Pular para o conteúdo principal

Sobre o discurso polêmico do Pr. Ed Kivitz a respeito da Bíblia e a questão da homossexualidade

A mensagem do Pr. Ed Renê Kivitz sobre a carta a Filemon abordando a questão da homossexualidade gerou enorme polêmica, e muitos perguntaram minha opinião a respeito. Afirmações do Pr. Ed Kivitz: * A Bíblia é insuficiente. Não é possível tratar a Bíblia como verdades absolutas. * Ela deve ser lida nas entrelinhas e não nas linhas. * Não somos os seguidores de um livro, mas de uma pessoa. * Não devemos nos fixar em três textos que não foram atualizados. * A Bíblia precisa ser atualizada. Reconhecemos que a Bíblia necessita ser contextualizada, mas isto não significa fazer com que ela mude de opinião para se conformar aos valores culturais de cada intérprete. Isto provocaria a relativização da mensagem bíblica que acabaria significando coisas distintas e até contraditórias dependendo do contexto em que for lida. Uma boa hermenêutica faz jus ao significado original do texto bíblico, extraindo daí os princípios para aplicação devida no contexto atual. E, com o auxílio do Espírito Santo seremos capazes de evitar os extremos do fundamentalismo legalista, desprovido de compaixão, de um lado, e do secularismo que solapa a autoridade das Escrituras, do outro. Ler a Bíblia nas entrelinhas e desprezar o que ela diz nas linhas é relativizar o seu ensino, transferindo a autoridade das Escrituras para a subjetividade do leitor. O resultado é a secularização da Bíblia. A Igreja corre o risco de se conformar com este século. (Rm 12.1). Isto destrói os alicerces da fé cristã. Dizer que não devemos seguir um livro, mas uma pessoa é algo que pode até soar bonito para muitos, mas que, de fato, é totalmente incongruente, pois tudo o que sabemos de Cristo procede exatamente deste “livro”. Portanto, desprezar as Escrituras é o mesmo que desprezar a Cristo, pois como disse Jesus, “são elas mesmas que testificam de mim.” (Jo 5.39). Como cristãos evangélicos, devemos reafirmar a autoridade das Escrituras Sagradas (2Tm 3.16-17). Nossa fonte doutrinária é a Bíblia e não a cultura. E é a Igreja que carece de ser continuamente reformada pelas Escrituras e não o contrário. Pois é o ser humano que realmente precisa de uma boa “atualização”! Cumpre-se em nossos dias a profecia do Apóstolo Paulo que diz: “virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, se rodearão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” (2Tm 4.1-5). Não tenho nenhuma observação a fazer quanto a primeira metade do sermão do Pr. Kivitz. Gostei dos primeiros trinta minutos, mas, a partir daí, ao meu ver, ele começou a se distanciar da mensagem da carta de Paulo a Filemon. 

Por exemplo, ele passou a fazer suposições sobre como Onésimo deveria entender a mensagem de Paulo nesta carta, chegando a concluir que suas recomendações seriam do tipo “esperneie”, “reivindique”, etc. Mas não há nada na carta a Filemon que sugira algo assim. Não podemos esquecer que Paulo recomendou que os servos obedecessem seus senhores. O mais provável é que Paulo tenha dado conselhos pessoais a Onésimo nesta mesma linha. Espernear não ajudaria em nada ao próprio Onésimo naquele contexto de escravidão. Paulo não levantou uma bandeira franca contra a escravidão pois entendeu não ser aquele o momento apropriado, pois geraria ainda mais oposição e perseguição à igreja, mas plantou a semente do Evangelho com os princípios que viriam um dia promover o fim da escravidão. Paulo exortou Filemon a tratar o Onésimo como um irmão e como se fosse o próprio Paulo. Isto implicaria em não tratá-lo mais como um escravo. “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e plenos herdeiros de acordo com a Promessa.” (Gl 3.28-29). “onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo em todos.” (Cl 3.11).  Entender a homosexualidade como pecado não é uma conclusão baseada “nas linhas” de três versículos afetados pelos valores culturais de uma época, como alegou o referido pastor, mas em princípios que vão desde o relato do Gênesis da criação de homem e mulher, macho e fêmea, e da constituição do casamento entre homem e mulher, e também das afirmações de que práticas homossexuais que violam tais princípios da criação são consequentemente repulsivas ao Criador e não apenas à sociedade da época do Antigo Testamento (Lv 18.22; 20.13). Nosso Senhor Jesus Cristo, referendou estes princípios. “Ele respondeu e disse: “Vocês não têm lido que desde o princípio o Criador os fez macho e fêmea, e disse: ‘Por essa razão um homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá a sua esposa, e os dois serão uma só carne’?” (Mt 19.4-5). E o Apóstolo Paulo chama as relações homossexuais de “paixões infames”, “contrárias à natureza” (Rm 1.26,27). Portanto, a questão não é meramente cultural, pois tem a ver com uma violação dos princípios da natureza criada por Deus. Razão pela qual Paulo pode afirmar que “nem impuros nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas… herdarão o reino de Deus.” (1Co 6.9–10). Não há um único texto bíblico que favoreça a conduta homossexual. Mas há vários que servem de base contra a escravidão. Enquanto o relato da Criação levanta um forte argumento contra a homossexualidade e não há um único texto bíblico em favor desta prática, por outro lado, este mesmo relato serve de base para libertação dos escravos e há vários outros textos neste mesmo sentido. Portanto, utilizar a carta de Paulo a Filemon para estabelecer um paralelo entre uma questão e a outra não é algo realmente convincente. O Pr. Kivitz concluiu dizendo que devemos tratar a todos como “irmãos”. Mas não foi claro o suficiente para dizer quais as implicações práticas disto e nem sobre como a Igreja deveria hoje “atualizar” estes textos bíblicos que condenam a homosexualidade, e se as relações homossexuais devem ser consideradas pecado ou não; e se homossexuais devem ser recebidos como membros; e se devem ocupar cargos de liderança e se podem exercer o ministério pastoral, se a igreja deve celebrar casamentos gays, etc. Afinal de contas, em que sentido a igreja dele se difere das demais no tratamento prático destas questões? Como cristãos, não devemos desprezar o ensino bíblico em favor do que a cultura entende ser politicamente correto. Por outro lado, devemos evitar a arrogância espiritual que, infelizmente, tem levando muitos a se tornarem legalistas e insensíveis em relação às fraquezas e dilemas dos demais pecadores. Nada de andar por aí com o dedo em riste como juiz de todos. Se estamos em pé, isto se deve a graça e a misericórdia de Deus que nos perdoou, nos redimiu e que nos sustenta. Por natureza humana, não somos melhores do que quem quer que seja. Somos pecadores redimidos seguindo a Cristo, procurando crescer em santidade através da graça e do conhecimento do Senhor, enquanto tentamos também ajudar outros a fazerem o mesmo, pois cremos que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6). Tratemos todas as pessoas com respeito e amor sem deixar de reprovar o pecado, seguindo o exemplo do Senhor Jesus que disse a mulher pega em adultério: “eu também não te condeno, mas vá e não peques mais” (Jo 8.11). Bispo Ildo Mello

Comentários