Batalha Espiritual
Por Bispo José Ildo Swartele de Mello
Introdução
A história da humanidade registra uma infinidade de guerras
e na própria Bíblia temos o registro de muitas delas. Mas existe um tipo
importante e especial de guerra que muitos desconhecem. Trata-se da guerra de
natureza espiritual. O Apóstolo Paulo ensina que a nossa luta não é contra a
carne e sangue, mas é, de fato, contra os espíritos malignos que atuam numa
esfera espiritual (Ef 6.12).
Quando Paulo ensina que nossa luta não é contra a carne e
sangue, o que ele quer transmitir é que nosso adversário não é humano. Nesta
luta espiritual não lutamos contra alguém de carne e osso, mas batalhamos
contra o diabo (1 Pe 5.8; Ef 6.12), contra as influências negativas do mundo
(1Jo 2.15-17) e contra as paixões desordenadas de nossa própria carne (Co 3.5;
Tg 1.14 e 2Pe 2.18) .
A Bíblia não apenas nos fala a respeito da existência desta
guerra espiritual, mas também nos ensina como combater. “Embora andando na
carne, não militamos segundo a carne” (1Co 10.3).
Cuidado com fogo
estranho no altar
Infelizmente, existem aqueles que não se atém ao puro ensino
das Escrituras Sagradas e se deixam levar por toda sorte de ventos de doutrinas
pagãs. Quando se pensa em uma guerra do bem contra o mal, dos anjos contra os
demônios, do céu contra o inferno, de Cristo contra o anticristo e da Igreja
contra as trevas, não podemos cair na tentação do dualismo, pois, como bons
cristãos, devemos crer e confessar a existência de "um só Deus e Pai de
todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos" (Ef 4:6). Tal verdade
por si só já bastaria para nos livrar de uma série de práticas e rituais
místicos que nada tem a ver com o cristianismo e que revelam muito mais o
assombro diante do maligno do que a paz e a alegria que são peculiares aqueles
que confiam e esperam em Deus.
Crentes com medo do
diabo
Muitos crentes estão enchendo tanto a bola do diabo que
acabam ficando com medo dele, esquecendo-se do ensino de Cristo: "não
temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que
pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28).
Confesso que eu tinha muito medo de demônios e de fantasmas
quando era criança. Perturbado, chegava a passar noites em claro. Por conta
disto, certa vez, um pastor veio me visitar. Ele conversou um pouco comigo,
fazendo algumas perguntas simples e diretas que me ajudaram a refletir melhor
sobre a insensatez de meus temores.
Primeiramente ele me perguntou se eu acreditava em Deus, depois perguntou se eu
confiava na natureza amorosa de Deus, e por fim arrematou: “Quem é maior, Deus
ou o diabo?”. Deste modo, aquele pastor me ajudou a perceber que eu estava
depositando muito mais confiança no poder do mal do que no poder e no cuidado
de Deus.
Não devemos, portanto, em nossa guerra contra o mal, dar
lugar ao medo e nem ficar paranoicos e fissurados com os demônios e suas
artimanhas, pois devemos saber em quem é que temos crido e estarmos bem certos
e seguros de que Ele reina soberano sobre tudo (2 Tm 1.12; Jó 19.25). A posição
do crente é muito privilegiada, pois nesta guerra, ele é mais do que vencedor
em Cristo Jesus (Rm 8.37), e já está assentado juntamente com Jesus acima de
todo principado e potestade nas regiões celestiais (Ef. 2.6). Temos uma aliança
com o Todo Poderoso Deus, aliança esta que foi selada com o sangue do próprio
Senhor Jesus Cristo! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação! A quem
temerei (Sl 27)?!" E "se Deus é por nós, quem será contra nós?!"
(Rm 8.31).
Sendo assim, não devemos superestimar o poder do mal, mas
também não devemos subestima-lo. O diabo tem uma certa liberdade de ação e
influência sobre os homens, gerando um sistema corrompido de valores. É neste
sentido que a Bíblia afirma que Satanás é o Deus deste Mundo, que jaz no
maligno (Mt 4:8, 2 Co 4:4; 1 Jo 5:19; cf. Jo 12:31; 14:30; Jo1:5; 12:46). Mas
isto não quer dizer que o Diabo seja Senhor da Terra, pois sabemos que, de
fato, "do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele
habitam" (Sl 24:1 e ver também 1 Co 10.26) e concordamos com Jesus que
declarou que todo o poder lhe foi dado sobre os céus e a terra (Mt 28.18).
Vejamos o que diz a Bíblia a este respeito, começando pelo
livro de Jó.
Batalha espiritual
no Livro de Jó
O livro de Jó também nos ensina que o diabo não possui
autonomia para agir como bem entende. Quando ele quis provar a Jó, precisou
pedir o consentimento de Deus e foi o próprio Deus quem estabeleceu os limites
desta provação (Jó 1.12). Satanás também precisou solicitar autorização para
poder peneirar a Pedro (Lc 22.31). E, no episódio do espinho da carne de Paulo
registrado em 2 Co 12, vemos como Deus, em sua soberania, pode se valer até
mesmo dos demônios e das enfermidades visando um fim proveitoso e
incomparavelmente superior a qualquer aflição. Deus se vale do diabo e do mundo
para nos exercitar, experimentar, aperfeiçoar com vistas a extrair o melhor de
nós para sua glória. Meditemos no livro de Jó.
Uma preciosa lição deste livro é que o que está em jogo na
guerra espiritual não é quem é maior e mais poderoso, se Deus ou o Diabo, pois
está fora de questão o poder e a soberania de Deus sobre tudo e todos. No
entanto, o que o diabo questionou foi se Jó amava realmente a Deus sobre todas
as coisas. O diabo levantou suspeitas sobre a integridade do amor de Jó por Deus.
Ele estava insinuando que ninguém seria capaz de amar a Deus sem segundas
intenções.
É interessante notar que, mesmo diante de tantas
tribulações, Jó jamais se reporta ao diabo, mas vence a guerra espiritual
falando com Deus e contando com a ajuda divina para permanecer ao lado de Deus
mesmo diante da mais forte provação.
Penso que esta foi também a guerra espiritual vivida por
Pedro quando o próprio Senhor o chamou e disse: "Simão, Simão, eis que
Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo. Eu, porém, roguei por ti,
para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os
teus irmãos" (Lc. 22:31, 32). Note que quando Satanás pede para peneirar a
Pedro, Jesus não responde como muitos costumam fazer, dizendo: "tá
amarrado". Pelo contrário, Jesus disse apenas que iria orar por ele para
que sua fé não desfalecesse, pois Jesus sabia que era necessário que Pedro
passasse por tal provação visando seu amadurecimento espiritual, para que,
depois de tudo, Pedro pudesse confessar seu amor a Jesus de todo o coração.
Portanto, a batalha espiritual é uma questão que tem a ver
com o grande mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas (Mc 12.30) e não
com a questão sobre quem é mais poderoso, pois o diabo não discute o poderio de
Deus, mas lança dúvidas a respeito da integridade do amor dos homens por Deus.
Mapeamento
Geográfico
Existem muitas práticas de Batalha Espiritual que não
encontram o devido respaldo bíblico. Uma delas é a que ensina ser necessário
fazer um mapeamento geográfico para descobrir que demônios atuam em determinada
região para batalhar contra eles em oração com o intuito de sermos
bem-sucedidos na pregação do Evangelho.
Embora, os demônios pareçam estar organizados e distribuídos
geograficamente em sua luta por influenciar a Terra (Dn 10: 13,20), a Bíblia
não nos ensina nada a respeito da necessidade e da importância estratégica de
identificar os nomes dos demônios que atuam em determinado território e combater
contra eles em oração, procurando amarrá-los ou destrona-los, visando o sucesso
da obra de evangelização.
Jesus jamais ensinou seus discípulos sobre a necessidade de expulsar
satanás de uma localidade antes de evangeliza-la. O que temos é um exemplo que contraria
tal ideia, naquele episódio em que Jesus mandou uma legião de demônios para o
abismo na cidade de Gadara, mas, a despeito disto, não houve uma evangelização
em massa naquela cidade, pelo contrário, os gadarenos rejeitaram a Cristo. Vai
ver que Jesus não seguiu todos os passos sugeridos pelos atuais mestres de
batalha espiritual.
O Apóstolo Paulo também não travou uma batalha espiritual
para destronar Satanás na corrupta cidade de Corinto antes de
evangeliza-la. Se um mapeamento
territorial dos espíritos malignos fosse necessário e fundamental para o
sucesso da missão da igreja, certamente haveria exortações a este respeito na
Bíblia. Mas, não há! E isto deveria ser um argumento forte o suficiente para um
cristão que procura pautar sua fé e prática nas Escrituras Sagradas.
Palavras tem poder?
O movimento de confissão positiva ou da teologia da
prosperidade, exacerba o poder das palavras, afirmando que as palavras, por si
só, tem poder para gerar realidades. Dizem que é perigoso dizer que está
doente, pois isto traz doenças. Para eles as palavras possuem vida em si
mesmas, por esta razão ensinam que as pessoas devem fazer sempre confissões
positivas. Por exemplo, mesmo quando estão doentes, elas devem dizer que estão
saudáveis. Veja que tal conceito nada tem de cristão, pois nele Deus está
completamente alheio, e o sujeito passa a lidar com um mundo onde as palavras
possuem poderes mágicos de se materializarem.
Pensando assim, vemos pastores e crentes declarando,
decretando, amarrando e cancelando uma porção de coisas. Jesus nos ensinou a
orar como um ato humilde de pedir e não de declarar. A Bíblia não nos ensina a
declarar e a confessar palavras positivas para que elas se materializem, mas
nos ensina a declarar a verdade e a confessar os pecados. Se minha casa estiver
pegando fogo, é melhor que eu declare isto a todos os pulmões: “Fogo!”. Pois a
negação do fato em nada me ajudará.
As palavras
não possuem tanto poder como querem alguns, conforme concluímos das seguintes
passagens:
E, se o irmão ou a irmã
estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos,
e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que
proveito virá daí? (Tg 2:15-16)
“Meus filhinhos, não
amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 Jo 3:18).
Tá Amarrado!
Diversas religiões não cristãs sempre atribuíram poderes
extraordinários aos pronunciamentos de benção e maldição, pois creem que uma
vez proferida uma maldição, ela passa a ter vida própria, não sossegando até o
cumprimento de seu desígnio. E, para se ver livre de tal encanto, um homem
precisaria recorrer a um feitiço ainda maior. Perceba que, assim, tudo fica no
campo da magia. Tal ideia é dualista, gnóstica e antropocêntrica e implica numa
negação da soberania de Deus, por colocar o destino das pessoas nas mãos ou
palavras de outros seres humanos.
A infiltração do misticismo e da superstição nas igrejas evangélicas do Brasil é algo assustador. Muitos evangélicos substituíram as "três batidinhas na madeira" por uma nova forma de esconjuro, usando em todo o tempo a expressão "TÁ AMARRADO!", procurando, assim, quebrar o poder de uma palavra negativa, exorcizando um mal. E, por causa de tal influência pagã, muitos crentes sinceros estão ficando obcecados por "Batalha Espiritual", chegando a desenvolver uma grande sensibilidade e uma percepção muito forte da presença do maligno. Por mais que tentem, não conseguem disfarçar seu nervosismo e inquietude que são frutos de desconfiança e temor. Ficam arrepiados e atribuem isto a um pretenso discernimento espiritual.
Biblicamente falando, o pecado é que traz maldição, pois o pecado separa o homem de Deus. Deus é a única fonte de bênçãos. Bênção é o oposto de maldição. Maldição seria, então, estar distante de Deus.
Jesus não nos ensina a amarrar a Satanás, mas a expulsar
demônios. O próprio Jesus já amarrou Satanás por isto podia saquear a casa do
"valente" (Mt 12.22-29). Agora, portanto, uma vez amarrado, Satanás
não pode impedir o avançar da Missão de Cristo e de sua Igreja (Mt 16.18;
24.14; 28.18s; Mc 13.10, At 1.8). e deu autoridade aos discípulos sobre os
demônios.
A Igreja, que é o Corpo de Cristo, segue na mesma missão sem
poder ser definitivamente impedida pelas forças do inferno, pois sabemos que
"as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16.18b)! E
João disse: "a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram
contra ela" (Jo 1.5). Pois Jesus é o Rei e, como tal, tem todo poder no
Céu e na Terra (Mt 28.18).
Existe um outro texto que, a semelhança de Mateus 12.28s,
também está num contexto de expulsão de demônios, tratasse de Lucas 10.17-24,
que descreve a alegria que os discípulos estavam experimentando por terem sido
capazes de exercer autoridade sobre os demônios. E é interessante notar que
aqui Jesus também menciona algo sobre a
derrota e a perda de poder de Satanás, mas só que, em vez de dizer que Satanás
está preso ou amarrado, ele o descreve como um ser caído do céu, um sinal
evidente de que seu poderio havia sido tremendamente abalado. E, para confirmar
esta ideia, no v. 22, Jesus declara que tudo lhe foi entregue pelo Pai.
João 12.31,32 é outro texto que mostra como a queda ou
aprisionamento de Satanás estão diretamente associados à atividade missionária
dos discípulos, pois a expulsão de Satanás está associada com o fato de que
judeus e gentios estão sendo atraídos a Cristo.
Para reforçar ainda mais esta interpretação temos textos
como 2 Pedro 2.4, que falam dos demônios como já tendo sido lançados no abismo:
"Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no
inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo". E
Judas 6 fala dos demônios como já tendo sido presos e algemados sob trevas:
"e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o
seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o
juízo do grande Dia".
Notar também que o próprio livro do Apocalipse fala deste
abismo em outros capítulos: "Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do
poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço,
escureceu-se o sol e o ar" (Ap 9:2)... "e tinham sobre eles, como seu
rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego,
Apoliom" (Ap 9:11)... "Quando tiverem, então, concluído o testemunho
que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá,
e matará" (Ap 11:7)... "A besta que viste, era e não é, está para
emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a
terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do
mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá" (Ap
17.8). Observe que é dito que a Besta surge do Abismo para pelejar contra os
santos, o que concorda com Ap 20.3 que diz que é necessário que seja solto do
Abismo por pouco tempo (Compare com Ap 12.12, que fala da última investida de
Satanás, tendo consciência de que pouco tempo lhe resta). Vemos, então, que a
besta somente surge do abismo após o cumprimento do testemunho (Ap 11.7). Pois
é necessário que primeiro o Evangelho seja pregado para testemunho a todas as
nações, só, então, virá o fim. A Igreja será bem sucedida em sua missão e as
portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mc, 13.10; Mt 16.18b; Jo 1.5).
Portanto, os Apóstolos não tinham que se preocupar com
mapeamentos territoriais e oração de guerra para amarrar Satanás como
preparativos para suas viagens missionárias e antes da obra de evangelização.
Os Apóstolos ocupavam-se somente do cumprimento da missão de fazer discípulos
que haviam recebido da parte daquele que tem toda autoridade no céu e na terra
(Mt 28.18-20).
Nomes carregam
maldição?
Os cristãos não devem se deixar enganar por falsos ensinos
que só fazem é tentar oprimir e manipular o povo de Deus. Nenhuma maldição há
para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). Quem nasceu de novo, não precisa se
preocupar com o significado do seu nome, pois já possui um novo nome lá na
glória (Ap 2.17)! Além disto, observasse na Bíblia a existência de pessoas más
com bons nomes e pessoas boas que tinham nomes de significado negativo, o que
serve para ilustrar que os nomes não carregam consigo fatídicas maldições.
Embora Abias possuísse um nome que significa: "Deus é
pai” (1 Sm 8:3), ele foi um homem corrupto. O mesmo se observa no caso do filho
rebelde e violento de Davi, Absalão, que significa “pai de paz” (2 Sm
3:3; 13-19). Daniel e seus amigos receberam nomes relacionados a deuses pagãos,
mas se mantiveram fiéis ao único e verdadeiro Deus. Apesar de possuir um nome
que significa destruidor, Apolo foi um fiel edificador da Igreja (At 18:24-28),
e, para tanto, não precisou renunciar ao seu nome.
Existem casas mal-assombradas?
Se há casa mal-assombrada isto se deve a incompetência dos
demônios que ali residem, que não conseguiram assombra-la devidamente. Brincadeiras
à parte, vejamos o que Jesus ensinou a este respeito:
“E, quando o espírito
imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o
encontra. Então diz: Voltarei para a
minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada.
Então vai, e leva consigo outros sete espíritos
piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem
piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má”
(Mt 12:43-45)
Aqui, Jesus diz que os demônios não conseguem encontrar
repouso em lugares áridos e desérticos, onde não há pessoas, por isto volta
para tentar habitar na pessoa de onde foi expulso. Isto indica que demônios não
curtem casas desabitadas e lugares abandonados. Existem pessoas endemoniadas ou
assombradas pelo mal, mas não casas e objetos.
Não há notícia de que Jesus ou seus discípulos tenham orado
para expulsar demônios de casas, lugares ou objetos. Paulo ensina que os
cristãos podem até mesmo comer carnes sacrificadas aos ídolos, pois elas não
estão mal-assombradas, desde que isto não implique em escândalo. O problema
para Paulo era a consciência fraca de muitos da sua época que atribuíam a
presença do mal a carne do animal que anteriormente tivesse participado de
algum ritual pagão.
“Comam de tudo o que se vende no mercado, sem fazer
perguntas por causa da consciência, pois “do Senhor é a terra e tudo o que nela
existe”. Se algum descrente o convidar para uma refeição e você quiser ir, coma
de tudo o que lhe for apresentado, sem nada perguntar por causa da consciência.
28 Mas se alguém lhe disser: “Isto foi oferecido em sacrifício”, não coma,
tanto por causa da pessoa que o comentou, como da consciência, isto é, da consciência do outro e não da sua
própria. Pois, por que minha liberdade deve ser julgada pela consciência dos
outros? Se participo da refeição com
ação de graças, por que sou condenado por algo pelo qual dou graças a Deus? Assim,
quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória
de Deus. Não se tornem motivo de
tropeço, nem para judeus, nem para gregos, nem para a igreja de Deus” (1Co
10.25-32).
Os cristãos podem aproveitar a desvalorização imobiliária
das casas pretensamente mal-assombradas para fazerem um bom negócio!
Maldição
Hereditária e Regressão
A pessoa passa por uma longa sabatina, revolvendo toda a sua
vida a procura de aberturas espirituais em seu passado que possam ser uma
maldição para o seu presente. Buscam ser exaustivos e chegam às raias da
paranoia, indagam se o sujeito já foi em benzedeira, se já comeu algum doce de Cosme
e Damião quando era criança, se os seus pais ou avós frequentaram reuniões de
cultos afro brasileiros, se o seu nome possui um significado negativo, se seus
pais ou avós rogaram alguma praga sobre você, e por aí vai... Há encontros em
que se praticam regressões até a vida intrauterina na base de hipnose.
Alguns
acreditam e ensinam que até os cristãos podem estar sujeitos à maldição de seus
ancestrais. Existem livros e seminários que se prestam ao ensino de como
quebrar as cadeias da maldição hereditária. Eles se baseiam principalmente em
Êxodo 20:5 e Deuteronômio 5:9.
Aliás, por
causa de uma má interpretação destes textos, surgiu um ditado que se tornou
muito popular em Israel "Os pais comeram uvas verdes, a os dentes dos
filhos é que se embotaram”. Vemos esta ideia em Lamentações 5:7: 'Nossos pais
pecaram, e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniquidades.”
Bem, Jeremias já havia previsto um dia em que este provérbio não mais seria
proferido: “Naqueles dias já não dirão: Os pais comeram uvas verdes, a os
dentes dos filhos é que se embotaram”. (Jr 31:29). Mas Ezequiel afirma que este
dia já chegou: "Que tendes vós, vós que, acerca de Israel, proferis este
provérbio, dizendo: os pais comeram uvas verdes, a os dentes dos filhos é que
embotaram? Tão certo como Eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este
provérbio em Israel” (Ez 18:2 e 3).
Para uma
compreensão melhor desta passagem é aconselhável a leitura e o estudo de todo
capítulo 18 de Ezequiel. Ambos os profetas eram contra esta perniciosa
doutrina, que descambava em irresponsabilidade a fatalismo, pois é muito
conveniente para alguns desviar a culpa de si mesmos e transferi-la para
gerações anteriores, ou então, culpar o destino a as forças ocultas por nossos
fracassos, pecados, vícios e misérias; chegando a acusar a Deus de injustiça,
como em Ezequiel 18:25: “No entanto dizeis: o caminho do Senhor não é
direito...“.
Em outras
palavras, Ezequiel nos ensina que, em vez de voltarmos nossos olhos para trás
em busca de resposta para os infortúnios do presente, em vez de culparmos
nossos antepassados, ou os demônios, ou o destino, deveríamos olhar para nós
mesmos a pedir a Deus que venha sondar os nossos corações, vendo se há em nós
caminho mal, a fim de nos guiar pelos Seus caminhos. (Sl 139).
O pecado,
sim, é que traz maldição: "... pois aquilo que o homem semear, isso também
ceifará”.(Gl 6:7). "A maldição sem causa não se cumpre” (Pv 26:2);
"Amou a maldição: ela o apanhe; não quis a benção: aparte se dele” (Sl
109:17); "Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição” (Dt
11:26), repare que bênção e maldição estão diante e não atrás das pessoas; tudo
dependendo da nossa atitude para com Deus.
A doutrina que ensina que cristãos podem estar debaixo de
maldições hereditárias é um
contrassenso.
Contra os filhos de Deus não vale encantamentos
A Bíblia ensina exaustivamente que os servos do Senhor não
estão sujeitos à maldição de espécie alguma, muito menos hereditária.
Balaão não pôde amaldiçoar o povo de Israel. Deus não o permitiu! Disse Balaão a Balaque: "Como posso amaldiçoar a quem o Senhor não amaldiçoou?" (Nm 23:8) e "Ele abençoou, não o posso revogar... O Senhor seu Deus está com ele... pois contra Jacó não vale encantamento” (Nm 23:20, 21 a 23). Sabendo, pois, Balaão, que não se amaldiçoa o povo de Deus com feitiços ou rogando pragas, ensinou Balaão a Balaque como se poderia atingir o povo de Israel, ou seja, seduzindo o povo ao pecado, afastando os de Deus, que é a única fonte de bênção, levando o povo ao juízo e condenação: (Ap 2:14; Nm 25:1 18 e 31:8 a 16).
Salmo 109:17 diz: "Amaldiçoem eles, mas Tu, abençoa; sejam confundidos os que contra mim se levantam; alegre se, porém, o teu servo”. E em Neemias 13:2 lemos: "Deus converte a maldição em bênção"; e, além disso, o ímpio não sai impune do seu intento de nos prejudicar: "amaldiçoarei os que to amaldiçoarem" (Gn 12:3). Ver também: Colossenses 2:14 15 a Provérbios 3:26, 33.
O Salmo 91 nos deixa a seguinte promessa: "O Senhor te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa. Sob suas asas estarás seguro... praga nenhuma chegará a tua tenda...” E o Salmo 31:4 diz: "Tirar me ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois Tu és a minha fortaleza" (Ver também: Sl 118:13; Sl 84; Sl 146:5, 7; Sl 147:13; Sl 139:1 16; Sl 133:3; Sl 121:3 8; Sl 46:1, 5, 7; Sl 33:18 22; Sl 32:7; Sl 28; 7 9; Sl 29:11; Sl 27:1 6; Sl 23:6; Sl 21:11; Sl 18:1 3, 27 50; Sl 16:5 8, 11).
CRISTO NOS RESGATOU DA MALDIÇÃO
“Cristo se fez maldição em nosso lugar”. Foi crucificado
como se fosse um maldito para nos resgatar da maldição da lei, para que a
benção chegasse até nós. (Gl. 3:13, 14). "Os da fé” não estão debaixo de
nenhuma maldição, mas "são abençoados com o crente Abraão". (Gl.
3:9).
Paulo afirmou: "Quem está em Cristo, nova criatura é, as coisas velhas já passaram, tudo novo se tornou” (2 Co 5.17). Não precisamos nos preocupar em desenhar nossa árvore genealógica, regredindo até a terceira a quarta geração quebrando as cadeias. Em primeiro lugar, porque pactos e alianças feitos pelos ancestrais não se transmitem automaticamente aos filhos. Favor não confundir consequências dos pecados dos pais com maldição. Pois é óbvio que os pais exercem forte influência sobre os filhos, ou para o bem ou para o mal. Mas isto não é o mesmo que dizer que eles estejam debaixo de uma maldição, de um feitiço, ou sob algum encantamento, que necessariamente precisa ser quebrado para livrá-los de tal destino. Não devemos nos esquivar de nossas responsabilidades pessoais. E também, quando nos convertemos, o sangue precioso de Jesus nos purificou de todo o pecado (1 Jo 1.7).
Não é necessário regredir pare nascer de novo (Jo 3.1-16). Um crente que volta atrás para quebrar cadeias de maldições hereditárias está pondo em dúvida a sua fé e a sua salvação. Está diminuindo o que Cristo fez por ele. Não está crendo que é nova criatura e que as coisas velhas já passaram. Não está descansando no poder de Deus a nem confiando no poder purificador e libertador do sangue de Jesus (Cl 2.14-15; Ap 1.5; Rm 5.9; Ef. 1:7, Hb 9.12, 14; 1 Pe 1.18-19).
Em vez de retrocedermos, devemos fazer como o apóstolo Paulo: “... mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Fp 3.13b)”. O Senhor ainda diz ao seu povo: “Não vos lembreis das coisas passadas e nem considereis as antigas” (Is 43.18). Deus tem um caminho no meio da tormenta (Naum 1.3).
Não duvide do amor de Deus. Nós não estamos largados à
própria sorte e nem somos joguetes nas mãos dos homens ou de espíritos
malignos. Traga a memória o que lhe pode dar esperança (Lm 3.21) e
busque discernir a boa mão de Deus em sua vida, histórico familiar e
hereditariedade, pois foi o próprio Deus quem nos formou com carinho e com bons
propósitos que vão além da nossa compreensão: “Pois tu formaste o meu
interior tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo
assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a
minha alma o sabe muito bem”; (Sl 139.13, 14) e "Pois eu bem sei os planos
que estou projetando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para
vos dar um futuro e uma esperança" (Jr 29.11).
O mundo do Novo Testamento
estava imerso em ocultismo e idolatria. No entanto, em nenhum caso de pessoas
convertidas do ocultismo ou do paganismo houve necessidade da prática de quebra
de maldição como obra complementar de libertação após a conversão, pois a
conversão basta! “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis
livres” (Jo 8:36). Nossa salvação não é em nada pequena, mas, sim, uma “tão
grande salvação” (Hb 2.3).
No caso de Simão, o mago, que anteriormente praticava a
magia para iludir o povo de Samaria (At 8:9) e que mesmo após sua conversão
(v.13) quis comprar o poder do Espírito Santo (v. 18 e 19; daí vem o termo
simonia para designar a compra de cargos eclesiásticos ou de qualquer bem
espiritual). Interessante notar que Pedro não reagiu a oferta de Simão dizendo
que ele carecia de uma cerimônia de quebra de maldição hereditária para se ver
completamente liberto das cadeias de seu passado.
“Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para
perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens
parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus.
Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que porventura te
seja perdoado o pensamento do teu coração; Pois vejo que estás em fel de
amargura, e em laço de iniquidade (At 8:20-23)
Em vez de uma cerimônia de quebra de maldição, a exortação de Pedro inclui um apelo ao arrependimento! O que vale para qualquer espécie de pecador.
Também não vemos nenhuma insinuação sequer a necessidade de quebra de maldição no caso do procônsul Sérgio Paulo, que antes de sua conversão era assessorado por dois bruxos, um mago judeu, chamado Barjesus, e um encantador de nome Elimas (At 13.5-12). O que demonstra que Paulo e Pedro não eram adeptos de tal teologia.
Certamente, o novo convertido precisa de acompanhamento especial através de um discipulado adequado para que possa crescer na graça e no conhecimento do Senhor, mas não se faz necessário quebrar mais nenhuma cadeia de maldição em sua vida, pois não há mais nenhuma maldição e nem condenação para os que estão em Cristo (Rm 8:1). “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31).
Tendo em mente a definição bíblica de maldição: separado de Deus, ouçamos o que o apóstolo Paulo ainda tem a dizer em Romanos 8:33 39: "quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?... quem os condenará?... quem nos separará do amor de Cristo?... Pois eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor".
"Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou pare o Reino do Filho do Seu amor, no qual temos a remissão dos pecados, a redenção" (Cl 1.13, 14, ver também Cl 2.12 15; 3:1 3 10; Ef 1.3,14, 18, 20).
Firme-se na Palavra de Deus e não se deixe levar por todo e qualquer vento de doutrina e não permita ser enganado por aqueles que distorcem as Escrituras com intuito de atraírem discípulos para si. A ignorância e a superstição escravizam, mas a verdade liberta. (Jo 8.32). Só como curiosidade: a última palavra do Antigo Testamento é "maldição"; já o primeiro e mais importante sermão do Senhor Jesus Cristo registrado no Novo Testamento inicia-se com o termo: "BEM AVENTURADO"!
Oração de Guerra
Além do dualismo, do mapeamento geográfico para descobrir
quais são os espíritos territoriais e da quebra de maldições hereditárias ,
temos ainda a estranha prática da “oração de guerra”.
É triste perceber que, em várias igrejas evangélicas,
batalha espiritual deixou de ser a luta cotidiana do cristão por resistir as
tentações, mantendo a fidelidade em busca de santidade e maturidade cristã,
vivendo para a glória de Deus, buscando o Seu Reino em primeiro lugar (Ef
6.10-20), e tornou-se um espetáculo de confronto pessoal e direto contra os
demônios, em que, reuniões de oração deixam de ser os momentos de buscar a Deus
e suplicar a Ele (Ef 6.18,19), para transformarem-se nos momentos de falar mais
com os demônios do que com Deus, onde Satanás acaba até tornando-se o centro
das atenções.
O texto mais clássico da Bíblia sobre Guerra Espiritual
encontrasse em Efésios 6.10-20 e não existe nele nada que justifique tais
práticas. Antes, o ensino do Apóstolo Paulo é de que os crentes vencem a
Satanás revestindo-se de Cristo, colocando sua armadura que é composta de
virtudes tais como: a justiça, a proclamação do Evangelho da Paz, a fé, a
salvação, a Palavra de Deus e a oração. Nada lemos sobre a necessidade de se
conhecer os nomes dos demônios que dominam determinada região geográfica para
podermos travar batalha direta com eles e os expulsar. Não encontramos tal
fascínio pelo adversário ou pelo oculto e místico, nem aqui e nem em outras
partes da Bíblia. Vencemos o adversário de nossas almas nos ocupando com as
coisas excelentes e boas que o Senhor nos proporciona para enfrentarmos os
desafios do dia a dia. Jó, por exemplo, venceu sua grande batalha espiritual
sem dirigir uma só palavra ao diabo que o atormentava. Vamos erguer os nossos
olhos na direção daquele que é o nosso socorro bem presente na hora da
angústia, olhando firmemente para o autor e consumador da nossa fé.
Nada de paranoia e esquizofrenia. Muitos cristãos ficam tão
fissurados com tais conceitos de batalha espiritual que acabam ficando
perturbados, passando a enxergar o diabo em tudo. Se é certo que não devemos
subestimar o inimigo, é certo também que não devemos superestimá-lo, fazendo
dele o centro de nossas atenções. Pelo contrário, Cristo deve ocupar o centro
de nossa vida, o que já é nossa garantia de vitória. Nossos pensamentos devem
estar ocupados com "tudo o que for puro, amável..." (Fp 4.8),
"nossos olhos postos no autor e consumador de nossa fé" (Hb 12.2) e
devemos "buscar as coisas que são do alto" (Cl 3.1-3). "Não
devemos dar lugar ao diabo" (Ef 4.27) e nem devemos dar ocasião ao pecado,
mas, pelo contrário, devemos tomar as seguintes atitudes seguindo o conselho do
Apóstolo Paulo: deixar a mentira; não guardar rancor e ira; não falar palavras
torpes; nada de gritaria, blasfêmias e malícia, etc. (Ef 4.25-31), buscando ser
imitador de Cristo, andando em amor e santidade (Ef 4.32-5.2).
E se o mal ou a praga, como vimos anteriormente, for de
procedência divina como um juízo sobre o pecado (2 Cr 7.13)? Aí não dá para
"amarrar" ou "declarar" nada. Aí o caminho para a
libertação dessa calamidade é a humilhação de um coração verdadeiramente
arrependido que suplica por misericórdia diante de Deus como vemos no versículo
seguinte: "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e
se arrepender dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os
seus pecados e sararei a sua terra" (2 Cr 7.14).
E se a praga possui um fim pedagógico visando nosso
aperfeiçoamento espiritual como no caso do espinho da carne de Paulo? Neste
caso, nem as 3 orações de Paulo foram
suficientes para remover a chaga, pois a resposta de Deus foi: "a minha
graça te basta e o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Co 12.9), de
modo que Paulo passou então a glorificar e dar graças a Deus por aquela
enfermidade, pois conseguia ver o propósito divino e a boa mão do Senhor Todo
Poderoso sobre sua vida, convertendo a fraqueza em vigor (v.10).
Por que é que Deus
permite a existência do mal?
Mas quando falamos da soberania de Deus e de todo o seu
poder, logo surge uma importante questão: "se Deus é todo poderoso e bom,
por que é que permite o mal no mundo? Por que é que Ele não põe fim a toda
espécie de guerra?" Pois, o Todo Poderoso poderia facilmente por fim a
toda injustiça e sofrimento humano. Ele poderia até mesmo ter evitado o
surgimento do mal no Mundo.
Deus, com seu poder, poderia ter criado seres programados
para obedecer à sua vontade; sim, poderia ter escolhido criar seres autômatos,
algo assim como os robôs, que não tem liberdade de escolha. Mas, embora, um
mundo de autômatos pudesse funcionar muito bem, sem guerras, sem injustiças e
sem maldade, no final das contas, seria também um tanto sem graça, pois as
próprias expressões de amor, devoção e serviço não seriam livres e espontâneas,
também teriam de ser programadas, o que resultaria em algo artificial, algo sem
graça e sem significado real. Ninguém, em sã consciência, se sentiria muito
tocado em receber uma declaração de amor de um ser que foi programado para isto
e que não pode dizer outra coisa a não ser aquilo que está na sua programação.
Deus quis que seus filhos fossem livres, mesmo sabendo dos
riscos derivados da liberdade humana. Ninguém pode ser livre apenas para dizer
sim. Alguém que é livre pode também dizer não, pode se rebelar e pode optar
pelo mal.
A história da humanidade revela as consequências do mau uso
da liberdade, como o surgimento do pecado, egoísmo, inveja, ódio, crimes,
doenças, injustiças, guerras, fomes, etc. Um alto preço tem sido pago para que
possamos ter no mundo relacionamentos verdadeiramente significativos.
Neste mundo temos muitas opções, somos livres para escolher,
portanto, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto
é cheio de significado. Este relacionamento entre Deus e o homem é cheio de
afeto. É algo tremendo!
O mesmo se pode dizer do relacionamento de amor e amizade entre
os seres humanos. Alguém, certa vez disse: "Amo a liberdade, por isso
deixo livres todas as coisas que tenho. Se elas permanecerem comigo será porque
as conquistei, se partirem será porque, de fato, nunca as possuí".
Mesmo tendo criado seres livres, Deus poderia ter se imposto
aos homens pela força do seu poder. Mas não quis que fosse assim. Ele disse:
“Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR”
(Zacarias 4.6). Deus, como Pai, não quis se impor pela força, mas decidiu cativar
pelo amor! Manifestou-se ao mundo na pessoa de Jesus, que sendo o próprio Deus,
esvaziou-se de sua glória para identificar-se com nossa fraqueza, revelou-se
como servo sofredor, que carrega a sua cruz e dá a vida pelos seus amados.
Quando se apresentou como Rei em sua entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos,
não entrou montado num cavalo portentoso e cheio de pompa e nem estava
acompanhado de um forte e ameaçador exército, mas escolheu entrar de maneira
humilde e mansa montado num jumentinho. O próprio estilo de liderança foi
marcado pela cruz, pelo burrinho, pela água e a toalha, com que lavou os pés
dos discípulos. Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a condição de servo. Não
foi dominador e nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Não constrangeu
os seguidores pela força, pois seus seguidores sempre foram livres para
escolher e até mesmo desistir. Não quis se impor pela força, antes escolheu o
caminho da graça e do amor. Na cruz, Deus revelou seu grande amor ao mundo e
atraiu muitos a si.
O Temor do Senhor
Devemos temer somente a Deus, sabendo que "dura coisa é
cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10.31). Os próprios crentes estão perdendo
o devido temor a Deus. Tratam a Bíblia como um livro qualquer e vão à igreja
como quem vai a uma reunião qualquer, sem expectativa de que Deus irá falar com
eles e sem estarem prontos para obedecerem a voz do Espírito de Cristo. Não
estão verdadeiramente conscientes de estarem na presença do Deus Vivo, daquele
que é o único Senhor do Universo e que, por esta razão, detém em suas mãos todo
o poder nos céus e na terra (Mt 28.18).
É interessante notar que há poucas referências ao diabo no
Antigo Testamento. Era de se esperar muitas menções a ele no livro de
Lamentações, por exemplo, pois o livro foi escrito após a calamitosa destruição
do templo e da cidade de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor em 586 a.C.
No entanto, Jeremias não atribui ao diabo nenhuma destas atrocidades, mas, pelo
contrário, ele deixa claro que elas vieram como juízo de Deus sobre o pecado do
povo. Observe o capítulo 3, onde lemos:
"Eu sou alguém que provou a miséria sob a vara da
sua ira... Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Que se assente
ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobre ele. Ponha a sua boca
no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a sua face ao que o fere; farte-se de
afronta. Pois o Senhor não rejeitará para sempre. Embora entristeça a alguém,
contudo terá compaixão segundo a grandeza da sua misericórdia. Porque não
aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens... Quem é aquele que
manda, e assim acontece, sem que o Senhor o tenha ordenado? Não sai da boca do
Altíssimo tanto o mal como o bem? Por que se queixaria o homem vivente, o varão
por causa do castigo dos seus pecados? Esquadrinhemos os nossos caminhos,
provemo-los, e voltemos para o Senhor" (Lm 3.1, 26-33, 37-40).
Ainda neste sentido, é curioso também notar dois registros
paralelos do mesmo fato, um em 2 Samuel 24 e o outro em 1 Crônicas 21. Na
primeira descrição, lemos que foi Deus quem incitou Davi a levantar o censo. Na
segunda, lemos que foi Satanás. Lembrando que Crônicas foi escrito bem depois
do livro de Samuel, o que pode ajudar a explicar o porquê da mudança, pois,
entre os hebreus, o conceito de Satanás foi sendo formado com o tempo através
de uma revelação progressiva, sendo que, a princípio, o que bastava para eles
era saber que Deus era soberano.
Jó também diz que Deus é quem dá e quem tira (1.21), quem dá
o bem e também o mal (2.10), e o v. 11 diz que "em tudo isto Jó não
ofendeu a Deus com palavras". Em Lm 3, como vimos acima Jeremias afirma o
mesmo. E, em 2 Crônicas 7.13, é o próprio Deus quem diz: "Quando eu fechar
o céu de modo que não haja chuva, ou quando eu ordenar aos gafanhotos que
consumam a terra, ou quando eu mandar a peste contra o meu povo". Veja que
aqui quem manda a praga é Deus. Aí não dá para "amarrar" ou
"declarar" nada. Pois o caminho para a libertação dessa calamidade é
a humilhação de um coração verdadeiramente arrependido que suplica por
misericórdia diante de Deus, como vemos no versículo seguinte: "Se o meu
povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e se arrepender dos seus
maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei
a sua terra" (2 Cr 7.14).
A Bíblia está repleta de registros dos juízos de Deus sobre
a terra, povos, famílias, indivíduos e até mesmo sobre os crentes, pois o juízo
começa pela casa de Deus (1 Pe 4.17). Tais juízos incluem pragas, enfermidades,
destruição e morte. E realmente, não dá para anular tais coisas com frases do
tipo "tá amarrado" ou "eu rejeito", mas é somente através
do arrependimento e da contrição de coração num retorno para Deus que o homem
encontra misericórdia e livramento (2 Cr 7.14).
A Batalha
Espiritual também é coletiva
O próprio texto de 2 Crônicas 7.14 indica que a batalha
espiritual é coletiva e não apenas individual: "Se o meu povo...". O
que não significa dizer que não tenha nada a ver com o indivíduo, mas que Deus
está tratando com o povo e não apenas com indivíduos.
Vivemos numa sociedade muito individualista que tende a se
esquecer de que estamos enraizados na sociedade e de que possuímos uma
identidade grupal, que nos coloca numa relação de interdependência. Daniel orou
pedindo perdão pelo pecado de seu povo, solidarizando-se com sua nação:
"enquanto estava eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e
o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do
Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus" (Dn 9:20).
Quando algo de ruim nos acontece, devemos esquadrinhar os
nossos caminhos de modo não apenas pessoal, mas também coletivo (Lm 3.40). O
mal pode ser consequência natural dos erros humanos, tanto individual como
coletivo, pois não estamos sós no mundo, pertencemos a raça humana, estamos
ligados uns aos outros por distintos laços e temos responsabilidades sociais,
de modo que nossas ações, quer sejam boas ou más têm alcance e repercussão que
vão muito além de nós mesmos.
Como seres humanos partilhamos de muitas coisas em comum,
como exemplo, envelhecemos, ficamos doentes e morremos em consequências do
pecado de Adão e Eva, sofremos as consequências de guerra, da poluição, das
injustiças sociais, da violência, etc. Caim mata o Abel e tenta se esquivar da
pergunta de Deus: "Onde está o teu irmão?", respondendo: "sou eu
o guardião de meu irmão?". Conclui-se do texto que Deus nos colocou como
guardiões ou responsáveis uns pelos outros. Acã peca e Israel perde a batalha,
pois a ira do Senhor se acendeu contra todo o Israel (Js 7.1) e Deus diz:
"Israel pecou" (Js 7.11) e "... por isso os filhos de Israel não
puderam subsistir diante de seus inimigos" (v. 12).
Saul peca e não
somente ele é afetado, mas todo o Israel, como também toda sua família, pois
seu filho Jônatas morre, seu neto Mefibosete fica aleijado e pobre (2 Sm 4),
mas pela virtude de Jônatas e sua amizade com Davi, Mefibosete acaba sendo
grandemente abençoado (2 Sm 9). Não batalhamos sozinhos, mas uns pelos outros:
"Pois quero que saibais quão grande luta tenho por vós, e pelos que estão
em Laodicéia, e por quantos não viram a minha pessoa" (Cl 2.1, ver também
o v. 24) e "Saúda-vos Epafras, que é um de vós, servo de Cristo Jesus, e
que sempre luta por vós nas suas orações, para que permaneçais perfeitos e
plenamente seguros em toda a vontade de Deus" (Cl 4.12). Jesus também
santificava-se para o bem dos discípulos: "E por eles eu me santifico,
para que também eles sejam santificados na verdade" (Jo 17.19).
A complexidade da
Batalha Espiritual e do sofrimento humano
Então, precisamos entender melhor a complexidade da causas
que podem estar por trás de uma adversidade, pois a questão não se resume a
lógica simplista que diz: "Se é bom, vem de Deus; se é ruim, vem do
diabo". Porque nem toda coisa boa é fruto da "sorte" ou do esforço
pessoal e nem tão pouco toda coisa ruim é oriunda da falta de esforço pessoal,
das escolhas erradas ou do "azar". Não quero dizer que não exista o
elemento de causa ou efeito (Gl 6.7), mas apenas que isto não explica tudo.
Pior ainda quando se pensa em causa e efeito apenas em termos individuais.
O sofrimento não pode ser interpretado apenas como um
colheita do que se plantou, pois tem raízes muito mais profundas que chegam até
Adão. O sofrimento pode ser um juízo de Deus sobre o pecado humano, pode ser
algo pedagógico, "porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como
o pai ao filho a quem quer bem" (Pv 3.12) e pode vir sobre nós para provar
a integridade de nosso amor a Deus como no caso de Jó. Até mesmo quando algum
mal não parece ser uma consequência natural de algum pecado específico que
tenhamos cometido, precisamos reconhecer que, como pecadores que somos, já
cometemos pecados que seriam suficientes para nossa condenação, razão pela qual
já estamos no lucro pelo simples fato de ainda estarmos vivos, pois é pela
misericórdia do Senhor que ainda não fomos consumidos (Lm 3.22).
Até quando sofremos em decorrência do erro dos outros e
também quando somos perseguidos por fazer o bem, devemos entender que Deus está
usando aquele drama para exercitar nossos espíritos. "Recebemos a graça de
não apenas crermos, mas também de padecermos por Cristo" (Fl 1.29).
"Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm
8.28). "Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores por intermédio
daquele que nos amou" (Rm 8.37).
Deus se vale do mal para nos enriquecer e aperfeiçoar. Posso
até encarar meus adversários e adversidades como instrumentos de Deus para a
minha santificação! O espinho da carne de Paulo era obra de um mensageiro de
Satanás que, consciente ou não, estava promovendo a humildade e a santidade de
Paulo, servindo, assim, aos propósitos divinos (2Co 12.7). Neste caso, nem as 3
orações de Paulo foram suficientes para remover a chaga, pois a resposta de
Deus foi: "a minha graça te basta e o meu poder se aperfeiçoa na
fraqueza", de modo que Paulo passou então a glorificar e dar graças a Deus
por toda aquela adversidade, pois conseguia ver o propósito divino e o cuidado
de Deus por sua alma. (2Co 12.9).
Nossas armas
Deus nos concede armas especiais para batalhamos contra o
diabo (1 Pe 5.8; Ef 6.12), contra as influências negativas do mundo (1 Jo
2.15-17) e contra as paixões desordenadas de nossa própria carne (Cl 3.5; Tg
1.14 e 2 Pe 2.18). "As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo
contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas" (2 Co 10:4).
Nesta guerra contra o mal, somos protegidos e assistidos
pelo Senhor. Dele vem a nossa força e vitória! “Ó SENHOR, meu Deus e meu
Salvador, tu me protegeste na batalha” (Sl 140.7). "O Senhor me livrará de
toda obra maligna e me levará a salvo para o seu Reino celestial. A ele seja a
glória para todo o sempre. Amém" (2 Tm 4.18). “Graças a Deus, que nos dá a
vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 15.57). "Portanto,
submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês" (Tg 4.7).
Para decepção daqueles que são místicos e esotéricos, Paulo
descreve a armadura de Deus em termos bem práticos de vida cristã que tem tudo
a ver com nossa comunhão com Deus através da fé, da Palavra da Verdade, da
oração, da salvação, da prática da justiça e da pregação do Evangelho:
"Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte
poder. Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as
ciladas do diabo, pois a nossa luta não é contra pessoas, mas contra os poderes
e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças
espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam toda a armadura de
Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de
terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da
verdade, vestindo a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão
do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão
apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a
espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem no Espírito em todas as
ocasiões, com toda oração e súplica; tendo isso em mente, estejam atentos e
perseverem na oração por todos os santos. (Ef 6.10-18).
Portanto, "combate, firmado nelas, o bom combate,
mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa
consciência, vieram a naufragar na fé” (1 Tm 1.18,19).
A Batalha
Espiritual em favor do Reino de Deus
Jesus veio trazer o Reino Deus à terra para por fim ao
império das trevas. Jesus veio ao Mundo para desfazer as obras do diabo (1 Jo
3.8). Jesus deixou claro que sua tarefa messiânica incluía mais do que
evangelização, por envolver também a libertação dos cativos e oprimidos, com
restauração da saúde e da justiça: "O Espírito do Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar
libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade
os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor" (Lc 4.18-19).
O Reino de Deus já foi inaugurado e está em conflito contra
o mal. A expulsão de demônios era um sinal da chegada do Reino. Apocalipse 20
conta que o Dragão, Satanás, foi preso em correntes e lançado no abismo com o
propósito de não mais enganar as nações. Jesus mesmo já havia dito que o ato de
expulsar demônios pelo Espírito de Deus era um sinal claro de que já era
chegado o Reino dos Céus, pois o "valente", uma clara referência a
Satanás, havia sido primeiramente amarrado, no sentido de não poder mais
impedir que sua casa fosse saqueada (Mt 12.22-29). É interessante notar que o
mesmo termo utilizado em Mateus 12 para descrever o aprisionamento do homem
valente é utilizado também em Apocalipse 20 para descrever o aprisionamento de
Satanás, o termo grego dhshi. Este aprisionamento de Satanás deve ser entendido
em termos da restrição de seu poder, no sentido de não poder continuar
enganando as nações como vinha fazendo até a primeira vinda de Cristo (Ap
20.3). Agora, uma vez amarrado, não pode impedir o avançar de Cristo e de sua
Igreja (Mt 16.18; 24.14; 28.18s; Mc 13.10, At 1.8).
Não se pode negar que o Reino de Deus já foi inaugurado.
Paulo diz que "é necessário que ele reine até que haja posto todos os
inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo a ser destruído é a
morte" (1Co 15.25-26). Neste texto, Paulo fala do Reino de Deus em termos
da presente era, ao afirmar que é necessário que Jesus reine pondo de maneira
gradativa um a um os inimigos debaixo de seus pés, e, falando ainda que o
último inimigo a ser destruído será a morte, sendo que, neste mesmo capítulo,
mais adiante, ele ensina que a morte será tragada pela vitória da ressurreição
que se dará por ocasião da Segunda Vinda de Cristo. Sendo assim, a Segunda
Vinda marcaria o fim e não o começo desta etapa do Reino de Deus em que Jesus
reina até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés, pois será
somente aí, na Sua Segunda Vinda, que se dará a destruição da morte que será o
último inimigo a ser posto debaixo dos seus pés. Não há como escapar desta
conclusão sem ferir o claro e real significado deste texto. E Paulo, ainda,
afirma claramente que os cristãos já estão no reino de Jesus, dizendo:
"Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do
Filho do seu amor" (Cl 1.13). E não podemos esquecer que a mais básica e
primitiva de todas as confissões cristãs é "Jesus é o Senhor". Tal
afirmação possui muitas implicações pessoais, sociais, políticas e ecológicas.
Tantos foram os cristãos que morreram por causa desta aparente
"simples" confissão, que significa mais do que dizer que Jesus é o
Senhor da minha vida, pois Jesus é o Senhor de todo os reinos do Mundo. Não
existe um único grão de areia deste planeta que não esteja debaixo de seu
senhorio, por esta razão Jesus é aclamado como sendo "O Rei dos reis e O
Senhor dos senhores".
Temos também razões para crer que a Igreja será bem sucedida
no cumprimento de sua missão, primeiro por que o Senhor Jesus ao comissionar
seus discípulos fez questão de dizer que todo poder lhe havia sido dado tanto
no céu como na terra e garantiu que sempre estaria com eles (Mt 28.18,20),
disse também que eles receberiam o poder do Espírito para serem testemunhas do
Rei em todas as partes do Mundo (At 1.8), e garantiu que as portas do inferno
não prevaleceriam contra a Igreja e que certamente o Evangelho seria pregado
para testemunho a todas as nações antes do fim (Mt 16.18 e 24.14). A Bíblia
também diz que "a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor,
como as águas cobrem o mar" (Hc 2:14), o que o retrato de uma visão
poderosa do futuro do Reino de Deus que deve inspirar e mover a Igreja ao
cumprimento de sua missão. Jesus também cuidou de amarrar o valente e concedeu
poder aos discípulos sobre os demônios e sobre todo o poder do inimigo (Mt
12.28 e Lc 10.18,19). Paulo disse que os cristãos que vivem neste mundo já
estão assentados juntamente com Cristo nas regiões celestiais acima de todo
principado e potestade e abençoados com toda sorte de bênçãos e graças
espirituais (Ef 1.3, 20-23 e 2.6). Além disto, muitas parábolas do Reino
mostram que o Reino crescerá aqui na Terra assim como o trigo, como o grão de
mostarda e como o fermento que levada toda a massa (Mt 13).
O Reino de Deus foi inaugurado na Primeira Vinda. A batalha
decisiva já foi ganha, mas a luta continua até a Segunda Vinda. Enquanto isto,
o Reino de Deus na era presente é caracterizado pela tensão entre o já e o
ainda não. O cristão caminha a sombra da cruz e a luz da ressurreição. A
entrada triunfal de Jesus em sua primeira vinda foi montado num jumentinho (Mc
11.7) e seu estilo de liderança foi pautado em atitudes humildes de serviço,
exemplificado no ato de lavar os pés dos discípulos (Jo 13.5) e quando ensinou
aos seus discípulos que o maior no Reino dos Céus é aquele que é humilde,
aquele se coloca como o menor, numa condição de servo de todos, numa radical
inversão de valores (Mc 10.44, Mt 18.4). Jesus triunfou na cruz (Cl 2.15). A
cruz deve ser também uma característica marcante de seus seguidores (Lc 9.23).
O Poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.9). O tesouro foi posto em vasos de
barro (2 Co 4.7).
O Reino de Deus será plenamente manifesto na Segunda Vinda –
Dia do Senhor, quando teremos a Batalha Final. Diferentemente da Primeira
Vinda, Cristo regressará com grande poder e glória, vindo sobre um Cavalo, não
mais sobre um jumentinho (Mc 11.7), e destruirá o inimigo com o sopro de sua
boca (2 Ts 2.8).
O crente já vive tanto na era presente como na era futura,
pois já está em Cristo e é um com ele. Paulo declara que os crentes em Cristo,
que vivem neste mundo, já foram ressuscitados e estão assentados com Cristo nas
regiões celestiais, onde está o trono de Deus: "e, juntamente com ele, nos
ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus"
(Ef 2.6). Paulo diz que isto já aconteceu. Não é futuro, é uma realidade
presente. Jesus diz coisas aos seus discípulos que mostram em que sentido os
cristãos estariam reinando aqui na terra: "Em verdade vos digo que tudo o
que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na
terra terá sido desligado nos céus" (Mt 18.18). "Eis aí vos dei
autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do
inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano" (Lc 10.19).
Jesus antes de subir aos céus proclamou que todo o poder lhe
havia sido dado tanto no céu como na terra e nos deixou a missão de fazer
discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20). A Igreja é o corpo de Cristo e
reina com ele, vivendo a serviço do Rei. Mas é preciso que se reconheça a
natureza deste Reino de Cristo, pois se de um lado sabemos que Jesus já é o
Senhor e que o seu reinado já foi inaugurado, por outro, ainda não vemos todas
as coisas debaixo dos pés de Cristo, conforme diz o autor de Hebreus:
"todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés.
Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio.
Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas" (Hb 2.8; cf.
Hb 10.13).
É preciso observar que, na parábola do Joio e do Trigo (Mt
13), que é uma das parábolas do Reino de Deus, paralelamente ao crescimento do
trigo, observasse também o crescimento do joio. Portanto, realismo bíblico
ajuda a evitar os extremos perigosos do ufanismo de uns e da acomodação de
outros que postergam a inauguração do Reino para depois da Segunda Vinda de
Cristo.
Escatologia,
Espírito Santo e a Missão da Igreja
Existe um relacionamento estreito entre Escatologia,
Espírito Santo e a Missão da Igreja. Sabemos que a promessa do Espírito é dom
escatológico por excelência (At 2.16-21; cf. Jl 2.28-32), sendo também amostra
do futuro de Deus (Rm 8.19-23), sendo, mais do que adiantamento, parte do
cumprimento.
Sabemos ainda que quando os discípulos fazem uma pergunta
escatológica (At 1.6) a resposta de Cristo inclui o dom do Espírito Santo
equipando para a obra de evangelização mundial (At 1.8). Pedro ensina que há um
propósito para o que encaramos como "demora" do retorno de Cristo,
que é a longanimidade de Deus e seu desejo que nenhum ser humano pereça (2 Pe
3.9); Pedro ensina que podemos fazer algo para "apressar" a Segunda
Vinda de Cristo (2 Pe 3.12), que depende, em algum sentido, das conversões (At
3.19-21). Jesus disse: "Mas é necessário que primeiro o evangelho seja
pregado a todas as nações" (Mc 13.10; cf. Mt 24.14). O livro do Apocalipse
mostra que isto se dará ao descrever a multidão incontável de mártires cristãos
procedentes de todas as tribos, povos, línguas e raças (Ap 7.9). O que concorda
com a profecia de Jesus que fala que "muitos virão do Oriente e do
Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos
céus" (Mt 8.11, comparar com Ef 1.10).
Conforme o ensino do apóstolo Pedro, a Segunda Vinda de
Cristo depende da realização dos propósitos de Deus, que, por sua vez, estão
vinculados à missão do Espírito e da Igreja. É desta forma que podemos entender
o que o apóstolo quer dizer com esta incumbência dada aos cristãos de
"apressar" a vinda do Senhor (2 Pe 3.12). De modo que o período antes
do fim não é um tempo de espera infrutífera, mas é época da missão do Espírito
e da Missão da Igreja. Eis aí o grande campo de Batalha da Igreja!
Conclusão
Uma compreensão adequada e bíblica da natureza e do
propósito das batalhas espirituais tanto na sua dimensão pessoal quanto social,
nos ajuda a evitar os erros comuns derivados de uma cosmovisão dualista e
supersticiosa que superestima o poder do mal, gerando medo paranoico e também
uma série de práticas estranhas às Escrituras Sagradas. Pior ainda é que tais práticas ofendem e
diminuem a eficácia do Evangelho de Cristo, prometendo realizar aquilo que,
segundo eles, o novo nascimento em Cristo não teria sido capaz de oferecer. No
entanto, Jesus declarou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente
sereis livres” ( Jo 8:36).
Não devemos ignorar as artimanhas do diabo que anda em
derredor procurando uma brecha para atacar. Nesta batalha espiritual, devemos
ser cuidadosos em buscar a plenitude do Espírito, revestindo-nos de toda
armadura de Deus, a fim de que possamos resistir ao diabo, e, mais que isto,
possamos também atacar com ousadia as fortalezas do inferno para saquear a casa
do valente, desfazendo as obras do diabo, resgatando vidas, combatendo o bom
combate da fé com muito amor e dedicação a Deus em nossa missão de difundir
Evangelho do Reino de Deus, fazendo discípulos de todas as nações, por palavras
e obras, como sal da terra e luz do mundo até que a plenitude venha no dia
glorioso do Retorno do Rei.
Bibliografia
Gondim,
Ricardo. O Evangelho da Nova Era Abba Press São Paulo SP 1993
Artigo especial da revista "Vos Scripturae 3:2
(setembro de 1993) pág. 131 a 150. Artigo de Alan B. Pierrat, intitulado:” O
Segredo da Espiritualidade da Prosperidade."
Sousa, Ricardo Barbosa de. Texto: “A GUERRA ESPIRITUAL, A PALAVRA DE DEUS
E O DILEMA DE JÓ”
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