A Mulher e o Dragão de Apocalipse 12
Por Bispo Ildo Mello
Introdução: Contextualizando Apocalipse 12
O livro de Apocalipse é uma obra profundamente simbólica e rica em imagens apocalípticas, escrita para cristãos que viviam sob intensa perseguição durante o primeiro século. Escrito pelo apóstolo João enquanto estava exilado na ilha de Patmos, o Apocalipse oferece uma mensagem de esperança e vitória para a Igreja primitiva, que enfrentava ameaças tanto de dentro quanto de fora. A mulher e o dragão, personagens centrais de Apocalipse 12, encapsulam essa luta entre o povo de Deus e as forças do mal, oferecendo uma visão cósmica da batalha espiritual que se desenrolava na história.
Perspectivas de Interpretação do Apocalipse
Antes de explorarmos a interpretação específica de Apocalipse 12, é importante considerar as diferentes abordagens que teólogos e estudiosos adotam ao interpretar o livro de Apocalipse. Essas abordagens influenciam como os símbolos e eventos são compreendidos:
- Perspectiva Idealista: Esta visão interpreta o Apocalipse como uma alegoria atemporal da luta entre o bem e o mal, sem se referir a eventos históricos específicos. Para os idealistas, figuras como a mulher e o dragão simbolizam princípios espirituais e morais aplicáveis a todas as eras, refletindo a contínua batalha espiritual enfrentada pela Igreja.
- Perspectiva Historicista: Os historicistas veem o Apocalipse como um esboço profético da história da Igreja desde o tempo dos apóstolos até o fim dos tempos. Eles identificam eventos específicos da história da Igreja com as visões apocalípticas. Nessa perspectiva, a mulher poderia representar a Igreja em diferentes períodos históricos, enquanto o dragão simboliza as forças opressoras que se levantam contra ela ao longo dos séculos.
- Perspectiva Futurista: Os futuristas interpretam a maior parte do Apocalipse, incluindo o capítulo 12, como eventos que ocorrerão no fim dos tempos. Para eles, a mulher representa o Israel fiel ou a Igreja durante a grande tribulação, enquanto o dragão é visto como uma manifestação do poder satânico nos últimos dias, culminando na batalha final entre o bem e o mal.
- Perspectiva Preterista Parcial: A interpretação adotada neste artigo é a preterista parcial, que entende que muitas das profecias do Apocalipse foram cumpridas no primeiro século, durante a perseguição romana contra os cristãos e a destruição de Jerusalém, mas reconhece que algumas partes do Apocalipse ainda se referem a eventos futuros. Nessa visão, a mulher simboliza tanto Maria quanto o povo de Deus, e o dragão é identificado com Roma e suas forças opressoras, mas o cumprimento final de algumas profecias ainda aguarda o retorno de Cristo e o estabelecimento do seu reino.
Quem é a Mulher?
A mulher descrita em Apocalipse 12 representa tanto Maria quanto o povo de Deus, a comunidade composta pelo remanescente fiel de Israel, abrangendo tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Para entender plenamente esta figura, é útil explorar tanto a sua personificação em Maria, mãe de Jesus, quanto sua representação simbólica como Israel e a Igreja.
A Mulher e Maria
Essa mulher pode ser interpretada como uma figura de Maria, cuja experiência foi marcada por dores de parto agravadas pela exaustiva viagem e pela dificuldade em encontrar um lugar adequado para dar à luz, restando-lhe conformar-se em fazê-lo em um local tão inóspito quanto um estábulo. Sabemos que o filho de Maria, Jesus Cristo, é o Messias destinado a reger toda a terra, e que, ao nascer, foi perseguido pelo sanguinário rei Herodes (Mateus 2:1-15), representante do Dragão. Este Dragão é uma figura que simboliza o poder maligno de Roma, conhecida como a cidade das sete colinas.
No entanto, é importante ressaltar que, na tradição cristã, a visão mais comum é que a mulher de Apocalipse 12 simboliza algo maior do que apenas Maria. Ela é frequentemente interpretada como um símbolo coletivo do povo de Deus, abrangendo tanto Israel quanto a Igreja. Lembrando do ensino de Paulo sobre Jesus ter derrubado a parede de separação entre judeus e gentios e de ambos ter constituído um único povo sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos (Efésios 2). Nesse sentido, Maria pode ser vista como uma personificação particular dentro deste símbolo mais amplo. Ela representa a culminação da história redentora de Israel, de onde o Messias veio, e ao mesmo tempo, faz parte do povo de Deus que, como um todo, sofre, luta e é vitorioso em Cristo.
Esta interpretação permite que vejamos Maria não apenas como a mãe de Jesus, mas também como uma figura que encapsula a fidelidade e a esperança do povo de Deus ao longo da história. Enquanto Maria desempenha um papel crucial no plano divino, a mulher de Apocalipse 12 também aponta para a contínua experiência do povo de Deus como o "remanescente fiel" que é perseguido, mas protegido e sustentado por Deus.
Referências Históricas:
- Roma, no auge de seu poder, controlava vastas regiões do mundo antigo, incluindo dez províncias principais. O poder de Roma foi simbolicamente associado a Satanás, refletindo seu papel como opressor do povo de Deus.
- O massacre dos inocentes ordenado por Herodes após o nascimento de Jesus (Mateus 2:16-18) é um exemplo histórico do esforço do Dragão para destruir o Messias desde o início de sua vida.
A Mulher como o povo de Deus
Além de Maria, a mulher também representa a "raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus" (1 Pedro 2:9; cf. Êxodo 19:5-6), do qual descende o Cristo. A descrição de Apocalipse 12 remete a Israel, que escapou do dragão (Faraó) para o deserto nas asas de uma águia (Êxodo 19:4; cf. Salmos 74:12-15), e nos faz lembrar do sol, da lua e das estrelas do sonho de José (Gênesis 37:9). Sião é a "mãe" do povo de Deus, de onde procede o Messias (Isaías 66:7-9; 2 Esdras 13:32-38). Paulo explica que Jerusalém é a mãe de todos nós, cristãos (Gálatas 4:26). "Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque" (Gálatas 4:28). Israel teve 12 tribos, e a igreja, 12 apóstolos. Sem uma comunidade messiânica remanescente e fiel, não poderia ter havido nem Maria, nem o Messias. Assim, cumpre-se a mais antiga promessa de Deus a respeito de um descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente (Gênesis 3:15).
Referências Históricas:
- O Êxodo do Egito e a subsequente jornada de Israel pelo deserto são eventos centrais na história do povo de Deus, frequentemente invocados na literatura bíblica como símbolos de libertação e proteção divina.
- As 12 tribos de Israel e os 12 apóstolos da Igreja primitiva refletem a continuidade do povo de Deus ao longo da história, reforçando a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.
A Fuga da Mulher para o Deserto
A mulher foge para o deserto (Apocalipse 12:6). Jesus advertiu seus discípulos sobre a abominação da desolação, mencionada pelo profeta Daniel, que promoveria a destruição de Jerusalém. Ele disse que deveriam fugir da cidade assim que vissem a aproximação do exército romano: "Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos, saibam que a sua devastação está próxima. Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes" (Lucas 21:20-21). Foi assim que a Igreja fugiu de Jerusalém para Pella antes do cerco que levou à destruição total da cidade em 70 d.C.
A mulher permanece "no deserto" por 1.260 dias (3 anos e meio, ou 42 meses; cf. Daniel 7:25; 8:14; 9:27; 12:7, 11, 12), um símbolo de nossa peregrinação até a entrada na Terra Prometida. Números 33 menciona que foram 42 os acampamentos de Israel no deserto. É interessante observar que a guerra contra os judeus em Jerusalém durou exatamente 42 meses. Vespasiano foi comissionado por Nero em fevereiro de 67 d.C., e a cidade caiu em agosto de 70 d.C. Além disso, a perseguição de Nero aos cristãos também durou exatos 42 meses (de meados de novembro de 64 ao início de junho de 68, quando ele cometeu suicídio).
Referências Históricas:
- Eusébio menciona que os cristãos de Jerusalém foram orientados por uma revelação divina para fugirem para Pella, na Pereia, antes do cerco de Jerusalém. Essa fuga é vista como uma proteção providencial de Deus para preservar a Igreja primitiva. ”História Eclesiástica" (Eusébio de Cesareia, Livro III, Capítulo V). Jesus já havia orientado os discípulos a fugirem de Jerusalém quando vissem os exércitos se aproximando da cidade (Lucas 21:20-21).
- O cerco de Jerusalém e a destruição do templo em 70 d.C. marcaram um ponto de virada na história de Israel e do cristianismo, sendo um cumprimento das profecias de Jesus registradas em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21. (Flávio Josefo. História dos Hebreus: Guerra dos Judeus. Tradução de Vicente Pedroso. São Paulo: Pensamento, 2004).
Quem é o Dragão?
O livro de Apocalipse foi escrito para os cristãos das sete igrejas da Ásia Menor, que enfrentavam uma intensa perseguição por parte do Império Romano. Quando consideramos o contexto desses cristãos, as descrições apocalípticas do Dragão e da Besta ganham um significado mais profundo e relevante. Essa perseguição estava sendo conduzida sob a autoridade do imperador, cujo nome, Nero César, corresponde numericamente a 666 em hebraico. João, ao instruir os cristãos daquela época a calcular o número 666, sugere que se tratava de um governante contemporâneo, familiar para eles.
No entanto, a Besta, que simboliza o ciclo de maldade e opressão, não se limita a Nero, mas se repete ao longo da história em diferentes governantes tirânicos. Por exemplo, o imperador Domiciano também exibiu características de crueldade e perseguição semelhantes às de Nero. Esse padrão de tirania não é exclusivo do passado, pois figuras semelhantes continuarão a surgir, culminando em um tirano final nos últimos tempos.
Referências Históricas:
- Suetônio, em sua biografia sobre Nero, relata detalhadamente a crueldade e a perseguição que esse imperador infligiu aos cristãos, características que frequentemente são associadas à figura da Besta em Apocalipse 13. A identificação de Nero com o número 666 é baseada na gematria, onde as letras hebraicas de seu nome (נרון קסר - Neron Kaisar) somam exatamente 666, reforçando essa associação simbólica. (Suetônio. A Vida dos Doze Césares. Tradução de Francisco Achcar. São Paulo: Editora Escala, 2009.)
- Se considerarmos a contagem de imperadores a partir de Júlio César, Nero seria o sexto, correspondendo à figura de "aquele que é" mencionada em Apocalipse 17:10. Galba, seu sucessor imediato, seria o sétimo imperador. A morte de Nero e a breve ascensão de Galba são eventos históricos que se alinham com a descrição profética das "sete cabeças" do Dragão em Apocalipse. Essas "sete cabeças" simbolizam não apenas a sucessão de poder, mas também a continuidade do ciclo de tirania e opressão que marcou o governo de Nero e se estendeu a seus sucessores. Esse período turbulento da história romana serve como pano de fundo para a visão apocalíptica de João, que adverte sobre a repetição desse ciclo de maldade e perseguição a Igreja ao longo dos tempos.
A Queda do Dragão
O relato do dragão sendo expulso do céu não é a "explicação" para a origem de Satanás, mas o resultado da vitória de Cristo na Terra (Apocalipse 12:10-11). "Ele respondeu: 'Eu vi Satanás caindo do céu como um relâmpago. Eu lhes dei autoridade para pisarem sobre cobras e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; nada lhes fará dano'" (Lucas 10:18-19). Em outra passagem, Jesus reafirma que a expulsão de Satanás estava ocorrendo no tempo de Cristo aqui na terra: "Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim" (João 12:31-32).
Embora Satanás já tenha sido derrotado na batalha decisiva da cruz, tendo sido expulso de sua posição elevada, ele desce à terra enfurecido e desesperado para perseguir a Igreja, sabendo que pouco tempo lhe resta. Cristo subiu aos céus, mas a Mulher e o restante de seus descendentes são perseguidos pelo Dragão (Apocalipse 12:13-16). Os cristãos primitivos facilmente se enxergaram dentro deste quadro como a Mulher e seus filhos perseguidos.
Conclusão: Aplicação Teológica Prática
A visão de Apocalipse 12 nos oferece uma rica tapeçaria simbólica que abrange tanto a história de Maria quanto a do povo de Deus, culminando na vitória de Cristo e na contínua batalha contra o mal. A mulher representa a Igreja em sua luta contínua contra as forças do mal, simbolizadas pelo Dragão. Isso nos lembra que, assim como a Igreja primitiva enfrentou perseguições, os cristãos de hoje também devem estar preparados para as provações e tribulações.
Aplicação Prática:
- Resiliência na Fé: Assim como a mulher foi protegida no deserto, a Igreja é chamada a confiar na provisão e proteção de Deus em tempos de perseguição e dificuldades.
- Vitória em Cristo: A derrota do Dragão e sua expulsão do céu são um lembrete de que, apesar das lutas que enfrentamos, a vitória final já foi conquistada por Cristo. Isso nos dá esperança e coragem para perseverar.
- Comunidade de Fé: A mulher simboliza a Igreja como uma comunidade de fé, unida em torno de Cristo. Isso nos encoraja a apoiar uns aos outros, vivendo como uma família espiritual que compartilha tanto as alegrias quanto as lutas da vida cristã.
Ao entender a mulher como a Igreja, somos convidados a ver a nossa própria participação nessa narrativa de luta e esperança. A mensagem de que, apesar das perseguições, a vitória é certa em Cristo, é um lembrete poderoso para os cristãos de todas as épocas.
Bibliografia
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- Witherington III, Ben. Revelation. The New Cambridge Bible Commentary. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
- Osborne, Grant R. Revelation. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2002.
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