quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Qual é a forma correta de Batismo?

Aspersão ou Imersão?


Por Bispo José Ildo Swartele de Mello


Existe muita controvérsia em relação a forma de batismo. Muitos apregoam que o batismo só é válido se for feito por imersão, questionando, assim, o valor do batismo daqueles que foram batizados por aspersão ou afusão. Fazem um verdadeiro cavalo de batalha sobre uma questão secundária, pois se o método fosse fundamental, certamente, haveria prescrições claras nas Escrituras a este respeito. No entanto, nem Jesus e nem os seus Apóstolos escreveram uma linha sequer ensinando que o batismo deve ser feito desta ou daquela forma. E não é plausível a alegação de que a ausência de prescrição imersionista se deu por falta de necessidade, numa tentativa de nos fazer crer que na época não se ventilava sequer a hipótese de que o batismo fosse feito por aspersão ou afusão. Pois, os rituais de purificação e os batismos judaicos eram todos realizados por aspersão, além disto, é bem sabido que a prática do batismo cristão por afusão ou aspersão era algo bem comum já no primeiro século da Igreja.


A Didaqué, conhecida também como Doutrina dos Apóstolos, e que foi escrita no final do primeiro século da era cristã, quer dizer, logo depois do apóstolo João ter escrito o seu Evangelho, sim, este que, depois das Escrituras, é o mais antigo documento cristão, já ensinava ser legítimo o uso das distintas formas de batismo: "Quanto ao batismo, procedam assim: depois de ditas todas essas coisas [isto é, de instruídos os catecúmenos na doutrina cristã], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se não se tem água corrente, batize em qualquer outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente. Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça [do neófito], em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo".(Didaque,VII -- Tradução, introdução e notas: Pe. Ivo Storniolo-Euclides Martins Balancin, Ed. Paulus, São Paulo, 1989, p. 19).


É obvio que os primeiros cristãos tiveram de lidar com circunstâncias em que o batismo por imersão seria inadequado ou, até mesmo, impossível. Pois, dependendo da gravidade da enfermidade de um candidato ao batismo, torna-se impraticável o método imersionista. Tal método também seria inconveniente em muitas outras ocasiões, como, por exemplo, quando o Apóstolo Paulo e outros mártires tiveram que batizar outros presos e, até mesmo, alguns guardas que se converteram durante o período de seus ministérios em que estavam aprisionados. Como praticar o batismo por imersão em lugares inóspitos como as regiões de deserto, onde a água é produto raríssimo?


O próprio livro dos Atos dos Apóstolos registra alguns episódios onde o batismo por imersão seria inviável. Por exemplo, como batizar por imersão uma multidão de três mil pessoas que se converteu na cidade de Jerusalém, onde não havia rio? Observar também que em Atos 2 não há nenhuma menção de ter havido uma movimentação daquela enorme multidão numa longa jornada até um rio distante fora da cidade para a realização do batismo. Outro exemplo notório é o do batismo do carcereiro de Filipos, registrado em Atos 16, que foi batizado de madrugada. Até o pastor batista, Tácito da Gama Leite Filho, em seu livro “Seitas Proféticas”, na página 108, reconhece o fato, escrevendo que: “O carcereiro de Filipos e seus familiares certamente não foram batizados num rio, pois era de madrugada e as portas da cidade estavam fechadas”.


Outro ponto a ser levado em consideração é que batismos para purificação eram uma prática milenar entre os judeus. O método da aspersão de água para purificação de pecados era o usado no Antigo Testamento. Tanto que há mais de duzentas menções a ele na Bíblia. O autor de Hebreus claramente ensina que o método da aspersão usado por Moisés para a purificação do povo hebreu era um tipo ou cópia da purificação perfeita que hoje encontramos em Cristo (Hb 9.19-28). Se as purificações se davam por aspersão no contexto do nascimento da igreja, é bem plausível que os Apóstolos tenham seguido o modelo do Antigo Testamento, que eram as Escrituras Sagradas deles, para a prática do batismo cristão, ainda mais tendo de lidar com circunstâncias onde a imersão era impraticável. O mesmo podemos dizer com referência a João Batista, que, conforme Jesus, era o Elias prometido em Malaquias 4.5, cuja missão era a de preparar o caminho do Messias, promovendo a purificação dos levitas (Ml3.1-3). Para a purificação dos levitas, João Batista, que era um profeta judeu cumpridor da lei, deveria obedecer o que o Senhor havia prescrito a Moisés: “Separe os levitas do meio dos israelitas e purifique-os. A purificação deles será assim: você aspergirá a água da purificação sobre eles...” (Nm 8.6-7). Se a imersão é a única forma correta correta de batismo, por que, então, as figuras cristãs mais antigas do mundo, retratam o batismo de Jesus como tendo sido feito por aspersão ou afusão?


Visto que o batismo é o ritual de iniciação cristã que aponta para o lavar regenerador e purificador do Espírito Santo que Deus derramou sobre nós abundantemente por meio de Jesus, nosso Salvador (Tito 3.5-6), e cientes de que o batismo de Cristo é com o Espírito Santo e com fogo, então, precisamos reconhecer que o método de batismo por aspersão ou afusão seria o que melhor expressa o batismo com o Espírito Santo, que é constantemente descrito como sendo derramado: “derramarei do meu Espírito sobre toda carne” (Joel), “o Espírito Santo veio sobre vós” (At 1:5), e “até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto” (Is 32:15).


De acordo com o texto original grego, o batismo é sempre “com” o Espírito Santo e nunca “no” Espírito, o que também sugere o ato de derramar. Por exemplo, em Lucas 3:16, João está dizendo: “eu na verdade batizo com água... mas ele vos batizará com o Espírito Santo”; se os mesmos termos são usados para descrever os dois tipos de batismos, “batizo com” e “batizará com”, por que com o Espírito teria o sentido de derramamento, enquanto com água deveria ser interpretado como imersão? E se o termo batismo apenas significasse imersão como poderia estar sendo utilizado como uma referência ao derramar do Espírito?


Em Ezequiel 36.25-27, Deus promete aspergir água pura para purificar seu povo, promete também dar a eles um novo coração e também promete conceder-lhes o Seu Espírito. Sabemos que tudo isto se cumpre através de Cristo a partir do dia de Pentecostes. Temos aí uma clara referência ao Batismo Cristão que é operado pelo derramar do Espírito Santo. Sendo assim, o batismo está sendo prefigurado pelo ato do próprio Deus que está aspergindo água pura visando promover purificação e nova vida. O mesmo podemos ver em Isaías 44:1-6, onde a promessa do derramamento do Espírito está atrelada ao promessa do derramamento de água!


O “Léxico do Novo Testamento Grego/Português”, páginas 40 e 41 define “baptizo” como mergulhar, imergir, lavagens rituais judaicas, lavar as mãos, ablução, lavagem cerimonial, molhar, embeber, salpicar, o que combina com aspersão. Em Marcos 7.4, o termo grego, ‘batismo’, significa lavar, e esta lavagem ritual judaica era sempre feita através do derramamento de água sobre os utensílios (Nm 8. 5-7) ou sobre as pessoas (Ez 36.25). Em Hebreus 9.10, o termo grego ‘batismos’ é traduzido por abluções que também se davam por aspersão (Ex 29.21).


Berkhof, na pg. 630, diz que: “é mais que evidente que as palavras bapto e baptizo, tinham outros significados, como os de (lavar), (banhar-se) e (purificar mediante livramento).” Sendo que a ideia de purificação acabou sendo a predominante. E a aspersão era a forma ritual de purificação no contexto judaico (Nm 8:7, 19:13, 18-20; Sl 51:4, Ez 36:25). Além disto, não existe um único texto no Novo Testamento que descreva o batismo sendo realizado por imersão.


Apenas para ressaltar que o termo batismo era também usado no sentido de aspersão mesmo antes do período do Novo Testamente, menciono a tradução grega de Eclesiástico 34:30, datada de 132 A.C., que utiliza a palavra baptizo para referir-se ao ato de aspergir água para purificação de quem tivera tocado em cadáver (Cf. Nm 19).


Certa vez, ouvi alguém argumentando que o Apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 10.2, estaria fazendo menção ao batismo por imersão quando afirma que os antepassados judeus haviam sido batizados na nuvem e no mar. No entanto, tal texto, em vez de colaborar com o ponto de vista imersionista, serve, de fato, como um forte argumento em favor do batismo por aspersão ou afusão. Pois sabemos que os hebreus da época de Moisés não foram mergulhados na nuvem, pelo contrário, o versículo um, claramente afirma que eles estavam sob a nuvem, de modo que as águas da nuvem eram derramadas sobre eles. E também sabemos que o povo hebreu jamais foi mergulhado no Mar Vermelho. Na verdade, eles atravessaram o mar com os pés enxutos, apenas o exército egípcio que os perseguia é que foi submerso! No máximo, o povo hebreu recebeu os respingos que eram aspergidos pelos dois paredões de água que se fizeram quando o mar se abriu. Portanto, tais metáforas melhor se harmonizam com a ideia de aspersão e afusão.


O Apóstolo Pedro apresenta a arca de Noé como uma metáfora para o batismo cristão, dizendo que as 8 pessoas ali foram salvas por meio da água, e conclui dizendo: “isto é representado pelo batismo que agora também salva vocês” (1 Pe 3.20,21). Como sabemos que a arca não foi imersa nas águas do dilúvio, temos aí, mais uma metáfora que favorece o batismo por aspersão ou afusão, pois eles foram salvas através das águas que foram derramadas sobre eles. Tanto no episódio do Mar Vermelho como também aqui, somente os ímpios é que foram imersos como punição.


De maneira semelhante aos rituais de expiação do Antigo Testamento, o sangue do Cordeiro de Deus que foi derramado em nosso favor (Lc 22:20), é, figuradamente, aplicado a nós através do método da aspersão: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas” (I Pe 1:2). Esta é uma alusão ao batismo porque diz respeito a aplicação dos méritos do sangue de Cristo para a justificação e santificação do convertido. A associação entre água e sangue se vê claramente em 1 Jo 5.6, onde se lê: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo: não somente por água, mas por água e sangue”. “Sendo assim, aproxime-mo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada, e tendo os nossos corpos lavados com água pura” (Hb 10.22).


Portanto, não é errado batizar por aspersão ou efusão. Como também não vejo que haja erro no batismo por imersão. Não é a quantidade de água e nem a forma de sua aplicação que torna o batismo mais ou menos eficaz. Algumas considerações bíblicas podem levar alguns a preferirem a aspersão ou a afusão no lugar da imersão, por serem os que melhor expressam o derramamento do Espírito e também por se assemelharem aos rituais de purificação e aos batismos que eram praticados pelos judeus em obediência a Lei de Moisés. Outros, devido a tradição e também à algumas passagens bíblicas como Romanos 6, podem preferir o batismo por imersão. Independentemente de nossa preferência, o mais importante é reconhecer que existem bons argumentos bíblicos e históricos para o uso de todas as formas batismais. O que não podemos fazer, de maneira alguma, é discriminar as pessoas por causa da forma de seu batismo, conclamando-as ao rebatismo numa atitude de desprezo ao seu batismo, pois isto promove confusão e divisão no corpo de Cristo, além de não ser justificável à luz das Escrituras Sagradas conforme demonstrado neste breve estudo.


Para finalizar, gostaria de levantar a seguinte questão: Por que aqueles que são tão rigorosos quanto ao que eles supõem ser a forma correta de batismo não usam do mesmo rigor quanto a forma da celebração da Ceia do Senhor, fazendo uso de suco de uva no lugar do vinho e de pão fermentado no lugar do pão ázimo? Tal incongruência é simplesmente injustificável!

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