a esperança mais nova ("Deus quer gerá-lo pela palavra").
Efésios 1.11 · Faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade
Texto (NAA): "Em Cristo fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade."
A leitura calvinista. É o texto-prova do decreto exaustivo. White: "Deus é quem opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Debating Calvinism, p. 94-95), e Westminster III.1 o cita como prova de que Deus "ordenou tudo quanto acontece".
A leitura armínio-wesleyana.
1. A palavra traduzida por "conselho" é boulē. É a mesma que Lucas usa quando "os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o plano (boulē) de Deus" (Lc 7.30). Se boulē fosse decreto irresistível, essa frase não poderia ter sido escrita.
2. O verbo principal é "fomos feitos herança". O versículo fala de quem herda, do que herda e da firmeza da herança; não é um tratado sobre a mecânica do universo. "Todas as coisas" tem aqui o mesmo alcance de Efésios 1.10, a recapitulação de tudo em Cristo; é o plano redentor, e o plano redentor é executado com sabedoria e eficácia.
3. Há que distinguir escopo e modo. Dizer que Deus opera todas as coisas "conforme" o conselho da sua vontade afirma que tudo o que ele faz é sábio, propositado e fiel. Não afirma que tudo o que acontece é o que ele quis. Uma mãe "faz tudo conforme o seu plano" sem ser a causa de tudo o que acontece na casa.
4. Como se entra no "nele" do versículo 11? Paulo responde dois versículos adiante: "depois que ouviram a palavra da verdade, [...] tendo nele também crido, receberam o selo" (Ef 1.13). Ouviram, creram, foram selados.
Wesley (Notas, Ef 1.11): a herança é aquela "para a qual, quando cremos, fomos predestinados segundo o propósito daquele que opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade: o decreto inalterável, 'quem crer será salvo'; vontade que não é arbitrária, mas flui da retidão da sua natureza; de outro modo, que segurança haveria de que fosse a sua vontade guardar a sua palavra mesmo com os eleitos?"
Em síntese. O decreto de Efésios 1.11 é a regra fixa da salvação, não a lista dos salvos nem o roteiro de cada evento.
Para o púlpito. A segurança do crente não está em descobrir se o seu nome está numa lista secreta, mas em saber que a regra não muda: quem crer será salvo.
Parte B · A condição humana e a graça que vem antes
O coração do calvinismo não é a eleição; é a depravação total entendida como incapacidade total. Sproul foi franco: quem aceita "esse aspecto do T de TULIP", o resto "segue por lógica irresistível" (What is Reformed Theology?, p. 128). Concordamos com o diagnóstico da ruína e discordamos do remédio. Para o calvinista, o remédio é a regeneração unilateral de alguns. Para nós, é a graça preveniente oferecida a todos. Os textos desta parte decidem essa questão.
João 1.9; João 16.8-11; Romanos 2.4; Atos 17.26-27 · A graça que vem antes
Texto (NAA): "A verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade" (Jo 1.9). "Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo" (Jo 16.8). "A bondade de Deus é que leva você ao arrependimento" (Rm 2.4). "Para buscarem Deus se, porventura, tateando, o possam achar, ainda que não esteja longe de cada um de nós" (At 17.27).
A leitura calvinista. O calvinismo distingue "graça comum", dada a todos sem intenção salvadora, e "graça eficaz", dada só aos eleitos. A luz de João 1.9 seria a luz da razão; a convicção de João 16.8, uma obra que só frutifica nos eleitos; a bondade de Romanos 2.4, uma benevolência geral que não pretende salvar.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Estes quatro textos são a base bíblica da graça preveniente, e por isso merecem ser lidos juntos. Eles mostram uma ação de Deus sobre todos, anterior à conversão, com intenção declarada de conduzir à fé. João 1.9 diz que a Luz ilumina "toda a humanidade". João 16.8 diz que o Espírito convence "o mundo". Romanos 2.4 diz que a bondade de Deus "leva ao arrependimento". Atos 17.27 diz que Deus dispôs a história das nações "para buscarem Deus", e que ele "não está longe de cada um de nós".
2. Nenhum desses textos fala de uma graça que não pretende salvar. Romanos 2.4 é explícito: a bondade é dada para levar ao arrependimento, e quem não se arrepende "despreza" essa bondade (Rm 2.4-5). Só se despreza o que foi de fato oferecido.
3. Wesley lê João 1.9 como a luz que, se o homem não a impedisse, "brilharia mais e mais até o dia perfeito". A graça preveniente é progressiva: quem responde à luz recebe mais luz (Mt 13.12), quem a resiste se endurece. Isso explica por que alguns, como Cornélio e Lídia, já "temiam a Deus" antes de ouvir o evangelho: estavam respondendo à graça que já agia neles.
4. A distinção calvinista entre graça comum e graça eficaz não está nestes textos; é trazida para explicar por que, se Deus age em todos, nem todos creem. A resposta bíblica é mais simples: "vocês sempre resistem ao Espírito Santo" (At 7.51). A graça que convence o mundo pode ser resistida pelo mundo.
5. Aqui está a diferença entre a nossa resposta e a dos provisionistas: não dizemos que o homem pode responder por natureza; dizemos que a Luz que ilumina a todos, o Espírito que convence a todos, a bondade que conduz a todos e o Deus que não está longe de ninguém tornam todos capazes de responder. A capacidade é graça.
Wesley (Notas, Jo 1.9; Jo 16.8; Rm 2.4; At 17.27): "Ilumina todo homem, pelo que vulgarmente se chama consciência natural, apontando ao menos as linhas gerais do bem e do mal. E esta luz, se o homem não a impedisse, brilharia mais e mais até o dia perfeito." "Convencerá todos os do mundo que não resistirem obstinadamente." "A bondade de Deus é designada por Deus para te conduzir ou encorajar ao arrependimento." "Se porventura: o caminho está aberto; Deus está pronto a ser achado. Mas ele não imporá força alguma ao homem."
Em síntese. Deus ilumina, convence, conduz e se aproxima de todos; essa é a graça que vem antes, real em todos e resistível por todos.
Para o púlpito. Ninguém que ouve o seu sermão está sem graça. A pergunta não é se Deus já agiu naquela pessoa, mas se ela vai continuar resistindo.
Romanos 3.10-12 · Não há quem busque a Deus
Texto (NAA): "Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer."
A leitura calvinista. Se ninguém busca a Deus e crer é um bem, ninguém pode crer sem regeneração prévia. Sproul: "A pessoa não regenerada precisa ser regenerada antes de ter qualquer desejo por Deus" (What is Reformed Theology?, p. 136).
A leitura armínio-wesleyana.
1. Concordamos com a primeira metade: deixado a si mesmo, o ser humano caído não busca a Deus. Wesley não era otimista quanto à natureza; o seu sermão sobre o pecado original é tão duro quanto qualquer página de Calvino. A diferença é que nenhum ser humano está "deixado a si mesmo". "A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos" (Tt 2.11). Paulo descreve o que Deus vê quando olha do céu para o homem sem a graça, não o que a graça faz dele.
2. O mesmo Paulo diz que Deus "não está longe de cada um de nós", e que as nações foram dispostas "para que busquem a Deus, se porventura, tateando, o possam achar" (At 17.27). O Deus que ninguém busca é o Deus que busca a todos e se deixa achar.
3. O propósito do Salmo 14 em Romanos 3 não é fundar a graça irresistível, e sim fechar toda boca e abrir o caminho da justificação pela fé (Rm 3.19-28). A conclusão de Paulo é "somos justificados pela fé" (v. 28), não "somos regenerados antes da fé".
4. Aqui corrigimos Coords: ele responde ao calvinismo dizendo que o pecador "pode confessar e responder". Nós dizemos que o pecador pode responder porque a graça já foi à frente dele. A resposta contra a irresistibilidade não precisa negar a incapacidade natural; precisa afirmar a graça universal.
Wesley (Notas, Rm 3.10-12): Davi e Isaías "expressam que espécie de homens Deus vê quando olha do céu, não o que ele os faz pela sua graça". "Tornaram-se inúteis: impotentes, incapazes de aproveitar a si mesmos ou aos outros."
Em síntese. Ninguém busca a Deus por natureza; todos podem buscá-lo pela graça que se manifestou a todos.
Para o púlpito. Quando alguém diz "eu busquei a Deus", a resposta wesleyana é: "você respondeu a um Deus que o buscou primeiro". Isso mantém a humildade sem negar a responsabilidade.
Romanos 8.7-8 · A inclinação da carne não pode sujeitar-se
Texto (NAA): "Porque a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus."
A leitura calvinista. Calvino: o coração está "tão inchado de dureza e obstinação invencível que nunca é movido naturalmente a submeter-se ao jugo de Deus"; daí a necessidade de regeneração antes da fé.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto fala da "inclinação da carne" (phronēma tēs sarkos), isto é, da mentalidade de quem vive sob o domínio da carne. Diz que essa mentalidade não se submete nem pode submeter-se. É verdade, e Wesley a afirma: quem está sob o governo da carne não agrada a Deus.
2. O que o texto não diz é que o Espírito só age depois de regenerar. O mesmo capítulo mostra o Espírito convencendo (Jo 16.8), libertando (Rm 8.2), e o capítulo anterior mostra o homem sob a lei despertado para o seu desespero (Rm 7.24). A graça preveniente é exatamente a ação do Espírito sobre quem ainda está na carne, para tirá-lo dali.
3. "Não pode" descreve o estado, não decreta a permanência nele. O paralítico não podia andar, e Jesus lhe disse: "Levante-se" (Jo 5.8). A ordem trazia o poder. Assim é o evangelho: ordena crer e, na ordem, capacita.
4. Há aqui também um argumento moral, que Wesley e Fletcher usaram sem cessar: Deus não ordena o impossível. "Este mandamento não é demasiadamente difícil, nem está longe de vocês" (Dt 30.11); "escolham, pois, a vida" (Dt 30.19). O calvinismo responde com a distinção entre incapacidade "natural" (que desculparia) e "moral" (que não desculpa). Mas uma incapacidade herdada, da qual ninguém pode sair sem um decreto que a maioria não recebe, é, para todos os efeitos, natural. Fletcher perguntava: que justiça há em condenar alguém por não fazer o que só um decreto negado lhe permitiria fazer? A resposta wesleyana desfaz o dilema: a incapacidade é real, e a graça preveniente, dada a todos, a remove o bastante para que a ordem seja justa.
Wesley (Notas, Rm 8.7-8): "Inimizade contra Deus: contra a sua existência, o seu poder e a sua providência." "Os que estão na carne: sob o governo dela."
Em síntese. Quem está sob a carne não pode agradar a Deus; a graça do Espírito é oferecida precisamente para que saia da carne.
Para o púlpito. Não se prega a incapacidade para desanimar, mas para que ninguém confie em si mesmo e todos recorram ao Espírito.
Deuteronômio 30.11-19 e Josué 24.15 · Escolham a vida
Texto (NAA): "Porque este mandamento que hoje lhes ordeno não é demasiadamente difícil, nem está longe de vocês. [...] Pois esta palavra está bem perto de vocês, na sua boca e no seu coração, para que vocês a cumpram" (Dt 30.11, 14). "Hoje tomo o céu e a terra por testemunhas contra vocês, que lhes propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolham, pois, a vida, para que vivam, vocês e os seus descendentes" (Dt 30.19). "Escolham hoje a quem vão servir. [...] Eu e a minha casa serviremos o Senhor" (Js 24.15).
A leitura calvinista. As ordens de escolher mostrariam apenas o dever, não a capacidade: Deus ordena o que o homem caído não pode fazer, para expor a sua incapacidade e levá-lo à graça. A escolha real seria dos regenerados.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Deuteronômio 30 não diz que o mandamento é impossível; diz o contrário: "não é demasiadamente difícil, nem está longe", "está bem perto de vocês". E Paulo cita exatamente este texto para descrever a justiça que vem pela fé (Rm 10.6-8): a palavra está perto, na boca e no coração, e quem a confessa e crê é salvo. O texto que o calvinismo usa para provar a incapacidade é o texto que Paulo usa para provar a acessibilidade do evangelho.
2. "Escolham a vida" é um mandamento real, dirigido a um povo real, com testemunhas convocadas. Ordenar uma escolha a quem não pode escolher não é pedagogia; é zombaria. Josué faz o mesmo: "escolham hoje". E declara a própria escolha como exemplo, não como exceção de eleito.
3. A escolha não é mérito. Escolher a vida é receber o que Deus oferece. O pecador não cria a vida nem a merece; apenas deixa de recusá-la. Wesley: "terão vida os que a escolherem; os que ficam aquém só a si mesmos devem culpar; morrem porque querem morrer".
4. O princípio que percorre a Escritura é o de Deuteronômio 30: Deus põe diante do homem duas portas e o convida, com insistência, a entrar pela da vida (Jr 21.8; Ez 18.31-32; Mt 7.13-14). Toda essa linguagem pressupõe que a graça tornou a escolha possível.
Wesley (Notas, Dt 30.11, 19): "Embora a prática das leis de Deus esteja longe de nós e acima das nossas forças, considerando a vantagem da graça do evangelho, pela qual Deus nos capacita a cumprir o nosso dever, ela é próxima e fácil para nós, os que cremos." "Escolhe a vida: terão vida os que a escolherem; os que escolhem o favor de Deus e a comunhão com ele terão o que escolheram. Os que ficam aquém da vida e da felicidade só a si mesmos devem culpar: tê-las-iam tido, se as tivessem escolhido quando lhes foram postas diante da escolha; mas morrem porque querem morrer."
Em síntese. Deus ordena escolher porque a sua graça tornou a escolha possível; quem morre, morre porque quis.
Para o púlpito. "Escolham hoje" continua sendo a forma bíblica do apelo. Pregue-o sem medo de estar contrariando a soberania de Deus: foi Deus quem o escreveu.
Efésios 2.1-10 · Mortos em transgressões, salvos pela graça mediante a fé
Texto (NAA): "Ele lhes deu vida, quando vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados [...]. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça vocês são salvos [...]. Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras."
A leitura calvinista. Mortos não respondem; logo Deus regenera antes da fé, e a própria fé é o dom. White: "Se os homens estão mortos em pecado, precisam ter a vida espiritual restaurada antes de poderem fazer coisas espiritualmente boas" (The Potter's Freedom, p. 105). Sproul: "A fé não é algo que produzimos; é resultado da obra soberana de regeneração" (What is Reformed Theology?, p. 156).
A leitura armínio-wesleyana.
1. A morte espiritual é real, e Wesley a toma ao pé da letra: "não somente enfermos, mas mortos; absolutamente vazios de toda vida espiritual, e tão incapazes de vos vivificar a vós mesmos quanto os literalmente mortos" (Notas, Ef 2.1). Não suavizamos isso. Aqui nos afastamos de Coords, que reduz a morte a "separação consciente" para afirmar que o morto "pode mudar de ideia e crer". A nossa resposta é outra: o morto não se vivifica, mas o Deus que dá vida fala com ele antes de ele viver, como Jesus falou com Lázaro.
2. A própria Escritura descreve a morte espiritual com pessoas vivas e ativas: o filho pródigo "estava morto e reviveu" (Lc 15.24), a viúva que vive nos prazeres "está morta, embora viva" (1Tm 5.6). Os mortos de Efésios 2 "andavam segundo o curso deste mundo" (v. 2). A morte é separação e impotência para a salvação, não inconsciência de cadáver. Por isso o evangelho se dirige aos mortos: "Desperte, ó você que dorme, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará" (Ef 5.14).
3. A ordem do texto é a nossa: "pela graça [...] mediante a fé". A fé é o meio pelo qual a graça salva; Colossenses 2.12 diz que fomos ressuscitados com Cristo "por meio da fé". Se a ressurreição espiritual viesse antes da fé, Paulo teria escrito o contrário.
4. "Isto não vem de vocês, é dom de Deus": o pronome "isto" é neutro no grego, enquanto "fé" é feminino. O dom é a salvação inteira pela graça mediante a fé, como Wesley lê: "o serdes salvos mediante a fé é dom de Deus". Não negamos que a fé seja dom; negamos que seja um dom infundido à revelia da pessoa. É dom como o pão é dom: dado de graça, recebido com a mão.
5. O versículo 9 exclui a jactância pelas obras; a fé não é obra, é a recusa de toda obra (Rm 4.5). Quem recebe um presente não se gaba de tê-lo recebido.
6. E o argumento de Lázaro, tão usado pelos calvinistas, se volta contra eles: Lázaro ouviu a voz de Jesus antes de sair do túmulo. Jesus mesmo explicou a ordem: "vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão" (Jo 5.25). Os mortos ouvem, e os que ouvem vivem. O ouvir precede o viver. É a graça preveniente na boca do próprio Jesus.
Wesley (Notas, Ef 2.8): "A graça, sem consideração alguma ao merecimento humano, confere o dom glorioso. A fé, de mão vazia e sem pretensão alguma a mérito pessoal, recebe a bênção celestial."
Em síntese. Estávamos mortos; Deus nos deu vida pela graça, e a graça opera mediante a fé, não antes dela.
Para o púlpito. A graça é a mão cheia de Deus; a fé é a mão vazia do pecador. Ninguém se gloria de ter a mão vazia.
João 5.25 · Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus
Texto (NAA): "Em verdade, em verdade lhes digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão."
A leitura calvinista. O versículo seria uma descrição da regeneração monergista: o morto não faz nada; a voz de Cristo o vivifica, como vivificou Lázaro, e só então ele responde.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Jesus estabelece uma sequência: os mortos "ouvirão", e "os que a ouvirem viverão". Há um ouvir dos mortos que precede o viver. Se a morte espiritual fosse inconsciência total, os mortos não ouviriam coisa alguma; mas Jesus diz que ouvem. O ouvir é o efeito da graça preveniente: a voz do Filho alcança o morto e o torna capaz de ouvir.
2. E nem todos os que ouvem vivem: "os que a ouvirem viverão" supõe um ouvir que acolhe, distinto do ouvir que rejeita (Jo 5.24: "quem ouve a minha palavra e crê"; Jo 8.43, 47). A voz chega a todos; vive quem a recebe.
3. O paralelo com Lázaro (Jo 11.43-44) confirma a ordem: a voz veio de fora, Lázaro ouviu, e saiu. Nenhum calvinista dirá que Lázaro se ressuscitou a si mesmo; nenhum arminiano diz isso do pecador. O que dizemos é que a voz de Cristo, pelo evangelho, é dirigida a todos os mortos, e que os que a ouvem com fé vivem (Ef 5.14).
4. O versículo seguinte amplia o quadro para a ressurreição final (Jo 5.28-29), em que "todos os que estão nos túmulos ouvirão a sua voz". Lá todos ouvem, e o resultado depende do que fizeram. Aqui também todos podem ouvir, e o resultado depende de crer.
Wesley (Notas, Jo 5.25): "Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus: assim ouviram a filha de Jairo, o filho da viúva, Lázaro."
Em síntese. A voz do Filho alcança os mortos antes que vivam; vivem os que a ouvem com fé.
Para o púlpito. Pregar é emprestar a voz ao Filho de Deus. Os mortos ouvem; por isso pregue aos mortos.
1 Coríntios 2.14 · A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito
Texto (NAA): "Ora, a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."
A leitura calvinista. White: "Há uma incapacidade fundamental no homem natural. Ele não pode, não apenas não quer, entendê-las." Daí a necessidade de regeneração para crer.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O "natural" (psychikos) é quem tem apenas a alma, sem o Espírito. Que ele não discerne as profundezas de Deus por si mesmo, concordamos. Mas o texto não diz que o Espírito só opera depois de regenerar; diz que as coisas de Deus "se discernem espiritualmente", isto é, com o auxílio do Espírito. A pergunta é se esse auxílio é dado a todos ou só a alguns. Jesus responde: o Espírito "convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo" (Jo 16.8). O mundo, não os eleitos.
2. O contexto de Paulo é o contraste entre a sabedoria humana de Corinto e a palavra da cruz (1Co 1.18-2.5). Os "naturais" são os que julgam o evangelho pelo critério da retórica e da filosofia. Coords observa que Paulo, no capítulo seguinte, chama os próprios coríntios de "carnais" e "crianças em Cristo" (1Co 3.1-3): o contraste principal é entre o sábio deste mundo e o que é ensinado pelo Espírito, não entre eleitos e réprobos.
3. A graça preveniente é justamente a obra do Espírito sobre a pessoa natural, abrindo-lhe o entendimento (Lc 24.45; At 16.14) para que possa receber o que, sozinha, chamaria de loucura.
Wesley (Notas, 1Co 2.14): "Como não tem a vontade, também não tem o poder. Porque se discernem espiritualmente: só podem ser discernidas com o auxílio daquele Espírito e por aqueles sentidos espirituais que ele não tem."
Em síntese. Sem o Espírito ninguém discerne; e o Espírito foi enviado para convencer o mundo.
Para o púlpito. Por isso pregamos orando: o pregador entrega a palavra, o Espírito abre o ouvido.
2 Coríntios 4.4 · O deus deste mundo cegou o entendimento
Texto (NAA): "Nos quais o deus deste mundo cegou o entendimento dos descrentes, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus."
A leitura calvinista. O homem nasce cego; só a iluminação interior e irresistível do Espírito o torna capaz de ver. Lutzer desafia: se Deus quer salvar a todos, por que permite que Satanás cegue?
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto atribui a cegueira ao diabo, não ao decreto de Deus nem apenas à herança de Adão. Coords tem razão: se todos já nascessem totalmente cegos, a cegueira imposta por Satanás seria redundante. O diabo trabalha sobre pessoas que poderiam ver, para que não vejam.
2. O remédio está no capítulo anterior: "quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado" (2Co 3.16). A ordem é conversão e depois remoção do véu. E Paulo continua: "Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nossos corações" (2Co 4.6). A luz do evangelho é oferecida; o diabo tenta impedir; Deus brilha em quem se volta.
3. A permissão dada a Satanás não contradiz a vontade salvífica de Deus, como a permissão dada à serpente no Éden não a contradisse. Deus permite a liberdade real das criaturas, inclusive das caídas, e vence sem coagir.
Wesley (Notas, 2Co 4.4): "Ele é de fato o deus de todos os que não creem, e opera neles com energia inconcebível. Cegou, não somente velou, o olho do seu entendimento."
Em síntese. A cegueira é obra do inimigo sobre quem poderia ver; a luz é obra de Deus sobre quem se volta para ele.
Para o púlpito. Por trás de cada recusa do evangelho há uma batalha, não um decreto. Por isso oramos pelos que não creem.
João 1.12-13 · Nascidos de Deus, aos que creem
Texto (NAA): "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus."
A leitura calvinista. Calvino: "a fé não é produzida por nós, mas é fruto do novo nascimento espiritual" (Comentário a João, sobre 1.13). Nascer de Deus viria antes de crer.
A leitura armínio-wesleyana.
1. A ordem gramatical de João é clara: receberam, creram, e "a esses" foi dado o poder de se tornarem filhos. O versículo 13 descreve a natureza desse tornar-se filho (um nascimento de Deus, e não de sangue ou de vontade humana), não a sua anterioridade à fé. "Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus" (Gl 3.26).
2. "Nem da vontade do homem" exclui que alguém se faça filho de Deus por decisão humana, por descendência ou por adoção humana. Não exclui que a fé seja a condição; ao contrário, o versículo 12 a põe.
3. Ninguém se gera a si mesmo; nisso o calvinismo está certo. Mas Tiago 1.18 diz como Deus gera: "pela palavra da verdade". A palavra é ouvida e crida; a geração é de Deus. A graça preveniente conduz até o crer; a regeneração é o dom que Deus concede a quem crê.
Wesley (Notas, Jo 1.12-13): "Aos que creem no seu nome: isto é, nele; no momento em que creem, são filhos; e, porque são filhos, Deus envia aos seus corações o Espírito do seu Filho, que clama: Aba, Pai." "Mas de Deus: pelo seu Espírito."
Em síntese. Nasce de Deus quem crê; a fé não é fruto do novo nascimento, é a porta dele.
Para o púlpito. O novo nascimento é a resposta de Deus à fé, não a causa secreta dela. Por isso Jesus disse a Nicodemos "é necessário nascer de novo" e, logo depois, "para que todo o que nele crê tenha a vida eterna" (Jo 3.7, 16).
João 5.40 · Vocês não querem vir a mim
Texto (NAA): "Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida."
A leitura calvinista. "Não querem" seria apenas a face visível do "não podem": a vontade caída nunca quer, até que a regeneração a refaça. Sproul: o novo nascimento "vivifica alguém para a vida espiritual de tal modo que Jesus passa a ser visto em sua doçura irresistível" (Chosen by God, p. 123).
A leitura armínio-wesleyana.
1. Jesus diz "não querem", e fala a homens que examinavam as Escrituras e buscavam a vida eterna (v. 39). A censura só faz sentido moral se eles podiam ter vindo. Repreender alguém por não fazer o que Deus decretou que jamais poderia fazer seria vazio.
2. Repare na ordem: vir "para ter vida". A vida é consequência de vir, não pré-requisito. João mantém essa ordem do começo ao fim do Evangelho: "para que, crendo, tenham vida em seu nome" (Jo 20.31). O calvinismo precisa de uma "vida" regeneradora anterior à fé e de outra "vida eterna" posterior a ela; o texto conhece uma só.
3. Por que esses homens não queriam? Porque não tinham ouvido de verdade o Pai nas Escrituras que tanto estudavam (Jo 5.37-38, 46). A graça estava à porta deles em Moisés e nos profetas; eles a resistiram. Esta é a chave para João 6.
Wesley (Notas, Jo 5.40): "Contudo, vocês não querem vir a mim, como elas [as Escrituras] os orientam."
Em síntese. A recusa é da vontade, e a vida se recebe vindo, não antes de vir.
Para o púlpito. Há pessoas que estudam a Bíblia e não vêm a Cristo. O problema não é de informação, é de vontade; e a graça insiste.
João 6.37-45 e 6.65 · Ninguém pode vir se o Pai não o trouxer
Texto (NAA): "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (v. 37). "De fato, a vontade de meu Pai é que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna" (v. 40). "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: 'E todos serão ensinados por Deus.' Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim" (vv. 44-45). "Por causa disto é que falei para vocês que ninguém poderá vir a mim, se não lhe for concedido pelo Pai" (v. 65).
A leitura calvinista. É o texto-prova da graça irresistível. Calvino: "nem todos são atraídos, mas Deus concede essa graça àqueles que elegeu" (Comentário a João, 6.44); "a graça pela qual são atraídos é eficaz, de modo que creem necessariamente" (6.45). White: "A atração do Pai é limitada aos eleitos" (Debating Calvinism, p. 294-295). Para eles, atrair é regenerar, e o "todos" do v. 45 são só os eleitos.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Levamos o "ninguém pode" a sério. Ninguém, deixado a si mesmo, vem a Cristo. A vinda depende de Deus ir à frente. Aqui nos separamos de Coords e dos provisionistas, que leem o "não pode" como "não lhe é permitido" e tratam a atração como mera pregação dirigida a quem já era fiel. Wesley não concede isso: mesmo nos judeus fiéis, o ouvir e aprender do Pai já era graça.
2. Mas a atração capacita sem coagir. O verbo é helkō, que a própria NAA traduz por "atrairei" em João 12.32, onde o alcance é "todos". Se atrair fosse arrastar irresistivelmente, João 12.32 provaria o universalismo, que nem calvinistas nem arminianos aceitam. Logo, atrair é mover, cortejar, capacitar; e quem é movido pode ainda dizer não.
3. Jesus mesmo define quem vem: "todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai" (v. 45). A citação é de Isaías 54.13, "todos serão ensinados por Deus". Deus ensina a todos; vem ao Filho quem ouve e aprende. Calvino precisou escrever que "o 'todos' deve ser limitado aos eleitos"; o texto não limita.
4. O contexto de João 5 e 6 é Israel, antes da cruz. Os que "criam em Moisés" (Jo 5.46), os que tinham ouvido o Pai nos profetas, eram dados e atraídos ao Filho; os que não ouviram Moisés tropeçaram no Filho. A "razão" de João 6.65 está no versículo anterior: "há descrentes entre vocês" (v. 64). Aqui Coords ajuda muito: os "dados" de João 6.37-39 e 17 são, em primeiro lugar, os discípulos daquele círculo (Jo 18.9; 17.12), e nós somos "os que vierem a crer por meio da palavra deles" (Jo 17.20).
5. Há duas atrações no Evangelho de João: a do Pai, antes da cruz, recolhendo as ovelhas fiéis de Israel para o Messias (Jo 6.44; 3.30), e a do Filho, depois da cruz, universal (Jo 12.32). Uma graça resistível acomoda as duas; a graça irresistível torna a segunda supérflua.
6. A vontade declarada do Pai está em voz alta no versículo 40: "que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna". Não há número secreto; há uma condição pública, a fé.
7. A ordem é a de todo o Evangelho: crer para ter vida (Jo 20.31). A palavra "regeneração" não aparece em João 6; o calvinismo a importa e a instala no centro do capítulo.
8. Contra a irresistibilidade, o próprio capítulo: "muitos dos seus discípulos voltaram atrás" (v. 66). E o próprio Calvino, comentando João 6.29, recusou que "a obra de Deus é esta: que creiam" fosse uma fé infundida mecanicamente; entendeu que Jesus fala do que Deus requer de nós.
Wesley (Notas, Jo 6.44): "Ninguém pode crer em Cristo, a menos que Deus lhe dê poder. Ele nos atrai primeiro, por bons desejos; não por compulsão, não pondo a vontade sob necessidade alguma, mas pelas moções fortes e doces, embora ainda resistíveis, da sua graça celestial." E sobre o v. 37: "todos os que se sentem perdidos e seguem os atrativos do Pai, ele os dá de maneira peculiar ao Filho; virá a mim, pela fé". Sobre o v. 65: "é dado somente àqueles que o recebem nos próprios termos de Deus".
Em síntese. A graça vai à frente e é indispensável; ela atrai a todos desde a cruz, capacita de fato e ainda pode ser resistida.
Para o púlpito. Ao irmão calvinista, diga primeiro: "sem a atração do Pai ninguém vem; nisso estamos juntos". Depois leia com ele o versículo seguinte, e João 12.32. A conversa muda de tom quando se admite o que há de verdadeiro no outro lado.
João 12.32 · Atrairei todos a mim
Texto (NAA): "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim."
A leitura calvinista. "Todos" seria "todos os tipos de pessoas", os eleitos de toda nação, para não contradizer a atração particular de João 6.44.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O mesmo verbo de João 6.44. A NAA o traduz aqui por "atrairei", e nisso está certa. Se a atração de João 6 é irresistível e salvadora, a de João 12, dirigida a todos, salvaria a todos. O calvinista é obrigado a encolher o "todos"; nós deixamos a palavra significar o que diz.
2. O contexto é a chegada dos gregos que queriam ver Jesus (Jo 12.20-22). A resposta de Jesus é a cruz: levantado, atrairá judeus e gregos. O "todos" é a abertura às nações, sem exclusão de ninguém dentro das nações.
3. A atração pós-cruz é a graça preveniente em escala mundial, pela pregação do evangelho (Mc 16.15; Rm 10.17). Ela alcança todos os que ouvem, e "os que seguem as suas atrações", diz Wesley, Satanás não poderá reter.
Wesley (Notas, Jo 12.32): "Atrairei todos a mim: gentios tanto quanto judeus. E aos que seguem as minhas atrações, Satanás não poderá retê-los."
Em síntese. Desde a cruz, a atração é universal; e atração que pode ser "seguida" é atração que pode ser recusada.
Para o púlpito. Estamos vivendo em João 12.32. Não há ouvinte a quem a cruz não esteja atraindo neste momento.
Mateus 11.25-27 · Escondeste dos sábios, revelaste aos pequeninos
Texto (NAA): "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar."
A leitura calvinista. Deus revela a quem quer e esconde de quem quer, segundo o seu beneplácito, sem condição do lado humano.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto nomeia a condição: sábios e instruídos de um lado, pequeninos do outro. O critério não é eleito e não eleito; é orgulhoso e humilde. Deus "resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tg 4.6). A humildade não é mérito que compra a revelação; é a postura que não a recusa.
2. O versículo seguinte escancara a porta: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados" (v. 28). O mesmo Jesus que louva o Pai por esconder dos sábios convida a todos. A revelação não é arbitrária; é oferecida a quem vem.
3. O esconder dos sábios é o que a tradição chama endurecimento judicial: Deus oculta de quem, tendo luz, a desprezou (Mt 11.20-24, imediatamente antes).
Wesley (Notas, Mt 11.25): "Porque ocultaste: isto é, porque permitiste que estas coisas ficassem ocultas a homens que, sob outros aspectos, são sábios e prudentes, enquanto as revelaste aos de entendimento mais fraco, aos que são sábios somente para com Deus."
Em síntese. Deus esconde dos que se fecham e revela aos que se abrem; e convida a todos a vir.
Para o púlpito. A maior barreira ao evangelho não é a ignorância, é a autossuficiência.
Tito 2.11 · A graça que traz salvação a todos
Texto (NAA): "Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos."
A leitura calvinista. Sendo a graça salvadora eficaz por natureza, "todos" teria de ser "todos os eleitos", sob pena de universalismo.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O argumento calvinista pressupõe o que quer provar: que a graça salvadora é irresistível. Retirada a premissa, o "todos" fica em paz. A graça se manifestou a todos, trazendo salvação a todos, e "nos ensina" a renunciar à impiedade (v. 12). Ensino se recebe ou se recusa.
2. Este é um dos textos fundadores da doutrina da graça preveniente. Wesley o lia junto com João 1.9 ("a luz que ilumina a todo homem") e Romanos 2.4 ("a bondade de Deus o conduz ao arrependimento"). A graça é universal em oferta e condicional em fruto.
3. 1 Timóteo 4.10 dá a chave: Deus é "Salvador de todos, especialmente dos que creem". O "especialmente" só faz sentido se "todos" é mais amplo que "os que creem".
Wesley (Notas, Tt 2.11): "A graça salvadora de Deus: tal é ela na sua natureza, tendência e desígnio. Se manifestou a todos os homens: grandes e pequenos."
Em síntese. A graça que salva foi manifestada a todos; salva, de fato, os que a recebem.
Para o púlpito. Ninguém na sua congregação está fora do alcance da graça que "se manifestou a todos". Pregue como quem crê nisso.
Filipenses 2.12-13 · Deus efetua o querer e o realizar
Texto (NAA): "Desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade."
A leitura calvinista. Piper: o querer humano "não é, em última instância, criação minha; é o governo decisivo de Deus". O texto serviria ao monergismo e ao determinismo.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Paulo escreve a crentes e une, na mesma frase, a exortação ("desenvolvam") e o fundamento ("porque Deus efetua"). Se o operar de Deus dispensasse o nosso, o imperativo seria um teatro. O operar divino não substitui o esforço humano; o encoraja.
2. Esta é a forma mais pura da sinergia wesleyana, que não é cooperação de iguais: Deus dá o querer e o realizar; nós queremos e realizamos com o que ele dá. Wesley chamou a isso "trabalhar juntamente com Deus" (sermão Sobre Operar a Própria Salvação), e ensinou que a graça preveniente é exatamente esse "querer" inicial que Deus efetua em todos.
3. O texto não trata da conversão de incrédulos, e sim da santificação de crentes; não pode servir de prova de regeneração antes da fé. E, como fala de Deus operando em crentes, também não prova que Deus determine tudo em todos.
Wesley (Notas, Fp 2.13): "As suas influências não vêm substituir os nossos esforços, mas encorajá-los. Operai a vossa própria salvação: eis o nosso dever. Porque é Deus quem opera em vós: eis o nosso encorajamento."
Em síntese. Deus opera para que nós operemos; o dom não anula o dever, o funda.
Para o púlpito. O crente desanimado precisa ouvir o versículo 13; o crente acomodado precisa ouvir o 12. Paulo pregou os dois de uma vez.
Filipenses 1.29 e 2 Timóteo 2.25 · Foi concedido crer; Deus conceda arrependimento
Texto (NAA): "Porque vocês receberam a graça de sofrer por Cristo, e não somente de crer nele" (Fp 1.29). "Disciplinando com mansidão os que se opõem a ele, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem a verdade" (2Tm 2.25).
A leitura calvinista. Se a fé e o arrependimento são "concedidos", são dons infundidos irresistivelmente aos eleitos.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Conceder não é causar eficazmente. Em Filipenses, crer e sofrer são concedidos pelo mesmo verbo; ninguém dirá que o sofrimento é infundido à força. O que Deus concede é o privilégio e a possibilidade: a mensagem, a oportunidade, o Espírito que convence.
2. Atos diz que Deus "concedeu aos gentios o arrependimento" (At 11.18) ao abrir-lhes a porta do evangelho (At 14.27). É a linguagem da graça preveniente: Deus dá o arrependimento como dá o pão, e o arrependimento, uma vez dado, é do homem que se arrepende.
3. Em 2 Timóteo, a concessão do arrependimento vem ligada à mansidão de quem ensina e a uma expectativa ("na expectativa de que"), não a um decreto. Se Deus arrependesse os eleitos irresistivelmente, a mansidão de Timóteo seria indiferente ao resultado. Paulo pensa que o modo de tratar o opositor pesa.
4. Dizer que a fé é dom é nossa doutrina também. Wesley a chamou "o dom de Deus" em todos os seus sermões sobre a justificação. A diferença está no modo: dom oferecido e recebido, não dom imposto.
Wesley (Notas, Fp 1.29; 2Tm 2.25): "A vós foi concedido: como sinal especial do amor de Deus e de estardes no caminho da salvação." "Se porventura Deus, pois a obra é inteiramente dele, lhes der arrependimento."
Em síntese. Fé e arrependimento são dons de Deus, concedidos a quem os recebe, não implantados à revelia de quem os recebe.
Para o púlpito. Mansidão no ensino não é tática; é teologia. Quem crê que Deus concede arrependimento a quem ouve trata o ouvinte como alguém que pode ouvir.
Atos 16.14 · O Senhor abriu o coração de Lídia
Texto (NAA): "Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia."
A leitura calvinista. White: "Deus teve de retirar aquele coração de pedra e pôr em Lídia um coração de carne para que ela respondesse" (The Potter's Freedom, p. 289). Seria a regeneração antes da fé, vista ao vivo.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Este é um dos textos mais wesleyanos do Novo Testamento, e não deveríamos fugir dele: Deus abre o coração. Sim. A graça vai à frente. Nós o confessamos de bom grado, e não precisamos, como faz Coords, reduzir o "abrir" a Deus ter providenciado um bom pregador.
2. Mas note a quem Deus abriu o coração: a uma mulher "temente a Deus", que já estava no lugar de oração, "escutando". A abertura do coração não é a regeneração de uma inimiga de Deus; é a iluminação de quem já respondia à luz que tinha. Deus abre o coração "para que estivesse atenta": o efeito é atenção, e a atenção se converte em fé quando ela crê e é batizada (v. 15).
3. O calvinismo lê em "abriu o coração" a troca do coração de pedra de Ezequiel 36.26. Mas Ezequiel promete o coração novo a quem se converte e é purificado (Ez 36.25-27; 18.31: "façam para vocês um coração novo"). A promessa e o mandamento caminham juntos, como sempre na graça.
4. Wesley nota, com finura, que o verbo grego fala de abrir os olhos, e que "o coração tem os seus olhos" (Ef 1.18). A graça preveniente é isto: Deus abrindo olhos fechados por natureza, para que possam ver e, vendo, crer.
Wesley (Notas, At 16.14): "O Senhor lhe abriu o coração: a palavra grega refere-se propriamente ao abrir dos olhos; e o coração tem os seus olhos (Ef 1.18). Estes estão fechados por natureza, e abri-los é obra peculiar de Deus."
Em síntese. Deus abre o coração; Lídia, de coração aberto, crê. A graça é primeira, e a fé é dela.
Para o púlpito. Antes de cada sermão, ore por Lídias: Deus abre corações enquanto a palavra é pregada.
Atos 7.51 e Lucas 7.30 · Vocês sempre resistem ao Espírito; rejeitaram o plano de Deus
Texto (NAA): "Homens teimosos e incircuncisos de coração e de ouvidos, vocês sempre resistem ao Espírito Santo" (At 7.51). "Mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o plano de Deus, não tendo sido batizados por ele" (Lc 7.30).
A leitura calvinista. A resistência seria apenas à "graça comum" e à pregação externa; a graça salvadora dos eleitos, dada no tempo marcado, não é resistida.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Estêvão não diz que resistem a pregadores; diz que resistem "ao Espírito Santo". E "sempre", isto é, em cada geração em que Deus falou pelos profetas. A resistência é à ação do próprio Deus. Se toda resistência fosse apenas à "graça comum", o Espírito estaria trabalhando, geração após geração, sobre pessoas que Deus nunca quis salvar.
2. Lucas 7.30 usa a palavra boulē, "plano" ou "conselho" de Deus, a mesma de Efésios 1.11 e Atos 2.23. Os fariseus o "rejeitaram, quanto a si mesmos". Logo, o conselho de Deus quanto a uma pessoa pode ser rejeitado por ela. Isso é a definição bíblica de graça resistível.
3. Os dois textos mostram a graça preveniente em ação e em derrota: ela chega, convence, convida e pode ser recusada. A recusa não prova que a graça era fraca; prova que era graça, e não força.
Wesley (Notas, At 7.51; Lc 7.30): "Vocês, e os seus pais, sempre, todas as vezes que são chamados, resistem ao Espírito Santo." "Frustraram o conselho, o gracioso desígnio de Deus para com eles: malograram todos esses métodos do seu amor e não quiseram receber deles benefício algum."
Em síntese. O Espírito pode ser resistido e o plano de Deus para uma pessoa pode ser rejeitado por ela; a graça é forte e doce, mas não arromba a porta.
Para o púlpito. A doutrina da graça resistível não diminui Deus; ela leva a sério a tragédia real de dizer "não" a ele, e por isso prega com urgência.
Isaías 5.4; 65.2; Neemias 9.30; Provérbios 1.24-25; Zacarias 7.11-12 · A graça resistida no Antigo Testamento
Texto (NAA): "Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu não lhe tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas?" (Is 5.4). "Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde" (Is 65.2). "Tu os aturaste durante muitos anos e testemunhaste contra eles pelo teu Espírito, por meio dos teus profetas. Porém eles não quiseram ouvir" (Ne 9.30). "Porque clamei, e vocês se recusaram a ouvir; porque estendi a minha mão, e não houve quem atendesse" (Pv 1.24). "Fizeram o seu coração duro como diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos Exércitos tinha enviado pelo seu Espírito" (Zc 7.12).
A leitura calvinista. Esses textos descreveriam a "vontade revelada" de Deus e a resistência à pregação externa, sem tocar na graça eficaz, que é interna e não pode ser resistida.
A leitura armínio-wesleyana.
1. A pergunta de Isaías 5.4 é a mais embaraçosa para o determinismo: "que mais se podia fazer à minha vinha, que eu não lhe tenha feito?". Na resposta calvinista, havia algo mais a fazer: dar a graça irresistível. Mas Deus declara que fez tudo. Se fez tudo e a vinha não deu fruto, a graça dada era suficiente e foi resistida.
2. Neemias e Zacarias dizem que o que Israel resistiu foi o Espírito de Deus, "pelo teu Espírito, por meio dos teus profetas". Não é a pregação humana que é resistida; é o Espírito na pregação. Isso é exatamente o que Estêvão dirá em Atos 7.51.
3. Provérbios 1 fala de Deus que clama e estende a mão, e de quem se recusa. Wesley lê o "chamei" como "pelos meus ministros, pelos meus juízos e pelas moções do meu Espírito e da vossa própria consciência": a graça preveniente em todas as suas formas, e todas resistidas.
4. A linguagem de Deus em todos esses textos (esperar, estender as mãos o dia todo, aturar muitos anos, clamar) é a linguagem de quem quer de verdade e não consegue o que quer porque a criatura recusa. O calvinismo precisa chamar tudo isso de antropomorfismo; a leitura arminiana toma Deus pela palavra.
5. O endurecimento de Zacarias 7.12 é obra do próprio povo ("fizeram o seu coração duro") e vem antes da ira ("daí veio a grande ira"). É a ordem de Romanos 9: endurecimento humano primeiro, juízo divino depois.
Wesley (Notas, Is 65.2; Pv 1.24): "Estendi as mãos e empreguei todos os meios para trazê-los de volta. Estendi as mãos como orador fervoroso que procura persuadi-los e como benfeitor generoso que os cumula de benefícios. Fiz isso continuamente em todo o curso de minha providência para com eles." "Chamei: pelos meus ministros, pelos meus juízos e pelas moções do meu Espírito e da vossa própria consciência."
Em síntese. Deus fez tudo pela vinha, estendeu as mãos o dia inteiro e falou pelo seu Espírito; a recusa foi do povo. A graça resistível não é invenção arminiana; é a história de Israel.
Para o púlpito. Quando alguém pergunta "se Deus quisesse me salvar, não teria conseguido?", leia Isaías 5.4 com ele.
Parte C · Eleição e predestinação
A palavra "eleição" não é propriedade do calvinismo. Ela é nossa também, e Wesley a definiu com precisão: "Eleição, no sentido bíblico, é Deus fazer qualquer coisa em que nosso mérito ou nossa força não têm parte alguma" (Notas, 1Pe 1.2). O que recusamos não é a eleição, mas a eleição incondicional de indivíduos, separada de Cristo e da fé. Os textos abaixo são os que mais se usam para ela.
Efésios 1.3-6 · Escolhidos nele antes da fundação do mundo
Texto (NAA): "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo. Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou para ele, para sermos adotados como seus filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o propósito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado."
A leitura calvinista. O texto predileto da eleição incondicional. Calvino: "a eleição eterna é o fundamento e a primeira causa da nossa vocação"; "se somos escolhidos em Cristo, não é por nós mesmos". MacArthur: "Você é cristão porque ele o escolheu. Não tomo crédito nem sequer pela minha fé" (sermão de 1980). White: "Ele escolheu um povo, não um plano" (Debating Calvinism, p. 92).
A leitura armínio-wesleyana.
1. A frase começa no versículo 3 e fala de "todas as bênçãos espirituais [...] em Cristo". O versículo 4 é o primeiro exemplo dessas bênçãos, e os versículos 5 a 14 seguem a lista: adoção, redenção, revelação, herança, selo. Aqui Coords acerta em cheio: o capítulo descreve o que Deus predestinou para os que estão em Cristo, não quem seria posto em Cristo. "Antes da fundação do mundo" qualifica o conteúdo da escolha, não a lista dos escolhidos.
2. A expressão decisiva é "nele". Repete-se em quase todos os versículos: em Cristo (v. 3), nele (v. 4), por meio de Jesus Cristo (v. 5), no Amado (v. 6), nele (v. 7), em Cristo (vv. 9-10), em Cristo (v. 11), nele (v. 13). Cristo é o Eleito; a Igreja é eleita nele; cada pessoa participa da eleição pela união com Cristo mediante a fé. Para Armínio, Cristo não é o executor de um decreto anterior a ele; é o fundamento da eleição. Fora de Cristo não há eleição salvadora.
3. A eleição é corporativa na estrutura e individual na aplicação. Deus escolheu Cristo como Cabeça e, nele, a Igreja como seu povo, assim como escolheu Abraão e, nele, a sua descendência. Cada crente é eleito como membro do corpo eleito. Isso não é um grupo vazio: é gente de verdade, que entra pela fé (Abasciano, Witherington).
4. Para que fomos escolhidos? "Para sermos santos e irrepreensíveis" (v. 4), "para sermos adotados" (v. 5). A predestinação fixa o destino dos que estão em Cristo; não diz quem será posto em Cristo. Deus determinou que todo aquele que estiver unido ao Filho será santificado, adotado e glorificado.
5. Como se entra no "nele"? O capítulo responde: "depois que ouviram a palavra da verdade, [...] tendo nele também crido" (v. 13). Ouviram, creram, foram selados. Esta é a condição não meritória, estabelecida pelo próprio Deus "segundo o propósito de sua vontade" (v. 5). A soberania de Deus está em ter fixado livremente o Salvador, o caminho, a condição e o destino, não em sortear pessoas.
6. Wesley junta a este texto 1 Pedro 1.2 e lê a escolha "antes da fundação do mundo" como a escolha, pela presciência, dos que Deus sabia que creriam. Armínio dizia o mesmo. É a eleição condicional: eterna na decisão, gratuita na causa, condicionada à fé na aplicação.
7. Nada disso faz da fé um mérito. O pecador não produz fé por si; o Pai planeja, o Filho redime, o Espírito ilumina e convence, o evangelho chama, e o pecador, alcançado pela graça, pode responder. A fé é o meio pelo qual somos unidos ao Eleito, não a causa pela qual ele nos elegeu.
Wesley (Notas, Ef 1.4-5): "Assim como nos escolheu: tanto judeus quanto gentios, os quais ele de antemão conheceu como crentes em Cristo (1Pe 1.2)." "Tendo-nos predestinado para a adoção de filhos: tendo preordenado que todos os que depois cressem gozassem da dignidade de ser filhos de Deus e coerdeiros com Cristo. Segundo o beneplácito da sua vontade: segundo o seu propósito livre, fixo e inalterável de conferir esta bênção a todos os que cressem em Cristo, e somente a eles."
Em síntese. Deus não escolheu pecadores para estarem em Cristo à revelia da fé; escolheu eternamente salvar, adotar e santificar todos os que, pela graça, estiverem em Cristo pela fé.
Para o púlpito. A pergunta certa não é "fui escolhido em segredo?", mas "estou no Escolhido?". E a essa pergunta qualquer pessoa pode responder hoje.
Romanos 8.28-30 · Os que de antemão conheceu, predestinou
Texto (NAA): "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Pois aqueles que Deus de antemão conheceu ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou."
A leitura calvinista. A "corrente de ouro": "conheceu de antemão" seria "amou de antemão", e cada elo arrasta o seguinte sem perda, o que provaria a eleição incondicional e a perseverança garantida. White fala de "um pré-amor" (Debating Calvinism, p. 146).
A leitura armínio-wesleyana.
1. O objeto da presciência já está definido no versículo anterior: "daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v. 28). Os que Deus "de antemão conheceu" são os que amam a Deus. A corrente começa, portanto, numa relação, não num sorteio.
2. "Conheceu de antemão" (proginōskō) significa conhecer previamente. A única outra ocorrência em Romanos é 11.2, "o seu povo, que ele de antemão conheceu", e em 2 Pedro 3.17 é simplesmente "sabendo isto de antemão". Transformar conhecimento em amor eletivo é importar a doutrina para dentro da palavra. E Pedro põe a ordem às claras: "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai" (1Pe 1.2).
3. O que Deus predestina aqui? "Para serem conformes à imagem de seu Filho". Como em Efésios 1, a predestinação fixa o destino (a semelhança com Cristo, a glória), não a lista. Deus conhece de antemão os que crerão, e a esses predestina a glória.
4. Os elos são descritivos do método de Deus, não de um número fechado. Wesley observa que Paulo "não afirma que precisamente o mesmo número de homens é chamado, justificado e glorificado", e lembra Romanos 11.22: "desde que você permaneça". Muitos são chamados que não são justificados (Mt 22.14), e o justificado pode ser "cortado" se não permanecer.
5. Os verbos no passado ("glorificou") são a linguagem de quem olha da meta para a corrida: a certeza do plano, não a mecânica do decreto. Coords nota que Paulo pode ter em vista os santos já glorificados, como exemplo da fidelidade de Deus aos que ele conheceu.
6. O "propósito" do versículo 28 é, nas palavras de Wesley, "o seu gracioso desígnio de salvar um mundo perdido pela morte do seu Filho". Esse propósito é universal na intenção e se cumpre em "todos os que amam a Deus".
Wesley (Notas, Rm 8.29-30): "Aqui o apóstolo declara quem são aqueles que ele de antemão conheceu e predestinou para a glória: a saber, os que são conformes à imagem do seu Filho." "E aos que chamou, quando obedientes ao chamado celestial (At 26.19), também justificou. E aos que justificou, contanto que 'permanecessem na sua bondade' (Rm 11.22), a esses, no fim, glorificou. Paulo não afirma, nem aqui nem em parte alguma, que precisamente o mesmo número de homens é chamado, justificado e glorificado."
Em síntese. Deus predestina à glória os que de antemão conhece como crentes; a corrente descreve o caminho de Deus, não aprisiona quem nele anda.
Para o púlpito. Romanos 8.28-30 é texto de consolo, não de especulação: quem ama a Deus pode saber para onde vai, porque conhece o Deus que o conhece.
Romanos 11.5-7 · Remanescente segundo a eleição da graça
Texto (NAA): "Assim também nos dias de hoje sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. Que diremos, então? O que Israel buscava, isso não alcançou; mas a eleição conseguiu isso. Os demais foram endurecidos."
A leitura calvinista. O remanescente é eleito "pela graça, não pelas obras", logo incondicionalmente; "a eleição conseguiu" e "os demais foram endurecidos" seriam a eleição e a reprovação em ação.
A leitura armínio-wesleyana.
1. "Pela graça, não pelas obras" é a nossa confissão. O que Paulo exclui é a obra; a fé, nesta mesma carta, é o oposto da obra (Rm 4.4-5). "Eleição da graça" não é "eleição sem condição"; é eleição sem mérito. Wesley: "segundo aquele gracioso propósito de Deus: quem crer será salvo".
2. Quem é o remanescente? Paulo se dá como exemplo (11.1) e evoca os sete mil de Elias "que não dobraram os joelhos diante de Baal" (11.4). O remanescente é descrito pela sua fidelidade, não por um decreto. "A eleição conseguiu" o que Israel buscava "como que por obras" (9.32): a justiça que é pela fé.
3. "Os demais foram endurecidos": o mesmo Paulo explica, poucos versículos adiante, a causa e a duração. A causa: "foram quebrados por causa da incredulidade" (11.20). A duração: "em parte", "até que" (11.25), e reversível, "se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados" (11.23). Um endurecimento que é causado pela incredulidade, é parcial, temporário e reversível não é a reprovação incondicional do calvinismo.
4. Wesley nota que os endurecidos o foram "pelo seu próprio preconceito voluntário": endurecimento judicial, consequente, como o de Faraó.
Wesley (Notas, Rm 11.5, 7): "Segundo a eleição da graça: segundo aquele gracioso propósito de Deus: 'Quem crer será salvo'." "Israel em geral não obteve a justificação, mas somente aqueles dentre eles que creem. E os demais foram endurecidos: pelo seu próprio preconceito voluntário."
Em síntese. O remanescente é eleito pela graça e se reconhece pela fé; os demais endureceram por incredulidade, e podem ser reenxertados.
Para o púlpito. A eleição da graça é boa notícia para quem crê e porta aberta para quem ainda não crê; Paulo termina o capítulo orando e esperando por "os demais".
2 Tessalonicenses 2.13 · Escolhidos para a salvação pela santificação e fé
Texto (NAA): "Mas devemos sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus os escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade."
A leitura calvinista. "Desde o princípio" seria a eternidade, e a fé, o resultado da escolha. White: "a obra do Espírito e a nossa fé na verdade são o resultado daquela escolha eterna" (Debating Calvinism, p. 110).
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto diz como a escolha se realiza: "pela santificação do Espírito e fé na verdade". Os dois meios estão no próprio versículo. Deus escolhe para a salvação por meio da obra do Espírito e da fé da pessoa; não escolhe incrédulos para depois lhes dar fé. O versículo anterior confirma pelo contraste: os que perecem "não receberam o amor da verdade para serem salvos" (2Ts 2.10).
2. "Desde o princípio" pode ser o princípio do evangelho entre eles (At 17.1-9), como em Filipenses 4.15, "no início da pregação do evangelho". Wesley lê assim. Mesmo que se entenda a eternidade, a escolha continua sendo "pela fé".
3. Este versículo é um dos melhores resumos da nossa posição: eleição real, de Deus, desde o princípio, para a salvação; e condicionada, pelo próprio Deus, ao Espírito que santifica e à fé que crê.
Wesley (Notas, 2Ts 2.13): "Deus vos escolheu desde o princípio do vosso ouvir o evangelho. Para a salvação: tirou-vos do mundo e vos pôs no caminho da glória."
Em síntese. Deus escolhe para a salvação mediante a santificação e a fé; a fé é o meio da escolha, não o seu efeito.
Para o púlpito. Dar graças pela eleição de alguém, como Paulo, é dar graças por ver nele fé e santificação; a eleição se reconhece pelos frutos, não por decretos secretos.
2 Timóteo 1.9 · Graça dada em Cristo antes dos tempos eternos
Texto (NAA): "Que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos."
A leitura calvinista. Calvino: a salvação é "inteiramente efeito daquele decreto, propósito e beneplácito". White: "tenho paz com Deus porque Deus, na eternidade passada, escolheu este pecador" (Debating Calvinism, p. 95).
A leitura armínio-wesleyana.
1. "Não segundo as nossas obras": concordamos sem reserva. A salvação é pela graça, e nada nosso a provoca. Mas a fé não é obra; é a alternativa à obra (Rm 4.4-5).
2. A graça "nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos". Outra vez o "em Cristo". O que foi dado antes dos tempos foi o plano: Cristo como Mediador, a graça nele depositada para todos os que nele estivessem. Armínio: o primeiro decreto de Deus é nomear Cristo; só depois vem o decreto de salvar os que creem. Coords tem razão em dizer que nenhum incrédulo está "em Cristo" e, portanto, nenhuma bênção espiritual é dada a incrédulos para torná-los crentes.
3. Armínio via no calvinismo um rebaixamento de Cristo: de causa meritória da salvação a instrumento de uma salvação já decidida. Em 2 Timóteo 1.9 a graça é dada "em Cristo", e por isso só é nossa quando estamos nele.
Wesley (Notas, 2Tm 1.9): "Que nos salvou, pela fé. [...] Segundo o seu próprio propósito e graça: isto é, o seu próprio propósito de graça. Que nos foi dada: fixada para o nosso proveito, antes que o mundo existisse."
Em síntese. O propósito de graça é eterno e está em Cristo; entra nele quem, pela fé, está em Cristo.
Para o púlpito. A salvação não é improviso de Deus: estava preparada em Cristo antes dos tempos, esperando por você.
1 Pedro 1.2 · Eleitos segundo a presciência de Deus Pai
Texto (NAA): "Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo."
A leitura calvinista. Calvino: "a presciência de Deus exclui toda dignidade da parte do homem"; presciência seria preordenação.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto põe a ordem que a nossa tradição sempre defendeu: "eleitos segundo a presciência". Deus elege os que conhece de antemão; não conhece de antemão porque elegeu. Os calvinistas precisam inverter a frase para sustentar o sistema.
2. Pedro acrescenta os meios, como Paulo em 2 Tessalonicenses 2.13: "em santificação do Espírito, para a obediência". A eleição se realiza na santificação e se destina à obediência; não é um rótulo colado em alguém antes de nascer.
3. Esta nota de Wesley é a página mais importante de todo este estudo. Nela ele define a "verdadeira predestinação" em três proposições e explica por que recusa qualquer outra. Vale ler inteira.
Wesley (Notas, 1Pe 1.2): "Segundo a presciência de Deus: falando à maneira dos homens. A rigor, não há presciência em Deus, assim como não há conhecimento posterior: todas as coisas lhe são conhecidas como presentes, de eternidade a eternidade. [...] Eleição, no sentido bíblico, é Deus fazer qualquer coisa em que nosso mérito ou nossa força não têm parte alguma. A verdadeira predestinação, ou determinação prévia de Deus, é esta: 1. Quem crer será salvo da culpa e do poder do pecado. 2. Quem perseverar até o fim será salvo eternamente. 3. Os que recebem o precioso dom da fé tornam-se, por meio dele, filhos de Deus; e, sendo filhos, receberão o Espírito de santidade para andarem como Cristo também andou. Em cada parte desse decreto de Deus, promessa e dever caminham de mãos dadas. Tudo é dom gratuito; e, no entanto, tal é o dom, que o desfecho final depende da nossa obediência futura ao chamado celestial. Mas de outra predestinação além desta, seja para a vida, seja para a morte eterna, a Escritura nada sabe."
Wesley segue com cinco razões contra a predestinação incondicional: ela é "cruel acepção de pessoas"; é incompatível com as ofertas universais da graça; contradiz a ordem de escolher a vida; é incompatível com um estado de provação; e é de consequência fatal, pois todos se imaginam eleitos pelos motivos mais frágeis.
Em síntese. A eleição é segundo a presciência, realiza-se na santificação e visa à obediência; o decreto é "quem crer será salvo, quem perseverar será salvo eternamente".
Para o púlpito. Promessa e dever caminham de mãos dadas: é a frase de Wesley que resume a pregação wesleyana da salvação.
Atos 13.48 · Creram os que haviam sido destinados para a vida eterna
Texto (NAA): "Os gentios, ouvindo isto, se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor. E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna."
A leitura calvinista. Piper: "A eleição prévia de Deus é a razão pela qual alguns creram e outros não." White: o texto mostra "o quanto a obra soberana de eleição era um dado para os apóstolos" (Debating Calvinism, p. 381).
A leitura armínio-wesleyana.
1. O verbo é tassō, "dispor, ordenar, designar", usado em Atos para designar presbíteros (14.23) e para quem "se dispôs" ao serviço dos santos (1Co 16.15, no médio). Lucas tinha à mão a palavra "preordenar" (proorizō, At 4.28) e não a usou. Wesley observa que tassō "não é usada uma só vez na Escritura para exprimir predestinação eterna de qualquer espécie".
2. O contexto decide. Os judeus acabavam de "se julgar indignos da vida eterna" (v. 46), isto é, excluíram-se por conta própria. Os gentios, em contraste, eram os "tementes a Deus" da sinagoga (vv. 16, 26), gente como Cornélio, que já respondia à luz que tinha e "se alegrava" com a palavra. Os que estavam "dispostos" para a vida eterna creram. A disposição era obra da graça preveniente naquela hora, pela pregação, e não um decreto anterior à criação.
3. Atos 16.14 é o paralelo claro: "o Senhor lhe abriu o coração". Ali ninguém lê eleição eterna; lê-se uma operação presente da graça. Wesley propõe ler Atos 13.48 do mesmo modo: "creram aqueles cujos corações o Senhor abriu".
4. Nem os que creram foram constrangidos, nem os que recusaram foram rejeitados: "era a sua vontade que também eles fossem salvos; mas eles repeliram de si a salvação". Esta é a síntese perfeita da graça resistível.
Wesley (Notas, At 13.48): "Lucas não diz 'pré-ordenados'. Ele não fala do que foi feito desde a eternidade, mas do que então se fazia pela pregação do evangelho. [...] Durante este sermão creram aqueles a quem Deus então deu poder de crer. [...] Não que Deus rejeitasse os demais: era a sua vontade que também eles fossem salvos; mas eles repeliram de si a salvação. Nem os que então creram foram constrangidos a crer; mas a graça lhes foi então, pela primeira vez, copiosamente oferecida, e eles não a repeliram."
Em síntese. Foram dispostos pela graça e creram; os outros se julgaram indignos e não creram. Uma operação presente da graça, não um decreto eterno.
Para o púlpito. Em todo culto há gente "disposta" pela graça naquele momento. O pregador não sabe quem; por isso prega a todos.
Apocalipse 13.8 · Nomes escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo
Texto (NAA): "E ela será adorada por todos os que habitam sobre a terra, aqueles que, desde a fundação do mundo, não tiveram os seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto."
A leitura calvinista. MacArthur: "o registro em que Deus inscreveu os nomes dos escolhidos para a salvação antes da fundação do mundo" (Comentário a Apocalipse).
A leitura armínio-wesleyana.
1. A preposição é "desde" (apo), não "antes" (pro). A Escritura usa "antes da fundação do mundo" para Cristo e para o plano (Jo 17.24; Ef 1.4; 1Pe 1.20) e "desde a fundação do mundo" para a história dos homens (Mt 25.34; Lc 11.50). O sangue dos profetas "desde a fundação do mundo" (Lc 11.50) não foi derramado antes de Gênesis; foi derramado ao longo da história. Do mesmo modo, os nomes são escritos ao longo da história, à medida que as pessoas creem.
2. O Livro da Vida é do "Cordeiro que foi morto": só há nome nele por causa da cruz e pela união com o Cordeiro. Quem está em Cristo está no livro.
3. E o livro não é uma lista imutável: "não apagarei o seu nome do Livro da Vida" (Ap 3.5) é promessa ao vencedor, e pressupõe que o nome de quem não vence pode ser apagado (Êx 32.33; Sl 69.28). Wesley lê exatamente assim.
Wesley (Notas, Ap 13.8): "Só o nome destes está escrito no livro da vida do Cordeiro. E, se mesmo algum destes 'naufragar na fé', ele o riscará do seu livro, embora estivesse ali escrito desde (isto é, antes de) a fundação do mundo (Ap 17.8)."
Em síntese. Os nomes são escritos pelo Cordeiro, na história, nos que creem; e podem ser riscados de quem naufraga na fé.
Para o púlpito. O Livro da Vida não é um arquivo fechado de antes do mundo; é o registro vivo dos que pertencem ao Cordeiro. A pergunta é se o seu nome está lá hoje.
Judas 4 · Condenação promulgada há muito tempo
Texto (NAA): "Pois certos indivíduos, cuja sentença de condenação foi promulgada há muito tempo, se infiltraram no meio de vocês sem serem notados. São pessoas ímpias, que transformam em libertinagem a graça do nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo."
A leitura calvinista. Os falsos mestres teriam sido "designados de antemão" para a condenação, prova de reprovação eterna de indivíduos.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O verbo é prographō, "escrever de antemão", o mesmo que Paulo usa para "tudo o que foi escrito no passado" nas Escrituras (Rm 15.4). Judas não fala de um decreto eterno sobre pessoas, mas de uma sentença escrita de antemão, na profecia, sobre o tipo de pessoa que eles são. Ele mesmo cita a profecia: Enoque (Jd 14-15) e os exemplos de Israel no deserto, dos anjos e de Sodoma (Jd 5-7). A mesma advertência aparece em 2 Pedro 2, onde os falsos mestres "negam o Soberano Senhor que os resgatou" (2Pe 2.1): foram comprados por Cristo e, ainda assim, perecem.
2. A condenação é "por seus pecados voluntários", como diz Wesley: ímpios que transformam a graça em libertinagem e negam o Senhor. A sentença antiga recai sobre uma conduta, não sobre uma identidade fixada antes do nascimento.
3. A carta inteira pressupõe que a queda é possível e evitável: "edificando-se", "conservem-se no amor de Deus", "salvem alguns arrebatando-os do fogo" (Jd 20-23), e termina com Deus "poderoso para guardá-los de tropeçar" (Jd 24). Guardar de tropeçar só faz sentido onde se pode tropeçar.
Wesley (Notas, Jd 4): "Os quais desde a antiguidade foram descritos, já desde Enoque; dos quais foi predito que, por seus pecados voluntários, incorreriam nesta condenação."
Em síntese. A sentença foi escrita de antemão na profecia contra um tipo de conduta; quem a pratica entra nela por vontade própria.
Para o púlpito. Judas não ensina a olhar para os ímpios como réprobos, mas a arrebatá-los do fogo (Jd 23).
João 15.16 · Não foram vocês que me escolheram
Texto (NAA): "Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, eu os escolhi e os designei para que vão e deem fruto, e o fruto de vocês permaneça."
A leitura calvinista. Prova de que a iniciativa é toda de Cristo e de que a eleição precede qualquer escolha humana.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Jesus fala aos apóstolos, na ceia, sobre a escolha para o apostolado: "os designei para que vão e deem fruto". É eleição para o serviço, como a de Judas, que também foi "escolhido" e era "um diabo" (Jo 6.70). A eleição para uma missão não é a eleição para a salvação.
2. Que a iniciativa é de Cristo, em toda salvação, nós afirmamos com alegria: "nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4.19). A graça preveniente é a forma dessa iniciativa em relação a todos.
3. O mesmo discurso mantém a condição: "permaneçam em mim"; "se alguém não permanecer em mim, será lançado fora" (Jo 15.4-6). A escolha de Cristo não dispensa o permanecer do escolhido.
Wesley (Notas, Jo 15.16): "Vocês, meus apóstolos, não me escolheram, mas eu os escolhi, como aparece claramente da história sagrada; e os designei para que vão e deem fruto: escolhi-os e designei-os para este fim: que vão e convertam pecadores."
Em síntese. Escolha para o apostolado, feita por Cristo, com a condição de permanecer nele.
Para o púlpito. Todo chamado ao ministério é assim: não fomos nós que escolhemos; e, por isso mesmo, devemos permanecer e frutificar.
João 17.9 · Não peço pelo mundo
Texto (NAA): "É por eles que eu peço; não peço pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus."
A leitura calvinista. Calvino: "visto que Cristo orou somente pelos eleitos, crer na eleição é necessário para nós, se queremos que ele interceda por nossa salvação" (Comentário a João, 17.9).
A leitura armínio-wesleyana.
1. "Aqueles que me deste" são, no contexto, os discípulos: Jesus lhes manifestou o nome do Pai (v. 6), eles guardaram a palavra (v. 6), creram (v. 8), e nenhum se perdeu "senão o filho da perdição" (v. 12). Depois, Jesus ora "também por aqueles que vierem a crer em mim por meio da palavra deles" (v. 20); esses somos nós. E ora, enfim, "para que o mundo creia" (v. 21). Quem diz que Jesus não orou pelo mundo não chegou ao versículo 21.
2. A petição do versículo 9 é específica: guarda e santificação dos apóstolos para a missão que começava. Não ora, nessa petição, pelo mundo, porque o mundo ainda não está na missão; ora para que, pela missão, o mundo creia.
3. Na cruz, o mesmo Jesus orou pelos seus algozes (Lc 23.34). A intercessão de Cristo não é fechada a um número.
Wesley (Notas, Jo 17.9): "Não rogo pelo mundo: não nestas petições, que se adaptam somente ao estado dos crentes. (Ele roga pelo mundo nos vs. 21 e 23: para que creiam, para que saibam que Deus o enviou.) Isto não prova que o nosso Senhor não orou pelo mundo, antes e depois."
Em síntese. Jesus ora pelos discípulos para que, por eles, o mundo creia; a oração sacerdotal é missionária, não restritiva.
Para o púlpito. A oração de João 17 termina no mundo. Quem a cita para excluir o mundo parou no meio.
Mateus 22.14 · Muitos são chamados, poucos escolhidos
Texto (NAA): "Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos."
A leitura calvinista. Haveria dois chamados: o geral, a todos, e o eficaz, só aos eleitos; "escolhidos" seriam os eleitos desde a eternidade.
A leitura armínio-wesleyana.
1. A frase fecha a parábola das bodas (Mt 22.1-13), e a parábola explica a frase. Os primeiros convidados "não quiseram vir" (v. 3); o rei insiste ("enviou ainda outros servos", v. 4); diante da recusa, convida a todos nas encruzilhadas (v. 9); e um entra sem a veste nupcial e é lançado fora (vv. 11-13). Os "escolhidos" são os que atenderam ao chamado e vieram vestidos como o rei determinou.
2. O chamado é um só e é sincero; a diferença está na resposta. O convite foi recusado por uns, aceito por outros, e um dos que aceitaram não se revestiu. A eleição aqui é visivelmente condicional: condicionada ao vir e ao permanecer vestido.
3. A parábola é o mesmo drama de Romanos 9 a 11: Israel recusa, o convite se abre aos gentios, e a condição de entrada e permanência é a fé (Rm 9.32; 11.20-22). A veste é a justiça que vem pela fé.
Wesley (Notas, Mt 22.14): "Muitos são chamados, poucos escolhidos: muitos ouvem, poucos creem. Sim: muitos são membros da igreja visível, mas poucos da invisível."
Em síntese. Chamados são todos; escolhidos, os que respondem com fé e se deixam vestir pelo Rei.
Para o púlpito. Os escolhidos são reconhecíveis: estão à mesa, com a veste. A pergunta da parábola não é "fui eleito?", é "vim, e estou vestido?".
Parte D · Romanos 9 a 11, o oleiro e a casa de Israel
Romanos 9 é o texto que o calvinismo considera decisivo, e com razão: se ele ensinasse a eleição incondicional de indivíduos, o sistema teria a sua base. Lemos o capítulo com seis chaves: a pergunta real de Paulo; o bloco 9 a 11 como um só argumento; a mensagem da carta inteira (justiça pela fé); o contexto de cada citação do Antigo Testamento; o claro iluminando o obscuro; o caráter de Deus. Começamos pela imagem que Paulo toma emprestada.
Jeremias 18.1-10 · O barro na mão do oleiro
Texto (NAA): "Casa de Israel, será que não posso fazer com vocês como fez esse oleiro? [...] Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim são vocês na minha mão, ó casa de Israel. No momento em que eu falar a respeito de uma nação ou de um reino para o arrancar, derrubar e destruir, se essa nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu mudarei de ideia a respeito do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar a respeito de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mau aos meus olhos e não obedecer à minha voz, então eu mudarei de ideia quanto ao bem que havia prometido fazer."
A leitura calvinista. White: a parábola mostra que não há "algo no barro que determina o que o oleiro fará"; Deus "não é limitado pelas escolhas livres das pessoas".
A leitura armínio-wesleyana.
1. O oleiro de Jeremias é soberano e condicional ao mesmo tempo. Ele mesmo declara as regras: se a nação se converter, ele muda de ideia quanto ao mal; se fizer o mal, muda de ideia quanto ao bem. O barro é a casa de Israel, não cada alma individual; e o destino do vaso depende da resposta do vaso. É o oposto exato do que White lê no texto.
2. Quem fixa as condições é o Oleiro, não o barro. Essa é a soberania bíblica: Deus estabelece livremente os termos, e os cumpre com fidelidade. Nínive comprova a regra (Jn 3.10); Jerusalém sitiada ainda tinha escolha (Jr 38.17-18).
3. Quando Paulo evoca o oleiro em Romanos 9.21, ele conta com leitores que conhecem Jeremias 18 e Isaías 29.16 e 64.8. A imagem traz consigo a condicionalidade; não a anula.
Wesley (Notas, Jr 18.6): "Deus possui poder soberano para fazer o que lhe agrada com a obra de suas mãos; contudo, age como Juiz justo, retribuindo a cada pessoa segundo suas obras."
Em síntese. O Oleiro fixa as condições; o vaso que se converte é refeito, o que se endurece é quebrado.
Para o púlpito. A imagem do oleiro não é ameaça de arbitrariedade; é convite ao arrependimento: "convertam-se agora, cada um do seu mau caminho" (Jr 18.11).
Romanos 9.6-13 · Amei Jacó, desprezei Esaú
Texto (NAA): "E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas, nem por serem descendentes de Abraão são todos filhos. [...] Não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência. [...] E os gêmeos ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal, para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama, quando foi dito a Rebeca: 'O mais velho será servo do mais moço.' Como está escrito: 'Amei Jacó, porém desprezei Esaú.'"
A leitura calvinista. Calvino extrai daqui que "a eleição de Deus faz distinção entre os homens, predestinando uns para a salvação e outros para a condenação eterna", sem outro fundamento senão a vontade de Deus (Comentário a Romanos, 9.11). Sproul: Paulo "ensinava a mesma doutrina da eleição que os calvinistas ensinam" (What is Reformed Theology?, p. 149-150). Spurgeon pregou um sermão inteiro para negar que "Jacó" e "Esaú" sejam nações.
A leitura armínio-wesleyana.
1. A pergunta de Paulo está no versículo 6: se Israel rejeita o Messias, "a palavra de Deus falhou"? A resposta: não, porque a promessa nunca foi para a descendência da carne, mas para os "filhos da promessa". Quem pergunta ao capítulo "por que uns creem e outros não?" recebe uma resposta que Paulo não deu. Quem ouve a pergunta de Paulo recebe a dele: a salvação nunca foi por etnia nem por obras, mas pela fé (Rm 9.30-32).
2. O afunilamento da promessa (Isaque, não Ismael; Jacó, não Esaú; o remanescente, não todo Israel) é a história da eleição de um povo para uma vocação. Wesley é claro: "Isto não se refere à pessoa de Jacó ou de Esaú. Nem se refere ao estado eterno deles nem da sua posteridade."
3. Romanos 9.13 cita Malaquias 1.2-3, escrito séculos depois da morte dos irmãos, onde "Jacó" e "Esaú" são Israel e Edom; e o oráculo a Rebeca já falava de "duas nações" (Gn 25.23). O indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó; Edom serviu a Israel (2Sm 8.14). Spurgeon tinha razão em exigir que se respeitasse o texto; é o texto de Malaquias que fala de Edom.
4. "Desprezei" (ou "aborreci") é o idiomatismo semítico de amar menos, como em Lucas 14.26. E a ira contra Edom tem causa declarada: "por causa da violência feita a teu irmão Jacó" (Ob 10). Reprovação com motivo moral não é reprovação incondicional.
5. "Não por obras, mas por aquele que chama": a eleição de Jacó para a linhagem não se deveu a obras. Concordamos. Mas Paulo não diz "não pela fé"; e ao fim do capítulo dirá que os gentios alcançaram a justiça "pela fé" e Israel não, "porque não a buscou pela fé" (Rm 9.30-32). A fé não é obra; é a condição que exclui as obras.
6. O capítulo começa com lágrimas, não com um decreto: "grande tristeza e incessante dor no coração" (Rm 9.2), o desejo de ser "separado de Cristo" pelos irmãos (9.3), a súplica "para que sejam salvos" (10.1) e o esforço missionário "para que alguns deles se salvem" (11.14). Ninguém chora, ora e trabalha pela salvação de quem Deus decretou perder. A dor de Paulo pressupõe portas abertas.
7. A base da eleição, na Escritura, é a presciência (Rm 8.29; 1Pe 1.2). Deus conhece de antemão quem responderá com fé. O próprio Spurgeon, no sermão sobre Jacó e Esaú, recusou dar a mesma razão para a eleição e para a reprovação: "se Deus odiou Esaú, foi porque ele merecia ser odiado". Nesse ponto ele concorda conosco mais do que com Calvino.
Wesley (Notas, Rm 9.6, 13): "A suma é: Deus aceita todos os crentes, e somente eles; e isto de modo algum é contrário à sua palavra. Antes, ele declarou na sua palavra, tanto por tipos quanto por testemunhos expressos, que os crentes são aceitos como 'filhos da promessa', ao passo que os incrédulos são rejeitados, embora sejam 'filhos segundo a carne'." "Amei a Jacó, com amor peculiar; isto é, os israelitas, a posteridade de Jacó. E, comparativamente, aborreci a Esaú, isto é, os edomitas. Mas observe-se: 1. Isto não se refere à pessoa de Jacó ou de Esaú. 2. Nem se refere ao estado eterno deles nem da sua posteridade."
Em síntese. A palavra de Deus não falhou: a promessa sempre correu pela linha da fé, e a eleição de Jacó é a eleição de um povo para uma vocação, não de um bebê para o céu e outro para o inferno.
Para o púlpito. A pergunta que abre Romanos 9 é pastoral: "Deus desistiu do meu povo?". A resposta é "não", e por isso Paulo ora por Israel no capítulo seguinte (Rm 10.1).
Romanos 9.14-18 · Misericórdia de quem quero, endurecimento de quem quero
Texto (NAA): "Que diremos, então? Que Deus é injusto? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: 'Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e terei compaixão de quem eu tiver compaixão.' Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: 'Foi para isto mesmo que eu o levantei, para mostrar em você o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.' Logo, Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer."
A leitura calvinista. Sproul: "Este único versículo é absolutamente fatal ao arminianismo" (Chosen by God, p. 151). Calvino: "não se pode conceber causa mais alta do que a sua própria vontade para que faça o bem e mostre favor a alguns homens, mas não a todos" (Comentário a Romanos, 9.15). Sobre Faraó, Calvino afirma que "o seu caráter lhe foi dado por Deus".
A leitura armínio-wesleyana.
1. "Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia" é Êxodo 33.19, dito a Moisés quando ele intercedia por todo o povo depois do bezerro de ouro. O ponto é a liberdade de Deus para fixar os termos da misericórdia, e não a sua restrição a poucos. O bloco termina dizendo que Deus quer "mostrar a sua misericórdia a todos" (Rm 11.32) e é "rico para com todos os que o invocam" (Rm 10.12).
2. "Não depende de quem quer ou de quem corre": o querer e o correr são o esforço humano, as obras da Lei, o zelo de Israel "sem entendimento" (Rm 10.2-3). O versículo exclui o mérito; não exclui a fé, que é o modo não meritório que a graça estabeleceu: "por isso é pela fé, para que seja segundo a graça" (Rm 4.16). Wesley: a bênção "não é efeito nem da vontade nem das obras do homem, mas da graça e do poder de Deus".
3. Faraó. O texto não diz que Deus o endureceu desde a eternidade. Em Êxodo, Faraó endurece o próprio coração nas primeiras pragas (Êx 8.15, 32) e só depois se diz que Deus o endureceu (Êx 9.12). O anúncio prévio (Êx 4.21) é presciência, não causação, como Jesus anunciou a negação de Pedro sem causá-la. "Te levantei" fala da elevação ao trono, como Pilatos recebeu o seu poder "do alto" (Jo 19.11): Deus pôs no trono um homem "que já achou" orgulhoso e obstinado, diz Wesley, "não que ele tivesse feito mau de propósito".
4. O endurecimento é entrega judicial, o mesmo movimento de Romanos 1: "Deus os entregou" (Rm 1.24, 26, 28). Deus endurece a quem quer, sim; e quer endurecer os que persistentemente se endurecem. O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. Aqui está a distinção armínio-wesleyana entre vontade antecedente (salvar a todos) e consequente (endurecer os que recusam).
5. A ironia de Paulo: Israel repetia Faraó. "Vocês sempre resistem ao Espírito Santo" (At 7.51). E, como a dureza de Faraó serviu ao êxodo, a dureza de Israel serviu à entrada dos gentios (Rm 11.11). Papel histórico no plano de Deus, não destino eterno decretado.
Wesley (Notas, Rm 9.14, 16, 18): "Ele tem o direito de fixar os termos sob os quais mostrará misericórdia [...]: a saber, somente daqueles que se submetem aos meus termos, que a aceitam do modo que eu designei." "Esta declaração geral respeita [...] a todos os filhos espirituais de Abraão, até o fim do mundo." "Assim, pois, ele mostra misericórdia nos seus próprios termos, a saber, aos que creem. E a quem quer, a saber, os que não creem, endurece: deixa-os à dureza dos seus corações."
Em síntese. Deus é livre para fixar os termos da misericórdia, e os fixou: a fé. Endurece os que, como Faraó, se endureceram primeiro.
Para o púlpito. Ninguém na sua igreja é Faraó por decreto. Mas qualquer um pode tornar-se Faraó por insistência. "Se hoje ouvirem a sua voz, não endureçam o coração" (Hb 3.15).
Romanos 9.19-24 · O oleiro e os vasos
Texto (NAA): "Mas você vai me dizer: 'Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?' Mas quem é você, caro amigo, para discutir com Deus? Será que o objeto pode perguntar a quem o fez: 'Por que você me fez assim?' Será que o oleiro não tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? Que diremos, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a destruição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para glória?"
A leitura calvinista. Calvino: "Deus determina a respeito dos homens como lhe parece bem [...]; ele atribui, por direito próprio, a sorte que lhe apraz àquilo que forma" (Comentário a Romanos, 9.20). Lutzer: se o arminianismo estivesse certo, Paulo teria respondido "porque os homens têm livre-arbítrio"; mas respondeu "quem és tu?".
A leitura armínio-wesleyana.
1. Quem é o interlocutor? O judeu incrédulo que acaba de ouvir que Israel está sendo endurecido como Faraó, e murmura: "então por que ele ainda se queixa?". A fórmula "você vai me dizer" retoma o diálogo com o judeu de Romanos 2.17 e 3.1-8. Paulo não responde a um arminiano; responde a quem se julgava com direito adquirido.
2. O barro, na Escritura, é Israel (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6), e o oleiro de Jeremias refaz o vaso conforme a resposta da nação. Paulo escreve a leitores que sabiam disso. "Quem é você para discutir?" repreende a petulância, e não proíbe a pergunta; tanto que Paulo a responde no versículo 22.
3. A resposta do versículo 22 é a paciência. Deus "suportou com muita paciência os vasos de ira". Paciência com quem? Com quem pode arrepender-se (Rm 2.4; 2Pe 3.9). Um Deus que odiou alguém antes de nascer não teria com que ser paciente.
4. A diferença fina, que o próprio Paulo faz: os vasos de ira estão "preparados para a destruição", sem que se diga quem os preparou, e a forma grega admite que eles mesmos se prepararam; os vasos de misericórdia, Deus "de antemão preparou para glória". Deus prepara pessoas para a glória; para a perdição, o pecador se prepara a si mesmo. Wesley: "preparados para a destruição pela sua própria impenitência voluntária e final".
5. As categorias são portas, não gavetas. Os efésios eram "por natureza, filhos da ira" e foram vivificados (Ef 2.3-5). "Se alguém se purificar, será vaso para honra" (2Tm 2.21). "Chamarei de meu povo ao que não era meu povo" (Rm 9.25). Os vasos de ira de Romanos 9 são os ramos cortados de Romanos 11, que "se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados" (Rm 11.23).
6. E como Paulo fecha o capítulo? Sem uma palavra sobre decreto: os gentios alcançaram a justiça "pela fé"; Israel não, "porque não a buscou pela fé, mas como que por obras" (Rm 9.30-32). A causa é uma só: fé ou obras.
Wesley (Notas, Rm 9.20-23): "Por que me fizeste assim? Por que me fizeste capaz de honra e imortalidade somente pelo crer?" "Deus, como soberano Senhor e Proprietário de tudo, dispensa os seus dons [...] por regras que ficam inteiramente fora da nossa vista. Mas os métodos de Deus ao tratar conosco como nosso Governador e Juiz estão claramente revelados: 'Quem crer será salvo, e quem não crer será condenado.' [...] A sua vontade não é a de um ser arbitrário, caprichoso ou tirânico. [...] Ele mostrará misericórdia, como nos assegurou, somente aos verdadeiros crentes, e não endurecerá senão os que obstinadamente recusam a sua misericórdia." "Os vasos de ira: os que haviam provocado a sua ira, rejeitando ainda a sua misericórdia. Preparados para a destruição: pela sua própria impenitência voluntária e final."
Em síntese. O oleiro tem direito sobre o barro e o exerce com paciência e justiça: faz vasos de misericórdia dos que creem, e deixa à destruição os que se prepararam para ela pela incredulidade persistente.
Para o púlpito. Romanos 9.22 é um dos textos mais tristes e mais esperançosos da Bíblia: Deus suporta com paciência. Enquanto suporta, há tempo.
Romanos 9.30-33 · Porque não a buscou pela fé
Texto (NAA): "Que diremos, então? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, a saber, a justificação que decorre da fé, e que Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras. Tropeçaram na pedra de tropeço, como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de ofensa, e aquele que nela crê não será envergonhado.'"
A leitura calvinista. A conclusão do capítulo seria a consequência do decreto exposto nos versículos anteriores: os gentios alcançaram porque foram eleitos, Israel não alcançou porque foi endurecido; a fé dos gentios é efeito da eleição.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Este é o versículo em que o próprio Paulo responde à pergunta que o calvinismo faz ao capítulo inteiro: por que uns alcançaram e outros não? "Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras." Nenhuma palavra sobre decreto, eleição secreta ou reprovação. A causa é uma só: fé ou obras.
2. Se Paulo cresse que a razão última era a eleição incondicional, este era o lugar para dizê-lo. Em vez disso, ele aponta a pedra de tropeço, Cristo, e a promessa aberta: "aquele que nela crê não será envergonhado". A mesma Pedra que derruba o incrédulo salva quem crê, inclusive o israelita que vier a crer (Rm 11.23).
3. Os gentios "não buscavam a justificação" e a alcançaram. Isso não prova eleição incondicional; prova que a justiça não se alcança buscando por obras, mas recebendo pela fé o que é oferecido. A graça preveniente alcançou os que não buscavam; eles creram.
4. Estes versículos governam a leitura de tudo o que veio antes. Quem lê 9.6-24 como decreto de indivíduos e depois chega a 9.30-33 precisa explicar por que Paulo atribui a diferença à fé; quem lê 9.6-24 como eleição do povo e fidelidade de Deus chega a 9.30-33 sem surpresa.
Wesley (Notas, Rm 9.32): "E por que não alcançaram? Porventura porque Deus eternamente decretou que não alcançassem? Nada disso se encontra aqui; mas, em coerência com o seu argumento, o apóstolo nos dá esta boa razão: porque não a buscavam pela fé, único meio pelo qual podia ser alcançada."
Em síntese. A conclusão de Romanos 9 é a de Paulo, não a de Calvino: fé, e não obras; Cristo, pedra de tropeço para quem não crê e rocha de salvação para quem crê.
Para o púlpito. Sempre que alguém citar Romanos 9, peça para ler até o versículo 32.
Romanos 10.12-17 · Todo aquele que invocar será salvo
Texto (NAA): "Porque não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: 'Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.' [...] E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo."
A leitura calvinista. Só invoca quem foi capacitado pela graça irresistível; a fé que vem pelo ouvir é a fé infundida nos eleitos.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Se Romanos 9 ensinasse a eleição incondicional, Romanos 10 seria incompreensível. Paulo abre suplicando a Deus pela salvação de Israel (10.1): só se ora pela salvação de quem pode ser salvo. Diagnostica "zelo sem entendimento" e recusa ativa ("não se sujeitaram", 10.3), não incapacidade decretada.
2. "Todo aquele" é a expressão menos determinista que existe. A porta se escancara para judeu e grego, e o Senhor é "rico para com todos os que o invocam". Wesley tira daqui a implicação: não só "todo aquele que invocar será salvo", mas "a vontade de Deus é que todos o invoquem para salvação".
3. "A fé vem pelo ouvir." A corrente da salvação passa pela pregação, não por um decreto secreto. O calvinismo precisa reescrever: "a fé vem pela regeneração, e a regeneração pela eleição". Paulo não escreveu isso. A palavra pregada é o meio ordinário da graça preveniente: ao ouvir, o ouvinte é capacitado a crer.
4. Aqui corrigimos Coords de novo: ele diz que "todo mundo tem fé em algo" e que basta escolher o objeto certo. Nós dizemos que a fé salvadora nasce quando a palavra de Cristo, ouvida, é acompanhada pelo Espírito que convence (Jo 16.8; 1Ts 1.5). A fé vem pelo ouvir porque a graça vem na palavra.
5. O capítulo termina com a imagem que resume a nossa teologia: "Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde" (Rm 10.21). Braços abertos o dia inteiro, recusados por quem não quis.
Wesley (Notas, Rm 10.12, 17): "A grande verdade proposta no v. 11 é repetida aqui e no v. 13, e confirmada adiante nos vv. 14-15, de modo a implicar não somente que 'todo aquele que o invocar será salvo', mas também que a vontade de Deus é que todos o invoquem para salvação." "A fé, de fato, vem ordinariamente pelo ouvir; sim, pelo ouvir a palavra de Deus."
Em síntese. A oferta é a todos, a fé vem pela palavra ouvida, e a mão de Deus fica estendida o dia inteiro.
Para o púlpito. A urgência missionária de Romanos 10 ("como ouvirão, se não há quem pregue?") só existe numa teologia em que a pregação faz diferença no destino de quem ouve.
Romanos 11.17-24 · A oliveira, os ramos cortados e os enxertados
Texto (NAA): "Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado no meio deles e se tornou participante da raiz e da seiva da oliveira [...]. Eles foram quebrados por causa da incredulidade, mas você continua firme mediante a fé. Não fique orgulhoso, mas tema. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você. Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para com você, a bondade de Deus, desde que você permaneça nessa bondade. Do contrário, também você será cortado. Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo."
A leitura calvinista. A oliveira seria a igreja visível, e o corte, a exclusão de membros nominais nunca verdadeiramente salvos; a advertência "também você será cortado" seria meio de perseverança, não possibilidade real.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Este é o texto arminiano por excelência, e Wesley o cita em quase todos os seus comentários sobre a eleição. Nele Paulo nomeia a causa do corte ("por causa da incredulidade") e a causa da permanência ("mediante a fé"), e declara as duas condicionais: "desde que você permaneça", "se não permanecerem na incredulidade". Wesley resume: "ambos condicionalmente, não absolutamente".
2. A advertência é dirigida a quem está "em pé pela fé", participante "da raiz e da seiva". Não são membros nominais; são ramos vivos da oliveira. E a eles se diz: "também você será cortado". Se o corte fosse impossível para um ramo vivo, a advertência seria vazia, e Paulo não manda temer fantasmas. Wesley: "este temor não se opõe à confiança, mas ao orgulho e à falsa segurança".
3. O corte é reversível: os ramos naturais "serão enxertados, se não permanecerem na incredulidade". Os endurecidos de Romanos 9 e 11.7 são os reenxertáveis de 11.23. Nenhum réprobo incondicional é reenxertável.
4. O texto une as três doutrinas em disputa: eleição condicional (a permanência depende da fé), graça resistível (os ramos naturais recusaram) e perseverança condicional (o enxertado pode ser cortado). É por isso que a leitura calvinista precisa esvaziar cada uma das suas palavras.
5. O tom é pastoral: "não fique orgulhoso, mas tema". Diante dos que caíram, a postura do crente é gratidão e temor, nunca a presunção de quem se julga eleito por decreto.
Wesley (Notas, Rm 11.20-22): "Pela incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé: ambos condicionalmente, não absolutamente. Se fosse absolutamente, poderia haver lugar para jactância." "Este temor não se opõe à confiança, mas ao orgulho e à falsa segurança." "De outra maneira, também tu, que agora 'estás em pé pela fé', serás total e finalmente cortado."
Em síntese. Ficamos em pé pela fé, somos cortados pela incredulidade, e os cortados podem ser reenxertados: tudo condicional, nada absoluto.
Para o púlpito. A segurança do crente é a seiva da oliveira, não a impossibilidade do corte. Permaneça na bondade de Deus, e a bondade de Deus permanecerá em você.
Romanos 11.32 · Misericórdia a todos
Texto (NAA): "Porque Deus encerrou todos na desobediência, a fim de mostrar a sua misericórdia a todos."
A leitura calvinista. "Todos" seriam judeus e gentios como classes, não cada pessoa. Sproul: "Deus reserva-se o direito de clemência executiva" (Chosen by God, p. 38).
A leitura armínio-wesleyana.
1. O bloco que começou com vasos de ira termina com misericórdia a todos. É o arco de Romanos 9 a 11: endurecimento parcial e temporário ("em parte", "até que", 11.25), ramos cortados que podem ser enxertados de novo (11.23), "eleição" do povo irrevogável (11.28-29), e "misericórdia a todos". O "todos" da misericórdia tem a mesma extensão do "todos" da desobediência (Gl 3.22). Se todos foram encerrados, a todos a misericórdia é oferecida.
2. Que a misericórdia oferecida a todos seja recebida por alguns não a torna restrita; torna-a condicional. Como toda a carta ensina, a condição é a fé (Rm 11.20-23).
3. Paulo adora o mistério (11.33-36) não porque Deus tenha decretado a perdição de muitos, mas porque fez da desobediência de cada um, por sua vez, ocasião de misericórdia para o outro.
Wesley (Notas, Rm 11.32): "Permitindo que cada um, por sua vez, se revoltasse contra ele. Primeiro, Deus permitiu que os gentios [...] se revoltassem, e tomou a família de Abraão como semente peculiar para si. Depois permitiu que estes caíssem pela incredulidade, e recebeu os gentios crentes. E fez até isto para provocar os judeus a ciúmes e assim trazê-los também, no fim, à fé."
Em síntese. A desobediência é universal e a misericórdia é oferecida universalmente; recebe-a quem crê.
Para o púlpito. O fim de Romanos 9 a 11 não é um decreto fechado; é uma doxologia pela misericórdia que alcança a todos.
Mateus 23.37 · Quantas vezes eu quis, e vocês não quiseram
Texto (NAA): "Jerusalém, Jerusalém! Você mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!"
A leitura calvinista. Duas saídas: a das "duas vontades" (Lutzer: "a vontade secreta de Deus era que o povo não cresse", The Doctrines That Divide, p. 171), ou a de que "Jerusalém" são os líderes e os "filhos" são outros (White, The Potter's Freedom, p. 138).
A leitura armínio-wesleyana.
1. Jesus, que é a imagem do Deus invisível, declara uma vontade ("eu quis") e uma frustração dessa vontade ("vocês não quiseram"). Se a vontade decretiva de Deus fosse que não cressem, o lamento de Jesus seria teatro. Não há sombra de mudança em Deus (Tg 1.17); não há uma vontade para o palco e outra para os bastidores.
2. "Jerusalém" e "seus filhos" é linguagem de cidade e população, como em Jeremias 4.14 e Salmo 81.11-14. A leitura de White, que separa líderes de filhos, não resiste ao paralelo de Lucas 19.41-44, onde Jesus chora sobre a cidade inteira.
3. Este texto é a chave do caráter de Deus que governa a leitura de Romanos 9. O Deus que "endurece a quem quer" é o Deus que chorou sobre Jerusalém. Wesley, no sermão Graça Livre, pôs Mateus 23.37 contra a predestinação incondicional: tal doutrina representaria Jesus "como hipócrita e enganador", chorando sobre quem decretou perder.
4. Irineu já usava este versículo, no século II, contra os gnósticos deterministas, para defender a liberdade humana. A leitura é anterior a Agostinho e a Calvino.
Wesley (Notas, Lc 13.34, paralelo): a vontade de Cristo de reunir Jerusalém é sincera, e a recusa é dos seus filhos; o lamento pressupõe que podiam ter vindo.
Em síntese. Deus quis; eles não quiseram. A vontade de Deus pode ser contrariada pela criatura, e isso não diminui Deus, revela o seu amor.
Para o púlpito. Pregue o Deus que chora. Ninguém vai ao inferno por causa de um decreto; vai porque "não quis", contra um Deus que quis.
Parte E · A vontade salvífica universal e a expiação
Os textos desta parte não são "textos-prova" do calvinismo; são os textos que o calvinismo precisa neutralizar. Estão aqui porque, lidos com os anteriores, decidem a questão: o Deus que fala em Romanos 9 e João 6 é o mesmo que fala aqui, e aqui ele fala claro.
João 3.16 · Deus amou o mundo
Texto (NAA): "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."
A leitura calvinista. "O mundo" seria o mundo dos eleitos, ou a humanidade sem distinção de raça. White: "o Filho é dado para que todo aquele que crê, note, não todos, mas todo aquele que crê; há uma particularidade aqui". Jay Adams chegou a escrever que o conselheiro reformado não deve dizer a um não convertido que Cristo morreu por ele, pois não pode sabê-lo (Competent to Counsel, p. 70).
A leitura armínio-wesleyana.
1. Há dois grupos no versículo: "o mundo", que Deus amou e ao qual deu o Filho, e "todo o que nele crê", tirado de dentro do mundo. Identificar o mundo com os crentes é tão absurdo quanto identificá-lo com os discípulos em João 17.14, onde os discípulos são tirados "do mundo".
2. A figura que Jesus acaba de usar explica a lógica: a serpente de bronze (Jo 3.14-15; Nm 21.8-9). A provisão foi para todos os mordidos; a cura, para quem olhou. A expiação é provida para todos e aplicada aos que creem. Isso desfaz a objeção da "dupla punição": quem perece, perece apesar de um remédio que estava ao seu alcance.
3. A limitação do versículo não está no amor nem na provisão, mas na condição: "todo o que nele crê". É a eleição condicional em forma de evangelho.
4. Wesley dá um argumento que raramente se ouve: se Cristo não foi dado por todos, a incredulidade dos que perecem não seria pecado, "pois que haveriam de crer?". A universalidade da expiação é a base da responsabilidade pelo incrédulo.
Wesley (Notas, Jo 3.16): "Porque Deus amou o mundo de tal maneira: isto é, todos os homens debaixo do céu, até os que desprezam o seu amor e por essa causa finalmente perecerão. De outro modo, o não crer não lhes seria pecado algum: pois que haveriam de crer? Deveriam crer que Cristo foi dado por eles? Então ele foi dado por eles. Deu o seu Filho unigênito: verdadeira e seriamente."
Em síntese. Deus amou o mundo inteiro, deu o Filho por todos, e salva os que creem.
Para o púlpito. Qualquer teologia que transforme João 3.16 num versículo-problema está errada em algum ponto. Pregue-o sem nota de rodapé.
1 Timóteo 2.4-6 · Deseja que todos sejam salvos; resgate por todos
Texto (NAA): "Que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos."
A leitura calvinista. "Todos" seriam "todos os tipos de pessoas"; ou o "desejo" seria uma vontade fraca, diferente da decretiva. White: "o fato de nem todos serem salvos conduz inexoravelmente à verdade da eleição divina" (The Potter's Freedom, p. 99). Calvino: se Deus quisesse que todos fossem salvos, por que deixou tantos povos nas trevas?
A leitura armínio-wesleyana.
1. O contexto define o "todos": oramos "por todos", inclusive "pelos reis e por todos os que exercem autoridade" (2.1-2), porque Deus "deseja que todos sejam salvos". Todos os tipos? O versículo 1 não pede oração por tipos de pessoas, mas por pessoas. E 1 Timóteo 4.10 diz que Deus é "Salvador de todos, especialmente dos que creem": os crentes são parte do todo, não o todo.
2. Um só Deus, um só Mediador, um resgate "por todos": a universalidade do versículo 6 explica a do versículo 4. Wesley: um resgate "mais que equivalente a toda a humanidade".
3. O "desejo" de Deus não é fraco; é a vontade antecedente, séria e real, que pode ser frustrada pela criatura, como em Mateus 23.37, Lucas 7.30 e Provérbios 1.24-30. A distinção não é entre vontade revelada e vontade secreta, mas entre o que Deus quer para todos e o que ele faz diante da recusa de alguns.
4. À pergunta de Calvino, Paulo responde em Atos 14.17: Deus "não se deixou ficar sem testemunho". E Spurgeon, testemunha hostil, já zombava dos que leem "todos os homens, isto é, alguns homens", como se o Espírito não pudesse ter escrito "alguns" se quisesse.
Wesley (Notas, 1Tm 2.4-6): "O qual quer seriamente que todos os homens, não uma parte apenas, muito menos a menor parte, sejam salvos, eternamente. [...] E, para isso, que venham, não são compelidos, ao conhecimento da verdade." "Portanto, todos os homens devem recorrer a este Mediador, 'que se deu a si mesmo por todos'."
Em síntese. Deus quer seriamente a salvação de todos, deu um resgate por todos, e chama todos a virem, sem compelir ninguém.
Para o púlpito. O versículo autoriza a oração mais ousada: por qualquer pessoa, de qualquer posição, porque Deus a quer salva.
2 Pedro 3.9 · Não querendo que ninguém pereça
Texto (NAA): "O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a julguem demorada. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento."
A leitura calvinista. "Vocês", "ninguém" e "todos" seriam os eleitos; ou, de novo, as duas vontades. Calvino: "Ali Deus estende a mão a todos igualmente, mas só agarra aqueles que escolheu" (Comentário a 2 Pedro, 3.9). Lutzer: "a vontade oculta era que a maior parte da humanidade fosse condenada".
A leitura armínio-wesleyana.
1. A paciência de Deus tem um motivo declarado: dar tempo ao arrependimento. Paciência só faz sentido com quem pode arrepender-se. Se os eleitos não podem deixar de se arrepender e os não eleitos não podem se arrepender, Deus estaria sendo paciente consigo mesmo.
2. Ezequiel 18.23 e 33.11 espelham o texto: Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas em que se converta. O "ímpio" de Ezequiel não é "o eleito ainda não convertido"; é o ímpio.
3. A mão estendida "a todos igualmente", como Calvino admite, é a graça preveniente. Que Deus "só agarre" os escolhidos é o acréscimo do sistema. Deus estende a mão; quem se deixa tomar pela mão é tomado.
4. Se a palavra revelada ("não querendo que ninguém pereça") fosse contradita por uma vontade secreta ("querendo que a maioria pereça"), nada do que Deus diz poderia ser tomado ao pé da letra. Preferimos tomar Deus pela sua palavra.
Wesley (Notas, 2Pe 3.9): "Mas é longânimo para convosco, filhos dos homens. Não querendo que pereça nenhuma alma que ele fez."
Em síntese. Deus é paciente porque quer que todos se arrependam; ninguém que perece estava excluído dessa vontade.
Para o púlpito. Cada dia em que o Senhor "demora" é um dia de paciência com alguém que ainda pode voltar.
Ezequiel 18.23 e 33.11 · Não tenho prazer na morte do ímpio
Texto (NAA): "Vocês pensam que eu tenho prazer na morte do ímpio? Não desejo eu muito mais que ele se converta dos seus caminhos e viva?" (Ez 18.23). "Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos! Por que vocês haveriam de morrer, ó casa de Israel?" (Ez 33.11).
A leitura calvinista. Seria a "vontade revelada", que não alcança a "vontade secreta". White: "se é um desejo verdadeiramente salvífico e verdadeiramente de Deus, não faz ele tudo o que lhe apraz?".
A leitura armínio-wesleyana.
1. Deus jura ("tão certo como eu vivo") que não tem prazer na morte do ímpio. Um juramento divino não admite uma reserva mental secreta.
2. O texto diz o que Deus quer (que o ímpio se converta), ordena o que o ímpio deve fazer (converter-se) e pergunta por que ele morreria. A pergunta só tem sentido se a resposta não for "porque tu decretaste". O desejo de Deus é condicional: quer a vida do ímpio sob a condição de que se volte, e a graça que o chama torna a volta possível.
3. Ezequiel 18.31 acrescenta o mandamento "façam para vocês um coração novo", e Ezequiel 36.26 a promessa "darei a vocês um coração novo". Mandamento e promessa caminham juntos, como sempre na graça: Deus dá o que ordena a quem se volta para recebê-lo.
Wesley (Notas, Ez 18.32): "Não tenho prazer: os pecadores desagradam a Deus quando caminham para a própria ruína; agradam-lhe quando se convertem."
Em síntese. Deus jura que não quer a morte do ímpio e ordena a conversão; quem morre, morre contra o desejo de Deus e por recusa própria.
Para o púlpito. "Por que vocês haveriam de morrer?" é a pergunta evangelística mais antiga da Bíblia, e continua sem resposta boa.
1 João 2.2 · Propiciação pelos pecados do mundo inteiro
Texto (NAA): "E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas também pelos do mundo inteiro."
A leitura calvinista. "Mundo inteiro" seria judeus e gentios como classes, ou os crentes de todas as nações. Sproul distingue suficiência (para todos) de eficácia e desígnio (só para os eleitos).
A leitura armínio-wesleyana.
1. João, que escreve a crentes, contrasta "os nossos" com "os do mundo inteiro". Se "mundo inteiro" fossem os crentes de outras nações, João diria "os nossos e os dos irmãos de outros lugares". A oposição é entre nós, os que cremos, e o mundo, que não crê.
2. "Todo o mundo jaz no maligno" (1Jo 5.19) usa a mesma expressão; ninguém lê ali "o mundo dos eleitos". Deixar a palavra significar o que significa é o princípio mais simples da interpretação.
3. A distinção de Sproul entre suficiência e eficácia é aceitável se se acrescenta o que ele nega: a propiciação é suficiente para todos, oferecida a todos, e eficaz nos que creem. Redenção realizada não é redenção aplicada; a serpente de bronze curava quem olhava.
4. Coords recolhe uma frase registrada nos escritos de Calvino sobre a predestinação que vale guardar: quem quiser excluir os réprobos da participação em Cristo terá de colocá-los fora do mundo.
Wesley (Notas, 1Jo 2.2): "Pelos nossos pecados: de nós, que cremos. E não somente pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro: tão longe quanto o pecado se estende, estende-se também a propiciação."
Em síntese. Tão longe quanto o pecado, tão longe a propiciação; e tão perto quanto a fé, a sua aplicação.
Para o púlpito. Pode-se dizer a qualquer pessoa: "Cristo morreu por você". Jay Adams não podia. Nós podemos.
Romanos 5.18; 2 Coríntios 5.14-19; Hebreus 2.9; 1 Timóteo 4.10; Isaías 53.6; 2 Pedro 2.1; Romanos 14.15 · Por quem Cristo morreu
Texto (NAA): "Por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida" (Rm 5.18). "Um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos" (2Co 5.14-15). "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2Co 5.19). "Para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos" (Hb 2.9). "Salvador de todos, especialmente dos que creem" (1Tm 4.10). "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas [...] mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós" (Is 53.6). "Chegando a renegar o Soberano Senhor que os resgatou" (2Pe 2.1). "Não faça perecer [...] aquele por quem Cristo morreu" (Rm 14.15).
A leitura calvinista. A expiação é "suficiente para todos, eficaz para os eleitos", e os "todos" desses textos seriam "todos os tipos" ou "todos os eleitos". Em 2 Pedro 2.1, "resgatou" seria linguagem de aparência, sobre falsos mestres que apenas pareciam comprados.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Reunidos, estes textos formam um padrão que nenhuma exegese de caso a caso consegue desfazer. Romanos 5.18 põe o "todos" da graça em paralelo exato com o "todos" da condenação: se todos foram condenados em Adão, a todos veio a graça em Cristo. 2 Coríntios 5.14 faz o mesmo: "um morreu por todos; logo, todos morreram". O "todos" por quem Cristo morreu é o "todos" que estava morto, isto é, a humanidade.
2. Isaías 53.6 fecha o "todos nós" nas duas pontas: os que se desviaram e aqueles cuja iniquidade caiu sobre ele são o mesmo grupo. Os calvinistas leem o primeiro "todos nós" universalmente e o segundo restritamente; o versículo não permite.
3. 1 Timóteo 4.10 distingue o "todos" do "especialmente os que creem". Os crentes são um subconjunto; Deus é Salvador de todos em provisão e oferta, e dos que creem em efeito. É a distinção entre redenção realizada e aplicada, que o próprio calvinismo admite ao falar de "suficiência".
4. 2 Pedro 2.1 e Romanos 14.15 tratam do caso limite: pessoas por quem Cristo morreu e que perecem. Os falsos mestres "negam o Soberano Senhor que os resgatou"; o irmão fraco pode "perecer", embora seja "aquele por quem Cristo morreu". Wesley tira a conclusão: "Cristo comprou até os que perecem"; "aquele por quem Cristo morreu pode ser destruído". Se a expiação fosse limitada aos que certamente se salvam, essas frases seriam impossíveis.
5. Hebreus 2.9 diz que Jesus "provou a morte por todos", e o contexto fala de "muitos filhos" conduzidos à glória (2.10): a morte é por todos; a glória, para os que são conduzidos. Wesley: "por todo homem que jamais nasceu ou nascerá no mundo".
6. A expiação universal não é universalismo: o que é provido para todos é recebido pela fé (Rm 3.25; Jo 3.16). A serpente de bronze foi levantada para todos os mordidos; viveu quem olhou.
Wesley (Notas, 2Co 5.15; Hb 2.9; 2Pe 2.1; Rm 14.15): "Ele morreu por todos: para que todos fossem salvos." "Por todo homem que jamais nasceu ou nascerá no mundo." "O Senhor que os comprou, com o seu próprio sangue. E, contudo, esses mesmos homens perecem eternamente. Portanto, Cristo comprou até os que perecem." "Vemos, pois: aquele por quem Cristo morreu pode ser destruído."
Em síntese. Cristo morreu por todos, inclusive pelos que perecem; a morte é provida para o mundo e aplicada aos que creem.
Para o púlpito. A frase "Cristo morreu por você" pode ser dita a qualquer pessoa, sem restrição mental. É o evangelho em cinco palavras.
Parte F · A perseverança e a segurança do crente
A última peça do sistema calvinista é a perseverança garantida dos eleitos. Os textos abaixo são os mais usados para ela, e um deles, Hebreus 6, é o que mais a incomoda. Nossa posição é a de Wesley: segurança real, condicionada à fé que permanece.
João 10.26-29 · As minhas ovelhas ouvem a minha voz; ninguém as arrebatará
Texto (NAA): "Mas vocês não creem, porque não são das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo, e da mão do Pai ninguém pode arrebatar."
A leitura calvinista. Ser ovelha (eleição) precede e causa a fé; e as ovelhas não podem perder-se. White: "É preciso pertencer a Deus, ser uma das ovelhas de Cristo, para ouvir a sua palavra e, portanto, crer" (Debating Calvinism, p. 72).
A leitura armínio-wesleyana.
1. Quem eram as ovelhas naquele momento? Os que já seguiam o Pai em Israel, os que tinham "ouvido e aprendido do Pai" (Jo 6.45). "Vocês não creem porque não são das minhas ovelhas" é o mesmo argumento de João 5.46 e 8.42-47: se fossem de Deus, me reconheceriam. Não é "vocês não creem porque foram reprovados desde a eternidade". Wesley: "porque não me seguem, nem querem: porque são orgulhosos, ímpios, amantes do louvor".
2. A prova de que a condição não era fixa está no versículo 37-38: Jesus manda esses mesmos "não ovelhas" crer nas obras, "para que saibam e compreendam". Não se exorta um réprobo a compreender. A porta do aprisco continuava aberta (Jo 10.9: "se alguém entrar por mim, será salvo").
3. "Ninguém as arrebatará": é a promessa de proteção contra todo inimigo externo. Nem o lobo, nem o ladrão, nem o diabo podem arrancar a ovelha da mão de Cristo. O texto não diz que a ovelha não pode deixar de seguir; diz que, enquanto ouve e segue (v. 27, verbos no presente contínuo), está segura. A ovelha que segue é guardada; a que se desgarra é procurada (Lc 15.4), mas não é carregada à força para sempre.
4. A segurança, portanto, é real e é condicional. Romanos 8.38-39 diz que nenhuma criatura nos separará do amor de Deus; não diz que não podemos, nós mesmos, "naufragar na fé" (1Tm 1.19). Wesley manteve as duas coisas: "nada nos separa", e "desde que você permaneça" (Rm 11.22).
Wesley (Notas, Jo 10.26; Jo 6.37-39): "Vocês não creem, porque não são das minhas ovelhas: porque não me seguem, nem querem." "O que assim vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora: dar-lhe-ei perdão, santidade e o céu, se perseverar até o fim." "De tudo o que ele já me deu, se perseverarem até o fim. Mas Judas não perseverou."
Em síntese. As ovelhas que ouvem e seguem estão seguras na mão de Cristo contra todo inimigo; a segurança é para quem segue, e quem não era ovelha ainda podia entrar pela porta.
Para o púlpito. Pregue a segurança com toda a força: ninguém pode tirar você da mão de Cristo. E pregue a responsabilidade com a mesma força: continue ouvindo a voz e seguindo.
Hebreus 6.4-6 · Os que caíram
Texto (NAA): "É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à zombaria."
A leitura calvinista. Essas pessoas nunca foram salvas de fato; apenas "provaram" sem engolir. Ou, em outra versão, o texto é hipotético.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O texto descreve crentes com as marcas da salvação: iluminados, provaram o dom celestial, participantes do Espírito Santo, provaram a boa palavra e os poderes do mundo vindouro. O autor chama essas coisas de "coisas que acompanham a salvação" (v. 9). Dizer que são incrédulos é dizer que incrédulos participam do Espírito Santo.
2. "Caíram" não é hipótese; é relato de fato (Wesley: "não há aqui uma suposição, mas um simples relato de fato"). O autor adverte crentes reais de um perigo real, como em Hebreus 3.12-14, 10.26-29 e 2 Pedro 2.20-21.
3. O texto desmonta duas peças do calvinismo de uma vez: a perseverança incondicional (crentes caíram) e a expiação limitada (os que caíram "crucificam de novo o Filho de Deus", o que pressupõe que ele foi crucificado por eles; cf. 2Pe 2.1, "negando o Senhor que os resgatou").
4. Aqui tomamos distância de Coords, que ao fim do verbete sugere que esses apóstatas apenas "chegaram perto" da salvação. Não. A nossa tradição, desde Armínio até Wesley, lê Hebreus 6 como apostasia real de crentes reais. Isso não gera insegurança no crente sincero: a advertência é contra o abandono voluntário e total, não contra a fraqueza.
5. A segurança wesleyana não é menor que a calvinista; é diferente. O calvinista diz: "se você é eleito, não cairá; se cair, nunca foi". O wesleyano diz: "você está seguro em Cristo enquanto permanece nele; e a graça que o manteve até aqui quer mantê-lo até o fim".
Wesley (Notas, Hb 6.4-6): "Os que uma vez foram iluminados, com a luz do glorioso amor de Deus em Cristo. E provaram o dom celestial, a remissão dos pecados. E se tornaram participantes do Espírito Santo, do testemunho e do fruto do Espírito. [...] E caíram: não há aqui uma suposição, mas um simples relato de fato. O apóstolo descreve o caso dos que lançaram fora tanto o poder quanto a forma da piedade; que perderam a fé, a esperança e o amor, e isso voluntariamente."
Em síntese. Crentes reais podem cair de modo real; a advertência existe para que permaneçam, e a graça existe para que possam.
Para o púlpito. A pergunta "posso perder a salvação?" tem resposta wesleyana: "pode abandoná-la; ninguém pode tirá-la de você; e Deus fará tudo para que você não a abandone".
Filipenses 1.6 · Aquele que começou a boa obra há de completá-la
Texto (NAA): "Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus."
A leitura calvinista. A obra começada por Deus é infalivelmente completada; logo, o verdadeiro crente não pode perder-se. É, com João 10.28 e Romanos 8.30, o texto preferido da perseverança incondicional. A Confissão de Westminster (XVII.1) afirma que os eleitos "não podem cair total nem finalmente do estado de graça, mas certamente perseverarão nele até o fim".
A leitura armínio-wesleyana.
1. A certeza de Paulo tem fundamento declarado no versículo seguinte: "é justo que eu pense assim de todos vocês, porque os tenho no coração, [...] todos vocês são participantes da graça comigo" (Fp 1.7), e no anterior: "pela cooperação de vocês no evangelho desde o primeiro dia até agora" (Fp 1.5). A confiança de Paulo se apoia na fidelidade visível dos filipenses, não num decreto. É uma certeza pastoral sobre pessoas que estão perseverando.
2. A promessa é de que Deus completará a obra que começou, e não de que o crente não pode abandoná-la. Deus é fiel à sua parte; a carta inteira convoca os filipenses à deles: "desenvolvam a sua salvação com temor e tremor" (2.12), "prossigo para o alvo" (3.14), "permaneçam firmes no Senhor" (4.1). Quem tivesse a garantia de Filipenses 1.6 como incondicional não precisaria de nenhuma dessas exortações.
3. O mesmo Paulo, na mesma carta, não se considera já completo: "não que eu já tenha alcançado" (3.12). A boa obra é completada em quem prossegue. A fidelidade de Deus e a perseverança do crente não competem; são o lado de Deus e o lado do homem da mesma obra (Fp 2.12-13).
4. Lida com Romanos 11.22 e Hebreus 3.14, a promessa é clara: Deus completará a obra "desde que você permaneça", "se guardarmos firme até o fim a confiança".
Wesley (Notas, Fp 1.6): "Estando persuadido: os fundamentos desta persuasão estão postos no versículo seguinte. De que aquele que, tendo-vos justificado, começou a santificar-vos, levará adiante esta obra, até que desemboque na glória."
Em síntese. Deus é fiel para completar o que começou; o crente é chamado a não interromper.
Para o púlpito. Filipenses 1.6 é consolo para quem prossegue, não licença para quem parou.
1 João 2.19 · Saíram de nós porque não eram dos nossos
Texto (NAA): "Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco. Mas eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos."
A leitura calvinista. Quem abandona a fé nunca foi salvo de verdade; a apostasia apenas revela que a pessoa jamais pertenceu a Cristo. O texto seria a explicação calvinista de todos os casos de queda.
A leitura armínio-wesleyana.
1. O contexto é específico: "muitos anticristos" (2.18), mestres que negavam que Jesus é o Cristo (2.22) e que, ao sair, mostraram o que já eram. João descreve um caso real de falsos irmãos; não formula uma lei geral sobre toda apostasia. Há quem saia porque nunca pertenceu; a Escritura também conhece quem pertenceu e caiu (Hb 6.4-6; 1Tm 1.19-20; 2Pe 2.20-21).
2. O próprio João, na mesma carta, fala de permanecer como condição, não como garantia: "se permanecer em vocês o que ouviram desde o princípio, vocês também permanecerão no Filho e no Pai" (2.24); "permaneçam nele, para que [...] não sejamos envergonhados" (2.28); e em 2 João 9, "todo aquele que vai além e não permanece na doutrina de Cristo não tem Deus". Quem "não permanece" é alguém que estava.
3. Wesley lê o "não eram dos nossos" como "quando saíram; seus corações já antes se haviam apartado de Deus". Isto é, a saída visível foi precedida por um afastamento interior; mas esse afastamento foi deles, não um estado eterno de não pertença. A apostasia começa no coração antes de aparecer na porta.
4. A regra calvinista ("se caiu, nunca foi") torna a certeza da salvação impossível no presente: ninguém sabe se "é dos nossos" até ter perseverado até o fim. A leitura wesleyana dá certeza presente pelo testemunho do Espírito (Rm 8.16; 1Jo 5.10) e responsabilidade futura pela permanência.
Wesley (Notas, 1Jo 2.19): "Não eram dos nossos quando saíram; seus corações já antes se haviam apartado de Deus; do contrário, teriam permanecido conosco."
Em síntese. Alguns saem porque nunca foram; outros se afastam no coração e depois na porta. O texto descreve os primeiros; o restante da carta adverte os segundos.
Para o púlpito. Não diga a quem caiu "você nunca foi salvo"; diga "volte, porque o Pai está esperando" (Lc 15.20).
1 Pedro 1.5 e Romanos 8.38-39 · Guardados pelo poder de Deus, mediante a fé
Texto (NAA): "Que são guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para ser revelada no último tempo" (1Pe 1.5). "Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 8.38-39).
A leitura calvinista. Os crentes são guardados pelo poder de Deus e nada pode separá-los do seu amor; logo, a perseverança é garantida pelo poder divino.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Pedro diz como o poder de Deus nos guarda: "mediante a fé". O poder é de Deus; o meio é a fé. Deus guarda quem crê, enquanto crê. Wesley: "somente por ela a salvação é recebida e conservada". A mesma carta avisa que o diabo "anda em derredor, procurando alguém para devorar", e manda resistir "firmes na fé" (1Pe 5.8-9): a guarda de Deus e a firmeza da fé andam juntas.
2. Paulo lista o que não pode nos separar: morte, vida, anjos, principados, presente, futuro, poderes, altura, profundidade, "qualquer outra criatura". É uma lista de forças externas. Nenhuma criatura pode nos arrancar do amor de Deus. O texto não diz que nós mesmos não podemos nos afastar; a Escritura diz que podemos (Hb 3.12; 1Tm 1.19). A apostasia não é separação sofrida; é abandono praticado.
3. Os dois textos descrevem a segurança como a nossa tradição sempre a descreveu: total contra todo inimigo de fora, e condicionada à fé que permanece. Ninguém nos tira da mão de Deus; podemos soltar a mão.
4. A certeza de Romanos 8 é a certeza de quem ama a Deus (8.28), anda segundo o Espírito (8.4) e é guiado por ele (8.14). Para esse, nada no universo é ameaça. Isso não é menos consolo que o calvinista; é o mesmo consolo, sem a presunção.
Wesley (Notas, 1Pe 1.5): "Que sois guardados: a herança está reservada; os herdeiros são guardados para ela. Pelo poder de Deus, que opera tudo em todos e nos protege contra todos os nossos inimigos. Mediante a fé: somente por ela a salvação é recebida e conservada."
Em síntese. O poder de Deus nos guarda mediante a fé, e nenhuma criatura pode nos separar do seu amor; a única mão que pode soltar é a nossa.
Para o púlpito. Romanos 8.38-39 deve ser pregado com toda a força aos que amam a Deus: nada, absolutamente nada, pode arrancá-los do amor de Cristo.
Hebreus 10.26-29; 2 Pedro 2.20-21; Gálatas 5.4; 1 Timóteo 1.19; Hebreus 3.12-14 · Os avisos de apostasia
Texto (NAA): "Porque, se continuarmos a pecar de propósito, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados. [...] Quanto mais severo deve ser o castigo daquele que pisou o Filho de Deus, profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado e insultou o Espírito da graça!" (Hb 10.26, 29). "Se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, o seu último estado se tornou pior do que o primeiro" (2Pe 2.20). "Vocês que procuram justificar-se pela lei estão separados de Cristo; vocês caíram da graça de Deus" (Gl 5.4). "Alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé" (1Tm 1.19). "Tenham cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha um coração mau e descrente, que se afaste do Deus vivo. [...] Porque temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até o fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos" (Hb 3.12, 14).
A leitura calvinista. As advertências seriam os meios pelos quais Deus garante a perseverança dos eleitos: ninguém que é verdadeiramente salvo cai, e as advertências servem justamente para que isso não aconteça. Os que caem eram professantes, não regenerados.
A leitura armínio-wesleyana.
1. Os textos descrevem os que caem com a linguagem da salvação real: "santificado pelo sangue da aliança", "escaparam das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador", "naufragaram na fé", "caíram da graça". Wesley sobre 1 Timóteo 1.19: "ninguém pode naufragar na fé que nunca a teve; estes, portanto, foram outrora verdadeiros crentes". Dizer que nunca foram salvos é contradizer a descrição que o próprio texto faz deles.
2. Hebreus 10.29 é decisivo: o apóstata "profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado". Foi santificado por aquele sangue e o profanou. Wesley tira as duas conclusões: "Cristo morreu também por ele, e ele foi, ao menos uma vez, justificado". Num só versículo caem a expiação limitada e a perseverança incondicional.
3. O argumento de que "as advertências são meios de perseverança" tem um problema lógico: advertir alguém contra um perigo que não pode atingi-lo não é meio de coisa nenhuma. Se o eleito não pode cair, a advertência "para que nenhum de vocês se afaste do Deus vivo" é um susto sem objeto. As advertências são meios de perseverança precisamente porque o perigo é real; é por isso que funcionam.
4. Hebreus 3.14 formula a regra com um "se" que Wesley chama de "a mais forte asserção": somos participantes de Cristo "se guardarmos firme até o fim". A salvação é presente e real; a sua consumação é condicional à perseverança. É a posição de Armínio, de Wesley e de toda a nossa tradição: nem insegurança neurótica, nem presunção; confiança com temor.
5. Nada disso fala de quedas por fraqueza. Wesley insiste que Hebreus 10.26 trata da "apostasia total e voluntária", do que "lançou fora tanto o poder quanto a forma da piedade". O crente que tropeça e se levanta não está em vista; está quem abandona, de propósito, o Filho de Deus.
Wesley (Notas, Hb 10.26, 29; 1Tm 1.19; Hb 3.14): "Pecamos voluntariamente: por apostasia total de Deus." "Pelo qual foi santificado: portanto, Cristo morreu também por ele, e ele foi, ao menos uma vez, justificado." "Ninguém pode naufragar na fé que nunca a teve. Estes, portanto, foram outrora verdadeiros crentes." "Se, mas não de outro modo; e uma suposição feita pelo Espírito Santo equivale à mais forte asserção."
Em síntese. As advertências são dirigidas a crentes reais, contra um perigo real, e por isso são meios reais de perseverança.
Para o púlpito. Pregue as advertências como a Escritura as prega: a irmãos, com amor, "enquanto se chama hoje" (Hb 3.13).
Conclusão · O que cremos, com as palavras de Wesley
Percorridos os textos, podemos dizer o que a nossa tradição crê, sem medo de nenhum versículo.
Cremos na depravação total: ninguém busca a Deus por natureza (Rm 3.11). Mas cremos que a graça de Deus se manifestou a todos (Tt 2.11), que o Espírito convence o mundo (Jo 16.8), que o Filho, levantado da terra, atrai a todos (Jo 12.32), e que por isso todos podem responder. A capacidade é dom da graça, não herança da natureza.
Cremos na eleição: Deus escolheu, antes da fundação do mundo, em Cristo, um povo para ser santo e irrepreensível (Ef 1.4). Mas cremos que a eleição é em Cristo, que Cristo é o Eleito, e que cada pessoa entra na eleição pela fé (Ef 1.13), que Deus conhece de antemão (Rm 8.29; 1Pe 1.2). A eleição é eterna na decisão, gratuita na causa, condicional na aplicação.
Cremos na expiação: Cristo deu a si mesmo em resgate por todos (1Tm 2.6), é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1Jo 2.2), e Deus amou o mundo (Jo 3.16). A provisão é para todos; a aplicação, para os que creem.
Cremos na graça que vem antes e capacita: "ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer" (Jo 6.44). Mas cremos que essa graça é resistível: "vocês sempre resistem ao Espírito Santo" (At 7.51); "rejeitaram, quanto a si mesmos, o plano de Deus" (Lc 7.30); "quantas vezes eu quis, e vocês não quiseram" (Mt 23.37).
Cremos na perseverança: ninguém arrebata as ovelhas da mão de Cristo (Jo 10.28). Mas cremos que a segurança é para quem permanece (Rm 11.22; Jo 15.6; Hb 6.4-6), e que a graça que nos guardou até aqui quer guardar-nos até o fim.
E cremos no caráter de Deus: ele não é autor do pecado (Tg 1.13), não tem prazer na morte do ímpio (Ez 33.11), não quer que ninguém pereça (2Pe 3.9), e faz todas as coisas conforme o conselho de uma vontade "que não é arbitrária, mas flui da retidão da sua natureza" (Wesley, sobre Ef 1.11).
Wesley resumiu tudo isso numa nota de rodapé a 1 Pedro 1.2, e não há resumo melhor: "A verdadeira predestinação, ou determinação prévia de Deus, é esta: 1. Quem crer será salvo da culpa e do poder do pecado. 2. Quem perseverar até o fim será salvo eternamente. 3. Os que recebem o precioso dom da fé tornam-se, por meio dele, filhos de Deus; e, sendo filhos, receberão o Espírito de santidade para andarem como Cristo também andou. Em cada parte desse decreto de Deus, promessa e dever caminham de mãos dadas. Tudo é dom gratuito; e, no entanto, tal é o dom, que o desfecho final depende da nossa obediência futura ao chamado celestial."
Diante da leitura determinista de Romanos 9, Wesley disse, no sermão Graça Livre, a frase que fecha este estudo: "Seja lá o que essa Escritura prove, ela jamais poderá provar isso." Depois de ler os textos um a um, dizemos o mesmo, com tranquilidade e sem hostilidade contra os irmãos que leem diferente. Os textos provam a soberania da graça. Não provam que a graça tenha escolhido uns poucos e deixado os demais de fora antes que nascessem. A oferta é para todos; a entrada é pela fé; a eleição se cumpre em Cristo.
O testemunho da Igreja antiga
Não decidimos a questão pela história, mas a história ajuda a relativizar certezas. Durante os primeiros quatro séculos, nenhum Pai da Igreja leu Romanos 9 ou João 6 como ensino de eleição incondicional de indivíduos para a salvação ou a perdição. Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e João Crisóstomo afirmaram, contra os gnósticos e maniqueus deterministas, que o ser humano responde a Deus com liberdade real, sob a graça. Irineu usou Mateus 23.37 exatamente como nós o usamos. Crisóstomo, comentando João 6.44, registrou que os maniqueus tiravam dali que "nada está em nosso poder", e respondeu que as palavras "não tiram o nosso livre-arbítrio, mas mostram que precisamos muito de auxílio".
O próprio Agostinho, nos primeiros escritos sobre Romanos (por volta de 394), entendia a eleição a partir da fé prevista. A virada aconteceu em 396, na obra a Simpliciano, e mesmo ali tratava-se de uma leitura nova, não da herança recebida da Igreja. A dupla predestinação explícita, com decreto para a perdição, só aparece com Gottschalk, no século nono, e foi condenada nos sínodos da época; Calvino a sistematizou no século dezesseis.
Isso não prova que a leitura determinista esteja errada; quem decide é o texto. Mas lembra a todos que a leitura arminiana não é a novidade na história da interpretação. A novidade é a outra. Quando um irmão calvinista nos acusa de inventar uma doutrina para escapar dos textos, vale lembrar, com mansidão, que lemos esses textos como os leram os que os receberam dos apóstolos.
Fontes da tradição armínio-wesleyana usadas neste estudo
· John Wesley, Notas Explicativas sobre o Novo Testamento (1755) e sobre o Antigo Testamento (1765), na tradução publicada em metodistalivre.org.br/notas.
· John Wesley, sermões Graça Livre (1739), Sobre a Predestinação (1773) e Sobre Operar a Própria Salvação (1785); tratado A Predestinação Serenamente Considerada (1752), disponível em metodistalivre.org.br.
· Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos (1608) e Análise do capítulo 9 de Romanos.
· John Fletcher, Checks to Antinomianism (1771-1775).
· Richard Watson, Theological Institutes (1823-1829).
· H. Orton Wiley, Christian Theology (1940), cap. 26.
· Thomas Oden, John Wesley's Scriptural Christianity (1994).
· Robert E. Picirilli, Grace, Faith, Free Will (2002).
· Jerry L. Walls e Joseph R. Dongell, Why I Am Not a Calvinist (2004).
· Brian J. Abasciano, Paul's Use of the Old Testament in Romans 9 (2005-2022).
· Robert Shank, Elect in the Son (1970) e Life in the Son (1960).
· Richard Coords, Calvinism Answered Verse by Verse and Subject by Subject (2026), usado com os filtros indicados na apresentação.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA). Citações de autores calvinistas: traduções nossas, com a obra indicada quando conhecida. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Índice dos versículos
Gênesis 50.20 · Vocês planejaram o mal, Deus o tornou em bem
Provérbios 16.4 · Até o ímpio, para o dia da calamidade
Atos 2.23 e 4.27-28 · O Calvário foi predeterminado
Tiago 1.13-18 · Deus não tenta ninguém
Efésios 1.11 · Faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade
João 1.9; João 16.8-11; Romanos 2.4; Atos 17.26-27 · A graça que vem antes
Romanos 3.10-12 · Não há quem busque a Deus
Romanos 8.7-8 · A inclinação da carne não pode sujeitar-se
Deuteronômio 30.11-19 e Josué 24.15 · Escolham a vida
Efésios 2.1-10 · Mortos em transgressões, salvos pela graça mediante a fé
João 5.25 · Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus
1 Coríntios 2.14 · A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito
2 Coríntios 4.4 · O deus deste mundo cegou o entendimento
João 1.12-13 · Nascidos de Deus, aos que creem
João 5.40 · Vocês não querem vir a mim
João 6.37-45 e 6.65 · Ninguém pode vir se o Pai não o trouxer
João 12.32 · Atrairei todos a mim
Mateus 11.25-27 · Escondeste dos sábios, revelaste aos pequeninos
Tito 2.11 · A graça que traz salvação a todos
Filipenses 2.12-13 · Deus efetua o querer e o realizar
Filipenses 1.29 e 2 Timóteo 2.25 · Foi concedido crer; Deus conceda arrependimento
Atos 16.14 · O Senhor abriu o coração de Lídia
Atos 7.51 e Lucas 7.30 · Vocês sempre resistem ao Espírito; rejeitaram o plano de Deus
Isaías 5.4; 65.2; Neemias 9.30; Provérbios 1.24-25; Zacarias 7.11-12 · A graça resistida no Antigo Testamento
Efésios 1.3-6 · Escolhidos nele antes da fundação do mundo
Romanos 8.28-30 · Os que de antemão conheceu, predestinou
Romanos 11.5-7 · Remanescente segundo a eleição da graça
2 Tessalonicenses 2.13 · Escolhidos para a salvação pela santificação e fé
2 Timóteo 1.9 · Graça dada em Cristo antes dos tempos eternos
1 Pedro 1.2 · Eleitos segundo a presciência de Deus Pai
Atos 13.48 · Creram os que haviam sido destinados para a vida eterna
Apocalipse 13.8 · Nomes escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo
Judas 4 · Condenação promulgada há muito tempo
João 15.16 · Não foram vocês que me escolheram
João 17.9 · Não peço pelo mundo
Mateus 22.14 · Muitos são chamados, poucos escolhidos
Jeremias 18.1-10 · O barro na mão do oleiro
Romanos 9.6-13 · Amei Jacó, desprezei Esaú
Romanos 9.14-18 · Misericórdia de quem quero, endurecimento de quem quero
Romanos 9.19-24 · O oleiro e os vasos
Romanos 9.30-33 · Porque não a buscou pela fé
Romanos 10.12-17 · Todo aquele que invocar será salvo
Romanos 11.17-24 · A oliveira, os ramos cortados e os enxertados
Romanos 11.32 · Misericórdia a todos
Mateus 23.37 · Quantas vezes eu quis, e vocês não quiseram
João 3.16 · Deus amou o mundo
1 Timóteo 2.4-6 · Deseja que todos sejam salvos; resgate por todos
2 Pedro 3.9 · Não querendo que ninguém pereça
Ezequiel 18.23 e 33.11 · Não tenho prazer na morte do ímpio
1 João 2.2 · Propiciação pelos pecados do mundo inteiro
Romanos 5.18; 2 Coríntios 5.14-19; Hebreus 2.9; 1 Timóteo 4.10; Isaías 53.6; 2 Pedro 2.1; Romanos 14.15 · Por quem Cristo morreu
João 10.26-29 · As minhas ovelhas ouvem a minha voz; ninguém as arrebatará
Hebreus 6.4-6 · Os que caíram
Filipenses 1.6 · Aquele que começou a boa obra há de completá-la
1 João 2.19 · Saíram de nós porque não eram dos nossos
1 Pedro 1.5 e Romanos 8.38-39 · Guardados pelo poder de Deus, mediante a fé
Hebreus 10.26-29; 2 Pedro 2.20-21; Gálatas 5.4; 1 Timóteo 1.19; Hebreus 3.12-14 · Os avisos de apostasia
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