DIVÓRCIO E NOVO CASAMENTO
Bispo Ildo Mello
A questão do divórcio e do novo casamento é complexa, envolvendo profundas implicações teológicas, éticas e pastorais. Para lidar com o tema, precisamos compreender a tensão entre a vontade de Deus para o casamento e as situações criadas pelo pecado humano que levam muitos casais à separação. Como enfrentar essas realidades, os dramas familiares, e como oferecer auxílio e esperança no Evangelho?
O Ideal Divino para o Casamento
No relato da criação, o casamento é apresentado como a união em “uma só carne” estabelecida por Deus no contexto de um ambiente sem pecado (Gn 2.24). Nesse cenário ideal, a dissolução do matrimônio era inconcebível. Porém, o pecado trouxe ruptura, não apenas na relação entre Deus e o ser humano, mas também entre homem e mulher.
Antes da Queda, ambos foram criados à imagem de Deus (Gn 1.27) e chamados a exercer domínio sobre a criação como parceiros iguais (Gn 1.28). Após a Queda, o pecado introduziu desigualdade e sofrimento: a mulher passou a estar sujeita ao homem (Gn 3.16), enquanto o homem ficou sujeito à terra (Gn 3.19). Essa desigualdade deu origem a práticas como a poligamia (Gn 4.19; 16.3) e o divórcio (Dt 24.1-4), que jamais fizeram parte do plano original de Deus.
As disposições mosaicas sobre o divórcio foram concessões à dureza do coração humano (Mt 19.8 ). Homens podiam repudiar suas esposas, mas as mulheres não tinham o mesmo direito, ficando vulneráveis e muitas vezes expostas à miséria. Ainda assim, Deus, em Sua misericórdia, estabeleceu regulamentos para mitigar o sofrimento, como a exigência de uma carta de divórcio para proteger as mulheres repudiadas (Dt 24.1-4).
Deus odeia o divórcio (Ml 2.16), não apenas por ser contrário ao propósito original, mas também pelos danos que ele causa, especialmente às mulheres e aos filhos. Contudo, a regulamentação mosaica reflete a compaixão divina diante das realidades de uma humanidade caída.
O Ensino de Jesus sobre o Divórcio
Durante Seu ministério, Jesus reafirmou o padrão original para o casamento: “Portanto, o que Deus ajuntou, não separe o homem” (Mt 19.6). Ele retirou o direito autoritário dos homens de repudiar suas esposas por qualquer motivo e limitou o divórcio a casos de infidelidade conjugal (Mt 5.31-32; 19.9).
Jesus enfatizou que o divórcio e o novo casamento fora desse contexto equivalem a adultério (Mc 10.11-12; Lc 16.18). Sua posição é clara: o divórcio nunca foi parte do ideal de Deus, mas Ele permitiu a separação em casos de adultério como um recurso de misericórdia para o cônjuge inocente.
A Perspectiva Pastoral de Paulo
O apóstolo Paulo, ao tratar de questões matrimoniais, reafirma o ideal divino, mas também introduz uma nova exceção: a deserção. Ele escreve: “Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz” (1Co 7.15).
Essa exceção pastoral reconhece que Deus nos chama à paz, permitindo o divórcio e o novo casamento quando há abandono ou ameaça à vida. Assim, além do adultério, Paulo reconhece que o abandono do lar pelo cônjuge descrente é uma situação que justifica a dissolução do casamento.
Questões Teológicas e Pastorais
É fundamental que a igreja trate cada caso com discernimento pastoral e sensibilidade à graça de Deus. Enquanto pregamos o ideal divino, enfrentamos uma realidade marcada por corações endurecidos e relacionamentos quebrados.
Devemos lembrar que o perdão de Deus cobre pecados do passado pré-conversão, tornando o pecador uma nova criatura em Cristo (2Co 5.17). Portanto, as restrições bíblicas ao divórcio não se aplicam a crentes divorciados antes de sua conversão.
Reflexões Teológicas Adicionais
1. Graça e Misericórdia: Jesus demonstrou compaixão em casos de pecado, como na história da mulher adúltera (Jo 8.1-11). A igreja deve seguir esse exemplo, equilibrando a proclamação do padrão divino com a oferta de perdão e restauração.
2. Oséias e Gômer: A história de Oséias (Os 1-3) ilustra o compromisso fiel de Deus, mesmo diante da infidelidade. Isso aponta para o chamado à reconciliação e ao amor redentor sempre que possível.
3. Exegese dos Termos Gregos: A palavra “porneia” (relações sexuais ilícitas) em Mateus 19.9 é crucial para compreender as bases bíblicas para o divórcio. Além disso, a expressão “não sujeito à servidão” (1Co 7.15) reforça a ideia de que o cônjuge inocente está livre para se casar novamente.
4. Perspectiva Escatológica: O casamento reflete a união entre Cristo e a Igreja (Ef 5.31-32; Ap 19.7-9). Isso nos chama a enxergar o casamento como um símbolo do plano redentor de Deus.
O Papel da Igreja
A igreja deve ser um lugar de acolhimento, cura e restauração. Pessoas divorciadas frequentemente carregam cicatrizes profundas e precisam de apoio amoroso para reconstruir suas vidas. Algumas iniciativas práticas incluem:
• Estabelecer ministérios de aconselhamento para casais em crise.
• Criar grupos de apoio para divorciados.
• Ensinar regularmente sobre os princípios bíblicos do casamento.
Além disso, a igreja deve ajudar os casais a enxergar o casamento como um reflexo do amor sacrificial de Cristo, promovendo reconciliação sempre que possível. Contudo, deve-se reconhecer que, em situações de traição ou abandono, o divórcio pode ser inevitável.
Conclusão
Embora o divórcio nunca tenha sido parte do ideal divino, a Bíblia reconhece que ele pode ser necessário em casos de infidelidade ou deserção. Nessas situações, a graça de Deus se manifesta em restaurar vidas quebradas e oferecer um novo começo.
A igreja, como comunidade redentora, deve proclamar o padrão de Deus para o casamento, mas também ministrar compaixão àqueles que sofrem as consequências do pecado. Deus é especialista em transformar cinzas em beleza (Is 61.3), e é essa esperança que devemos transmitir ao mundo.
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